Em Busca do Tempo Perdido

17/08/2014 18:28:36 por Eugênio Nascimento em Coluna Clóvis Barbosa

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE-SE


Gostaria de ter conhecido Policarpo Quaresma, aquele de triste fim, na obra do genial escritor Lima Barreto. Não, não iria para Curuzu, mas o levaria para Bruzundanga. Por favor, Curuzu não é o bairro da Liberdade, em Salvador de Bahia, onde está situada a nação ileaê. Aliás, por falar em ileaê, qual é Vovô? Que história é essa de não permitir que sarará miolo, amarelo empapuçado, moreno cor de canela, branquelo e índio saiam no bloco? É apartheid às avessas? Isto é segregação racial, meu irmão! Pois bem, como não vim para explicar, mas para confundir, vou questionar esse negócio judicialmente e, quem sabe, no próximo carnaval, eu não esteja com Policarpo Quaresma desfilando na avenida pelo ileaê. Mas vamos voltar ao nosso personagem, homem extremamente nacionalista e idealista. Fui buscá-lo na prisão, após formalizar um habeas corpus em seu favor, onde tranquei o processo que apurava o crime de traição à pátria, acusado que fora pelo Marechal Floriano Peixoto, então Presidente da República. Policarpo, reconheço, era polêmico. Tentou, por exemplo, mudar a língua falada no país para o tupi e, claro, não conseguiu o seu intento. Em Bruzundanga me criou vários problemas. Passou o sarrafo em todo mundo. Na estrutura governamental, na forma de gerir o dinheiro público, na corrupção desenfreada, na falta de compromisso com a educação e saúde, nas propinas, nos privilégios políticos, na hipocrisia e pseudo-erudição dos intelectuais. Enfim, não teve uma só ação política, social, econômica e cultural que não fosse atacada ferozmente.

Fiquei preocupado com a reação da elite bruzungandense. Antes que nos expulsássemos ou decretassem a nossa prisão, fugimos para Utopia, uma ilha perfeita com uma beleza natural extraordinária. Após alguns dias, num hall de um hotel, diviso Policarpo Quaresma conversando com Sir Thomas More, o “patrono dos estadistas e políticos”, título que lhe foi outorgado pelo Papa João Paulo II, no ano de 2000. Ao seu lado, numa discussão acalorada, também se encontravam Peter Gilles, amigo de More e Raphael Nonsenso, um velho marinheiro que fez algumas viagens com Américo Vespúcio. O debate, como não poderia deixar de ser, era a vida naquele país e a possibilidade de implantar a sua filosofia na Europa. A inexistência de propriedade privada; a obrigatoriedade do trabalho para todos, sem exceção; jornada de seis horas, três no período matutino e três no vespertino; e a igualdade como princípio rigoroso, inclusive no uso da vestimenta, ou seja, lisa para todos. Lá, a criança desde cedo é ensinada a cultivar a terra, ao tempo em que os estudos e a aprendizagem artística são obrigatórios. Seus habitantes são pacíficos, bondosos, solidários e grandes anfitriões. São avessos ao uso de jóias e vestimentas extravagantes, como as usadas pelos estrangeiros. Policarpo dizia que a vida utopiana era um ataque virulento à sociedade do renascimento cristão europeu. Criticou a religião, os direitos humanos, chegando ao ponto de malhar o seu modo de vida, tido, para ele, como monótono e castrador da ambição humana. Criticou o paganismo sem perceber que os habitantes de Utopia eram pagãos.

Sir Thomas More era um homem simples, humilde, mas dotado de um senso de humor. Respondeu para Policarpo que “o homem é criatura de Deus, e por isso os direitos humanos têm a sua origem n’Ele, baseiam-se no desígnio da criação e entram no plano da redenção. Poder-se-ia dizer, com uma expressão audaz que os direitos do homem são também direitos de Deus”. A discussão não terminou bem, principalmente pelas atitudes grosseiras de Raphael Nonsenso que tentou, inclusive, agredir Policarpo. Não deu para continuar em Utopia. Fomos para Lilliput. Lá encontramos náufragos do navio de Gulliver. Era uma terra de habitantes extremamente pequenos e idiotas. Viviam cotidianamente em guerra por motivos fúteis. Não houve condições de viver na ilha, dada à pequenez da comunidade e a escassez de alimentos. Fomos para outra parte da ilha, Brobdingnag, que, ao contrário de Lilliput, era uma terra de habitantes gigantes. Também não deu para permanecer nesse local. Viajamos para a ilha flutuante de Laputa, uma terra muito estranha. Eu estava ansioso para saber as impressões de Policarpo, até quando, viajando para mais longe, ele encontrou os Houyhnhm, uma raça de cavalos que possuía muita inteligência, mas que temiam uma raça de humanos chamada Yahoo. Pela primeira vez vi Policarpo Quaresma triste, bastante meditabundo. Alguns dias depois, confessou-me: “Vamos embora. Estou enojado do ser humano”. Não me disse o porquê. Só sei que foi depois de percorrermos as ilhas visitadas por Gulliver. Não houve como demovê-lo da sua ensimesmação.

