17/09
13:44

A Santa Sé

José Lima Santana
Professor da UFS

Minervina de João de Zé de Tintilo andava agoniada. Não sabia como sair-se da situação vexatória na qual acabou se metendo. Sufoco! Como resolver aquela situação? Teria que apelar ao padre Afonso? Não lhe passaria ele uma descompostura? Não a faria cumprir a promessa assim mesmo como ela a fizera? Se fosse o padre anterior, João Bosco, a situação poderia ser contornada a contento. Ele a conhecia havia muito tempo, antes mesmo de ter ido oficiar ali, quando era pároco de Barro Alto e lá ela morava, casada de novo. Depois, a família se arranchou nas Cajazeiras de São Raimundo Nonato e uns três anos depois eis que o padre João Bosco para ali foi transferido. Durou um lote de anos. Coitado! Morreu do coração. Não tinha ainda sessenta anos de idade. Gordo que fazia gosto. Doentinho que fazia dó. Morreu dormindo. 

O padre Afonso, um galegão danado, tinha fama de brabo. Era um bom padre. Sabia pregar o Evangelho como poucos. Mas, era dado a dar broncas nas pessoas que não se comportavam direito na igreja e na vida. Não media palavras. Nem para tanto mudava de batina. Com ele, era pau, casca! Não tinha lero-lero. Como, então, Minervina iria pedir uma solução para o problema que a afligia, há uma semana? Porém, não tinha jeito. Teria que apelar para o bom senso do pároco. Iria a ele, sim. E fosse o que Deus quisesse. 

Domingo, dez da manhã. O padre já tinha celebrado a missa matinal. Estaria em casa, refestelado na cadeira de balanço com um livro nas mãos. Era o que ele mais fazia em casa. Ler. Lia como um desvalido. Devorava mais livros do que todas as traças do mundo, juntas. Dona Izabel, a irmã, estaria nos afazeres da cozinha, ajudada pela preta Maria Fulô, octogenária, ama de leite do padre, a quem ele chamava de mãe. A mãe do padre, Dona Virgínia Mendes de Souza Fontes, viúva do coronel Augusto César de Souza Fontes, que tinha patente comprada da Guarda Nacional, morreu quando o padre completou doze anos. O pai lhe faltou quando ainda estava nos cueiros. O chifre de um boi assassino lhe varou o coração. O coronel, antigo dono de um festejado banguê, que acabou de fogo morto, tornou-se próspero criador de bom gado de corte e era dado à brincadeira das vaquejadas. Morreu numa delas. 

A negra Maria Fulô nasceu na senzala do pai do coronel Augusto, mas de ventre livre. Jamais saiu do serviço do pai e, depois, do filho. Era uma serva, para não dizer escrava. Nunca recebeu um tostão furado de salário. Era bem tratada. Mas não passava de uma serva. Ama de leite. Se o padre a tinha em grande condição, ela o tinha mais ainda. O padre era o seu bebê. O filho que nunca teve. E desde a morte de Dona Virgínia, ela, Maria Fulô, dele cuidou como um filho verdadeiro. Melhor mãe, com todo o respeito a Dona Virgínia, o padre não poderia ter. 

Minervina de João de Zé de Tintilo tomou o rumo da casa do padre. Levou debaixo do sovaco um capão de bom peso. Um mimo para Dona Izabel, que era uma santa. Uma joia rara, tão diferente de gênio em relação ao irmão padre. Um doce de pessoa. Um anjo de candura. Dona Izabel era madrinha de batismo de um neto de Minervina. Não eram, pois, pessoas estranhas. 

Naquela manhã de domingo, chovia. Era o mês de setembro. O inverno se prolongava, esticava os braços e fazia cair boas pancadas de água. Bateu na porta. Toc-toc-toc. Acudiu-lhe Maria Fulô, arrastando os chinelos. “Dona Maria Fulô, eu preciso ter um dedo de prosa com o padre Afonso. Ele está não está? Eu o vi entrando agorinha mesmo”. Ele estava. Resmungando, como era próprio de certas pessoas com idade avançada, a negra velha desapareceu no corredor da casa, por trás da cortina, que separava a varanda do resto da casa, seguida por Minervina.

Minervina fez uma promessa a uma santa que ela desconhecia, a não ser pelo nome. O nome mais curto de uma santa que ela já tinha ouvido falar. Prometeu soltar duas dúzias de foguetes em frente à igreja onde a santa tivesse a sua imagem, caso a sua gata angorá de estimação ficasse boa de uma doença que lhe fizera cair o pelo, deixando-a igual a um bruguelo de passarinho. Poucas semanas depois a gata voltou a ter pelos. Um milagre! Ocorria que ela acabou descobrindo por uma neta estudiosa que a santa em questão somente podia ser encontrada na cidade do Papa, em Roma. Minervina não tinha dinheiro suficiente para ir à Cidade Eterna, a fim de pagar a promessa feita. Eis o que ela precisava arrancar do padre Afonso: que a dispensasse de cumprir a promessa feita, ou permitisse fazer a troca da promessa por outra em melhor condição de cumprimento. Que angústia! Que tormento! 

O padre a recebeu na sala de leitura. Sem rodeios, Minervina lhe contou acerca da promessa e falou da enorme dificuldade para cumpri-la. O padre ouviu toda a conversa no mais absoluto silêncio. “Acabou, minha senhora?”. Tinha acabado sim. Uma promessa feita a uma santa distante. Ela não tinha meios que lhe possibilitassem sair dali para a cidade do Papa. Bem que ela gostaria de vê-lo! 

O padre Afonso indagou que santa era aquela, pois Minervina ainda não tinha declinado o seu nome. “É Santa Sé”, respondeu ela. O padre, de cara sempre fechada, explodiu numa gargalhada, que deixou Minervina em pedaços. Refeito, o padre desculpou-se e disse: “Minha santa mulher, de onde a senhora tirou esta ideia? Quem lhe disse que a Santa Sé é uma santa a quem se possa fazer promessa? A Santa Sé não é a representação de uma mulher piedosa que foi canonizada, como Santa Terezinha do Menino Jesus, Santa Rita de Cássia e tantas outras que nos servem de modelo em face de suas vidas dedicadas ao amor de Deus, ao Evangelho de Jesus Cristo, servindo aos irmãos e às irmãs das mais diversas maneiras. Não, não, não! A Santa Sé assim chamada é a representação do governo central da Igreja Católica, que fica na Cidade do Vaticano, governada pelo Papa. A senhora não sabia disto?”. 

Pobre Minervina! Sabia nada. Ela ouvia, no rádio, que muita gente estava acorrendo à Santa Sé, para pagar promessas. Só isso. E fez a sua promessa, para a cura da gata angorá, que ficou curada. 

