09/12
13:24

Alma Penada

José Lima Santana
Professor da UFS

A Praça João do Capucho tinha forma triangular. Rodeavam-na vinte e um eucaliptos frondosos, plantados pela Municipalidade há mais de quarenta anos. Acima da praça, um tiquinho, ficava a casa de Julião de Zé de Jonas, pai de Paulo de Julião, adolescente meio rueiro, que, às vezes, varava a noite em longas conversas com os amigos na Praça da Matriz. Era um bom rapaz, estudioso e trabalhador, que ajudava o pai na solta de gado, no Engenho de Baixo. O fato de ser meio rueiro não dizia nada. Era por causa dos encontros com os colegas do Ginásio Padre Cabral, para falarem dos namoricos, dos filmes de bangue-bangue ou de espadachim etc., a que assistiam no velho Cine São José. Nada demais. Era no tempo em que violência exacerbada e drogas, por exemplo, não faziam morada em Capão Redondo, cidade em franco progresso depois que a estrada de rodagem foi asfaltada, passando nas costas do arruado. Corriam os meados dos anos 1970.

Numa noite fresca, prenúncios do inverno, a lua cheia reinando no céu estrelado, que mais parecia um bordado de pipocas cintilantes, Paulo de Julião demorou-se além da conta, ou seja, da hora que deveria chegar em casa, pois Julião tinha hora marcada para tudo, até para o filho chegar em casa, à noite, depois das sessões de cinema, do momento dançante, no Hi-Fi do Clube Eldorado, dos bate-papos com os colegas, dos espetáculos circenses ou das touradas que aportavam na cidade, quando era o caso. 

Naquela noite, a conversa entre os ginasianos fora demasiadamente acalorada. Política. Eleição municipal à vista. Aqueles alunos do Ginásio Padre Cabral não eram eleitores. Nenhum dos integrantes do grupo de bate-papo de Paulo de Julião tinha dezoito anos. Porém, não eram alheios às questões políticas, locais ou não. O grupo dividia-se entre os pró-americanos e os pró-russos. Então, alguns defendiam o governo militar e outros o combatiam. Entre eles, todavia, reinava a mais absoluta união, exceto no caso de Jorginho de Valter Gordo e Abelardo de Maninho Alfaiate, que, vez ou outra, batiam boca por causa de algumas meninas, que eles disputavam platonicamente, sem que elas lhes dessem bola. Eram, como todo o respeito, os babacas do grupo. 

Paulo de Julião era destemido para qualquer tipo de situação. Disso já tinha dado provas sobejas. Um dia, só para ilustrar, dois marmanjos armados com facas tentaram arrancar a bolsa de Dona Fatinha de Manoel de Juca, mas eis que Paulo, armado com uma retranca de janela, botou os dois para correr. Ao cabo do ocorrido, Dona Fatinha disse: “Este menino é peia. É do tipo que caga no sapato e não mela a meia”. O rapaz era, sim, destemido, menos para as coisas do além. Falasse em situações do outro mundo, do mundo dos mortos, e ele se afrouxava todo. Não tinha quem o fizesse assistir a um filme de terror. Os filmes de Drácula com Christopher Lee? Nem pensar. Olhar a cara de um defunto acomodado no pijama de madeira? Nem em sonho. Num daqueles anos, mais uma vez, rolou a conversa de que um lobisomem andava de corrida pelo Beco de Zuzinha, que era ponto de passagem de Paulo de Julião. Ele passou a encompridar o caminho, mas não atravessou mais o tal beco, ao menos enquanto durou a conversa. Aliás, conversas de corridas de lobisomens eram comuns. E havia até mesmo quem afirmasse que tivera um encontro com tais bichos bebedores de sangue. Contudo, rastro deles, pelos deles extraídos, ou fosse lá o que fosse em termos de provas, ninguém jamais mostrou. Porém, crença era crença, por mais absurda que fosse. 

Uns dias antes daquela noite, tinha falecido uma moça balzaquiana, na esquina do Beco de “seu” Dadá com a Praça João do Capucho. Paulo de Julião demorou-se, como já foi dito, na conversa acalorada com os colegas. Quem deveria ser o candidato a prefeito do atual prefeito, Joãozinho da Flor da Índia? Alguns dos rapazes achavam que quem o prefeito indicasse, ganharia folgadamente a eleição. Outros achavam que a oposição, formada pelos principais fazendeiros do município, tiraria, daquela vez, o poder de mando do prefeito, que contava com três mandatos, intercalados por dois prefeitos por ele indicados. Ao todo, pois, eram vinte anos de mando, somados os cinco mandatos. Joãozinho era do tipo populista, mas que procurava servir os mais pobres. Daí o seu mandonismo na política local. A maioria dos ricos o detestava. 

A conversa foi-se aprofundando. Naquela noite, o grupo contava com nove rapazes. Um deles era sobrinho de Totoinho do Salobro, pretenso candidato a prefeito pela oposição. Os dois grupos políticos da cidade eram da ARENA, o partido governista. O governo dos militares arranjou um jeito de controlar a maioria dos cargos eletivos, em todos os níveis, criando uma situação esdrúxula, que era a sublegenda: ARENA I e ARENA II. Nalguns lugares havia até a terceira sublegenda. Bastava que três grupos obtivessem um número mínimo tal de votos na eleição para a composição do Diretório Municipal. Assim, os militares conseguiam sufocar o partido oposicionista, o MDB, elegendo a maioria esmagadora dos prefeitos do país inteiro. 

Quando Paulo de Julião resolveu ir para casa já passavam alguns minutos da meia-noite. Despediu-se e tomou o rumo do subúrbio onde morava, logo depois da Praça João do Capucho. Atravessou a Rua da Mangueira, a Rua do Melão e a Rua do Xixi. Todas de chão batido. Na confluência do Beco da Cruz do Carira o vento fez um ligeiro redemoinho, levantando poeira e folhas secas. O rapaz assustou-se. Um calafrio tomou-lhe o corpo. Apressou o passo, olhando para trás a cada instante, sinal de medo. Enfim, chegou à Praça dos vinte e um eucaliptos. Alívio. Estava a alguns passos de casa. Ainda assim, não deixava de olhar para trás, como se alguém o estivesse seguindo.  

