A carne é fraca

04/03/2019 12:07:08 por Kleber Santos em Coluna Clóvis Barbosa
Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE
 
Pois é! Precisava de uma explicação lógica a justificativa que todos têm para os males praticados, principalmente no campo das anomalias sexuais, ou naquilo que se chama de sexo desregrado. Por exemplo, um ex-deputado estadual da Bahia, hoje na Câmara Federal, vem causando a maior polêmica. Tido como pastor, responsável pela “Fundação Doutor Jesus”, um centro de reabilitação de drogados, o parlamentar se diz ex-homossexual, ex-drogado e ex-bandido e que foi curado pela fé. Numa entrevista a uma emissora de tevê da Bahia, ele defendeu o seu colega também pastor, deputado federal Marco Feliciano, e ratificou a tese de que os “africanos são descendentes amaldiçoados de Noé”. E explicitou: “a viadagem da África, quando viu dois cabras bons, bonitos, musculosos, saiu atrás” (sic). Ao interpelar uma nota de repúdio contra ele do seu próprio partido, creditou a autoria “aos viados e viadas lá dentro” (sic). Diz também o deputado-pastor que não teme represálias do seu partido e explica: “Se essas desgraças (partidos) prestassem, eram inteiros”. Mas sobre o seu passado, principalmente o fato de ter sido homosexual, ele vacila e justifica: “O pastor é humano. Claro que eu tenho medo de recaída. Eu não posso ficar junto de um homem muito tempo porque a carne é fraca”. A carne é fraca? Vejamos outro exemplo: Um pároco da cidade de Niterói foi acusado de manter relações sexuais com uma coroinha desde os sete anos de idade, e também com uma sua irmã. O padre nega, entretanto reconhece que quando começou a fazer sexo com uma delas a mesma já tinha 18 anos de idade. Não interessa aqui se a acusação é verdadeira ou não, mas a justificativa do advogado do padre: “A carne é fraca. O padre também é um ser humano”. Conversa fiada! Desculpar-se de seus atos sobre a fraqueza da carne não deixa de ser uma fuga que tem como objetivo escapar da sua responsabilidade. Aliás, se “a carne é fraca” é porque o espírito é pobre.
 
Júlio Ribeiro faz parte da história da literatura brasileira. Da Escola Naturalista, a sua principal e polêmica obra foi “A Carne”, publicada em 1888, e que aborda temas diversos daqueles enfrentados pela literatura da época. Recebeu fortes críticas por explorar o amor livre e a figura da mulher libertária. Conta a história de Lenita, uma jovem que não buscava o fulgor do romantismo, mas a satisfação dos seus desejos sexuais. Ao ir residir numa fazenda de um Coronel, conhece o seu filho, divorciado, e com ele tem uma tórrida relação entremeada por sexo violento. Lenira sente prazer ao assistir um escravo ser açoitado e ter o seu corpo totalmente desfigurado com as feridas. Apesar de o livro terminar numa tragédia, a sua importância está justamente em enfrentar o tema da fraqueza da carne. Ribeiro consegue fazer com que ela triunfe sobre os desenganos da mente. O mais importante, ainda, é colocar a mulher num papel de vanguarda numa sociedade conservadora e preconceituosa. Se for verdade o que dizia o presidente dos EUA, Abraham Lincoln - que pessoas sem vícios não possuem virtudes - a trajetória de Lenita estaria então justificada? Outro caso impressionante foi o do terceiro presidente dos EUA, Thomas Jefferson, autor da Declaração da Independência americana. É dele a seguinte idéia: "A miscigenação de brancos com negros produz uma degradação com a qual nenhum amante de seu país, nenhum amante da excelência no caráter humano, pode inocentemente concordar". Pois não é que se descobriu que Jefferson tinha uma amante?! Justamente uma escrava, com quem teve vários filhos e viveu durante trinta e oito anos, quatro vezes mais do que com a sua legítima mulher. Afinal, a carne é fraca. Outro presidente dos EUA, Bill Clinton, também se deixou levar pela fraqueza carnal quando foi acusado de usar uma estagiária para a prática de sexo oral, em plena Casa Branca.
 
Diz uma música sertaneja que a carne é fraca e o coração é vagabundo. Adhemar de Barros foi um dos políticos mais influentes da política brasileira antes da ditadura militar. Governador de São Paulo por várias vezes, teve uma expressão cunhada que dizia bem do seu comportamento como governante: “O homem que rouba, mas faz”. Casado com Dona Leonor, teve uma amante por vinte anos que mandava e desmandava em seu governo e no seu patrimônio, Ana Gimol Benchimol Capriglione. Era conhecida como “Dr. Rui”. Depois da morte de Adhemar em 1969, Dr. Rui herdou os seus dólares que foram guardados num cofre de uma mansão em Santa Teresa, no Rio de Janeiro. O maior assalto da história da luta armada brasileira durante o período de chumbo foi, justamente, a ação que terminou com o roubo do cofre do Dr. Rui. Mas o importante aqui é mostrar que Adhemar também se quedou à fraqueza da carne. Nem sempre as amantes tiveram papel de destaque na vida política. É o caso de duas mulheres, uma no império romano, outra no século passado: Valéria Messalina e Elena Ceausescu. Messalina foi a terceira esposa de Tibério Cláudio César, ele com 50 anos, ela com 15. Apesar dessa diferença de idade, era uma mulher avarenta, devassa, cruel e assassina. A sua participação no governo era tão grande que o marido foi obrigado a ordenar sua execução aos 22 anos de idade. Ela está incluída entre as mulheres mais perversas da história. Já Elena Ceausescu viveu na Romênia e era casada com o ditador Nicolae Ceausescu. Era alcunhada de “Mãe da Pátria”. Ao lado do seu marido, dirigiu com mãos de ferro os destinos da Romênia durante vinte e quatro anos. Foram acusados de causar a morte de mais de 60 mil pessoas durante o seu reinado. Elena era uma mulher cruel, dominadora e tornou-se o braço direito do seu marido. Foi fuzilada juntamente com Nicolae no natal de 1989, encerrando naquele momento o orgulho, a arrogância e o poder.
 
A literatura biográfica está cheia de exemplos que justificariam a fraqueza da carne. No mundo político, é comum o desempenho das amantes na vida do seu parceiro, participando ativamente da vida profissional do amado. O ditado que diz “por trás de todo grande homem há uma mulher ainda mais brilhante” pode ser verdadeiro, muitas vezes, por causa justamente da fraqueza da carne. Não é à toa que Cristo disse a Pedro “vigiai e orai, para não cairdes na tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mateus 26:41).

Deixe um comentário

Seu nome (Necessário)
Seu E-mail (Necessário - Não será exibido)
Seu comentário
Código da imagem:

Enquete


Categorias

Arquivos