“Quem curou a sua gata, minha senhora, foi a sua fé. Deus volta o seu divino olhar para os seus filhos e filhas que Nele depositam a sua confiança, a sua fé. A senhora pode queimar os seus foguetes em frente à Matriz, sem problema. A promessa estará cumprida. Que Deus lhe abençoe!”.
Minervina voltou para casa aliviada. E dobrou a queima dos fogos. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
03/09
18:14

José Lima Santana - O prefeito Popó Tomate

 

José Lima Santana - É padre, advogado e professor universitário

 

            O prefeito Porfírio Canuto de Medeiros e Silva, vulgo Popó Tomate, cabra avermelhado tal e qual um tomate maduro, conseguira, com um deputado federal, uma “máquina de abrir estrada”, como ele dizia. Ora, não era pouca coisa, na década de 1960. E para um município de não mais do que cinco mil habitantes, era um estrondo. Municípios muito maiores, ao redor de léguas, não tinham uma bichona daquela. Uma geringonça danada de grande e barulhenta. O deputado Chico Queixada era compadre de Popó Tomate. E, antes, o prefeito fora seu capataz na fazenda “Flor de Alecrim”, um mundaréu de terras de perder de vista, lá pras bandas do sertão das Aguilhadas.

            Popó Tomate tinha também seus bons beiços de terra. Vereador em cinco legislaturas, vice-prefeito e prefeito. Em breve, sairia para deputado estadual com o apoio do compadre e ex-patrão. Contava aí uns sessenta e poucos anos de estrada. Tortuosa estrada para uma vida não menos tortuosa. Tempo houve em que Popó Tomate foi homem de pistola e punhal, como seu pai, Terêncio de Medeiros e Silva, Terencinho de Tibúrcio, e seu avô, Tibúrcio de Medeiros e Silva, que atendia pela alcunha de Tibúrcio Morte Certa. Tempo passado. Tempo das tocaias, dos ajustes de contas, da mão forte e endiabrada, ditando leis à base do pau de cuspir fogo. Tempo em que os trabucos incendiaram o sertão. Tempo distante. Para alguns, tempo esquecido.

            Popó Tomate, a muito custo, tornou-se um homem civilizado. Até missa ele assistia todos os domingos. Regenerado. E era com fervor que ele dobrava os joelhos diante do Santíssimo Sacramento. Com fervor e arrependimento. Os padres podiam contar com ele, nas precisões da Matriz. Era um sujeito dado a servir ao povo, aos mais pequeninos, aos judiados pela vida. Naquilo, naquela serventia popular, ninguém poderia lhe pôr um olhar de soslaio em desaprovação. E não servia apenas com o dinheiro dos cofres públicos, não. Quando era preciso, metia a mão no bolso, onde não se escondia nenhuma cascavel, como era o caso do seu opositor, Fabrício Guedes, que era mão de figa. Dona Senhorinha, a primeira-dama, reclamava que o marido haveria de morrer sem eira nem beira. Exagero. Ele tinha bens de sobra, como remediado, para deixar em inventário e confusão.

            O prefeito de Cipó de Miroró não cabia em si de tão contente. Uma máquina! O compadre deputado federal, antigo patrão, dera-lhe um adjutório de fazer inveja aos prefeitos de Lagoa Seca e Pastos Novos, Valdemar Nanico e Melquíades do Boqueirão. Cidades grandes. Ainda assim, ele, Popó Tomate, botou-os no chinelo. A patrol chegaria dentro de uma semana. Bichona taluda. Parecia um esqueleto de alguma coisa braba, fornida no ferro. O deputado mandara um folheto com a cara da bichona estampada. O folheto correu os bares e as ruas. Passou de mão em mão entre os feirantes. Um sucesso. Haveria de ser um papouco danado. Festa. Festança. A banda de pífanos de Maneca Zureinha já estava contratada. Melhor não havia nas redondezas. Foguetório. Haveria muitos foguetes espoucando nos ares. Foguetes de três tiros e uma resposta, que era o tiro mais forte, o derradeiro. Um ribombar de estremecer o céu.

            O equipamento a ser recebido merecia festa. O compadre deputado merecia festa. A cidade merecia festa. No sertão inteiro não havia uma bichona daquela. Somente em Cipó de Miroró. Haveria um acompanhamento com os poucos carros, jipes e rurais, existentes na cidade, menos o de Fabrício Guedes, opositor do prefeito, e três outros de seus lambe-botas. Cavaleiros à vontade. Bicicletas, muitas. Um furdunço, um furdunço! As ruas estavam enfeitadas com bandeirolas como se fosse São João.

            E eis que, no dia aprazado, a “máquina de abrir estrada” chegou. Amarelona. Grandona. Bufando mais do que a serra da serraria de Marcelo Palito. Muito, muito mais. Ao volante, o próprio Popó Tomate, que tomara lições na capital, na revendedora da Caterpillar. Lâmina levantada, lá vinha a patrol de Popó Tomate. Ele vivia o dia mais feliz de sua vida como prefeito. O deputado Francisco Rodrigues de Melo Prado, o Chico Queixada, não pudera comparecer à festa. Brasília pegava fogo e ele precisava estar por lá. O presidente da República tinha sido botado para correr do país. Uma lástima! Os militares tomaram o poder de assalto. A panela fervia. O mundo da política estaria incerto, mas Popó Tomate estava alheio a tudo aquilo. A sua imensa alegria contagiava a cidade. O vereador Robertinho Beiço Mole torceu a cara, assim que Popó Tomate e seu séquito passaram em frente ao seu bar. Robertinho era o líder da oposição na Câmara Municipal, embora fosse concunhado do prefeito. Um familiar desviado.

            Passando em frente à casa de Maria Benta do finado Brício Matoso, a velha gritou a plenos pulmões: “Ô Popó, meu fio, tu tá mais alegre do pinto no lixo!”. A fala da velha, fiel eleitora do prefeito, soou como um tiro de escopeta que nunca fora disparado. Naquele instante, Popó Tomate tombou sobre o volante da bichona. A patrol desgovernou-se, fez um zigue-zague, andou uns poucos metros, deu uns “tuncos” e parou. Popó Tomate estava morto. O coração não aguentou o rojão de tamanha alegria.

 



Coluna José Lima
Com.: 0
Por Eugênio Nascimento
27/08
17:06

A viúva de Zé de Tibertino

José Lima Santana

Morreu. Zé de Tibertino do finado Vavazão das Caraibeiras acabara de bater as botas. Morreu sem quê nem pra quê. De repente. E nem doente estava. Ou era o que se pensava. A morte que vinha ligeira, num piscar de olhos, tinha por trás si alguma coisa. Ninguém morria por acaso. Não sem mais nem menos. Tudo na vida tinha um quê e um por quê. E não adiantava ficar de trololó, de conversê por ali ou acolá. “A morte quer uma desculpa”, vivia a dizer e repetir Dona Mocinha Zanôia, viúva de Totoinho do Farelo. Não, ela não estava certa. A morte nunca quis uma desculpa. Ela simplesmente fazia a sua faxina. Era duro ter que falar assim, mas era exatamente assim que falava Pedro Corcunda, poeta repentista e maior filósofo popular do agreste da Malhada da Ribeira, um sapecão de terra esparramado por bem umas cinquenta léguas em quadra, pegando do Baixio das Borboletas ao Tôpo da Serra, das Embiribeiras ao Remanso de Zé Charuto. Eitha mundão de terra boa pra danar!