Ao atravessar a boca do Beco de “seu” Dadá, exatamente na esquina onde se situava a casa da moça há pouco falecida, Paulo de Julião olhou para o oitão da casa. As pernas tremeram. Ele quis gritar, mas o grito ficou preso na garganta. Quis correr, mas as pernas não responderam ao comando do cérebro. Encostada na parede caiada, eis que estava a morta lhe acenando com as duas mãos. Igualzinha como ela era. Ou quase. Vestida com um vestido marrom claro, mas, cadavérica. Ele pôde ver nitidamente o rosto sem cor de gente viva, que a pobre defunta apresentava, pois tinha virado assombração, alma penada. Nenhum sinal de viva alma por ali. Ninguém que lhe pudesse socorrer. E a defunta não parava de lhe acenar. Quantos minutos tinham se passado? Ele não atinava. Sentiu o suor frio, gélido, escorrendo da testa. A defunta lhe acenava com as duas mãos, como se estivesse lhe chamando para os seus braços. Lembrou-se, sabia-se lá como, mas, lembrou-se, de que, um dia, sua prima Gequinha, amiga em vida da defunta, lhe dissera que ela o achava bonito, um pão, como na época se dizia. Naquele instante, ela o chamava. Não deveria ser um bom sinal ser chamado por uma pessoa morta. E ela emitia uns sons de lamento, agudos, arrastados, como se estivesse sofrendo. 

De repente, como se algo tivesse desanuviado seus olhos, na parede caiada do oitão da casa da defunta, Paulo de Julião viu apenas a réstia dos galhos de um eucalipto balançando-se, naquela noite de lua cheia. E ele ouviu o sussurro do vento nas galhadas. Nada mais.  


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
03/12
09:54

Recibo de Galinhagem

José Lima Santana
Professor da UFS

Tarde invernosa aquela em que João Fuinha resolveu dar uma de macho arretado. Afinal, em que pesava o seu porte de graveto, um homem, largo de ombros ou murcho de muques, não deixava de ser homem. Naquela tarde chuvisquenta, um novo Davi enfrentaria um novo e malvado Golias.

Recuando um pouco no tempo, anterior àquela tarde, João Fuinha era um vendedor de louça de barro, que ele mesmo produzia juntamente com a mãe, Dona Corália do finado Petrônio Zambeta, e duas irmãs de menor idade. O pai falecera uns três anos antes, vítima de uma jararaca, que lhe picara à altura do calcanhar, no caminho do açude. Lugarzinho brejento, onde cobras pareciam brotar dos fundos da terra. Zeloso com a família, João tornara-se o homem da casa com a morte do pai. Tinha quatorze anos quando o pai se fora. 

João Fuinha tinha pela mãe verdadeira veneração. Mulher franzina de quem ele herdara o porte chocho, mas de uma fibra de fazer inveja a qualquer mulherão. E em relação às duas irmãs, Cordélia e Carolina, gêmeas de treze anos, o rapaz velava como um valente cão de guarda. 

Em Matão das Almas, cidade antiga, mas que adormecera no tempo, deixando que antigos povoados, como Mamoeiro e Candeias, lhe tomassem a dianteira em crescimento, vivia um tal de Tertino de João Cadú, sujeito de bofes ruins como a peste. Antigo capanga do coronel Benildes dos Pastos Novos, arruaceiro, acostumado a dar surras em pobres coitados, a desmanchar namoros e casamentos, para tomar mulheres alheias, contumaz deflorador de donzelas. “Um dia, ele há de achar um graveto que lhe fure os dois olhos”, disse Esmeralda de Toninho de Pedro Tinoco, cuja sobrinha perdera para ele, à força, os três vinténs.

Cordélia e Carolina voltavam da escola de Dona Maninha por volta do meio-dia e pouco, no comecinho do inverno, que prometia ser bom, para compensar os três últimos anos de seca verde, quando, no Beco de Tatá, que ligava as Ruas do Melão e da Pomba, eis que o famigerado Tertino de João Cadú apareceu atrás delas, riscando o chão com os cascos do cavalo alazão, que lhe servia de montaria, chovesse ou fizesse sol. E dirigiu-lhes a palavra suja nestes termos: “Oceis é tudo fulô no ponto pra conxambrar”. Amedrontadas, as meninas saíram em disparada. O valentão ficou a rir como uma hiena no cio. Risada debochada de capeta disfarçado de homem. 

As meninas disseram à mãe o que lhes tinha sucedido no Beco de Tatá. Dona Corália excomungou o coisa ruim. Preveniu as filhas que não voltassem mais da escola por aquele beco. Atravessassem a Ruas da Pimenta e do Cotovelo de Maria, caminho mais longo, mas muito mais seguro, cheio de gente o tempo todo. As irmãs também disseram a João Fuinha o que ocorreu. O irmão ouviu calado. Apenas acendeu um cigarro de palha com fumo bom de fogo. Fumo do velho Otacílio, que nunca negava fogo. Tirou umas baforadas. Olhou fixamente para as irmãs. Cuspiu longe. “Nada haverá de ser”, disse de si para si mesmo.

Não se passaram dez dias, e o arruaceiro passou a cavalo na porta de Dona Corália, que estava secando panelas de barro no terreiro, aproveitando uma manhã de sol, naquele começo de inverno. “Ô véia, tu num quer um macho só pra suas duas fia, não?”, indagou o debochado, ao que a mãe das gêmeas respondeu, colocando as mãos nos quartos: “Tenha vergonha, seu descarado!”. Nisso, o maldito botou-se para o terreiro e pisoteou muitas panelas, chegando a derrubar a pobre mulher com uma pesada. Dona Corália estatelou-se no chão, quebrando a munheca direita. O bandido deixou um recado: “Diga a seu fio, que parece um caniço de pescar, que se quiser conversa comigo, pra tratar do meu chamego com as duas fulô, que me procure no bar de Aloizio Boca de Caçapa”. 

João Fuinha chegou em casa no começo da tarde. O sol da manhã já se fora. Encontrou a mãe na cadeira de balanço com o braço na tipoia. As irmãs caíram em prantos ao ver o irmão. Duas mulheres, Lourdes de Manequinha e Odete de Floriano Costela Seca, faziam companhia às vizinhas. Uma delas narrou o acontecido, tin-tin-tin por tin-tin-tin, inclusive o recado deixado pelo celerado. João Fuinha não disse nada, além de perguntar se a mãe estava bem. Sim, estava. Dantinhas da Farmácia lhe dera uma injeção e fizera uma mistura de breu derretido com clara de ovos, para encanar a munheca quebrada. Sim, Dona Corália estava bem, embora o coração sangrasse. Temia pelas filhas. Que Deus não permitisse que elas caíssem no bico de urubu de Tertino. 

