A morte é uma festa

31/08/2014 13:56:47 por Eugênio Nascimento em Coluna Clóvis Barbosa
Clóvis Barbosa
Blogueiro e Conselheiro do TCE

No Brasil, até meados do século XIX, eram comuns os enterros em igrejas. Havia toda uma preparação ritualística para a despedida. Um exemplo era a roupa a ser usada, a qual, na sua maioria, era a mortalha de São Francisco ou a de cor branca. A mortalha de São Francisco, com o seu cordão, além de representar a vida simplória, servia para que os anjos retirassem as almas do purgatório; já a de cor branca tinha diversas explicações: a pureza da vida vivida ou até mesmo o simbolismo da ressurreição de Cristo, cuja cor usada no manto para envolvê-Lo foi a branca. Em A hora derradeira de homens e mulheres africanos e seus descendentes: alguns apontamentos sobre os óbitos, Santo Amaro, Sergipe, 1802-1835, a professora da UFBa, Joceneide Cunha dos Santos, doutora em História Social, publicou na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, n° 44, de 2014, um trabalho de garimpagem no arquivo da Paróquia de Santo Amaro e nos Cartórios de Santo Amaro, Maruim e São Cristóvão, estudando os óbitos, testamentos e inventários da população africana, escravizada ou forro. O trabalho foi árduo, mas de grande significação para a produção historiográfica da escravatura brasileira. O Brasil, como sabemos, foi o campeão mundial da escravidão moderna, chegando ao ponto de, em 1820, dois anos antes da Independência, ter uma população composta de dois terços de escravos. Só nesse ano, desembarcaram no Rio de Janeiro 700 mil africanos. Documentos demonstram que o Rio de Janeiro foi a maior cidade escravista do mundo desde a Roma antiga. De 1600 a 1850, 4,5 milhões de escravos vieram para o Brasil, dez vezes mais, por exemplo, que a quantidade levada para a América do Norte. Esses dados estão na obra O Navio Negreiro – Uma História Humana, de Marcus Rediker, professor de História Marítima da Universidade de Pittsburg (EUA). O trabalho de Joceneide tem, também, o papel de incluir o nosso Sergipe na vasta bibliografia existente sobre o comportamento da população africana e sua integração cultural a uma sociedade escravagista. A condição de escravos, afastados a ferros de sua origem, distante do seu meio, não impediu que esse extraordinário povo preservasse o seu espaço sagrado, composto de sua religiosidade, tradições e de seus signos culturais.

As normas da Igreja Católica eram inúmeras em relação aos sepultamentos e aos sacramentos. Entretanto, o batismo, a confirmação, a eucaristia, o matrimônio, a penitência e a extrema unção eram também realizados com os escravizados. O único sacramento que não era aplicado para eles era o da ordem. Participavam, inclusive, das irmandades, incluídos ativamente na vida da igreja. João José Reis, um dos grandes estudiosos da matéria, em sua obra A Morte é uma Festa, mostra com profundidade as consequências da mudança existente.  A morte sem sepultura era muito temida pelas pessoas. A sepultura teria que ser em lugar sagrado, bem próximo dos vivos e das imagens divinas. E a Igreja era o local para uma espécie de contiguidade espiritual entre as almas e as divindades. Portanto, era costume o enterro ser feito nas igrejas e a sua proibição pelo arcebispado baiano, adicionado à concessão de monopólio funerário a uma empresa privada por 30 anos, gerou uma das mais importantes revoltas populares: a chamada Cemiterada. Esse levante ocorreu no dia 25 de outubro de 1836 em Salvador. A multidão destruiu completamente o Cemitério do Campo Santo, inaugurado três dias antes. As irmandades tiveram uma participação ativa no processo de organização e arregimentação da população contra as teses invocadas pela Igreja. Esta, dizia que os enterros em igrejas e em cemitérios contíguos faziam com que as matérias orgânicas em decomposição formassem uma espécie de vapor que seria danoso à saúde. A revolta atingiu em parte o seu objetivo, sendo revogado o monopólio dos enterros e o cemitério passando para a esfera pública. A verdade é que havia um preparo para a morte naqueles dias, o que tornavam os preparativos uma autêntica festa de despedida. Tanto os funerais pomposos como os mais simples, exigiam a participação de toda uma engrenagem que ia das rezadeiras e carpideiras às presenças solidárias das pessoas. Ainda hoje, e no decorrer do tempo, a morte tem sido tratada como um acontecimento palpitante e até festivo. Camus, em A Morte Feliz, diz que a aceitação, o entendimento e a consciência da morte são condições para ser feliz. Temer a morte, para ele, seria o mesmo que temer a vida.

