10/09
16:23

A recuperação pelo consumo: compressão do gasto público restringe a retomada

Ricardo Lacerda*
Professor da UFS 

Apressado em comemorar os sinais mais consistentes de recuperação da economia, o ministro Meireles afirmou que os números da atividade econômica nos dois primeiros trimestres do ano são muito positivos e fortes e admitiu que pode rever a projeção de crescimento do PIB de 2017 de 0,5% para 1%. Como assinalamos no artigo da semana passada, o crescimento da atividade econômica no primeiro semestre de 2017, apesar de lento, indica que a economia brasileira deixou para trás o fundo do poço e iniciou uma modesta recuperação, que deverá prosseguir no próximos trimestres.

No acumulado dos dois trimestres, o PIB brasileiro apresentou incremento de 1,3%, compensando no período aquilo que havia perdido no segundo semestre de 2017, ou seja, o PIB do 1º semestre de 2017 igualou-se ao do 1º semestre de 2016. Em grande parte, a expansão do nível de atividade da economia em 2017 responde aos mecanismos de recuperação próprios aos ciclos de negócios, depois de oito trimestres de declínios. 

Setores de atividade
Em termos setoriais, as atividades que mais contribuíram para o crescimento da economia no 1º semestre de 2017 foram a agropecuária, a atividade extrativa mineral (inclusive petróleo), a geração de energia, o comércio, a atividade de transporte e armazenagem e o agrupamento de atividades classificadas como Outros serviços.  A indústria de transformação também registrou crescimento importante no semestre, apesar de ter desacelerado na passagem do 1º para o 2º trimestre. 

A tabela apresentada registra nas duas últimas colunas a comparação, por atividade, do valor da produção do 1º semestre de 2017 em relação aos mesmos períodos de 2016 e de 2015. 

Em alguns casos, a recuperação no primeiro semestre decorreu de movimentos específicos dos próprios segmentos, como a melhoria do regime de chuvas ou nas cotações internacionais do produto. Tais foram os casos da agropecuária e da extração de minérios, respectivamente.

A agropecuária ao longo dos dois primeiros trimestres do ano cresceu 11,5%. Na comparação com os mesmos semestres de 2016 e 2015,  a atividade agropecuária registrou incremento, respectivamente, de 15% e 6,7%, indicando que quase a metade da expansão no 1º semestre de 2017 foi na verdade recuperação do que havia sido perdido em 2016 por conta da estiagem (ver Tabela). 

A extração mineral, que teve incremento de 2,1% ao longo do 1ºsemestre de 2017, repôs na verdade o valor da produção que havia perdido em 2016, posto que na comparação com o 1º semestre de 2015 o valor da produção do segmento registrou crescimento de apenas 0,1%. 

Reversão para cima
Em outras atividades, os incrementos do valor da produção em 2017 aparentemente indicam que o ciclo de negócio começou a reverter a trajetória até então descendente em direção à retomada. A indústria de transformação cresceu 1,2% no 1º semestre do ano, ainda que se situe 1% abaixo do mesmo período de 2016 e 8,5% inferior a 2015. A atividade de construção, por enquanto, manteve-se em queda.

No segmento de Serviços, as atividades que mais contribuíram para o crescimento em 2017, até o 1º semestre, como o comércio, transporte e armazenagem e Outros serviços, repuseram parcialmente, mesmo que em ritmos dignos de destaque, as quedas acentuadas que tiveram em períodos anteriores.  

Setor público
É importante assinalar que o consumo do governo no 2º trimestre de 2017 registrou a quarta queda consecutiva. Ao longo do 1º semestre de 2017, o agrupamento de atividades que abrange a administração, saúde e educação públicas recuou 0,6%, se situando 1% abaixo do patamar do 1º semestre de 2016. Como se sabe, diante da PEC dos gastos, as atividades desse agrupamento não deverão puxar o crescimento do PIB nos próximos anos. 

Para o bem ou para o mal, o crescimento do PIB nos próximos trimestre deverá ser ainda modesto e impulsionado pelos gastos privados, notadamente das famílias, à medida em que paulatinamente o mercado de trabalho for retomando, posto que não há grandes expectativas no curto prazo em relação ao retorno dos investimentos.

A recuperação da economia, até o momento, nada tem tem espetacular e tampouco reflete um suposto acerto das políticas adotadas pela equipe comandada por Meireles e Ilan Goldfajn. Ela responde basicamente à correção parcial, pelos mecanismos do ciclo de negócios, da queda excessiva que se seguiu ao ajuste promovido pelo ministro Joaquim Levy entre o final de 2014 e primeira metade de 2015 e que foram potencializados pela crise política-policial. 