O tinhoso parecia ter feito morada no corpo de Tertino de João Cadú. Só podia ser, pensou João Fuinha. As irmãs ameaçadas. Duas flores desabrochando. Que jamais chegariam para o bico do carniceiro. Não enquanto ele, João, fosse vivo. A mãe naquele estado, arrebentada por uma pesada do vagabundo. As panelas quebradas. Dali vinha o sustento da família. Por uma situação daquelas, um homem perdia a cabeça, fazia uma desgraça e botava-se no mundo. 

João Fuinha sentou-se no batente da porta da cozinha. Acendeu um cigarro de palha. Fumo bom, queimando sem parar. Tão diferente do fumo de Antenor Biriba, que se apagava, tantas vezes o cigarro fosse aceso. Fumo ruim, uma lástima. Ruim como aquele cabra safado do Tertino. A mãe naquele estado, as irmãs amedrontadas. E as panelas. Um desaforo, que um homem não podia engolir. Mas, como enfrentar o valentão, o antigo capanga do coronel Benildes? Ele, João, era um tico de gente. Nunca usara uma arma, nunca brigara com ninguém, não tinha os bofes quentes como uns seus parentes da parte do pai, lá do Coração do Nêgo, povoado da beira do rio das Antas. 

Chamando uma das vizinhas, João pediu que cuidasse da mãe e das irmãs, se algo lhe acontecesse, logo mais. Porém, por ora, não dissesse nada a ninguém, nem à mãe, nem às irmãs. A ninguém mesmo. Ele confiava em Dona Lourdes, que era sua madrinha de fogueira de São João. Tomou da faquinha de ponta e de picar fumo. Era uma lâmina pequena, fina, mas muito afiada. Uma coisa daquela faria um estrago no bucho seboso de um cachorro sarnento do rabo fino. 

João Fuinha saiu de casa. Passos miúdos, mas firmes. Sabia que não era páreo para Tertino, um bandoleiro da pior espécie. Porém, não poderia passar recibo de galinhagem. Não haveria de se acovardar diante do valentão. Parou um instante. Enrolou um cigarro na palha de milho cortadinha. Fumo do bom. Tirou a primeira baforada. Sentiu um alívio. Se fosse vivo, o seu pai não faria diferente. A honra de suas irmãs não haveria de ficar na lama. Vingada, a sua mãe haveria de ser. Nunca mais alguém haveria de quebrar panelas no seu terreiro. Medo? Não, ele não tinha. Nem passaria um recibo de galinhagem, de covardia. Um homem de sangue no olho e tutano nos ossos. Era assim que ele se sentia. Era franzino, mas era um homem. Desde menino, ele ouvia dizer que graveto era que furava olho. Um chuvisco começou a cair. E foi aumentando. A chuva parecia lavar as dores do mundo. Resoluto, ele dirigiu-se ao bar de Aluízio. 
No dia seguinte, as pessoas ouviram os dobres do sino de finados, na Igreja Matriz. A cidade estava em paz. 


Coluna José Lima
Com.: 1
Por Kleber Santos
12/11
00:16

Maneco Bosta Seca

José Lima Santana
Professor da UFS

Sim. Era este o apelido de Manoel Correia de Souza, agente da Estação Experimental do Algodão, nos tempos em que o algodão era o ouro branco do sertão do Chorrochó. Algodão de qualidade não suplantável dentre todos os produtores era o de Julinho do Pau Ferro, seis vezes vereador e uma vez vice-prefeito de Curral dos Bois, cidadezinha em franco crescimento depois que a estrada de rodagem passou a poucas braças do começo do arruado, na entrada da banda do Sul da povoação. 

Julinho do Pau Ferro era cunhado de Maneco Bosta Seca, casado com a irmã deste, Dona Florinda, que lhe deu quinze filhos, todos vivos, graças a Deus, como se fosse um milagre, numa época e numa região onde os cemitérios enchiam-se de covas miúdas de anjos, como se dizia com os pequeninos que morriam aos magotes, atacados por doenças diversas, sendo as principais delas as que decorriam da água de beber sem nenhum tratamento. Água de tanques, barrenta, carregada de coliformes fecais e toda sorte de imundícies. Dona Florinda estudou até o ginásio e aprendeu a ferver e filtrar a água da cor de suco de maracujá, enlameada nos verões prolongados. 

Maneco Bosta Seca foi empregado na Estação por obra e graça do cunhado, o mais próspero plantador de algodão e o único dono de uma fábrica de descaroçar o referido produto. Além do algodão, a riqueza de Julinho provinha também da criação de gado bovino em três boas fazendas de criar. Ele tinha boas aguadas e extensa plantação de palma forrageira, para aguentar os rigores das secas prolongadas. Porém, os anos de bons invernos suplantavam os anos de estiagem. Mas, darei conta de Maneco. Este recebeu o em nada atrativo apelido nas bancas de jogatina. Numa noite em que ele estava ganhando uma bolada no bacará, começou a caçoar dos parceiros, a contar pabulagem, a sentir-se rico e soltou esta frase: “Do jeito que a sorte me quer esta noite, vou acabar deixando Julinho meu cunhado para trás no quesito riqueza”. 

Ao ouvir a eloquente frase de Maneco, Zé de João de Porfírio de Maria Rita esbravejou: “Fique calado, Maneco. Você parece bosta seca. Não fede, mas é bosta!”. Todos caíram na mais estrepitosa gargalhada. O próprio Maneco sorriu. Claro, a noite era sua. A bolada de dinheiro em sua frente, na mesa, assim o mostrava. Mas, apelido é como erva daninha: quando pega, não sai mais. Maneco Bosta Seca não saiu. Da jogatina, o apelido saiu para todas as bocas. Até o padre João Fagundes, tão circunspecto, o chamava de Manoel Bosta Seca. Jamais de Maneco. Por quê? Sabia-se lá! Cisma de padre velho. 

Julinho candidatou-se a prefeito. Querido por todos na cidade, na situação e na oposição, acabou sendo candidato único. Era a primeira vez que o município teria um único candidato a prefeito em mais de sessenta anos de emancipação. Dele diziam ser “algodão entre cristais”, tal era a sua postura de camaradagem, de saber acomodar confusões. Naquela eleição, Maneco Bosta Seca apresentou-se como candidato a vereador. Também ele era benquisto na comunidade. Provavelmente, teria eleição garantida. Nisso todos apostavam. 

