Chico Miséria

16/07/2017 13:53:24 por Kleber Santos em Coluna José Lima
José Lima Santana
Professor da UFS

Era no tempo em que os delegados de polícia eram cidadãos comuns, remunerados pelas municipalidades. Comunidade pequena, feita cidade sabe Deus como. Coisas da política. Um deputado estadual, sobrinho do chefe político local, conseguiu elevar a vila à categoria de cidade. Um disparate. Uma afronta. Ninguém ali foi contrário à elevação. Afinal, todos queriam ver a vilazinha com cara de dorminhoca virar cidade. O progresso viria. O simples fato de ser cidade já deixava a povoação com outra roupagem. O moral da população subiria à estratosfera. A Intendência daria um jeito de melhorar as ruas, as estradas e os serviços. Aliás, parcos serviços públicos: duas ou três escolas de meninos e meninas magricelas com professorinhas que mal sabiam soletrar as palavras. Um cemitério quase abandonado. Um posto de saúde que só recebia a visita do médico de dois em dois meses. Por lá dava plantão diário, quando não surgia a oportunidade de uma boa pescaria, o guarda sanitário Omar Pereira, vulgo Omar Zarolho. O olho direito do guarda sanitário tinha um defeito que o fazia olhar para o lado que a besta correu, como dizia o populacho. 

Na vila transformada em cidade havia uma igrejinha do tipo cai não cai. O padre da cidade vizinha rezava missa um domingo por mês. Era preciso, então, um padre fixo. O intendente deveria socorrer-se do sobrinho deputado para arrancar do senhor bispo um padre para lá. Não seria problema. O deputado acabara de conseguir uma boa verba para as obras da diocese. 

Na nova cidade, dois grupos políticos se engalfinhavam pelo controle do poder municipal. De um lado, o grupo do intendente, tio do deputado, chefe político há mais de vinte anos, que elegia gatos e ratos. Ele, claro, no meio. Do outro lado, Chico Miséria, sucessor do sogro, o finado Tertino Fonseca, cujo poder de mando ele o perdera para o intendente João de Maria, sem sucesso na recuperação. João de Maria mandava e desmandava desde 1912. Mas, Chico Miséria vinha fazendo cócegas em João de Maria nas duas últimas eleições municipais. Diferenças pequenas de votos. Uma de vinte e seis votos e a outra de apenas oito votos. Claro que o grupo de Chico Miséria arrotava que fora roubado na contagem dos votos. O juiz era sobrinho de João de Maria. E estava estacionado na comarca, cuja sede ficava na cidade vizinha, há quase quinze anos. 

Na eleição daquele ano, 1930, eleição, inclusive, presidencial, Chico Miséria estava do lado fraco. Votaria num gaúcho de nome Getúlio Vargas da Aliança Liberal. No estado, as forças governistas estavam do lado oposto, com o paulista Júlio Prestes. E com as forças estaduais estava João de Maria, que prometia esmagar Chico Miséria nas urnas. Aliás, diga-se de passagem, que o apelido de Chico Miséria derivava de um jargão usado por Francisco Dória Macedo. Para ele, tudo era uma “miséria”. Daí o Chico Miséria. 

Eleições quentes. Ao bem da verdade, por ali não havia eleições frias. Era um verdadeiro pega para capar das seiscentas. Por aquelas bandas, político frouxo não vingava. Se não tivesse sangue no olho e tutano nos ossos, não aguentava a primeira boca de urna. Então, quem não se lembrava do velho Tonho Pinote de Vavazinho das Caraíbas? Meteu-se contra João de Maria, em 1920, foi encurralado por uns capangas, no beco da malhada de Zefride, e borrou-se todo. Serviu de mangação por um lote de tempo. Saiu da política e debandou da vila. 

As forças policiais foram aumentadas para garantir a eleição. Ora, na verdade, era para facilitar a fraude praticada pela gente de João de Maria. Os eleitores de Chico Miséria foram perseguidos. Muitos não conseguiram chegar a tempo para votar. Alguns apanharam da polícia. Outros foram detidos. Um verdadeiro escarcéu. Desde o meio-dia, João de Maria contava vantagem, abancado na frente da casa, os eleitores entrando e saindo pelo portão do lado, para comer. Era no tempo em que os políticos podiam oferecer comida à vontade aos eleitores. E somente ia à casa do chefe político quem nele votava. As pessoas tinham lado certo, tinham caráter. Nem os políticos trocavam de lado, nem os eleitores trocavam de chefe. 