*Assessor econômico do Governo do Estado de Sergipe


Coluna Ricardo Lacerda
Com.: 0
Por Kleber Santos
03/09
15:22

A recuperação pelo consumo

Ricardo Lacerda 
Professor da UFS

Em entrevista publicada na Folha de São Paulo no último dia 26, o presidente do Banco Central do Brasil, Ilan Goldfajn, em um episódio pouco comum de ataque de sinceridade, declarou que o “choque de confiança” não teve o efeito esperado sobre os níveis de investimento e que a recuperação da economia deverá ser lenta e puxada pelo consumo. 

Em outros termos, o alentado choque de confiança que adviria da adoção de uma política fiscal responsável falhou e o recente incremento, em ritmo arrastado, do nível de atividade tem sido impulsionado pelo aumento do consumo,  causado em parte pela queda da inflação, em parte por conta da redução dos juros nominais, em parte pela injeção de renda decorrente dos saques do FGTS, em parte pelo incremento da ocupação no mercado de trabalho. 

Como costuma dizer meu colega da UFAL professor Reynaldo Ferreira, não há choque de confiança capaz de produzir uma contração fiscal expansionista. A via crucis enfrentada pelos países do sul da Europa na esteira da crise financeira internacional foi suficientemente pedagógica nesse sentido. A elevação do nível de atividade da economia brasileira nos dois últimos trimestres decorreu basicamente dos efeitos do incremento da renda disponível sobre o consumo das famílias, porquanto os investimentos continuaram declinando. 

O PIB do 1º semestre de 2017
Em relação ao último trimestre de 2016, o PIB brasileiro registrou crescimento de 1,27%, sendo 1,02% no 1º trimestre e 0,25% no 2º trimestre. Desaceleração tão intensa na comparação entre os dois períodos decorreu basicamente do desempenho extraordinário do setor agrícola, contabilizado no 1º trimestre. Em outra palavras, não é que o crescimento do 2º trimestre tenha sido surpreendemente baixo, é que o crescimento do 1º trimestre foi excepcionalmente bom.
  
O incremento do PIB da primeira metade do ano foi suficiente apenas para repor o que havia sido perdido no segundo semestre de 2016. Assim, o PIB do 1º semestre de 2017 foi exatamente do mesmo montante do verificado no 1º semestre de 2016, auferindo crescimento zero nessa comparação.

Componentes da despesa
O consumo das famílias cresceu 1,4% no 2º trimestre do ano depois de oito retrações trimestrais sucessivas em 2015 e 2016 e estagnação no 1º trimestre de 2017. Os gastos correntes do governo aceleraram seus declínios nos dois trimestre do ano, no 2º trimestre o consumo do governo recuou 0,9%. Os investimentos não reagiram e mantiveram a trajetória de decclinio iniciada no já longínquo 4º trimestre de 2013 (registrou-se uma oscilação para cima de 0,4% no 2º trimestre de 2016). Em outras palavras, os gastos privados e públicos realizados na aquisição de máquinas, equipamentos, construção e caminhões e implementos agrícolas (que formam a parcela principal da Formação Bruta de Capital Fixo-FBCF) mantiveram-se em queda, em ritmo ainda muito acentuado. 

Ao longo do 1º semestre de 2017 o consumo das famílias cresceu 1,34%, o consumo do governo recuou 1,64% e a FBCF caiu 1,66% (ver Gráfico). Além do consumo das famílias, o incremento das exportações de bens e serviços e a queda nas importações contribuíram para o resultado positivo do PIB na primeiro semestre do ano. 

 
 

Ciclo de negócios
Há poucas dúvidas de que a economia brasileria está deixando para trás o fundo do poço e que iniciou uma trajetória de incremento do nível de atividade, que deverá se dar em ritmo muito lento. Não nos iludamos, todavia, sobre a natureza da recuperação em curso. Trata-se basicamente de uma retomada decorrente do próprio movimento do ciclo de negócios, em que paulatinamente foram sendo registradas quedas mais suaves seguidas pelos incrementos dos dois últimos trimestres. 

A expansão do PIB nos próximos trimestres deverá seguir essa trajetória, impulsionada pelo incremento da renda que a recuperação paulatina do mercado de trabalho deverá engendrar, empurrando lentamente para cima o nível de utilização da capacidade produtiva instalada. Em outras palavras, o conhecido mecanismo do multiplicador da renda, seguido pelo acelerador do investimento, enxovalhado noite e dia pelo pensamento convencional de mercado como correspondendo a adoção de uma concepção hidráulica do keynesianismo, vai cumprindo seu papel. O choque de confiança vai demorar mais um pouco para gerar seus efeitos. Foi o presidente do Banco Central quem reconheceu.