Sendo uma eleição de candidato único a prefeito, o pleito transcorreu na mais perfeita normalidade. Nem seria preciso fazer comícios de povoado em povoado. Apenas um comício na cidade, nas vésperas do pleito, para animar os eleitores. Abdias Sanfoneiro foi contratado para fazer a festa. Naquele tempo, podia. Cada candidato a vereador faria um discurso de dez minutos. Tonho Martelinho, locutor do Serviço de Alto-falante Vera Cruz, era o animador do comício e o controlador do tempo da fala de cada candidato à Câmara Municipal. 

Cada candidato a vereador foi fazendo o seu discurso. Uns eram por demais hilários. Outros não diziam coisa com coisa. Apenas dois deles, jovens ginasianos, filhos de fazendeiros, falaram direitinho. Todos falaram dentro do tempo previsto. Enfim, chegou a vez de Maneco Bosta Seca. Àquela altura, muita gente já tinha bebido todas. Tudo, porém, transcorria em paz. Maneco deitou falação. No tempo certo, Tonho Martelinho deu aviso, puxando na camisa do candidato, que não deu por aquilo. Continuou falando. Quinze, vinte, trinta minutos. O candidato a vice-prefeito, Miguelão de Zacarias do Brejo soprou no ouvido de Maneco: “Tu tem que parar, Maneco!”.
 
Em resposta ao dito de Miguelão, Maneco sapecou: “Estão tentando me impedir de continuar falando. Pois é agora que a garapa vai azedar. Não me chamam de Bosta Seca? Nesta noite, a Bosta está fresca, fresquinha, fresquinha. E só vou parar quando a bosta secar”. Naquilo, um gaiato gritou no meio do povo: “Pare de falar, seu Bosta Seca de bosta. Sua bosta tá mais seca do que a minha goela, que tá precisada de um gole. Desça daí e venha pagar uma bicada pra gente, senão tu vai perder a bosta da eleição”. 

Maneco ainda falou por mais dez minutos, até que se deu por satisfeito. Desceu do palanque e tomou o rumo de casa, que pão-duro ele era. Pagar uma bicada para alguém? Nem pensar. 

A eleição transcorreu na maior normalidade. A contagem dos votos era feita na sede da Comarca, em Piedade. Na única Junta Apuradora, uma única mesa escrutinadora. A contagem dos votos começava pelos dois Termos da Comarca, a fim de liberar as pessoas, para que mais cedo retornassem às suas cidades. Na vez de Curral dos Bois, e contados os votos do único candidato a prefeito, o Juiz Eleitoral, Dr. Aristides de Souza Ramalho, proferia os nomes dos candidatos a vereador, voto a voto. Nas nove urnas eleitorais, a votação de Maneco Bosta Seca não passaria de uns votos pingados. Logo, não seria eleito. Na verdade, amargou um desastroso décimo sexto lugar dentre vinte e um candidatos, para sete vagas na edilidade municipal. 

Terminada a apuração, “seu” Valter Exator, que fez parte da Junta Apuradora, e era amigo de Maneco, disse-lhe: “Maneco, meu amigo, você vai ter que passar uma aguazinha na Bosta Seca. Ela está seca demais da conta e por isso os seus votos secaram.

O candidato derrotado respondeu: “Se passar uma aguazinha quiser dizer gastar dinheiro, a bosta vai continuar seca. E ademais, ‘seu’ Valter, bosta molhada fede”. 

Maneco Bosta Seca nunca mais quis saber de candidatar-se. Há mais de vinte anos, aposentou-se do Ministério da Agricultura. Mudou-se, então, para a capital sergipana, onde os filhos, formados, dois médicos e uma engenheira, residiam. Em Curral dos Bois ficou o apelido. Terça-feira passada, informaram-se que ele veio a falecer aos 96 anos de idade. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
05/11
13:00

Colégio Tradicional, Ensino Moderno

José Lima Santana
Professor da UFS

A educação tem sido um desafio ao longo dos milênios, tanto para os governos, quanto para os que se têm lançado no campo da iniciativa privada. Desde a Edubba sumeriana, tida por muitos estudiosos como a mais antiga instituição escolar formal, a educação vem desafiando os educadores. Sistemas de ensino surgiram e desapareceram ao longo dos séculos. De início, no Ocidente, a educação somente chegava aos nobres. Aos poucos, os governos foram se dando conta da necessidade de educar o povo ou parte deste. Camadas imensas da população por muito tempo não puderam pôr os pés numa escola, pública ou privada. Naquela, não havia vagas para todos; nesta, não tinham os pais suficientes recursos para custear o estudo dos filhos. Um dilema que se arrastou pelos tempos afora.

Na contemporaneidade, ou, como queiram, na época pós-moderna, especialmente da segunda metade do século XX para cá, muitas instituições de ensino foram surgindo no Brasil. Em Sergipe não seria diferente. Entre nós, em 1960, o Mons. José Carvalho de Souza houve por bem, e sob os auspícios da Arquidiocese de Aracaju, fundar o Colégio Arquidiocesano Sagrado Coração de Jesus, tão popular e carinhosamente nominado de ARQUI. Do Colégio Arquidiocesano saíram gerações de profissionais do maior respeito e da mais escorreita competência, nas mais diversas áreas, proporcionando inestimáveis serviços à sociedade sergipana. 

Nos últimos anos, o ARQUI passou e vem passando por mudanças no seu corpo administrativo e pedagógico, após a saída do seu fundador. No momento, por exemplo, apesar de especulações infundadas, ou de falas incompreendidas, mal interpretadas e distorcidamente divulgadas, o ARQUI está procurando se renovar. Na Unidade da Farolândia, diga-se de passagem, o Colégio está em franca expansão com a construção de novas e modernas salas de aula, para abrigar, em 2019, turmas até o 9º ano do ensino fundamental. Na Unidade do Centro, que vozes agourentas disseram que iria fechar, uma nova e moderna biblioteca está sendo aparelhada. Logo mais, e até o início das aulas no próximo ano letivo, será a vez da remodelação do ginásio de esportes, também no Centro. E assim por diante. Os investimentos continuarão em 2019 e 2020, dentro do planejamento que está sendo elaborado.

Enquanto “olhos vesgos”, que provocam “maus olhados”, anseiam pela derrocada do ARQUI, o Colégio fundado pelo Mons. Carvalho, agora entregue à gestão do padre Valtewan, com o apoio de todos que formam os corpos de coordenação, docente e administrativo, seguirá o caminho que foi traçado há quase seis décadas e que está sendo aprimorado, paulatinamente, para corresponder à confiança que lhe vem sendo depositada pelos seusinestimáveisalunos e respetivos pais. 

