Em Busca do Ontem

18/02/2019 12:34:34 por Kleber Santos em Coluna Clóvis Barbosa
Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Ernest Hemingway estava internado num hospital em Rochester, Minnesota, em 15 de junho de 1961. Também no local estava um garoto de nove anos. Ao sentir o sofrimento da criança, resolve fazer uma carta para ela. Na missiva, diz sentir muito por encontrá-la naquele local e desejava-lhe o mais breve restabelecimento. Descreve um belo lugar, com peixes saltando dos rios e muitas flores. Dizia, no entanto, que o ambiente não era tão bonito quanto em sua Idaho. E arremata que em breve os dois, ele e o menino, estarão juntos em Idaho pescando, rindo e fazendo piadas sobre a experiência de ambos no hospital. Este foi o último trabalho do grande escritor americano, que passou toda a sua vida produzindo contos, crônicas, artigos, obras literárias, notícias jornalísticas, prefácios e apresentações de livros. Duas semanas depois, em 2 de julho de 1961, há cinquenta e oito anos, Hemingway se suicidou com um tiro de espingarda na boca. Encerravam-se ali sessenta e dois anos de uma vida intensa. Viveu cerca de 20 anos em Cuba, esteve nas duas grandes guerras e na Guerra Civil Espanhola. Assim como Neruda, ele também poderia dizer “confesso que vivi”.Josef Stalin, que governou a Rússia com mãos de ferro durante o período comunista, e Fidel Castro, o grande líder cubano, nutriam uma grande admiração pela obra desse escritor, considerado o mais talentoso da chamada “geração perdida”, que habitou Paris nos anos de 1920. Foi o autor, dentre outras publicações, de O Sol também se levanta, Adeus às armas, Por quem os sinos dobram, O velho e o mar, As neves do Kilimanjaro e Paris é uma festa. Quem foi este homem capaz de escrever obras que ainda hoje comovem a humanidade? Quem foi Ernest Hemingway, o grande ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1954?Interessa-me o período mais rico de sua vida: a década de 20 em que viveu em Paris, amais criativa de toda a sua existência.Chegou na capital francesa com sua primeira mulher, Hadley Richardson. 

Ela assim define a sua convivência naqueles anos: “Nada foi como aqueles anos em Paris, depois da guerra. A vida era dolorosamente pura, simples e boa, e eu acredito que Ernest era o melhor de si mesmo. Tive o melhor dele. Tivemos o melhor um do outro”. É a pura verdade. Os seus romances nasceram de pequenas crônicas vivenciadas na capital francesa.Antes de chegar a Paris, Hemingway, muito jovem, viveu uma aventura que marcaria física e psicologicamente a sua vida. Foi durante a Primeira Grande Guerra, onde ele trabalhou no serviço de ambulâncias no interior italiano. Ferido durante a ofensiva austríaca em Piave, 1918, foi encaminhado para o Ospedale Rossa, em Milão, onde conheceu e se apaixonou por Agnes Von Kurowski, uma enfermeira daquele hospital. O curioso é que a sua obra Adeus às armas trata desse período, só que na história contada a heroína morre de parto, quando, na verdade, o seu primeiro amor o dispensou para casar com um oficial italiano. Certa vez, já casado com Hadley, justificando as noites mal dormidas, confessou: “Tenho esses pesadelos e eles são tão reais. Ouço os tiros de morteiro, sinto o sangue em meus sapatos. Acordo encharcado. Tenho medo de dormir”. Apesar do trauma, Hemingway era um homem bastante afável, extrovertido e brincalhão, sempre encontrando um apelido certo para a pessoa certa. Era um piadista contumaz, bebia muitoecostumava dizer aos amigos que saíam na noite com ele e que não aguentavam beber: “Não andem comigo! Vocês não dão para andar com Ernest”. Em 2013, escrevi aqui no Jornal da Cidade uma crônica com o título Cartas do Caribe I – Um mojito com Hemingway, onde estabeleço um encontro ficcional com o escritor, com toques também de realidade e à luz do seu senso de humor. Dizia eu na oportunidade: “Isla San Cristóbal de la Habana. 2013. A cidade começa a escurecer. Saio do Iberostar, hotel localizado no Parque Central. Fico em dúvida. E agora? Onde eu marquei o encontro com Ernest Hemingway? 