*Assessor econômico do Governo do Estado de Sergipe


Coluna Ricardo Lacerda
Com.: 0
Por Kleber Santos
20/08
15:09

Sergipe no Nordeste e no Brasil: estrutura do emprego

Ricardo Lacerda 
Professor da UFS

No artigo de hoje completamos o delineamento das especificidades da economia de Sergipe no quadro geral do Nordeste e do Brasil, com o propósito de  entender como a crise da economia nacional vem impactando de forma tão acentuada a economia sergipana e, na medida do possível, avaliar  os seus próximos desdobramentos.  
Examinaremos nas linhas que se seguem alguns aspectos da estrutura da ocupação da economia estadual, a fim de captar um dos aspectos mais fundamentais da crise atual, a supressão de milhões de empregos em todo o país, com incidência especialmente acentuada nos estados da região Nordeste.  

A PNAD Contínua do IBGE informou a geração de 42 mil ocupações em Sergipe no 2º trimestre de 2017, interrompendo o período de perda de emprego iniciado no 1º trimestre de 2015.  As novas ocupações concentraram-se nos segmentos da indústria de transformação, alojamento e alimentação, transporte e armazenagem e outros serviços, indicando as atividades em que as pessoas têm buscado alternativas de sobrevivência, em geral empregos sem vículos formais e por conta própria, até que o mercado formal volte a contratar.

Posição na Ocupação
Já constatamos em artigo anterior que o rendimento médio dos trabalhadores sergipanos é, há bastante tempo, superior à média do Nordeste e permaneceu acima dessa média mesmo no período mais recente, marcado pela crise acentuada no mercado de trabalho. Veremos também que o grau de formalização do mercado de trabalho sergipano é um pouco superior à média regional e que não houve no período mais recente mudança de vulto na posição relativa do estado neste quesito.

No que diz respeito à estrutura de ocupação, as tabelas apresentadas trazem, com base nas médias de quatro trimestre da PAND Contínua, os pesos das posições de ocupação e dos setores de atividade em Sergipe e os comparam com as médias do Brasil e do Nordeste. 

Na média dos quatro trimestres de 2014, os empregados do setor privado respondiam por 41% da ocupação em Sergipe, o trabalhador doméstico por 5,7%, o empregado no setor público por 15%, o trabalhador por conta própria por 31%, e o empregador por 3,2%. 

Dois anos depois, com os efeitos da crise já se manifestando de forma acentuada no mercado de trabalho, não se constataram mudanças de grande magnitudes na estrutura das posições na ocupação.  

Em relação ao ano de 2014, a média de 2016 mostra uma redução na participação de trabalhadores com carteira assinada no setor privado,  de 28,1% para 27,3%, enquanto os trabalhadores sem carteira nesse segmento aumentaram o peso de 12,8% para 13,3%. 

A participação do emprego público pouco se modificou, passou de 15,0% para 15,1%, mas se verificou uma queda importante na participação do grupo de servidores estatutários e militares, por conta da corrida à aposentadoria, e o aumento da importância do servidor não estatutário. A participação de empregadores na ocupação se manteve inalterada, em 3,2%, e a de trabalhadores por conta própria registrou uma perda relativa, somente apresentando uma reação mais forte no 2º trimestre de 2017, cujos dados não constam na tabela. 

Em suma, em termos de posição na ocupação, entre 2014 e 2016 aumentou a importância de trabalhadores sem carteira assinada e de funcionários públicos não estatutários (por conta do incrmento no número de  aposentadorias), uma redução de trabalhadores por conta própria e a elevação no número de trabalhadores domésticos com carteira de trabalho, certamente por conta da nova legislação para o segmento. 

Setor Formal
Se, grosso modo, considerarmos relação formal de trabalho os vínculos como trabalhador do setor privado e trabalhador doméstico com carteira de trabalho assinada, empregador e servidor público estatutário ou com carteira assinada, em 2016 o percentual de trabalhadores sergipanos que se enquadravam nessa condição era de 45,1%, frente à média regional de 41,2%. 

Na região Nordeste, à frente de Sergipe em termos de grau de formalização se situavam os estados do Rio Grande do Norte, Pernambuco e, surpreenda-se, Alagoas (por conta do setor sucroalcoleiro). Atrás de Sergipe nesse indicador, por ordem de menor grau de formalização, Maranhão, Piauí, Bahia e Ceará e Paraíba- empatados.

Em relação à média do Nordeste, Sergipe não revelou um especialização muito acentuada em termos de distribuição por tipo de ocupação. As participações segundo a ocupação no nosso estado eram muito próximas à média regional.  Sem se afastar muito da média do Nordeste, Sergipe apresentou maior peso no pessoal ocupado com carteira de trabalho assinada no setor privado, de trabalhador doméstico com carteira assinada e de empregadores. Chama atenção todavia, o fato de que o peso de servidores estatutários e militares na ocupação de Segipe em 2016 se situava dois pontos percentuais acima da média do Nordeste, respectivamente 10,9% e 8,9%.  