A luta dos últimos anos tem sido dura, mas firme e consistente. As dificuldades inicialmente enfrentadas pela atual diretoria vêm sendo vencidas com esforço e dedicação. Há, internamente, pontos a serem ajustados e, com certeza, o serão no menor lapso de tempo possível. 

Na parte pedagógica, ajustes continuarão a ser feitos, nas duas Unidades (Centro e Farolândia) com vistas a ensejar ainda mais o melhor aprendizado dos alunos como os pais almejam e os alunos merecem. O ARQUI prepara-se para continuar a atender os princípios da BNCC – Base Nacional Comum Curricular, que, como todos os leitores bem o sabem, é um documento oficial de caráter normativo que define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica (ensino fundamental e médio).

As adequações e inovações estão previstas para ser desenvolvidas no biênio 2019-2020. Depois das adequações legais a serem implementadas em 2019, no ano seguinte, ou seja, em 2020, por exemplo, o ARQUI estudará a possibilidade de ingressar no rol das escolas que trabalham com o sistemahigh school, para a dupla certificação de alunos do ensino médio, que assim o desejarem, bem como de trabalhar com o sistema de ensino bilíngue. São expectativas. 

Do mesmo modo, em 2020, buscar-se-á trabalhar com o sistema Bernoulli nas três séries do ensino médio, pois até 2019 trabalhar-se-á apenas na 3ª série, como se vem trabalhando nos últimos anos, por força de contratos anteriormente assumidos (antes da atual direção) com algumas editoras. E, se até lá, outro sistema de ensino parecer mais eficiente e adequado ao aprendizado dos alunos, o Colégio não medirá esforços para adotá-lo, mas, antes, consultando os maiores interessados, ou seja, os alunos e os pais, que desembolsam os recursos financeiros necessários para a educação de seus filhos. 

Também na prática esportiva, que, no passado, fez do ARQUI o grande campeão dentre todas as escolas públicas e privadas de Sergipe, o Colégio está encontrando novo rumo. Nas competições dos Jogos da Primavera, o ARQUI saltou do 12º lugar, em 2017, para o 7º lugar geral em 2018. Avançou 5 posições em apenas um ano. E assim será até ter de volta a hegemonia que lhe pertenceu. 
Como visto, o ARQUI não está inerte. Tem avançado. E irá avançar muito mais. Uma modificação estrutural mais ampla, no Centro, deverá vir mais tarde, modernizando suas instalações. São aspirações a serem concretizadas. 

O ARQUI continuará sendo a escola tradicional da família cristã sergipana, porém, com um sistema de ensino cada vez mais moderno. É assim que o ARQUI é. E é assim que o ARQUI continuará a ser, para prosseguirna formação de bons cristãos, honestos cidadãos e competentes profissionais do futuro. 

O ARQUI lutará, como tem lutado. E jamais se renderá. Continuará trabalhando com todo ardor ecom todo amor pela educação, em prol de seus alunos. 
 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
21/10
15:45

Cocô de elefante

José Lima Santana
Professor da UFS

Américo de Galdino Fontes era o tipo de sujeito metido a ser o rei da cocada preta, da morena e da branca. De todas as cocadas. Até mesmo da cocada baiana, que só Perolina fazia naquela cidadezinha morrinhenta. Américo era pabo, inflado de vaidade, a ponto de quase não pisar no chão. Ele parecia levitar levemente quando caminhava, apesar de ser grandalhão. De tanta pabolice era o sujeito cheio, que nele botaram o apelido de Cocô de Elefante. Apelido mais do que apropriado para quem era inflado de gabolices. 

Mas, quem era mesmo o tal Cocô de Elefante? Um sujeito que não tinha, a bem dizer, eira nem beira. O pai, porém, Galdino Fontes das Embiribeiras era um pequeno proprietário rural, dono de umas poucas, mas, muito boas, tarefas de terra e de um gadinho miúdo, que também se dedicava ao comércio ambulante de cereais nas feiras de três cidades: Matão de Dentro, onde morava, Tijuquinha e Pau d’Arco. Todas elas cidadezinhas poeirentas, largadas nos sertões da Bocaiuva.

Cocô de Elefante tinha se arrastado nos bancos escolares da professorinha Dona Amélia de Vicente Gogó de Ouro, tocador de rabeca e cantador de baiões e xaxados. Não passara, todavia, do segundo ano primário. Lia e escrevia sofrivelmente. Lendo, gaguejava mais do que Tito Gaguinho do finado Zacarias Pançudo. Como o pai, Galdino Fontes, era muito chegado a Manequinha de Belmiro Alagoano, e este Alagoano era mesmo nome de família, embora pernambucano ele fosse, foi concedido a Américo Cocô de Elefante o cargo de fiscal da Prefeitura. Nem os talõezinhos com os quais se cobrava as taxas de feira ele os preenchia de forma legível. Era, a bem dizer, um verdadeiro tabacudo. 

O cargo de Cocô de Elefante, no qual ganhava uma miséria, fora-lhe concedido nos fins dos anos 1950, quando um genro de Manequinha, da UDN, era o prefeito municipal de Matão de Dentro. Manequinha de Belmiro Alagoano era o chefe inconteste da União Democrática Nacional desde a instalação do partido no município. Era, portanto, um “cara-preta” legítimo de carabina e cartucheira. Nos idos dos 30, ele e dois irmãos assentaram lugar na Volante do tenente Isaías Cospe Fogo, que combateu Lampião de três estados. Era do tipo que não aguentava subacada de ninguém. Homem nenhum lhe fazia cócegas na política. Antes, fora getulista. Depois, tornou-se brigadeirista, eleitor do Brigadeiro Eduardo Gomes. Para ele, os homens de bem deviam andar armados, especialmente na roça, para enfrentar os bandidos que por ventura aparecessem, vindos de outras plagas. Afinal de contas, em Matão de Dentro bandidos tinham vida curta e sujeitos mofinos morriam de caganeira, ainda nos cueiros. Manequinha era belicoso, violento. 

Nas eleições de 1962, depois de muito tempo sem aparecer um adversário que ameaçasse o poderio de Manequinha, eis que um neto de Tertuliano Sampaio, finado já em pó transformado, engenheiro formado nas Minas Gerais, deu para meter a cara na política local. O avô, Tertuliano, homem de paz, mas, nem por isso, um zé mané, fora chefe da oposição a Manequinha, liderando o Partido Republicano, que, no estado, era eterno aliado do PSD. 