O certo mesmo foi que Zé de Tibertino bateu a caçoleta. Bem batida. Tibertino, na verdade, era tio Bertino. Bertino de “seu” Valdemar, filho, neto e bisneto de afamados fazendeiros. Vavazão das Caraibeiras. Quanto ao nome Tibertino, era a junção de tio e Bertino, zerando o “o” de tio. Pronto. Era mais fácil, na língua curta dos matutos, pronunciar Tibertino. E Zé, filho de Tibertino, morreu de madrugadinha. O orvalho ainda derramava pérolas de lágrimas sobre o gramado de sua casa avarandada. Graminha nativa, que na mais braba seca, não podia sentir um chuvisco ou umas gotas de orvalho, que enverdecia, para logo mais secar com a brabeza do sol. Era uma verdadeira fênix, a nascer, morrer, renascer e tornar a morrer, num ciclo interminável. Mas, quando a chuva vinha de verdade, quando as torneiras de São Pedro eram abertas, aí a graminha virava gramão de dar gosto.

Pois Zé de Tibertino deixou as alegrias e as tristezas deste mundo sem estar doente. O coração lá dele pifou. Coraçãozinho fraco como um palito de fósforo. Bastou um apertozinho para o coitado mudar-se de gente para corpo sem vida e sem alma em despedida. Acabou-se. Zé era um sujeito chegando ao maduro. Tinha lá os seus quarenta e tantos anos quando se meteu de namoro com uma neta de Valter Valença do Pau Ferro de Cima. Neta que os avós criaram, pois os pais tinham morrido numa enchente do riacho Boa Morte, que quando botava água subia nos olhos dos pés de pau de suas ribanceiras. Riachinho tísico nos meses de estiagem, porém, um bitelão de rio nos dias de enchentes das brabas. 

No que poderia dar o casamento de um homem beirando os cinquenta anos com uma meninota de seus dezessete anos? Casamento arranjado, tudo se tendo feito por interesse. Era que Zé de Tibertino não era homem desapracatado na vida. Era, sim, bem aquinhoado. Possuía boas terras, bom gadinho de leite e de corte, fartura de roçados de algodão e outros bens mais. Era muito bem arranchado. Cobiçado por moças solteiras e viúvas ainda em ponto de bala. Naquele tempo, muitos homens morriam cedo demais, vários deles surpreendidos em tocaias. Brigas de famílias, brigas em cachaçadas, questões de terras e desavenças por causa de mulheres. Eram estes os principais motivos para as mortes matadas no agreste. No sertão era ainda muito pior. Sangue quente, tempo quente, quentura de bala ou frieza de faca peixeira. Um horror! Muitas mulheres ainda no viço da juventude ficavam viúvas, disputando casório com as solteiras. 

O morto foi pranteado durante todo o dia. O enterro seria no fim da tarde. A jovem viúva, agora na flor dos seus dezenove anos, pois casada há dois anos, cobriu-se com um véu negro. Vestiu-se de preto da cabeça aos pés. Vestido vistoso. Choro perene. Dava pena de ver a pobrezinha naquele pranto desmedido. Todo mundo comentou. Nunca se tinha visto por aquelas bandas uma viúva tão novinha abrir um berreiro daquele. Choro sentido. As famílias do morto e da viúva compareceram em peso. Famílias numerosas com gente em vários povoados e em duas ou três cidades circunvizinhas. Magotão de gente. 

Um primo da viúva de nome Marcão de Alfredo parecia superintender tudo. Dava determinações às mulheres, recebia quem chegava, discutia detalhes com o agente funerário, socorria a viúva. Moço distinto, prestativo. Muito bem apessoado. Dois dias antes, Sá Matilde de Porfírio Dente de Caititu dera com aquele moço saindo da casa do falecido, despedindo-se da que seria e já agora era uma viuvinha bem arranchada. O moço era professor numa escola municipal, no povoado fronteiriço às Caraibeiras. E era uma espécie de alquimista, manipulador de fórmulas químicas, que chamava a atenção de todos que o conheciam. Até servia à Prefeitura Municipal, preparando venenos para matar cães vadios atacados pela raiva ou pelo calazar. Um rapaz de futuro se ganhasse os caminhos da cidade grande. 

No fim da tarde, como anunciado, deu-se o sepultamento de Zé de Tibertino, após o padre ter celebrado a missa de corpo presente. A mãe do defunto e a viúva estavam inconsoláveis. Na hora de baixar o corpo à sepultura, as duas se atracaram com o esquife. Foi duro para arrancá-las do caixão. A viuvinha desmaiou. Foi um chega-chega danado. “Acode aqui, acode aqui”, gritou alguém, assim que a jovem viúva estatelou-se no chão. O primo Marcão de Alfredo e mais duas mulheres acudiram-na. Em pouco tempo, ela estava restabelecida. O primo professor conduziu a viúva até a entrada do cemiteriozinho carente de limpeza. 

Foi-se, então, Zé de Tibertino, deixando uma viúva muito jovem e bem situada em teres e haveres. O luto fechado, como naquele tempo convinha a uma viúva, durou até a missa de sétimo dia, celebrada na capela do povoado. A partir dali, uns vestidos de cores sóbrias. Algumas línguas ferinas descascaram em cima da viúva. Ao cabo de três meses, o primo Marcão de Alfredo aportara de mala e cuia na casa da prima viúva. Dois meses depois, casaram-se. 

Sá Matilde passou a dizer, à boca miúda, que a morte de Zé de Tibertino fora preparada pelo novo marido da viuvinha. Então, ela não viu o tal sujeito saindo da casa do falecido dois dias antes do mesmo bater as botas? Só podia ser morte arranjada. Mas, no agreste da Malhada da Ribeira, conversas à boca miúda transmudavam-se para bocas graúdas. Marcão de Alfredo tomou conhecimento do falatório de Sá Matilde. Fez-lhe uma visita sorrateira. Dois dias depois, por coincidência, Sá Matilde morreu. De repente. O coração dela pifou como o coração de Zé de Tibertino. Nada de anormal, a não ser a cor azulada da água posta no copo onde Sá Matilde guardava, à noite, a dentadura postiça. Uma estranha água azulada.

