Muvuca no Ferryboat

20/01/2019 13:00:35 por Kleber Santos em Coluna Clóvis Barbosa
Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE

No dia 30 de dezembro de 2018, encontrava-me com minha esposa em Salvador. Tinha recebido um convite de um colega conselheirodo TCE/BA, Inaldo Paixão,para comer uma moqueca de pescada amarela em Caixa Prego, bem no fim da ilha de Itaparica, ou Vera Cruz (a ilhotahoje é formada pelos dois municípios). Inaldo é um dos homens do sistema Tribunal de Contas com quem mais me identifiquei e, se é verdade que etnia, idioma e similitude de propósitos são os três ingredientes que imantam as pessoas- irmanando-as e fazendo delas emergir uma mesma frequência que capta a sonoridade do mundo, ou o modo de enxergar as aflições que nosso coração faz ecoar pelas curvas da vida- então está explicada essa afinidade. Interessante é que a primeira vez que o vi foi em Buenos Aires. Estávamos, ambos, no mesmo propósito de representaro sistema de controle externo brasileiro num evento que tratava do assunto com colegas argentinos e espanhóis. Falamos o mesmo idioma, aquele que é expressadopelos excluídos dos bairros pobres da velha Salvador. E temos a mesma etnia, pois somos filhos da antiga Estrada das Boiadas que, com a Independência da Bahia, por ali passando o exército libertador, tornou-se Estrada da Liberdade ou Rua Lima e Silva, que se estende da Soledade até o Largo do Tanque. Esse itinerário é cortado por vários guetos, com suas diversas nações: Soledade, Lapinha, Sieiro, Cine Brasil, Ladeira do Inferno, Pero Vaz, Central, Queimadinho, Estica, Gengibirra, São Lourenço, Sete de Abril, Bairro Guarany, Rua São Cristóvão, San Martin, Alto do Peru, Alto do Pará, Japão, Curuzu, Ladeira de Pedra, Graciosa, Largo do Tanque e tantas outras. Inaldo é da nação do Corta Braço, hoje Pero Vaz e antiga roça de Chico Mãozinha, invadida na década de 1940.Eu sou da Liberdade, o bairro mais negro da Bahia, mas, segundo o IBGE, este título pertence hoje à Fazenda Coutos.Vivemos sob os batuques do Ilê Aiyê e do Muzenza, dois blocos afro que orgulham aquelas comunidades. A Liberdade e o Corta Braçoderama mim e a Inaldo a régua. O compasso fomos buscar nos caminhos da vida.

Nosso propósito ideológico, ademais, é o mesmo: construir uma sociedade mais justa, onde a força do trabalho supere a exploração do sangue e do suor do operário. Vejam, pois, que eu e Inaldo compartilhamos da etnia, do idioma e dos propósitos, daí o entrosamento existente. Resolvi, então, ir em direção a Caixa Prego. Deixei o meu veículo no hotel e fui para o ferry de Uber. Acertei com minha filha para nos pegar em Bom Despacho (ela estava veraneando em Aratuba, a quatro quilômetros de Caixa Prego), já que nós íamos como passageiros. A fila de veículos estava tranquila, contudo a dos passageiros estava enorme, saindo do ferry em direção à feira de Água de Meninos.Enfrentamos a fila para compra dos ingressos e até que não demorou muito. Entretanto, durante o trajeto para a bilheteria, vivenciei a amizade de algumas figuras interessantes e a alma do povo baiano, sempre bem-humorado apesar dos atropelos do dia-a-dia. Após essa primeira etapa, demos o segundo passo e entramos na antessala da sala de embarque, onde os passageiros esperavam a abertura do portão.  Pois bem.Fomos os últimos a adentrar no espaço, que já estava entupido de gente.Não dava para ninguém se mexer do lugar. Eram homens, mulheres, crianças, cachorros, gatos,e vários utensílios, como geladeira, ventiladores e caixões carregados com cerveja, muitos desses objetos meticulosamente encachados nas cabeças de algumas pessoas. Aliado a esse tumulto e desconforto, pasmem, o calor a cada minuto que se passava aumentava ainda mais. Minha mulher, por seu turno, começava a reclamar das pisadas, bafos, empurrões e se preocupava com o fato de tê-la colocado naquela situação. E repetia a toda hora a insensatez da direção do ferry em permitir aquilo; que pela demora achava difícil o embarque;que não sabia como o povo aguentava aquele sofrimento; que era um crime o que se fazia com as crianças naquele calor medonho.Ela estava com a matraca solta.