No retorno, lembrei-me de Manuel Bandeira. Gritei para Policarpo Quaresma com o peito cheio de alegria: Vamos embora pra Pasárgada. Lá sou amigo do rei. Lá tenho a mulher que quero na cama que escolherei. Lá a existência é uma aventura, de tal modo inconsequente que Joana a Louca de Espanha, rainha e falsa demente, vem a ser contraparente da nora que nunca tive. Lá farei ginástica, andarei de bicicleta, montarei em burro brabo, subirei no pau de sebo e tomarei banho de mar! Senti Policarpo Quaresma se recompondo e inebriado com a minha dissertação. E continuei: E quando estiver cansado deito na beira do rio, mando chamar a mãe-d’água pra me contar as histórias que no tempo de eu menino Rosa vinha me contar. Em Pasárgada, Policarpo, tem tudo, é outra civilização, tem um processo seguro de impedir a concepção. Tem telefone automático, alcalóide à vontade e até prostitutas bonitas pra gente namorar. Os olhos de Policarpo brilhavam. Arrematei: E quando eu estiver mais triste, mas triste de não ter jeito. Quando de noite me der vontade de me matar, vou-me embora prá Pasárgada. – Lá sou amigo do rei – Terei a mulher que eu quero na cama que escolherei. Vamos amigo, vamos embora pra Pasárgada. Policarpo Quaresma chorou. Ao mesmo tempo ria. Era grande a sua expectativa de, quem sabe, viver o resto de sua vida em Pasárgada. Colocou na radiola “Gulliver Suíte”, do compositor alemão Georg Philipp Telemann, e vibrava com os movimentos da suíte para violinos escrita em 1728. Repetiu umas dez vezes o movimento “chaconne of the lilliputians”. Era outro homem. Acabou-se o triste fim. E fomos em busca do tempo perdido.

Post Scriptum – Gilfrancisco e Anísio Dário
Gilfrancisco é um baiano soteropolitano que veio morar em Sergipe depois de participar da vida cultural da Bahia. A sua formatura em Letras pela Universidade Católica de Salvador lhe vocacionou para o mundo da pesquisa. Ousado, curioso, ouvinte paciente, não pode ouvir uma conversa de valor histórico que parte para o garimpo. É um conhecido das bibliotecas. E é um perfeito bisbilhoteiro. Tem estudos sobre Gregório de Matos, “O boca de todos os santos”, Enoch Santiago Filho, Arthur de Salles Campos, e tantos outros. Em 2008, publicou A Romancista Aline Paim, onde resgata a história e o talento dessa mulher nascida em Estância e que tem uma vasta obra publicada. Quem quiser conhecer o poeta Enoch Santiago Filho, por exemplo, não pode deixar de ler Flor em rochedo rubro. Os pedaços de uma vida breve, como foi a de Enoch, nos remete ao conhecimento de um dos mais talentosos poetas de Sergipe, tudo isso graças ao já nosso Gilfrancisco. Agora, Gilfrancisco nos presenteia com a lembrança de um infausto acontecimento que marcou a vida política de Sergipe nos anos 40 do Século passado: o violento assassinato do operário comunista Anísio Dário. Um grupo de intelectuais, estudantes e trabalhadores reuniam-se no Cinema Rio Branco, na Rua João Pessoa, centro de Aracaju, para protestar contra a cassação do registro do Partido Comunista Brasileiro, bem como dos mandatos dos seus parlamentares. O ato foi esvaziado pela proibição emanada do Chefe de Polícia João Monteiro, o professor Monteirinho. Impossibilitados da realização do evento, os manifestantes saíram em passeata quando foram surpreendidos com a violência policial e que teve um macabro resultado. Além de várias pessoas feridas, o operário Anísio Dário, que participava da manifestação, foi morto a tiros pela polícia e teve o seu corpo praticamente irreconhecível pela violência das patas da cavalaria policial. O crime ficou insolúvel e ninguém foi punido, até porque o Estado, através do seu aparelho policial, à época, não estava a serviço da segurança pública, mas do status quo dominante. A morte de Anísio Dário é um acontecimento marcante da nossa história política. A sua transformação em livro confirma, mais uma vez, a qualidade de pesquisador que vem sendo demonstrada por Gilfrancisco. Vamos aguardar.

Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente.

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