 

Ocupação por setor
Em termos de ocupação por setor de atividade, chama a atenção a perda de participação entre 2014 e 2016 do emprego na indústria de transformação em Sergipe, com intensidade superior à média nacional e regional. A redução da ocupação, formal e informal, também foi superior à média no caso do setor de transporte e armazenagem e no segmento de serviços profissionais, administrativos e imobiliários. 

No caso da construção civil, aparentemente o que se verificou entre 2014 e 2016 foi a migração de trabalhadores das atividades formais para informais, dentro do próprio setor. A queda da ocupação na construção em Sergipe foi mais acentuada do que a média do Brasil mas inferior à média do Nordeste, que em conjunto vem sofrendo de forma muito mais intensa a crise do setor. 

Na comparação entre 2014 e 2016, ganharam partipações as ocupações nos segmentos de comércio, alojamento e alimentação e outros serviços, que têm funcionado com refúgio nesse período de crise acentuada no mercado de trabalho, até que o mercado de trabalho formal inicia sua recuperação.

 



*Assessor econômico do Governo do Estado de Sergipe


Coluna Ricardo Lacerda
Com.: 0
Por Kleber Santos
13/08
15:08

Sergipe no Nordeste e no Brasil: estrutura industrial

Ricardo Lacerda 
Professor da UFS

No artigo de hoje damos sequência ao delineamento das especificidades da economia de Sergipe no quadro geral do Nordeste e do Brasil. Temos insistido na sequência dos artigos que, se é verdade que a gravidade com que a crise econômica nacional vem impactando a economia sergipana está principalmente associada às características da estrutura produtiva interna, isso não significa necessariamente que a economia do estado terá maior dificuldade para retomar o crescimento e para crescer no longo prazo. 

Poderá ser exatamente o contrário. Na medida em que os fatores que derrubaram o nível de produção de algumas dessas atividades deixarem de atuar, ou forem atenuados, a recuperação da economia poderá ser mais robusta do que na média dos demais estados. É um tanto óbvio que, se não houver nenhum obstáculo especial, os setores que mais caem durante a crise também serão aqueles que deverão se recuperar mais rapidamente depois que ela cessar, a não ser que existam motivos para que isso não aconteça, como mudanças de natureza estrutural, que não são tão disseminadas assim. 

Dinâmicas próprias

Cada setor de atividade deverá ter um dinâmica própria de recuperação nos próximos anos, alguns crescendo mais rapidamente; outros podem ser arrastar por algum tempo antes de retomar; e outros podem ter maior grau de dificuldade. Alguns exemplos podem ser lembrados.

De imediato a produção de grãos de Sergipe deverá recuperar com grande intensidade ainda em 2017, por conta da melhoria do regime de chuvas. Caso a estimativa de julho do IBGE se confirme, a produção de cereais de Sergipe, liderada pelo milho, deverá multiplicar por quatro em relação a 2016. A safra da cana-de-açúcar, outra de nossas principais atividade agrícolas, deverá crescer, segundo o IBGE, 31,7% , com tudo o que o setor sucroalcooleiro significa em termos de fabricação de açúcar e de biocombustíveis.  

A geração de energia de Xingó despencou nos últimos anos, com impacto muito negativo no PIB sergipano e não deverá recuperar de imediato, diante dos baixos níveis dos reservatórios do Sâo Francisco. Todavia, quando o regime de chuvas nas cabeceiras do rio lá em Minas Gerais se normalizar o crescimento da geração de Xingó trará um impacto positivo de 3 ou 4 pontos percentuais no PIB sergipano. 

Setor por setor, é possível traçar um cenário daqueles devem ser recuperar mais rapidamente e de outros que deverão retardar a retomada, como a construção civil, atividade que poderá ensaiar os primeiros passos de uma lenta recuperação em 2018. Mas deixemos o exame das perspectivas de recuperação do crescimento para um artigo futuro; observemos hoje a estrutura da atividade industrial.

Estrutura Industrial
A Indústria Geral congrega as atividades das indústrias extrativas e as atividades das indústrias de transformação. A tabela apresentada resume a estrutura do agregado Indústria Geral de Sergipe em 2012 e 2015. Nas últimas colunas, a tabela registra o grau de especialização relativa de Sergipe, frente à média dos estados nordestinos, também naqueles dois anos. Em 2015, as indústrias extrativas participavam com 37,4% do Valor da Transformação Industrial (VTI) do total da indústria geral de Sergipe, dos quais 32,8% eram oriundos da exploração de petróleo e gás natural, enquanto as indústrias de transformação representavam os demais 62,6%.  