Para mim, tudo era emoção e um filme passava pela minha cabeça. Imagens da minha infância, com meus pais e irmãos atravessando a Baía de Todos os Santos em direção a Itaparica,  desfilavam pela minha mente. Quase não ouvia a angústia da minha mulher. O suor corria pelas minhas pernas. Repentinamente, tudo mudou no ambiente e começaram as reclamações com a demora em encaminhar os passageiros para a sala de embarque: - Abra esta porta, filho da puta!gritou um passageiro aovisualizaruma espécie de segurança na parte de dentrodo Ferry. Como ele era careca, outro gritou: - Abra esse caralho, seu Cabeça de Pica, ninguém está aguentando o calor! Duas moças, que se encontravam no final da aglomeração, começaram a se aproximar da porta de embarque, falando que estavam se mijando. O público, percebendo a aflição das moças, abriram alas para que pudessem transitar. Ocorre que, já no portão de embarque, elas se acalmaram e não procuraram atender às suas necessidades fisiológicas, o que levou a multidão a se rebelar. Passou-se, então, a chamá-las de mijonas: - Ou mijonas, não vão mijar mais não? Um grito, que veio lá do fundo, berrava com eco: - Mijoooooonass!!! E o tempo passando! À proporção que funcionários do ferry surgiam na sala de embarque, gritos começaram a ecoar no recinto, saídos de todos os lados: - Xibungo, abra essa porta; - Cala a boca corno; - Abre a porta Mariquinhas; - Maria Bonita;- Sapatona; - Veada; - Tô me cagando, porra, abra essa porta!; - Filho de uma égua, tá um fedor de rabo que ninguém aguenta, etc. Nisso, abre-se uma sinfonia aterradora, com crianças chorando, cães latindo, gatos miando, e um sorveteiro gritando no seu ouvido: - É sorvete, sorvete, sorvete, coco, mangaba e cajá, um é três reais e dois são cinco. Tudo isso e toda essa algazarra ao mesmo tempo, o que levava a uma agonia geral. Sinceramente, eu vibrava com tudo aquilo. Há muito tempo não vivia aquela realidade. Minha mulher estava pasma com a minha reação.

E então a porta de embarque começa a abrir e uma confusão se forma com todos querendo adentrar ao mesmo tempo. Um jovem cotó, com apenas uma perna, começou a discutir com outros passageiros e foi empurrado abruptamente por um segurança contra o portão. Todos se revoltaram com o guarda, mas os ânimos foram acalmados. Com a situação regularizada, todos acomodados no catamarã, seguimos viagem pela Baía de Todos os Santos. Nisso, um casal gay começa a dançar ao som de músicas baianas. A coreografia encenada pelos dançarinos divertia os passageiros. Estava conversando com o jovem Cotó quando esse me disse: - Quer ver as bibas “endoidar”? Aproximou-se do som, conversou com o dono e entregou-lhe um pen drive. Começa a tocar I Will Survive, na voz de Glória Gaynor. O casal começa a dançar loucamente, agora ao lado da maioria dos passageiros, numa junção de movimento corporal e passos que invejaria as dançarinas do Faustão. Durante o trajeto, a música tocou umas 20 vezes. É umacanção muito bonita, com uma letra que fala de superação, de que é preciso ir para a frente, lutando para transformar o mundo num local único, homogêneo, leve, igual pelo respeito das diferenças. A verdade é que eu estava num bom lugar, ao lado de gente simples, alegre, com extraordinário senso de humor, humilde, esquecida pelas políticas públicas. Todo aquele sofrimento, com grande número de pessoas enjauladas, sem poder sair e nem entrar, é uma afronta à dignidade da pessoa humana. O ferry é uma concessão pública. É inadmissível que o Estado assista de camarote o péssimo serviço que é prestado pela empresa exploradora da concessão. Bom, finalmente cheguei em Caixa Prego. A me esperar, com um sorriso do tamanho de um caminhão, o meu amigo Inaldo, sua mulher e seus sogros. Esplêndida a moqueca de pescada amarela, o siri catado com feijão divinamente temperado, arroz branco e cerveja gelada. Mas fiquei retadocomigo. É que quis ser educado e não repeti o prato. 

Pois é, foi um dia de arromba! Confesso que é nas pequenas coisas que a gente descobre momentos de felicidade. Na volta, sem mais os problemas enfrentados, vim cantarolando um samba de terreiro, “nessa minha caminhada/ sou água de cachoeira/ Ninguém pode me amarrar/Piso firme na corrente/ Que caminha para o mar/Em água de se perder/ eu não me deixo levar”.

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