Jovem bem apessoado, funcionário público federal, lotado no DNOCS, Geraldo Mota Sampaio começou a arrebanhar jovens e adultos para a sua fileira. Manequinha, octogenário, mas, ainda com pulso forte, começou a sentir-se incomodado com a presença do engenheiro. “Ainda sou muito homem pra botar esse frangote pra correr daqui com as calças na mão”, disse o velho líder aos seus apadrinhados. Ocorre que o neto de Tertuliano Sampaio era também neto do Coronel Francisco Tenório, chefe político no interior das Alagoas e, mais do que isso, antigo chefe de jagunços, cuja linhagem vinha desde os tempos do Império, nas pessoas de seus diretos antepassados, o Barão da Boa Morte, o Coronel Peregrino Tenório, que, um dia, fechou à bala a Assembleia Legislativa, em Maceió, e do também Coronel Aristides Tenório, este coronel da Polícia Militar alagoana, e não coronel de patente comprada da antiga Guarda Nacional. Portanto, peco Geraldo Sampaio não era. Descendia, pois, de boa ninhada.
 
Por onde anda Cocô de Elefante? Teria sumido no oco do mundo? Não, não e não! Ei-lo de volta à narrativa. Numa sexta-feira, véspera da feira semanal de Matão de Dentro, após duas semanas em que Geraldo Sampaio instalara-se de vez na cidade, arranchando-se na casa da avó viúva, Dona Terencinha Sampaio, e de ter aberto noutra casa da avó a sede do Partido Republicano, Manequinha de Belmiro Alagoano convocou uma reunião dos seus apaniguados. Estava chegando a hora de dar uma lição no doutorzinho. O plano era simples. Alguém iria à tal sede do partido opositor para desferir uns tiros para o alto, desmantelando algumas telhas e botando os da corriola do engenheiro para correr. Pensava Manequinha que apenas uns tiros fariam Geraldo Sampaio encolher o rabo entre as pernas e voltar para a capital, para cuidar da mulher e dos dois filhos. 

Manequinha escolheu logo quem para executar o serviço? Sim, ele mesmo: Cocô de Elefante. Afoito, cheio de si, a própria empáfia em pessoa. Um servicinho daquele era moleza e, ainda por cima, lhe daria crédito de montão junto ao chefe. Ah, mas olheiros os há em todos os lugares! Pois não era que Geraldo Sampaio tinha um olheiro infiltrado nas hostes de Manequinha? O plano lhe fora passado tin-tin por tin-tin. O serviço sujo do qual Américo de Galdino Fontes fora encarregado era para ser executado no sábado, por volta das dez horas, quando a feira estaria no auge. E a sede do PR ficava na Praça do Comércio, local de maior atração da feira. 

No horário combinado, Cocô de Elefante dirigiu-se à sede do PR. Portava na cintura um três-oitão canela seca carregado até a boca. Alguns paus-mandados de Manequinha ficaram aperuando ali por perto, para ver o rebuliço. O rei de todas as cocadas aproximou-se da calçada. Meteu a mão na cintura por baixo da camisa. De dentro da casa para a calçada, uns vinte homens surgiram, à frente o engenheiro Geraldo Sampaio, armados até os dentes. Cocô de Elefante parou. Tremeu. Gaguejou. Mijou-se e cagou-se todo. 

Américo de Galdino Fontes não passava mesmo de um cocô de elefante. Só tinha tamanho.

As eleições daquele ano, 1962, botaram por terra o mandonismo de Manequinha de Belmiro Alagoano. A paz reinou em Matão de Dentro. 


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
14/10
15:16

O Dia D: 28 de Outubro

José Lima Santana
Professor da UFS

Vem aí o segundo turno das eleições. Para a Presidência da República, os dois candidatos escolhidos pelos eleitores despontam nas pontas, nas extremidades políticas à direita e à esquerda.  E isso causa uma divisão acentuada entre os eleitores. Os extremos vão ao embate. Desde o início da campanha, no primeiro turno, as mídias sociais encheram-se de rivalidades e, até certo ponto, de ódio. Os seguidores dos dois lados que despontavam na dianteira e que acabaram se confirmando para a disputa no segundo turno trocaram farpas, enfrentaram-se, discutiram, debocharam uns dos outros, tendo por ponto central as figuras dos dois candidatos, o do PSL e do PT. 

Na eleição de 2014 também ocorreu uma divisão muito nítida entre os eleitores. Todavia, agora, o acirramento tornou-se muito maior. Há até mesmo laivos de ódio entre alguns seguidores dos dois candidatos, por vezes alimentados por atitudes dos próprios candidatos ou de seus apaniguados mais próximos. 

Nas ruas, a violência, embora em casos pontuais, começa a ser atiçada por conta do acirramento advindo das mídias sociais, dos palanques etc. Evidentemente, há moleques, bandidos, que se aproveitam da situação para dar vazão aos seus instintos animalescos. E bandidos devem ser tratados como tais, no rigor da lei. Não é admissível que a violência possa ganhar as ruas por conta da eleição. Os próprios candidatos devem posicionar-se firmemente contra todo e qualquer tipo de violência. Devem admoestar os seus eleitores. Devem, eles próprios, conforme o caso, conter-se em certas situações. Devem dar exemplos. Devem ser espelhos. Talvez, um mais do que o outro. 

O próprio mercado, no que tange às expectativas em torno da economia, está em sobressaltos. O mercado é conservador, impelido pelo neoliberalismo econômico, e precisa de segurança, de confiabilidade. Um candidato atende mais do que o outro às esperanças do mercado. Porém, este mesmo não tem propostas seguras para a área econômica. O mercado, então, fica “nervoso”. As operações na Bolsa de Valores e o câmbio não se estabilizam a contento. 

O que podem os brasileiros esperar em caso da vitória de um ou de outro candidato? De um lado, alguns temem o retorno do PT. Do outro, temem a instabilidade que poderá advir do PSL. Estaremos num beco sem saída? Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come? Que situação terrível! Qual o menor dos males? Haverá um mal maior e outro menor? 

Vamos esperar o Dia D. O que sairá das urnas poderá ser um filhote de bacurau com pernas de girafa e cabeça de mosquito. Ou outro bicho não muito diferente disso, se for do outro lado. 

Há, ainda, os temores de uma retomada do autoritarismo por parte de um dos candidatos. Autoritarismo de direita e de cunho militar. Mas, do outro lado, há também o temor do mesmo autoritarismo, embora sob outro viés com o aparelhamento cada vez maior do estado por parte de um partido, que, segundo alguns, não tem planos de governo, mas, sim, de poder, como, aliás, um de seus membros condenados por atos de corrupção, apregoou recentemente, obrigando o candidato do seu partido a desmenti-lo. Meu Deus! Dois rumos incertos. Numa verdadeira encruzilhada é onde nós nos encontramos. 