Não chegou ao meu conhecimento se alguém fora à polícia para averiguar as duas mortes. Provavelmente, não. Coincidências? Elas sempre existiram. Ou não? 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
20/08
15:08

Zefinha de Tião e a vela do Padre Vergueiro

José Lima Santana
Professor da UFS

No sertão das Baraúnas os casos se sucediam. Dos mais simples aos mais complexos. Todo santo dia podia-se mesmo dizer, novos casos aconteciam. Com gente e gente, com gente e bichos, com bichos e bichos. Acontecia de tudo. Cobra gigante que sugava o leite de mulher parida de novo, enquanto colocava o rabo na boca do bebê para entretê-lo, lobisomens dando carreira em sujeitos mofinos, mulher quebrando pote com água no terreiro da casa, para espantar mal olhado, do tipo que nem pimenteira malagueta era capaz de dar cabo, e tantos outros casos que nem o melhor escritor do mundo daria conta de enumerar e relatar. Quanto mais eu, suburbano desajeitado no manejar da pena, ou melhor, das teclas do computador. 

Josefa de Pedro Cospe Fogo casou-se com Sebastião de Marcolino do finado Tito Sapateiro. Passou a ser chamada de Zefinha de Tião. Morena bem apanhada de ancas e tudo o mais. Tipo de mulher cobiçada no sertão e em todo lugar. Com certeza. Moça prendada no zelo da casa, na costura de tudo que era tipo de roupa e até no ler e escrever uma carta, coisa raríssima naquelas lonjuras castigadas pelo sol mais causticante que Deus permitiu que brilhasse sobre a face de todos os Brasis. 

Tião, do seu lado, era um sujeito trabalhador, enfiado na lida do campo, botando roçados de milho, feijão, mandioca e algodão, além de labutar com três vaquinhas mestiças, que davam um leitinho que ele o vendia de porta em porta, nas casas de freguesias mais do que certas. 

Qualquer um ou qualquer uma, a não ser um pequeno bando de invejosos/as que em todo lugar tinha e tem, reconhecia neles, Zefinha e Tião, um casal feliz. Porém, felizes, arrasadoramente felizes, eles o foram até o segundo ano após o casamento, assistido, como canonicamente convém dizer, pelo padre Martinho Felício de Souza Vergueiro, da família Vergueiro e Albuquerque, gente de fama desde os tempos do Império e em muitas partes do país. Quando o casal contraiu núpcias, o padre era um quase menino, ordenado há não mais de ano e pouco. Que padre simples, metido no meio do povo, um padre diferente de todos os padres das redondezas! Um verdadeiro pastor. Ajuizado e botando juízo nas cabeças cheias de minhocas. Em cabeças, inclusive, de clérigos de batinas mais surradas do que a dele. 

Zefinha não engravidou naqueles dois anos. As línguas ferinas, atiçadas, sobretudo, por Dona Maria de Chico Canela Torta, que era, sem nenhum favor ou desfavor, a matraca mais infeliz que o diabo alimentou no mundo, ele, o zambeta, que fazia e faz seguidores onde o vento espalhava e espalha, e ele, o tinhoso, o três mil vezes maldito, ajuntava e ajunta. A velha espalhou que Zefinha tinha o “oveiro destrambelhado”, que nunca haveria de segurar menino. Ora, o que aquela desdentada sabia a respeito do ovário da mulher de Tião? Língua bifurcada de cobra caninana. De cobra ainda pior. Língua que arrastava outras línguas iguais, enfileiradas. 

A mãe de Zefinha, Dona Carminha de Pedro Cospe Fogo, e a sogra, a mãe de Tião, Sá Isaura de Marcolino, sugeriram que a filha e nora buscasse amparo na casa de uma tal de Marocas do Brejão das Cobras, rezadeira afamada, que mantinha um terreiro de toré, embora as pessoas dissessem que era de xangô, para lhe dar um adjutório de valimento. Porém, Zefinha era igrejeira, devota de Santa Rita de Cássia, e recusou desviar-se dos caminhos de sua religião para aventurar-se nas veredas do que para ela não seria coisa bem-vinda. “Deus me dará um filho, quando for do seu agrado”, dizia.

Mais dois anos se passaram. Nada de filhos. Numa terra em que marido que não dá filho à esposa é chamado de galo de ovo goro, Tião começou a andar de cabeça baixa. Um filho era tudo o que ele desejava, e não mais do que Zefinha. Ele chegou mesmo a pensar e a confidenciar ao irmão mais novo com quem melhor se dava, dentre os oito irmãos e irmãs que ele tinha, que estava à beira de procurar mulher fora de casa para fazer um menino e provar que era galo que enchia ovo. Contudo, por respeito à mulher, ele não passou da intenção. Acomodou-se. 

Era uma quinta-feira pela manhã, quando Zefinha, indo à cidade, que longe muito não era do povoado onde o casal morava, acompanhada por uma irmã, esta mãe de dois meninos e uma menina, encontrou-se com o padre Vergueiro, que, após tirar o chapéu e cumprimentar as duas mulheres, fazendo estancar o animal que montava, indagou: “Dona Zefinha, nada ainda de menino?”. Encabulada, ela respondeu: “Ainda não, mas, um dia, Deus vai olhar pra mim, padre”. O padre retrucou: “Eu irei ao Juazeiro do Padim Ciço. Sempre tive vontade de ver como são as coisas por lá. Se você quiser, eu acenderei uma vela e rezarei para que você tenha um filhinho”. E ela: “Pode ser padre. Em nome de Jesus, pode ser”. 

Logo após a viagem ao Juazeiro, o padre Vergueiro foi mudado de Paróquia. Antes de arribar, ele garantiu que acendeu a vela aos pés da imagem do padre Cícero. Zefinha agradeceu e nunca mais o encontrou. Passaram-se os tempos. E eis que numa festa da padroeira, em que o padre, já maduro na idade, fora pregar, deu de cara com Zefinha, cuja fisionomia ele não esqueceu.  

O encontro deu-se bem em frente à casa paroquial, refeita pelo padre atual, que, não tendo a simplicidade do padre Vergueiro, derrubara a antiga, tão boazinha, e erguera uma casa de andar com vários quartos e muitos outros cômodos, numa cidade de poucos aquinhoados e de muitos pobres. Assim que a viu, o padre perguntou sorridente, como sempre: “A senhora já tem filhos?”. Zefinha respondeu: “Tenho, sim, padre. Eu tive três barrigas de dois e tive mais cinco avulsos. Ao todo já são onze, sete meninos e quatro meninas, padre”.

O padre Vergueiro alegrou-se: “Graças a Deus e à vela que, debaixo de orações, eu acendi aos pés do Padim Ciço. E onde está seu esposo, para eu cumprimentá-lo?”. Zefinha respondeu: “Ele foi ao Juazeiro, padre, para ver se apaga a bendita vela que o senhor acendeu”.  