Relembro aqui a morte do jornalista Cleomar Brandi que, antes de partir, deixou uma carta sob o título “A última saideira”, onde ele se despede da vida, da sua velha Bahia, da sua Aracaju e dos seus amigos. No documento, ele dizia ao final, poetizando: “Um dia, o velho barril de carvalho pinga sua última gota de conhaque. E o poeta se despede de tudo sem tristezas nem vexames, mas apenas sabendo que cumpriu seu papel com dignidade, com honestidade e com um brilho de criança nos olhos. Quem sabe, eu encontre o amarelo dos girassóis nesse novo caminho”? Abaixo da missiva, um post-scriptum: “os amigos estão convidados para a última saideira no Bar do Camilo, assim que terminar o sepultamento. Já está pago”. E o Bar do Camilo recebeu os amigos de Cleomar, após o sepultamento, oportunidade em que todos tomaram, naquele dia, ao som de músicas, “a última saideira”. Essa criatividade de Cleomar nos faz lembrar outros casos pitorescos ocorridos com o segundo evento mais importante do homem: a morte. Os sumérios, por exemplo, não davam muita importância à vida após a morte. A rainha Shudi-Ad, rainha de Ur, que viveu no ano 2.500, antes de Cristo, preparou antecipadamente o seu próprio funeral, marchando para o seu túmulo com sessenta e quatro criadas, uma carruagem de madeira contendo ornamentos em ouro e prata, puxada por dois bois, quatro mulheres harpistas e seis soldados. Cada um dos membros da festa-funeral recebia uma bebida numa pequena taça, inclusive a rainha que estava à época com quarenta anos de idade. Todos os corpos, ou esqueletos, foram encontrados em sereno repouso, sem um diadema ou adorno sequer fora do lugar. Arqueólogos encontraram na Suméria vários casos de enterros em massa precedida por supostas festas. Em Porto Rico, o motoboy David Morales Colón, de 22 anos, assassinado enquanto conversava com a namorada, foi velado em cima de sua moto, uma Honda Repsol, em posição de largada. Também em Porto Rico, Angel Pantoja Medina, de 24 anos, exigiu antes de morrer, que se usasse um tipo especial de embalsamento para manter o seu corpo em pé por três dias durante o velório na casa de sua mãe, usando um boné do New York Yankees e óculos escuros.

Artemísia II viveu no ano 350 a.C. e governou Caria, um reino situado no lado oposto da ilha grega de Rodes. Ela apaixonou-se pelo seu irmão, Mausolo, com quem casou. Após a morte de Mausolo, Artemísia mandou construir um túmulo que ficou famoso pela sua beleza e pelos enormes gastos investidos. Uma obra nunca vista fora do Egito. Tinha o formato de um bolo de casamento, com 41 metros de altura e tendo no alto a estátua do seu marido numa carruagem com 4 cavalos. Durante 3 anos, quando ocorreu a sua morte, o local era utilizado pela viúva para festas diuturnas patrocinadas para a sociedade cariana. Artemísia II adorava embebedar-se com ponches de vinhos feitos de ossos e cinzas de Mausolo. Bem, não é à toa que hoje chamamos os túmulos de mausoléu. Homenagem a Mausolo?  Malba Tahan, heterônimo do professor Júlio César de Mello e Souza, autor da festejada obra “O homem que calculava”, achava horrível a literatura funerária que cunhava em coroas de flores expressões como: homenagem eterna, recordação sincera, o último adeus, etc. Antes de morrer, aos 79 anos, após ministrar uma palestra em Recife, deixou uma carta para a família com instruções de como deveria ocorrer o seu velório. Rejeitava coroa ou flores com qualquer tipo de mensagem. E se alguém insistisse, a coroa deveria ser devolvida com um “delicado cartão” para que o ofertante fizesse da coroa o uso que quisesse. O funeral, como exigido pelo escritor, deveria ser o mais modesto possível e o caixão deveria ser de terceira classe. Ao seu enterro, no Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro, compareceu grande número de pessoas, todas religiosamente comportadas e obedecendo as exigências do falecido e, se algumas flores foram vistas, as mesmas foram ofertadas anonimamente, sem qualquer dedicatória. Na oportunidade, foi lida uma mensagem de Malba, onde ele renovava a sua defesa pelo fim do isolamento e do preconceito contra os doentes de hanseníase. Por fim, citava a letra da música “Silêncio de um minuto”, de Noel Rosa, como imperativo da sua ojeriza ao luto: “Roupa preta é vaidade para quem se veste a rigor. O meu luto é a saudade e a saudade não tem cor”.


Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente.

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