Os dois candidatos tendem a dizer coisas que nunca cumprirão. Dirão apenas para “encantar” os eleitores. Para seduzi-los, cantando o canto da sereia. Que os eleitores possam se acautelar a exemplo de Ulisses, na Odisseia, que se amarrou ao mastro do navio para poder ouvir o canto da sereia sem correr riscos de atirar-se às profundezas do mar sem fim, para nunca mais voltar. Quanto a nós, brasileiros, não devemos cair nas águas dos mares da quimera, que nos querem afundar. 

O Brasil precisa de rumo. Precisa de quem possa nos tirar dessa situação caótica em que nos encontramos, a partir do equilíbrio das contas públicas, cujo déficit beira a 80% do PIB (produto interno bruto). 

O mundo está de olho no Brasil. E o Brasil deve estar de olho no mundo. Mas, nós eleitores devemos estar de olho em quem? 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
07/10
17:54

5 DE OUTUBRO

José Lima Santana
Professor da UFS

Ontem, dia 5, o Brasil comemorou, ou deveria ter comemorado (?) os 30 anos da Constituição Federal. 5 de outubro de 1988. Para o saudoso Ulisses Guimarães, a Carta trintona é a “Constituição Cidadã”. Por um lado, sim. Por outro, não. Afinal, em que pese os muitos avanços em termos de direitos individuais e sociais por ela assegurados, muitos também foram os privilégios que ela abarcou, sabe-se lá o porquê, graças às negociatas entre os senhores constituintes, muitos dos quais nada mais, nada menos, do que “velhas raposas”, da velha política, que parece não passar jamais. Não passa a velha política, nem morrem as “velhas raposas”. Ou algumas delas não morrem, não largam o poder. Ao contrário, tais e quais vermes que comem a madeira carcomida, devoram os carcomidos cofres públicos, que não conseguem guardar, para o uso devido, os nossos suados recursos financeiros, com os quais contribuímos para a efetivação de obras públicas e para a regular e boa prestação de serviços públicos. Ou assim deveria ser.

Constituição Cidadã ou Constituição Cortesã? Há quem sustente a primeira forma. E também há quem defenda a segunda forma. Uma cortesã das mais alcoviteiras. É o que dizem alguns, que enxergam na Constituição uma provedora de privilégios desenfreados.

Bem. Não quero desapontar uns ou outros. Cidadã ou Cortesã, pouco se me dá. A Carta de 1988 é a nossa sétima Constituição (1824, 1891, 1934, 1937, 1946, 1967 e 1988). Há quem insista em dizer que seria a nossa oitava Constituição, pois estes levam em conta a Emenda nº 1/1969, à Carta de 1967, que alterou a maior parte dessa Constituição. Eu prefiro ficar com a sétima. Não reconheço uma Constituição em 1969.

Quando eu comecei o curso de Direito, em 1977, a Carta de 1967 tinha recebido a sua sétima emenda constitucional. Sete emendas em 10 anos. Um absurdo. Nós a tínhamos como uma colcha de retalhos. Era como dizíamos na Faculdade de Direito da UFS. Ocorre que em 10 anos, até outubro de 1998, a Carta atual recebeu nada mais do que 19 emendas, quase três vezes mais. E, passados 30 anos, aproximam-se as 100 emendas. Um absurdo! Uma vergonha! Constituição Cidadã? Se, deveras, o fora, já não o é mais.

No momento, há quem defende a manutenção da atual “colcha de retalhos”, mas, há quem defende a convocação de nova Assembleia Nacional Constituinte. Sinceramente, não sei dizer, de repente, qual deve ser o caminho a ser trilhado. Continuar com a que aí se arrasta, ou promulgar nova Constituição? O que perderíamos? Ou o que poderíamos ganhar? Uma coisa é certa: do jeito que a situação vai, haveremos de ter a Constituição mais emendada do mundo. Talvez.

Estamos no ocaso da campanha eleitoral deste ano. Amanhã, iremos às urnas. Os diversos candidatos à Presidência da República falam em reformas: política, tributária, previdenciária etc. Reformar o estado, eis o que deve ser feito. Reformar as estruturas do poder. Reformar o serviço público, acabando ou minorando o aparelhamento do estado pelos partidos políticos que chegam ao topo do poder ou ajudam a chegar, a fim de fazer-se a pilhagem do butim.

Pobres cofres públicos nos quais as impressões digitais de muitos se sobrepõem ou se misturam nervosamente. Maliciosamente. Indignamente. Dos cofres, raspam o tacho. E muitos apaniguados dos poderosos corruptos os defendem de todos os lados. Como queremos mudar este país? Quando o haveremos de mudar?

Teremos de levar a sério este país do qual se disse que não era um país sério. Continuaremos a não ser um país sério?

Ao festejarmos (se é que temos motivos para tanto) os 30 anos da nossa Constituição, deparamo-nos com a mais atípica das eleições. Eleições com opções de extremos. Para onde poderemos ir? Para onde iremos de verdade?

5 de outubro já se foi. Agora, é esperar amanhã, ou seja, 7 de outubro. O que sairá das urnas? As pesquisas têm razão? Esperemos. Que Deus nos acuda!


Coluna José Lima
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Por Kleber Santos
29/09
12:51

O tão esperado Sermão do Padre Nabuco

José Lima Santana
Professor da UFS

Alecrim do Agreste respirava ares de expectativa há cerca de seis semanas. Estava para acontecer aquele que seria o maior evento religioso da cidadezinha poeirenta e empoeirada. Emancipada de Cruz da Serra não faziam dois anos, o primeiro prefeito era o farmacêutico João das Timbiras, aplicador de injeções que acabaria dono do arremedo de farmácia da novel cidade. Não havia ainda uma rua sequer com pavimentação. No melhor dos casos, a pracinha onde mal e mal se sustentava a igrejinha local, dedicada a São Raimundo Nonato e onde celebrava missa uma vez por mês o padre Afonso Xavier, da paróquia de Nossa Senhora do Desterro, em Cruz da Serra, era piçarrada. São Raimundo Nonato era curato daquela paróquia. 