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
13/08
15:04

Um mundo de sombras

José Lima Santana
Professor da UFS

No insuperável livro “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, Fabiano e Sinhá Vitória viram um mundo de sombras cair sobre a pouca água restante. Eram as avoantes. Mau agouro. 

Diz o texto do penúltimo capítulo do livro, intitulado “Um mundo coberto de penas”: “O mulungu do bebedouro cobria-se de arribações. Mau sinal, provavelmente o sertão ia pegar fogo. Vinham em bandos, arranchavam-se nas árvores da beira do rio, descansavam, bebiam e, como em redor não havia comida, seguiam viagem para o sul. O casal agoniado sonhava desgraças. O sol chupava os poços, e aquelas excomungadas levavam o resto da água, queriam matar o gado”.

  O sofrimento de Fabiano, de Sinhá Vitória e dos dois meninos parece persistir até hoje. Não apenas no sertão nordestino, mas em todo o país. Outros são os tempos e outros são os personagens. Agora é o povo brasileiro que se põe no lugar daquela família de sofredores destemidos, que se mudava daqui para ali. Uma saga que pareceria interminável. 

Interminável não pode ser a saga do povo brasileiro. Melhor será dizer, a saga dos maus políticos que nos governam, que tomam de assalto o poder que, na teoria constitucional, pertence ao povo: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”. É o que diz o parágrafo único do art. 1º da Carta de 1988. 

Que belo texto os nossos constituintes esculpiram no mosaico constitucional! E que bom seria se realmente assim o fosse, na prática!  

Não se pode nem deve comparar os maus políticos brasileiros com as avoantes nordestinas. Elas representam um pedaço muito bom do ambiente, da Natureza, que, diga-se de passagem, está em perigo. O seu habitat vem sendo destruído continuamente. E elas ainda são caçadas em profusão. Leis foram feitas para a proteção do meio ambiente, mas as leis “são coisas que o homem muda quando quer”, como bem o disse o personagem principal do livro “Um Dia na Vida de Ivan Denisovich”, do escritor russo Alexandre Solzhenitsin, que foi publicado em novembro de 1962. O livro narra as agruras que o personagem passou na prisão, num gulag, na Sibéria, na época sombria de Josef Stalin. A publicação da obra foi autorizada por Nikita Kruschev, aparentemente para provar as suas acusações contra o dirigente soviético anterior a ele, ou seja, Stalin. Lembrando que o autor russo foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1970. 

Os maus políticos, detentores de mandatos eletivos, no Executivo e no Legislativo, não bebem a nossa água. Devoram os nossos recursos. Sangram os cofres públicos. Participam das mais nojentas negociatas. Enrolam-se em cuecas, malas e sacolas cheias de dinheiro. Zombam de nós. Escarnecem daqueles que os elegeram. São sórdidos. São sádicos. São monstros. Não deveriam estar no nosso meio. Fedem mais do que titica de gato. Os felinos domésticos cobrem suas titicas. Os maus políticos jogam-nas no ventilador. São sujos. Vivem no lodaçal de um pântano que parece não ter fim. Todavia, há de chegar o dia em que o pântano em que chafurdam tornar-se-á de areias movediças. E nelas eles haverão de submergir para nunca mais voltar à vida pública. 

Muitos desses gatunos de colarinho branco (branco, mas podre de sujeira!) ainda vão às tribunas, aos palanques, aos meios de comunicação social para falar, invocando o nome santo de Deus. Lavem suas bocas sujas e fétidas, bando de escroques! Entoquem-se em seus buracos, ratos de esgoto! 

Infelizmente, eles têm uma sobrevida, após cada descoberta de suas patifarias. Eles têm bons advogados, que se esmeram em apresentá-los como “injustiçados”. Eles têm os seus comparsas. Eles são farinha do mesmo saco. Farinha vencida, contaminada. Inservível. Apesar de tudo, eles estão aí. Mesmo no seio do povo, alguns deles encontram guarida. Quando será que haveremos de saber votar? Quando será que não mais nos deixaremos seduzir pelo canto velhaco dessas malditas aves de rapina? Quando haveremos de escolher entre homens e mulheres que nos governem com ética? E quando será que teremos também, de ponta a ponta, nem todos os escalões do Poder Judiciário, magistrados e magistradas comprometidos (as) com a JUSTIÇA, assegurando-nos o banimento de toda impunidade e de toda exploração do homem pelo homem? Utopia? Queira Deus que não! 

Um mundo coberto de sombras. Não merecemos isso. Nenhum povo merece. A história do Brasil é pródiga em maus momentos e em maus políticos. Ansiamos por viver numa democracia. Desde os primórdios da República nós ansiamos. Ainda não vimos o sol raiar no chão da Pátria de modo que nos assegure a normalidade democrática, de maneira que a coisa pública seja, sim, pública, isto é, verdadeiramente, do povo, e, assim mesmo, seja cuidada. Ansiamos por homens e mulheres dignos (as) do nosso voto para bem nos governar, para bem nos conduzir por um caminho novo, jamais, até agora, por nós trilhado. 

Que as nossas aves de arribação continuem migrando no seu interminável vai e vem, a cada estação que lhes é propícia para acasalar, procriar e seguir o ritmo de suas inocentes vidas. 

E que as nossas aves de rapina, os políticos que nos envergonham e que enxovalham a Nação, sejam para sempre banidos da vida pública. Que sejam encobertos num mundo de sombras, que é o seu lugar. Longe do povo. Longe do poder. 

Que a podridão de seus atos nefastos os arraste para o ostracismo (no calabouço, preferencialmente), onde, quem sabe, arrependidos, eles possam chorar e ranger os dentes. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
06/08
14:49

Políticos Fast-food

José Lima Santana
Professor da UFS

Todo mundo está careca de saber que fast-food é comida rápida, ou, como se diz em Portugal, comida pronta. É a denominação genérica dada ao consumo de refeições que podem ser preparadas e servidas em um intervalo pequeno de tempo. Podem ser sanduíches, pizzas, pastéis e tantas outras.
O interessante é que, no Brasil, há um tipo de fast-food, que, talvez, não se encontre em nenhum outro lugar do planeta, ao menos, com tanta profusão e com tanta falta de caráter. Trata-se de um tipo de político que, nos últimos tempos, tem crescido como erva daninha, como o joio que cresce em meio ao trigal. Uma corja! Um bando de descarados!

Os políticos fast-food são iguais a um vírus, desses que aparecem de repente e vão ficando, contaminando tudo e todos. Ou contaminando quase tudo e quase todos. São políticos que, aparentemente, até parecem ter estatura de dignos mandatários do povo, mas, que, na verdade, não passam de nanicos, de amebas, que vivem do lodo intestinal. Apenas parecem. Malditos sejam eles!