O grau de especialização de Sergipe na produção das indústrias extrativas em Sergipe era muito elevado em 2015, com a participação dessas atividades apresentando-se quase cinco vezes maior do que na média do Nordeste.  Entre 2012 e 2015 essa especialização até se acentuou,em parte porque a atividade ganhou peso na estrutura industrial sergipana, em parte porque ela perdeu participação na média do Nordeste, cedendo espaço principalmente para a produção de alimentos, celulose, químicos e derivados de petróleo.
 
Indústria de Transformação
Na indústria de transformação, as atividades de maior peso em Sergipe em 2015 eram a fabricação de alimentos, com destaque para açúcar e suco de laranja,a fabricação de cimentos (minerais não-metálicos), químicos (fertilizantes), têxteis, calçados, bebidas e biocombustíveis (etanol).    

Entre as atividades de peso mais elevado, a produção de têxteis e de cimento são aquelas em que Sergipe apresentava maior grau de especialização em relação à média do Nordeste, participando no VTI estadual com mais do dobro do que representavam na estrutura regional (ver Tabela).

A crise da Petrobras impactou fortemente a exploração de petróleo nas áreas tradicionais, diante da preferência dada pela empresa para a produção do pré-sal, enquanto o início da produção dos novos campos de águas ultraprofundas na bacia de Sergipe e Alagoas foi postergado.

As fabricações de produtos têxteis e de cimento também foram muito impactadas pela crise e deverão demorar a apresentar uma recuperação mais robusta. O setor têxtil por uma dupla condição, de retração do mercado interno e pela dificuldade de competir com os produtos importados. No caso da fabricação de cimento, principalmente em razão do estouro da bolha do mercado imobiliário, setor que deverá retomar o crescimento muito lentamente.   

No curto ou médio prazos, as recuperações das safras agrícolas, da geração de Xingó e na produção de cimento e na construção civil são as de maior significado para o crescimento do PIB estadual, além da recuperação do emprego à medida em que o crescimento da economia nacional rebater nas esferas estaduais. 

As mudanças de longo prazo que deverão ter impacto mais acentuado sobre o futuro da indústria sergipana dependerão principalmente do que acontecerá com o papel da Petrobras na cadeia de petróleo no Brasil, do início da produção dos campos em águas ultraprofundas e dos desdobramentos que poderão advir da maior presença de investimentos estrangeiros no setor de energia e fertilizantes em Sergipe, com os investimentos da Usina Termoelétrica Porto de Sergipe e com a aquisição pela norte-americana Mosaic das unidades de exploração postássio.

 

*Assessor econômico do Governo do Estado de Sergipe


Coluna Ricardo Lacerda
Com.: 0
Por Kleber Santos
06/08
14:50

Sergipe no Nordeste e no Brasil: estrutura produtiva

Ricardo Lacerda 
Professor da UFS 

No artigo de hoje damos sequência ao da semana anterior em que iniciamos o delineamento das especificidades da economia de Sergipe no quadro geral do Nordeste e do Brasil, focalizando nossa atenção na evolução da economia estadual nessas quase duas décadas do século XXI. Buscaremos identificar as especificidades da estrutura produtiva regional, comparando os pesos das atividades com as médias do Brasil e do Nordeste.
  
Ao se destacar as atividades de maior peso na estrutura econômica do estado, acreditamos poderemos avançar no sentido de alcançar um melhor entendimento dos impactos da crise nacional sobre a nossa economia.

Como teremos oportunidade de ver na sequencia dos artigos, a economia sergipana apresentou um crescimento vigoroso até o espoucar da crise nacional,  acompanhando o ciclo expansivo nacional entre 2004 e 2013. A questão se situa no fato de que, em grande parte, por conta de sua estrutura produtiva muito marcada pela extração de petróleo, fabricação de cimento e fertilizantes e ainda pela fabricação de produtos têxteis, a economia sergipana foi atingida muito duramente pela crise recessiva nacional. 

Também muito significativos foram os efeitos da estiagem sobre a produção de algumas das nossas principais culturas agrícolas e ainda mais fortes os impactos da queda na geração da energia elétrica, decorrente da redução dos níveis dos reservatórios da bacia do São Francisco. Vamos aos dados. 

Estrutura produtiva
A tabela apresentada resume na segunda e terceira colunas as participações dos setores de atividade na geração de riqueza em Sergipe, em 2012 e em 2014, último ano com os dados publicados. A razão de apresentar também os números de 2012 é a de buscar destacar modificações significativas que ocorreram nesse intervalo de anos nas participações de alguns dos principais setores de atividade, seja por conta da estiagem, seja por conta do agravamento da situação do mercado em atividades específicas, antes mesmo da recessão nacional iniciar a sua pior fase. 

