O profeta do absurdo

14/09/2014 15:28:48 por Eugênio Nascimento em Coluna Clóvis Barbosa

Clóvis Barbosa - Blogueiro e conselheiro do Tribunal de Contas de Sergipe


Volto a Albert Camus, romancista, dramaturgo e filósofo. Nasceu na Argélia em 1913, mas, aos 27 anos, em plena eclosão da Segunda Guerra Mundial, irresignado com o processo de perseguição imposto pelo governo francês a então colônia argelina, foi morar em Paris e depois em Lyon. Com a França totalmente tomada pela Alemanha, retornou à Argélia. Mas, logo depois, voltou a Paris. Era 1942 e duas obras já o consagravam como um grande literato das letras francesas: O Estrangeiro e O Mito de Sísifo. Outras obras vieram: Estado de Sítio, peça em três atos; O Homem Revoltado; Núpcias, O Verão; Reflexões sobre a Pena Capital; A Queda; e O Exílio e o Reino, dentre outras. Após a sua morte, em 1960, foi publicado O Primeiro Homem, livro que estava inacabado e que aborda aspectos biográficos de sua infância pobre, da morte de seu pai e do afeto que distinguia a sua relação com a mãe semisurda e analfabeta.  O conjunto de sua obra fez com que ele fosse agraciado em 1957 com o prêmio Nobel de Literatura. No mais, Camus se tornou um dos mais respeitados pensadores do século XX. Enfim, biscoito fino da literatura mundial. Camus foi um preocupado com a existência humana e a sua vida absurda diante de um mundo igualmente absurdo e irracional.  Em O Mito de Sísifo, ele questiona a importância de se responder “se a vida vale a pena ser vivida”. A história de Sísifo está descrita na mitologia grega. Era um pastor de ovelhas e filho de Éolo, o deus dos ventos. Fez uma série de estripulias, inclusive a de dedurar Zeus. O resultado é que a sua vida enrolada fez com que ele fosse condenado a repetir sempre a mesma tarefa, ou seja, deveria empurrar uma gigantesca pedra até o topo de uma montanha. Depois desse esforço a pedra se lhe soltaria e voltava a rolar morro abaixo. No dia seguinte o processo se repetia e assim seria até o fim de sua vida. Pagou caro pela sua esperteza em fugir da morte da qual fora condenado e da tentativa de enganar os deuses. Mas, qual o princípio que se encerra neste exemplo mitológico na obra citada de Camus? A vida, o cotidiano, a repetição dos atos no dia-a-dia, a busca ou não do supérfluo, o desencanto, a falta de expectativas, enfim, a rotina diária sem sentido, quase sempre imposta pela religião ou mesmo pelo sistema capitalista de produção.

 

O Mito de Sísifo está organizado em quatro capítulos: 1 – Um absurdo raciocínio; 2 – O absurdo do homem; 3- Criação do absurdo; e 4 – O mito de Sísifo.  Camus, mais uma vez, trata da sua chamada filosofia do absurdo, já vista em outras obras de sua autoria. Descreve que parte de nossa vida é alicerçada na esperança do amanhã. Só que o mundo é contraditório, pois, entre os desejos da razão humana está a insensatez. As várias formas do absurdo são mostradas na obra, culminando com uma frase lapidar ao ser indagado se a realização do absurdo exige uma tomada de posição de pôr fim à vida através do suicídio. Ele responde que não, “O que exige é revolta”. Tanto a obra de Camus quanto a mitologia nos leva à reflexão da razão da vida humana. Mas, se ela é isto que aí está, ou seja, a busca incessante pela felicidade, pela eternidade, pelo inútil esforço de parar o tempo para permanecer sempre jovem, no credo de que o infortúnio e a morte serão sempre problemas de outrem, não resta a menor dúvida que a vida é um absurdo. Daí vem a revolta, ou como denuncia Camus, “o movimento de revolta apoia-se ao mesmo tempo na recusa categórica de uma intromissão julgada intolerável e na certeza confusa de um direito efetivo, ou mais exatamente, na impressão do revoltado de que ele tem o direito de...”. É a partir daí a sua afirmativa, de que “só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio”. Ora, se a vida é um absurdo, o suicídio seria uma solução para o absurdo da vida? A vida seria sem sentido, como pensava o jovem Werther (Os Sofrimentos do Jovem Werther), de Goeth, onde “cada vez mais se torna uma certeza que a existência de um ser humano tem muito pouca importância”? Enfim, temos a oportunidade de fazer várias reflexões sobre o sentido da vida. O Prof. Carlos Hugo Honorato da Silva, mestre em filosofia pela UFPB, pesquisador das obras de Kierkegaard, em ensaio denominado “Camus e a Questão do Suicídio”, faz as seguintes indagações: Há uma lógica na existência de um indivíduo? A existência e sua finitude podem ser entendidas logicamente? A vida tem sentido e, se tem, qual? Será que realmente é necessário um sentido à vida para ser vivida? Pois bem, o grande desafio é procurar respostas a essas perguntas.