Esses políticos são do tipo fast-food porque ligeirinho, ligeirinho, eles estão prontos para tomar de assalto este ou aquele partido político, ou para fazer parte desta ou daquela coligação. Aproveitam-se o quanto podem, como cupins que devoram a madeira podre. Eles próprios são podres. Posam de bons moços, de cordeirinhos inofensivos. De defensores do povo. Nas entrevistas, eles logram dizer que o povo é a sua razão de estar na vida pública. Que bonito! Porém, nos bastidores, nos porões fétidos dos palácios e dos salões tapetados, eles se arrastam no lodaçal da patifaria mais sórdida que se pode conceber. Ora, eles são lacaios do poder; ora, são os sustentáculos do mesmo poder, desfigurado pelo fisiologismo, nalguns casos, ou, noutros casos, pela corrupção passiva desenfreada. 

Essa corja malsinada aproveita-se da situação de certos governos aos quais dão sustentação, especialmente quando estão nos cargos legislativos, na União, nos Estados, no DF e nos Municípios. Formam um bloco considerável de legisladores que não estão nem aí para o povo e suas necessidades. O que eles querem? O que eles defendem? O que eles fazem? Nada além daquilo que lhes serve. Como dizia uma personagem de determinado programa humorístico da televisão, “o povo é apenas um detalhe”. E que espoliado e sofrido detalhe tem sido o povo!

Os tais políticos fast-food esmeram-se em cuidar do próprio umbigo. Do próprio bolso, de um ou de outro jeito. Descaradamente, põem dinheiro na cueca, em malas etc. Arranjam cargos para os seus apaniguados, muitos deles sem as condições morais e técnicas para exercê-los. Conseguem propinas. Empanturram-se de safadezas. E riem como hienas nas inserções televisivas às quais os seus partidos políticos têm direito, através de uma legislação arcaica, que faz com que o povo pague indiretamente o custo de tais inserções. Os tais políticos que as pagassem de seus próprios bolsos, e não o povo! Afinal, eles ludibriam a fé do povo. Enganam os seus eleitores. Compram os seus votos a cada eleição, de uma maneira ou de outra. E, infelizmente, muitos eleitores se deixam seduzir pelas migalhas que caem de suas mesas faustosas, onde o festim maldito tem lugar. O festim da corrupção. Da pouca vergonha. Ou, melhor, da absoluta falta de vergonha. 

Todo mundo conhece a história de Diógenes, filósofo grego do século IV AC: em plena luz do dia, ele costumava caminhar por Atenas, com uma lanterna nas mãos, à procura de um homem honesto. Pois bem. Precisamos de holofotes, de canhões de luz, para acharmos um homem ou uma mulher que possa, em 2018, merecer o nosso voto (voto de cada eleitor ou eleitora consciente de que é chegada a hora de resgatar o nosso país das mãos lambuzadas dos que aí estão), e que, sem se mostrar como um (a) pérfido (a) salvador (a) da Pátria, possa ter o tirocínio e a hombridade necessários para limpar a sujeira que está tanto sob o tapete, quando sobre o mesmo. 

As camarilhas dos aproveitadores, dos dissimulados, dos cínicos, dos corruptos estão à solta. Estão no Partido A e no Partido B. No C, no D, no E... Em todos os cantos elas, as camarilhas, aí estão. Elas tomaram de assalto o poder, há anos e, especialmente, nos últimos dez, doze, quinze ou um pouco mais de anos, sabe-se lá. Cada uma age do modo que melhor lhe convém. E, o que também é muito grave, cada camarilha tem os seus defensores obstinados, cegos, que se espalham pelos meios de comunicação social, defendendo-as e atacando as camarilhas opostas. São “soldados” da carnificina moral. As redes sociais estão cheias deles: dos “coxinhas” e dos “mortadelas”. Destilam venenos. Vomitam verborreias. Erguem os seus supostos ídolos aos píncaros da “glória”. Transformam-nos em santos. E santos eles devem ser mesmo: santos de pau oco. Santos sem nichos ou sem charolas. Enlameados santos. 

Os políticos do tipo fast-food arvoram-se no direito de levar a vida como numa gangorra, balançando-se para cá e para lá, a depender do lado no qual possam se servir da forma que, momentaneamente, lhes convém. Dou-lhes, caríssimos leitores, um exemplo acabado: alguns parlamentares federais, nos últimos tempos, estiveram em todas as bibocas do poder. Apoiaram os tucanos de FHC. Mudaram de lado e ficaram com Lula e Dilma. Deixaram esta, quando ela já agonizava, e tocaram tambores e panelas em favor do impeachment. Com Temer “brilhando” na Operação Lava-Jato, dele já se afastaram, alegando questões éticas. Ora bolas! Falam de ética, pregam o “fora Temer” (que, diga-se de passagem, deveria mesmo sair do Jaburu e do Planalto), mas ajudaram a botar o Temer onde ele está, e, na última quarta-feira, deixaram-no na presidência. O Brasil inteiro está cheio de parlamentares desse tipo, federais, estaduais ou municipais. O pior tipo de parlamentares, de representantes do povo. Aproveitadores de ocasião. Ladrões que roubam do povo ao qual deveriam servir. 

Os políticos do tipo fast-food não são apenas parlamentares. Alguns estão ou estiveram no Executivo. E alguns destes, por vezes, são mais sujos do que pau de galinheiro, para usar uma expressão popularíssima, com todo o respeito aos leitores, e, também, aos galináceos. 

Estou cheio dos políticos do tipo fast-food. Eles não valem um casco de siri podre. Aliás, não valem nada. Felizmente, ainda há políticos que não se enquadram nesse tipo maldito. Podem não ser muitos, mas eles existem, sim. Quem sabe, nem tudo esteja perdido. Oxalá! Que Deus vele por nós e pelo Brasil. E que nós saibamos discernir no momento certo, ou seja, saibamos como votar e em quem votar em 2018. Que não nos enganem mais. E que não nos deixemos mais enganar. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
23/07
11:59

Rififi sertanejo

José Lima Santana
Professor da UFS

Na última terça-feira, dia 18, foi sepultado na cidade de Carmópolis (SE) o corpo da juíza de direito aposentada Carmem Maria Rosa Araújo. Conheci Carmem Rosa em 1981, mais precisamente, no mês de março, quando eu apresentei ao cartório da distribuição da Comarca de Nossa Senhora da Glória duas petições iniciais. Eram duas ações de execução fiscal. Minhas primeiras ações, como advogado, recém-formado, naquela comarca. O cartório da distribuição estava a cargo de Dona Nair Aragão, titular do 1º Ofício, mas o encarregado era “seu” Domício. Carmem era a juíza da Comarca e o promotor de justiça era o atual procurador da República, Dr. Gilson Gama Monteiro. 

Com o passar do tempo, mantive com Carmem Rosa uma respeitosa amizade. E mantivemos a amizade por toda a vida. O mesmo eu digo com relação ao Dr. Gilson. 