Em 2014, as atividades agropecuárias sergipanas respondiam por 5,3% do total do Valor Adicionado Bruto (VAB), uma proxy do PIB. As atividades industriais representavam 24,6% e as atividades de serviços 70,1%, dos quais 26,9%  eram referentes ao setor público incluindo seguridade. 

O setor industrial no sentido amplo, que abrange além da indústria de transformação, a indústria extrativa, os serviços industriais de utilidade pública (SIUP) e a construção civil, perdeu 5,0 pontos percentuais de participação na comparação entre 2012 e 2014. A queda de participação do setor industrial se deve a três fatores principais: retração da contrução civil, depois do estouro da bolha imobiliária; redução da exploração local de petróleo, associada à queda da cotação do produto no mercado internacional, e, sobretudo; os efeitos da estiagem sobre o potencial de geração da Usina Hidroelétrica de Xingó. 
A participação dos Serviços Industriais de Utilidade Pública, em que se enquadra a geração de energia,  caiu de 7,7% do VAB de 2012 para menos da metade, 3,3% do VAB de 2014, e esse fato tem um impacto importante no crescimento do PIB sergipano.

A crise da atividade da construção civil, notadamente da construção de prédios residenciais, após o estouro da bolha imobiliária fez com que o setor apresentasse uma evolução inferior à média e também perdesse perticipação na riqueza gerada, passando de 8,8% do VAB de 2012 para 7,4%, em2014. 
Até 2014 o conjunto da indústria de transformação sergipana não se ressentia tanto da desaceleração da economia brasileira, ainda que algumas atividades já estivessem sendo atingidas. Na comparação entre 2012 e 2014, a indústria de transformação até aumentou seu peso no VAB, de 5,9% para 6,8%, mesmo porque com a forte retração do peso do SIUP, a perda participação daquela atividade é redistribuída pela demais. 

Especialização produtiva
As quatro últimas colunas daTabela mostram em quais as atividades a economia sergipana é relativamente especializada, quando se compara com a média do Brasil e do Nordeste. Valores superiores a 100 indicam que o peso de uma determinada atividade em Sergipe é superior ao peso que ela tem ou na economia do Brasil ou na economia do Nordeste, conforme o caso. Assim, o valor de 178 alcançado pelos serviços industriais de utilidade pública de Sergipe em 2012 indica que essas atividades pesavam 78% a mais na estrutura produtiva da economia sergipana do que na média do Brasil. Quando comparada à média do Nordeste, o  índice dos SIUP de Sergipe alcançava notáveis 304,3%, em 2012. Ou seja, a participação dos SIUP em Sergipe naquele ano era 204,3% maior do que na média do Nordeste. 

Na tabela estão marcadas as células em que o peso de uma determinada atividade na economia sergipana supera em 20% sua participação nas médias regional e nacional.

Petróleo, Xingó e Construção civil

A chave para entender porque a crise recessiva atingiu de forma contundente o nível de atividade da economia sergipana, com implicações na geração de emprego e na evolução das receitas públicas, é observar a estrutura produtiva estadual, em que a exploração de petróleo, a geração de energia elétrica e a construção civil apresentam participações muito expressivas.

Em 2014, a indústria extrativa, cuja principal atividade é a exploração de petróleo e gás natural, pesava 3,4 vezes mais em Sergipe do que na média do Nordeste e 91,6% a mais do que na média do país. Quando a cotação do barril de petróleo despencou no mercado internacional, passando da média anual de US$ 97,99, em 2013, para US$ 43,34, em 2016 (preço médio do mercado spot do barril de petróleo do tipo WTI), naturalmente os estados mais dependentes do setor são especialmente atingidos . 

Em termos proporcionais, Sergipe é o estado da região Nordeste em que a energia elétrica tem o maior peso no VAB. Em termos nacionais, Sergipe é o quarto estado em que a geração de energia tem maior participação. Entre 2012 e 2014, por conta da redução dos níveis dos reservatórios do rio São Francisco, a geração de energia por parte da UH de Xingó reduziu-se à cerca da metade. 

Finalmente, o caso da construção civil, que apresenta em Sergipe peso próximo ao da média nordestina, mas que se situava pelo menos 20% acima da média da participação brasileira. A crise na construção civil rebateu com força na fabricação de cimentos, uma das principais atividades da indústria de transformação de Sergipe, cujo peso no setor industrial é cerca do dobro da média do Nordeste. 

No próximo artigo, examinaremos a estrutura interna da indústria de transformação em nosso estado, com o mesmo intuito de avaliar como a crise econômica nacional impacta as suas principais atividades econômicas. 