O padre Afonso era diligente, zeloso com as coisas sagradas, querido por toda a comunidade da qual ele era o guia espiritual: Cruz da Serra, Alecrim do Agreste, Cipó de Miroró, outra cidadezinha emancipada por força de junções políticas, e nada mais, além de um sem número de povoações miúdas, médias e grandes, algumas destas esperando também o dia da sonhada emancipação. Em número de almas, o padre Afonso era o guia espiritual de umas 30 mil ou mais. 

No Seminário do Recife, o padre Afonso fora colega de um jovem cearense de nome Francisco Viegas Nabuco, um galego de cabeça chata, que mais parecia uma abóbora de leite suspensa sobre um pescoço atarracado e que mais parecia um cepo de baraúna. Desde cedo, o seminarista Nabuco revelou-se um profundo estudioso do livro santo e dos compêndios filosóficos e teológicos. Era de uma inteligência fulgurante. Tinha uma oratória vibrante, voz de trombeta bem postada, que ressoava pelo mundo afora, varando portas, janelas e frestas de telhado. Uma vez ordenado, o padre Nabuco, como ficaria conhecido, era convidado para pregar em várias paróquias da Diocese de Matão de Dentro e de várias outras dioceses, inclusive de fora do estado. Um orador que arrebatava as multidões. 

Pregação do padre Nabuco era sinônimo de ensinamento bíblico do maior quilate, trazido para a realidade da vida, para o cotidiano das pessoas, que se deixavam tocar por tão auspiciosas lições. Através da Rádio Vale do Sol, o padre Nabuco esbanjava conhecimentos aprofundados da Bíblia, amarrando cada um deles na vivência das pessoas. Nas festas dos padroeiros e das padroeiras a presença do padre Nabuco superlotava as igrejas e seus arredores, pois, não havia igreja por maior que fosse que pudesse absorver tamanhas multidões. E os sermões nas missas solenes arrancavam lágrimas dos fiéis mais contritos. Até autoridades dos governos não se continham, algumas delas recebendo na carapuça as palavras de fogo do padre. 

Conta-se que um determinado governador caiu em prantos quando o padre com aquele vozeirão que Deus lhe deu, olhando diretamente no rosto afogueado da autoridade estadual, disse: “Como pode um homem público, que se diz cristão, que conhece a palavra de Deus, diante de uma seca inclemente como a que estamos sofrendo neste momento, ter a coragem de festejar seu aniversário na capital do país, levando com ele um séquito fenomenal, ao invés de estar de calças empoeiradas, de mangas arregaçadas, ao lado do sofrido povo, cujos destinos Deus lhe confiou? O que tem uma autoridade dessas a dizer a Deus, quando para junto Dele for, a fim de ajustar as suas contas? O que haverá de dizer no juízo final? Que socorreu o povo martirizado pela sede e pela fome? Ou que deu as costas ao povo, para brindar com cálices de fino cristal, bebendo, ao invés de vinho, o suor e o sangue do seu povo?  Teria o governador chorado de remorso ou de raiva? 

Assim era o padre Nabuco. Despachado. E, apesar de toda a erudição de que era dotado, na paróquia a sua caminhada era ao lado do povo inteiro, mas, com predileção por trabalhar junto às comunidades mais carentes. Aliás, alguns desafetos lhe acusavam injusta e descabidamente de “padre melancia”, ou seja, verde por fora e vermelho por dentro. Isto é, diziam que ele era comunista. Um homem de Deus, cuja vida era para servir à Boa Nova do Senhor Jesus Cristo. Como bem o disse São Tiago, o padre Nabuco era vítima da inveja e das rivalidades. Até dentro do próprio clero. Porém, assim mesmo é a vida. Até Jesus fora escorraçado de algumas comunidades daquele tempo e acabaria pregado numa cruz pelo conluio entre os judeus e os romanos. O seu sacrifício, contudo, era para salvar a humanidade, embora os seus algozes não o soubessem. E muitos ainda hoje não sabem ou refutam. 

Era domingo. Dia da festa do padroeiro, São Raimundo Nonato. Alecrim do Agreste amanheceu engalanada. As ruazinhas tortuosas foram enfeitadas com bandeirolas. Um pequeno, mas muito bem caprichado tapete de flores do campo decorava a frente da igrejinha que mal e mal se sustentava de pé, tão carente que era de reforma e ampliação. A missa solene seria às 10 horas, o horário de praxe. A celebração seria na própria pracinha, tal era a multidão que, desde cedo, acorreu à missa. Em frente ao improvisado altar, muito bem arrumadinho, como as velhinhas do apostolado da oração primavam em fazer, cadeiras foram reservadas para as autoridades. Prefeitos das redondezas eram esperados. Dois ou três deputados também. Um secretário de estado representaria o governador. O juiz e o promotor da comarca de Cruz da Serra ali estariam. 

O padre Nabuco estava na cidadezinha desde a noite anterior. Um Jeep empoeirado o trouxera. Beatos e beatas portando objetos sacros esperavam pela bênção do padre Nabuco. Às dez em ponto, deu-se início à celebração. Na pracinha, um silêncio abismal. Ali estava o orador sacro mais afamado. De estatura mediana, agalegado, quase roliço, olhinhos vivazes. Um dia para ser lembrado por todo o tempo. Uma bênção dos céus para a cidade e para aquele povão todo, que ali se comprimia. Batizados e casamentos seriam celebrados após a missa. Um momento inesquecível na vida religiosa daquela gente. A expectativa era muito grande. Todos estavam atentos, esperando a hora do sermão, que, pelo que se ouvia dizer, haveria de ser o mais belo sermão proferido naquela terra ressequida. 

O padre Nabuco iniciou a celebração em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. A missa transcorreu sem sobressaltos. Cantos de penitência e glória. Oração do dia. Liturgia da palavra. Primeira leitura, salmo responsorial, segunda leitura. O alto-falante da Prefeitura com quatro bocas, devidamente consertadas, transmitia a missa. O som estava uma beleza. Como o evento sagrado merecia. Após o canto de saudação ao Evangelho, o padre Nabuco dirigiu-se ao ambão. Fez a proclamação. Silêncio. Expectativa. Ansiedade. Enfim, chegara o momento tão esperado: o mais belo sermão que, seguramente, aquele povo de Deus haveria de ouvir. O pregador disse: “Meus irmãos e minhas irmãs. Meu eminentíssimo irmão no sacerdócio e velho companheiro de Seminário, padre Afonso...”.

O padre Nabuco vacilou. Segurou o ambão com a mão direita, o microfone caiu da mão esquerda, e ele próprio tombou. Estava morto. Ninguém sabia, nem ele mesmo, que o seu coração andava por uma peinha de nada.  


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
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