Na nova cidade e no estado, a eleição do candidato situacionista foi de lavada. Em Brejo das Almas, a nova cidade, a turma de João de Maria soltou foguetes, fez baderna nas portas dos eleitores contrários, pintou o sete. O delegado de polícia e abastado fazendeiro, Firmino da Lagoinha, ele próprio, comandava uma trupe de baderneiros. Passando em frente à casa de Chico Miséria, na Praça da Bandeira, os baderneiros do delegado soltaram alguns rojões. Um deles feriu a perna de D. Francisquinha, esposa de Chico. Foi aí que a garapa ferveu. 

Chico Miséria estava no bar de Valfrido Boca de Caçapa quando Zominho de Sinhá Terta levou-lhe o ocorrido com D. Francisquinha. Sem pestanejar, Chico Miséria, sacou do revólver, manejou o tambor, deixou uma bala na agulha e tomou o rumo dos baderneiros de Firmino da Lagoinha, conforme descrição de Zominho. Atrás de Chico foram uns seis ou sete amigos. Todos armados. O ar da boca da noite cheirava a morte. 

Na Rua da Tramela, Chico Miséria e seu bando toparam com o bando do delegado. Chico adiantou-se. “Seu Firmino, você sabe que eu nunca fui com a sua fuça, nem você com a minha. Nisso nós estamos empatados. A diferença é que eu sou um homem de verdade e você não passa de um cabra safado, pau mandado de João de Maria, outro cabra safado. Alguém do seu bando feriu a perna da minha mulher com um rojão. Mas, quem me paga é você”. Todos sacaram as armas. Dos dois lados. O tiroteio seria dos brabos. O sangue de muitos lavaria a rua sem calçamento. Sangue empapando o chão. A beata Maria de Sá Fulô, que estava à janela, recolheu-se. Nos poucos postes da iluminação pública, a luz dos lampiões bruxuleava como se estivesse com medo.  

O delegado Firmino da Lagoinha, bêbado, cego de um olho, mas muito bem enxergando pelo outro, vociferou: “Cabra safado é você e sua laia, verme nojento, lombriga de bucho de pobre. Vou arrancar sua cabeça a bala e vou beber o seu sangue imundo, só pelo prazer de cuspir fora o restinho com gosto de vinagre azedo”. 
Ninguém teve tempo para disparar uma bala sequer. Naquele instante, irrompeu na rua a mulher de Chico Miséria, capengando, um filete de sangue escorrendo da perna direita. Vinha com outras senhoras. E eram muitas. Colocaram-se entre os dois bandos. Dona Francisquinha dirigiu-se, primeiro, ao marido: “Chico, pelo amor de Nossa Senhora, me ouça. Eu estou bem, foi só um arranhão. Quem disparou o rojão que me feriu foi aquele cabrinha ali”, disse, apontando para um sujeito sardento, que estava ao lado de Firmino da Lagoinha. Era um neto de Maneca Queixada, vaqueiro do delegado. E, voltando-se para Firmino, ela disse: “Procure o seu caminho, ‘seu’ Firmino. Hoje não vai ter matança em Brejo das Almas. O tempo de vocês acabou. O Dr. Getúlio vai ser o presidente do Brasil. João de Maria e vocês todos vão baixar a crista. Arredem daqui!”. As mulheres aplaudiram. Fez-se um silêncio danado. Um bando foi para lá, o outro para cá. Não teve mais entreveros, nem mortes, nem nada. 

A revolução de 30 se fez. Getúlio tornou-se presidente. E Chico Miséria, uma vez de cima, reinou na política da nova cidade até a morte, em 1952. 

Deixe um comentário

Seu nome (Necessário)
Seu E-mail (Necessário - Não será exibido)
Seu comentário
Código da imagem:

Enquete


Categorias

Arquivos