*Assessor econômico do Governo do Estado de Sergipe


Coluna Ricardo Lacerda
Com.: 0
Por Kleber Santos
30/07
12:09

Sergipe no Nordeste e no Brasil: PIB per capita e rendimento médio

Ricardo Lacerda 
Professor da UFS

No artigo de hoje e nos das próximas semanas vamos buscar destacar o que é especifico da economia de Sergipe no quadro geral do Nordeste e do Brasil. Focalizaremos nossa atenção na evolução da economia estadual nessas quase duas décadas do século XXI, frente ao comportamento dos demais estados da região e da média do Brasil e, em um segundo momento, procuraremos delinear como a atual crise econômica incide em Sergipe, sempre buscando identificar as especificidades que as distintas dimensões dela assumem em nosso estado. 

Nos primeiros artigos apresentaremos as características mais gerais da economia do estado, antes de começar a tratar propriamente dos efeitos da crise.

Humildade
Entendo que, ao se debruçar sobre uma realidade concreta, o mais importante para o pesquisador ou analista social é buscar o que é especifico daquela realidade em relação ao quadro geral em que ela se insere. 

Entendo ser recomendável que o estudioso exercite a humildade perante situações que são complexas, antes de proferir vaticínios cabais. É fundamental procurar compreender as nuances de um quadro socioeconômico, abrir os dados a níveis mais desagregados, por vezes desconfiar dos dados, e procurar entender o significado deles e suas implicações. Há sempre o risco de tratar a realidade como tábua rasa, com conclusões apressadas que avalizam a ascensão ao céu ou a condenação às profundezas do inferno. Começando com os grandes números. 

Maior PIB per capita 

De acordo com os últimos dados disponíveis do IBGE, referentes ao ano de 2014, antes, portanto, da recessão se instalar inteiramente no país, Sergipe mantinha o PIB per capita mais elevado do Nordeste. 

Naquele ano o PIB per capita anual de Sergipe alcançou R$ 16.882,71, frente à média regional de R$ 14.329,13 e a média nacional de R$ 28.500,24 (ver Tabela 1).  Depois de Sergipe, os estados de Pernambuco e do Rio Grande do Norte contavam com os maiores PIB per capita do Nordeste, enquanto Maranhão, Piauí e Alagoas apresentavam os piores resultados. Cabe destacar que o PIB per capita do Nordeste é o mais baixo entre as regiões brasileiras, até mesmo inferior ao da região Norte, atingindo apenas cerca da metade (50,3%) do PIB per capita nacional (R$ 28.500,24).

Nenhum estado da região Nordeste alcançava 60% da média nacional do PIB per capita. Esses dados por si mesmo sugerem que relacionar indicadores de estados nordestinos em relação à média nacional resulta na quase totalidade das situações em amplas desvantagens para todos eles.  Em um extremo o PIB per capita de Sergipe se situava 17,8% acima da média da região Nordeste, ainda que bem abaixo da média nacional, 59,2%.  No outro extremo, o estado do Maranhão registrava um PIB per capita 21,7% abaixo da média do Nordeste e  um pouco menos de 40% da média do país.


Rendimento médio
Outro indicador da dimensão renda do desenvolvimento é o rendimento médio do pessoal ocupado. Há pelos menos duas possiblidades principais de fazer essa comparação, uma considerando os dados da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar (PNAD), com resultados anuais, cujos resultados mais recentes são referentes ao ano de 2015, e outra com base na PNAD contínua, com a última edição referindo-se ao 1º trimestre de 2017.

Na tabela 2 apresentamos o rendimento médio nominal do trabalho principal das pessoas ocupadas nos estados da região Nordeste com base nos dados da PNAD contínua. Para minimizar os efeitos sazonais, apresentamos, além dos dados referentes ao 1º trimestre de 2017, uma média simples nominal dos últimos quatro trimestres, reconhecendo que o mais adequado seria calcular a média ponderada e com preços constantes. 

Nos dois casos, Sergipe apresentou o maior rendimento médio nominal do trabalho principal entre os estados da região Nordeste.  No 1º trimestre de 2017, o rendimento no trabalho principal das pessoas ocupadas de Sergipe foi de 1.628 reais, contra a média de 1.398 reais da região Nordeste e 2.052 reais da média do país (Ver Tabela 2). Assim, o rendimento médio habitual do trabalhador no Nordeste era equivalente a 68,1% da média do país. 

O rendimento médio das pessoas ocupadas em Sergipe se situou 16,5% acima da média da região e equivalia a 79,3% da média nacional. O estado do Maranhão apresentou o pior resultado, com rendimento médio 17,5% abaixo da média do Nordeste e equivalia a 55,5% da média nacional.


O outro caminho para fazer esse cálculo é utilizando os dados da PNAD anual de 2015. Nesse caso, Sergipe não se encontra na liderança, mas há fatos curiosos que merecem ser destacados. Na série iniciada em 2001, Sergipe e Rio Grande do Norte, ambos estados produtores de Petróleo, disputam a liderança regional, com o Rio Grande do Norte aparecendo em 1º lugar na maioria dos anos. 