 

A literatura psicanalítica ou psicológica classifica o comportamento suicida em três categorias: a ideação, a tentativa e o suicídio propriamente dito. Há uma perfeita concatenação entre esses três comportamentos. Na ideação, os pensamentos e o desejo da morte. Isto leva à tentativa e, posteriormente, ao ato próprio do suicídio. Recentemente tivemos dois suicídios que abalaram o mundo: o do ator Robin Williams, encontrado morto aos 63 anos em sua casa no dia 11 de agosto, na cidade de San Francisco, Estados Unidos, enforcado com um cinto; e o da cantora americana Simone Battle, do grupo G.R.L., em sua casa, em Hollywood, no Condado de Los Angeles, no último dia 5. O que os levaram ao suicídio? Williams, um dia antes de sua morte, conversou com um amigo sobre projetos e acordos futuros para sua carreira. A única observação negativa que o amigo fazia era que ele, Robin, estava infeliz como de costume, mas isso não era algo incomum. Uma nova versão surgia sobre a possibilidade da influência do remédio que ele tomava contra o Mal de Parkinson. Um dos efeitos colaterais era o suicídio. E Simone Battle que não tinha um motivo plausível para enforcar-se? Todos elogiavam o seu comportamento expansivo e solidário. E o nosso querido ator Walmor Chagas que morreu no início de 2013? Ele foi encontrado sentado na copa de sua casa, morto por um tiro disparado contra a sua própria cabeça. Walmor tinha 82 anos e vivia retirado numa fazenda em Guaratinguetá, interior paulista. Gostava de conversar sobre assuntos filosóficos. A um amigo que sempre o visitava fazia reflexões sobre a morte. “Era um cético convicto”, disse o amigo. - “Para ele, a morte era realmente o fim”. Interessante! Em 2004, Walmor Chagas escreveu e levou ao palco o seu último espetáculo teatral, “Um Homem Indignado”. O monólogo fala de ator veterano que faz reflexões sobre enfermidades sociais e desesperança com a própria condição de velhice. Desesperançoso com a vida vivida, mata-se. Seria uma alusão ao absurdo da vida? A monotonia e as incompreensões levaram aquele personagem a entregar-se ao suicídio na busca da liberdade? E se o absurdo é algo inexplicável, como diria Camus, a morte, no caso, foi a solução?

 

Evidente que Camus não defende o suicídio como solução para o absurdo da vida. Ao contrário, diante dessa situação de conflito, o homem deve enxergar novos caminhos, valorizando-se e criando novos sonhos, buscando novas alternativas de vida. A liberdade, como diz Camus, não está somente no suicídio, mas na sedimentação de uma consciência de que devemos sempre lutar contra a monotonia de uma vida rotineira. É preciso construir uma nova forma de vida consciente. O indivíduo tem que aprender a conviver com choques, traumas, catástrofes e com o absurdo da vida. A resposta de Camus, portanto, diante do conflito do absurdo da vida, é saber lidar e aprender a renovar-se em cada situação. O caso de Sísifo, embora paradoxal, é o exemplo típico. A vida, como se vê, é uma diuturna escolha entre o subjugar-se ao cotidiano e o aprendizado de se libertar para uma vida alternativa. À propósito, se Albert Camus foi o profeta do absurdo, não é que a sua morte teve um quê de absurdo? Ele morreu em 1960, em acidente de automóvel, na estrada que liga Sens a Paris. Quatro pessoas viajavam no carro e só ele morreu. No seu bolso, encontrou-se uma passagem de trem para o mesmo percurso naquele mesmo dia, 4 de janeiro. Fez a escolha de última hora. Errada. Por isso morreu. A vida é um absurdo.

 

Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente.

Deixe um comentário

Seu nome (Necessário)
Seu E-mail (Necessário - Não será exibido)
Seu comentário
Código da imagem:

Enquete


Categorias

Arquivos