No Floridita, ali no Obispo, esquina do Monteserrate ou na Bodeguita del Medio, no Empedrado? Bem, resolvi ir ao Floridita, que estava próximo. Fui logo assediado por supostos guias e por uma prostituta. Consegui me desvencilhar. Se Hemingway não estivesse lá deixaria recado e me dirigiria ao Bodeguita del Medio. Aquele encontro era importante para mim, pois tinha algumas dúvidas a respeito de fatos ocorridos na época da geração perdida que habitou os anos 20 do século passado em Paris. Ao chegar no Floridita ele não estava. Falei para um funcionário do restaurante que se ele chegasse aguardasse o advogado brasileiro com o qual ele marcara o encontro, pois eu iria ao Bodeguita del Medio. De logo, o barman perguntou-me se Hemingway tinha marcado tomar um daiquiri ou um mojito. Respondi-lhe automaticamente: - Um mojito. E ele me disse, se foi um mojito, então ele está na Bodeguita del Medio. Gracias, disse-lhe e tomei o rumo do Empedrado, uma rua estreita na Havana velha. O assédio foi duro por parte de guias e prostitutas, inclusive duas meninas de 13 ou 14 anos. Consegui chegar ao local. Ele estava no bar saboreando um mojito. Apresentei-me e ele me convidou para irmos ao interior do restaurante. Sentamos numa mesa. Ao lado, tinha uma mesa reservada para dois clientes famosos: o poeta cubano Nicolás Guillén (1902-1989) e o cantor americano Nat King Cole (1919-1965). O restaurante tem em suas paredes de três andares fotos de famosos, como uma do próprio Hemingway ao lado de Fidel. Até o nosso presidente Lula estava lá. Vários autógrafos nas paredes, desde o do Comandante Fidel, passando por Hemingway, Nicolás Guillén e Salvador Allende. Um grupo musical entra cantando ‘Hasta siempre comandante’, uma homenagem do compositor Carlos Puebla a Che Guevara.Atento, observo o autógrafo deixado por Salvador Allende, ex-presidente chileno: ‘Viva Cuba libre. Chile espera. 28 junio 1961’. Torno meus olhos para os olhos de Hemingway e pergunto-lhe sobre o mojito. 

Ele chama o barman que diz sobre a sua receita: ‘Em um vaso de 8 onzas, ½ cucharadita de azúcar y ½ onza de jugo de limón. Añadir hojas de hierba buena y 3 onzas de agua gaseada. Macerar el tallo (sin danar las hojas). Añadir 2 o 3 cubitos de hielo y agregar 1 ½ onza de ron Havana Club 3 años. Revolver y ... listo para beber’. Peço um para mim. Solicito cambiar o açúcar por um edulcorante. O barman não deu a mínima e preparou o meu mojito com açúcar mesmo. Começamos a conversar sobre diversos personagens e modo de vida da época. Chegamos a Francis Scott Fitzgerald e sua vida conturbada com a mulher Zelda Sayre. Hemingway foi amigo do casal. Viveram nos anos 20 do século passado em Paris numa época em que Fitzgerald já era famoso. Já tinha lançado ‘Este lado do paraíso’, o seu primeiro romance, e ‘Os belos e malditos’. Estava para lançar aquela que seria uma de suas maiores obras: ‘O grande Gatsby’. Em duas horas e meia de conversa, falou-me dos defeitos e virtudes daquele que seria consagrado como um dos maiores escritores americanos do século XX. Ria ao me contar a viagem que fizera de carro com ele por toda a França e de um fato curioso. Na época, ele morava num sobrado de nº 29 da Rue des Saints-Pères, hoje funcionando a Brasserie L’Escorailles. Fitzgerald o procurou nesse endereço onde, à época, funcionava o bistrô Michaud’s. Estava muito nervoso. Ao sentar-se, Hemingway foi imediatamente inquirido: ‘Você acha que eu tenho um pau pequeno?’. Sobre o porquê da pergunta, Fitzgerald disse que tinha tido mais uma briga violenta com Zelda e ela lhe dissera que ele não prestava nem para fazer amor, dada a pequena dimensão do seu membro. Hemingway tentou acalmar Fitzgerald, com frases tipo ‘tamanho não é documento, o importante são as preliminares’, etc. Mas ele só se convenceu quando exibiu o seu pênis para o seu interlocutor e recebeu como resposta: ‘Olha, meu caro, fique sabendo que seu pau é do tamanho do seu talento literário’. Fitzgerald saiu saltitante”.

O que fez Hemingway e muitos outros artistas no início de carreira fixarem residência em Paris foram, justamente, as viagens de navio bastante baratas, a inexistência de qualquer lei seca e, principalmente, o câmbio vantajoso, onde um dólar equivalia a 55 francos. Nesse período, como relatado em Paris é uma festa, lançado após a sua morte, abandonou o jornalismo para viver quase na miséria com o intuito de concretizar o sonho de escrever um livro. Viveu em Paris com nomes conhecidos das artes, como Pablo Picasso, Miró, Gertrude Stein, Ezra Pound, John Dos Passos, James Joyce, Scott Fitzgerald, George Gershwin, Cole Porter, Sylvia Beach e tantos outros. A sua vida foi marcada pela pescaria, as caçadas, as guerras e o álcool. No tempo que viveu em Paris, apesar das farras diárias pelos bares e cafés de Montparnasse, era bastante disciplinado na leitura dos clássicos e no escrever. Tinha horários para tudo. Hemingway sempre tentou voltar a Piave, na Itália. Queria rever o local que marcou profundamente a sua vida. E foi, como escreveu depois: “Ir em busca de ontem é uma perda de tempo – se tiver de verificá-lo, volte para sua velha linha de frente”.


Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente, aos sábados.

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