Naquela época, eu advoguei muito na Comarca de Nossa Senhora da Glória, da qual Monte Alegre de Sergipe era Termo. Muitos fatos pitorescos eu presenciei ou de alguns deles participei. Recordo-me, dentre muitos outros, de um que ocorreu em Monte Alegre. Às quartas-feiras, Carmem Rosa ali realizava audiências. Num daqueles dias, ao chegarmos à Prefeitura, onde se realizavam as audiências, o oficial de justiça, “seu” Elói, deu-me uma péssima informação. Uma das audiências era de um réu preso, na penitenciária da capital, acusado de assassinato. Ocorre que, segundo a informação, os familiares do preso viriam em peso do povoado de onde eram originários, para “arrancá-lo das garras da Justiça”, à força. 

A informação preocupou-me. A minha audiência seria a última daquela manhã. A do dito preso seria a segunda. Eu pedi a “seu” Elói que não dissesse nada à juíza, nem ao promotor, que, àquela altura, era o Dr. Ernesto Anísio Azevedo Melo, que substituíra o Dr. Gilson, que já tinha assumido o cargo de procurador da República. Ora, mas o que eu poderia fazer em auxílio à juíza, mas sem nada à mesma poder dizer? Bem, ligar para o delegado regional de polícia de Nossa Senhora da Glória. Não tinha outra coisa a fazer.

O posto telefônico ficava bem pertinho da Prefeitura. Para lá, eu me dirigi. Pedi uma ligação para o número que declinei. Ou seja, o da delegacia. Dirigi-me à cabine. Logo, alguém atendeu na delegacia. Eu tinha que falar com o delegado, que era o capitão Wellington Costa da Silva, sujeito destemido e que tinha sido cunhado do atual chefe de gabinete do reitor da Universidade Federal de Sergipe, professor Marcionilo. Há algum tempo, o capitão Costa é falecido. 

Eu não podia chamar a atenção de ninguém. A quem estava do outro lado da linha, que era um soldado, eu pedi para falar com “o chefe”. Ele passou para o delegado. Eu precisava falar em código. Comecei a dizer-lhe que estava em Monte Alegre com a juíza e o promotor. E disse: “Temos audiências brabas”. Ele indagou: “Brabas, como?”. O posto telefônico estava cheio de gente. Eu não devia abrir o verbo. Sabia-se lá se alguém ali não era da parentela do preso? Então, desconversei, para não chamar a atenção de ninguém: “O jogo pode ficar feio. É preciso uma ‘menininha’ por aqui”. “Menininha” era como o capitão Costa denominava a metralhadora que usava, quando se fazia necessário. Logo, ele compreendeu que eu queria pedir reforço policial para Monte Alegre. E respondeu, perguntando: “Eu tenho que ir aí, né?”. E eu: “Sim. Logo!”. Ele disse que estaria a caminho. Fiquei aliviado, em parte. Torcia para que o delegado e o devido reforço chegassem antes dos parentes do preso. 

Eu retornei à Prefeitura. O preso já lá estava com apenas um soldado vindo em guarnição desde a penitenciária da capital. Tomei assento na entrada do local que servia de sala de audiências. A primeira audiência era sobre um caso simples, que não lembro bem o que era. Lembro que era simples porque não demorou muito, não passando de mais ou menos meia hora. Viria, então, a audiência do tal preso, que os parentes pretendiam levá-lo para casa à revelia da Justiça. Levantei-me. Fui até a calçada. Cochichei com “seu” Elói, o oficial de justiça. Nada do delegado, nem da parentela do preso. Menos mal. Lá de dentro eu ouvi o pregão da segunda audiência. De chofre, um caminhão aportou na quina da avenida. Cheio de gente. De homens. “São eles”, pensei. “Seu” Elói confirmou. O que haveria de acontecer? Sem a presença do delegado Costa, eles ousariam mesmo invadir a sala de audiências e resgatar o preso? O oficial de justiça achava que sim. Afinal, em tempos passados, eles ousaram tirar outro preso da cadeia local. 

Ali estava o prenúncio de um rififi sertanejo. Confesso que fiquei um pouco aflito. A minha preocupação era sobre se eles fariam algum mal à juíza e ao promotor. Levar o preso seria o de menos. Depois, a polícia o prenderia novamente, mais cedo ou mais tarde. Enquanto eu pensava e o caminhão parava quase em frente à Prefeitura, eis que o veículo Gol da delegacia de Glória irrompeu na avenida. Parando ao lado do caminhão, de pronto desceram o delegado e dois soldados. A “menininha” estava nas mãos do capitão Wellington Costa da Silva, com quem eu mantive fraterna amizade até a sua morte. Costa deu ordem para ninguém descer do caminhão, apontando a “menininha” para o grupo. Os dois soldados também estavam com armas em punho e apontadas para os parentes do preso. Um dos ocupantes do caminhão quis parlamentar. O capitão não lhe deu ouvidos. Ficar na frente da boca de uma metralhadora não fazia bem a ninguém. 

Resumindo: o caminhão foi obrigado a dar marcha à ré. Os parentes do preso regressaram ao povoado. A audiência foi realizada sem contratempos. Depois de tudo, o delegado achegou-se e contou à juíza e ao promotor o sucedido, isto é, como eu o tinha “requisitado”. Coisas do sertão. Aliás, apenas um fato interessante dentre tantos que este subscritor vivenciou nas plagas sertanejas, quando ali exerceu a advocacia nos anos 1980. 

Que a minha querida amiga Carmem Rosa descanse em paz!


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
16/07
13:53

Chico Miséria

José Lima Santana
Professor da UFS

Era no tempo em que os delegados de polícia eram cidadãos comuns, remunerados pelas municipalidades. Comunidade pequena, feita cidade sabe Deus como. Coisas da política. Um deputado estadual, sobrinho do chefe político local, conseguiu elevar a vila à categoria de cidade. Um disparate. Uma afronta. Ninguém ali foi contrário à elevação. Afinal, todos queriam ver a vilazinha com cara de dorminhoca virar cidade. O progresso viria. O simples fato de ser cidade já deixava a povoação com outra roupagem. O moral da população subiria à estratosfera. A Intendência daria um jeito de melhorar as ruas, as estradas e os serviços. Aliás, parcos serviços públicos: duas ou três escolas de meninos e meninas magricelas com professorinhas que mal sabiam soletrar as palavras. Um cemitério quase abandonado. Um posto de saúde que só recebia a visita do médico de dois em dois meses. Por lá dava plantão diário, quando não surgia a oportunidade de uma boa pescaria, o guarda sanitário Omar Pereira, vulgo Omar Zarolho. O olho direito do guarda sanitário tinha um defeito que o fazia olhar para o lado que a besta correu, como dizia o populacho. 

Na vila transformada em cidade havia uma igrejinha do tipo cai não cai. O padre da cidade vizinha rezava missa um domingo por mês. Era preciso, então, um padre fixo. O intendente deveria socorrer-se do sobrinho deputado para arrancar do senhor bispo um padre para lá. Não seria problema. O deputado acabara de conseguir uma boa verba para as obras da diocese. 

Na nova cidade, dois grupos políticos se engalfinhavam pelo controle do poder municipal. De um lado, o grupo do intendente, tio do deputado, chefe político há mais de vinte anos, que elegia gatos e ratos. Ele, claro, no meio. Do outro lado, Chico Miséria, sucessor do sogro, o finado Tertino Fonseca, cujo poder de mando ele o perdera para o intendente João de Maria, sem sucesso na recuperação. João de Maria mandava e desmandava desde 1912. Mas, Chico Miséria vinha fazendo cócegas em João de Maria nas duas últimas eleições municipais. Diferenças pequenas de votos. Uma de vinte e seis votos e a outra de apenas oito votos. Claro que o grupo de Chico Miséria arrotava que fora roubado na contagem dos votos. O juiz era sobrinho de João de Maria. E estava estacionado na comarca, cuja sede ficava na cidade vizinha, há quase quinze anos. 

Na eleição daquele ano, 1930, eleição, inclusive, presidencial, Chico Miséria estava do lado fraco. Votaria num gaúcho de nome Getúlio Vargas da Aliança Liberal. No estado, as forças governistas estavam do lado oposto, com o paulista Júlio Prestes. E com as forças estaduais estava João de Maria, que prometia esmagar Chico Miséria nas urnas. Aliás, diga-se de passagem, que o apelido de Chico Miséria derivava de um jargão usado por Francisco Dória Macedo. Para ele, tudo era uma “miséria”. Daí o Chico Miséria. 

Eleições quentes. Ao bem da verdade, por ali não havia eleições frias. Era um verdadeiro pega para capar das seiscentas. Por aquelas bandas, político frouxo não vingava. Se não tivesse sangue no olho e tutano nos ossos, não aguentava a primeira boca de urna. Então, quem não se lembrava do velho Tonho Pinote de Vavazinho das Caraíbas? Meteu-se contra João de Maria, em 1920, foi encurralado por uns capangas, no beco da malhada de Zefride, e borrou-se todo. Serviu de mangação por um lote de tempo. Saiu da política e debandou da vila. 

As forças policiais foram aumentadas para garantir a eleição. Ora, na verdade, era para facilitar a fraude praticada pela gente de João de Maria. Os eleitores de Chico Miséria foram perseguidos. Muitos não conseguiram chegar a tempo para votar. Alguns apanharam da polícia. Outros foram detidos. Um verdadeiro escarcéu. Desde o meio-dia, João de Maria contava vantagem, abancado na frente da casa, os eleitores entrando e saindo pelo portão do lado, para comer. Era no tempo em que os políticos podiam oferecer comida à vontade aos eleitores. E somente ia à casa do chefe político quem nele votava. As pessoas tinham lado certo, tinham caráter. Nem os políticos trocavam de lado, nem os eleitores trocavam de chefe. 

Na nova cidade e no estado, a eleição do candidato situacionista foi de lavada. Em Brejo das Almas, a nova cidade, a turma de João de Maria soltou foguetes, fez baderna nas portas dos eleitores contrários, pintou o sete. O delegado de polícia e abastado fazendeiro, Firmino da Lagoinha, ele próprio, comandava uma trupe de baderneiros. Passando em frente à casa de Chico Miséria, na Praça da Bandeira, os baderneiros do delegado soltaram alguns rojões. Um deles feriu a perna de D. Francisquinha, esposa de Chico. Foi aí que a garapa ferveu. 

Chico Miséria estava no bar de Valfrido Boca de Caçapa quando Zominho de Sinhá Terta levou-lhe o ocorrido com D. Francisquinha. Sem pestanejar, Chico Miséria, sacou do revólver, manejou o tambor, deixou uma bala na agulha e tomou o rumo dos baderneiros de Firmino da Lagoinha, conforme descrição de Zominho. Atrás de Chico foram uns seis ou sete amigos. Todos armados. O ar da boca da noite cheirava a morte. 

Na Rua da Tramela, Chico Miséria e seu bando toparam com o bando do delegado. Chico adiantou-se. “Seu Firmino, você sabe que eu nunca fui com a sua fuça, nem você com a minha. Nisso nós estamos empatados. A diferença é que eu sou um homem de verdade e você não passa de um cabra safado, pau mandado de João de Maria, outro cabra safado. Alguém do seu bando feriu a perna da minha mulher com um rojão. Mas, quem me paga é você”. Todos sacaram as armas. Dos dois lados. O tiroteio seria dos brabos. O sangue de muitos lavaria a rua sem calçamento. Sangue empapando o chão. A beata Maria de Sá Fulô, que estava à janela, recolheu-se. Nos poucos postes da iluminação pública, a luz dos lampiões bruxuleava como se estivesse com medo.  

O delegado Firmino da Lagoinha, bêbado, cego de um olho, mas muito bem enxergando pelo outro, vociferou: “Cabra safado é você e sua laia, verme nojento, lombriga de bucho de pobre. Vou arrancar sua cabeça a bala e vou beber o seu sangue imundo, só pelo prazer de cuspir fora o restinho com gosto de vinagre azedo”. 
Ninguém teve tempo para disparar uma bala sequer. Naquele instante, irrompeu na rua a mulher de Chico Miséria, capengando, um filete de sangue escorrendo da perna direita. Vinha com outras senhoras. E eram muitas. Colocaram-se entre os dois bandos. Dona Francisquinha dirigiu-se, primeiro, ao marido: “Chico, pelo amor de Nossa Senhora, me ouça. Eu estou bem, foi só um arranhão. Quem disparou o rojão que me feriu foi aquele cabrinha ali”, disse, apontando para um sujeito sardento, que estava ao lado de Firmino da Lagoinha. Era um neto de Maneca Queixada, vaqueiro do delegado. E, voltando-se para Firmino, ela disse: “Procure o seu caminho, ‘seu’ Firmino. Hoje não vai ter matança em Brejo das Almas. O tempo de vocês acabou. O Dr. Getúlio vai ser o presidente do Brasil. João de Maria e vocês todos vão baixar a crista. Arredem daqui!”. As mulheres aplaudiram. Fez-se um silêncio danado. Um bando foi para lá, o outro para cá. Não teve mais entreveros, nem mortes, nem nada. 

A revolução de 30 se fez. Getúlio tornou-se presidente. E Chico Miséria, uma vez de cima, reinou na política da nova cidade até a morte, em 1952. 


Coluna José Lima
Com.: 0
Por Kleber Santos
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