Sergipe alcançou o maior diferencial em relação à média do Nordeste em 2011, nessa pesquisa, quando ficou em 21,7% acima do resultado regional. Em todo o período 2001 a 2013, o rendimento médio de Sergipe ficou acima da média do Nordeste. Em 2013, o rendimento médio de Sergipe era 16,9% acima da média regional, mas em 2014 e 2015, os resultados de Sergipe ficaram um pouco abaixo dessa média. Em 2015, o rendimento médio do trabalho principal em Sergipe na PNAD anual era de 98,6% da média regional. Oscilação tão ampla em pouco tempo, em geral, leva o pesquisador a, no mínimo, questionar a qualidade dos dados.

Para comparar, consultamos a PNAD continua para esse período. Considerando os dados da média dos quatro trimestres de 2015 da PNAD continua, o rendimento médio do trabalho principal de Sergipe era 11% acima da média regional, e 9,5% acima da média regional, considerando o último trimestre daquele ano.  Em tais situações é necessária no mínimo alguma cautela antes de concluir sobre a trajetória do estado em relação à media regional, no que diz respeito a esse indicador específico e à dimensão renda do desenvolvimento econômico. Na próxima semana, trataremos de novos indicadores do desenvolvimento de Sergipe, antes de penetrar propriamente no impacto da crise nacional sobre a economia local.

*Assessor econômico do Governo do Estado de Sergipe


Coluna Ricardo Lacerda
Com.: 0
Por Kleber Santos
09/07
12:52

Uma conquista com gosto de derrota

Ricardo Lacerda*
Professor da UFS

Os preços ao consumidor no mês de junho registraram a primeira deflação em onze anos. A última vez que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) havia apresentado recuo mensal foi em junho de 2006. Alimentação e bebidas e Habitação foram os dois grupos de preço que mais contribuíram para a queda do índice, mas os demais grupos ou se mantiveram estagnados ou apresentaram incrementos próximos a zero. Com o resultado de junho, o IPCA em doze meses subiu 3,0%, o limite inferior da meta de inflação para 2017. A profunda recessão em que se encontra economia brasileira produziu esse resultado, só aparentemente positivo. 

A título de reduzir a inflação e de perseguir o ajuste fiscal, as políticas monetária e fiscal quebraram intencionalmente a espinha dorsal do mercado de trabalho. Entre as alternativas disponíveis para recolocar a inflação em patamar mais bem comportado optou-se por produzir desemprego com o propósito principal de conter os preços dos bens não comercializáveis, aqueles que não sofrem diretamente a competição de produtos importados, muito particularmente nos segmentos de serviços em que a remuneração do trabalho é a referência básica dos preços cobrados. 

Pelos menos desde 2015 que alguns experts de forma disfarçada e outros declaradamente, como o professor da FGV Samuel Pessôa, têm argumentado em favor de quebrar o poder de barganha dos prestadores de serviço como um elemento central para conter os preços e ajustar a demanda ao produto potencial. Com os últimos resultados do IPCA vai ser difícil sustentar que a política de juros do Banco Central não errou a dose, causando sofrimentos desnecessários e gerando fortes desequilíbrios nas finanças públicas e privadas. A queda da inflação é a típica vitória de Pirro, uma conquista com gosto de derrota.

Diante do impacto da recessão sobre as receitas públicas e o desemprego causado além do estimado, alguns desses experts deverão ajustar o próprio discurso, propondo acelerar a redução dos juros nominais, mas jamais reconhecerão minimamente o desastre que produziram. É sempre possível atribuir a responsabilidade pela eliminação de mais de dois milhões de empregos formais e de deixar catorze milhões de brasileiros sem ocupação ao desequilíbrio fiscal promovido pelo governo anterior ou aos atuais desarranjos do mundo político; mas difícil será reconhecer as consequências do overshooting da política de juros altos.

Preços represados
Ao final de 2013, a inflação apresentava-se aparentemente comportada, com o IPCA alcançando 5,9%, mas havia muita pressão de preços contida. Os chamados preços monitorados, que incluem tarifas de energia elétrica, de gasolina e botijão de gás, entre outros, acumulavam fortes defasagens e naquele ano haviam subido apenas 1,5% (ver Gráfico 1), com custos fiscais muito elevados para o governo central e causando pressão sobre a rentabilidade da Petrobras. De outra parte, a manutenção do real valorizado funcionava como um subsídio aos preços de produtos importados, à custa da rentabilidade dos setores produtores dos bens comercializados, notadamente os bens industrializados, com efeitos potencialmente desestabilizadores sobre o balanço de pagamentos. 

Ao assumir o comando da economia em novembro 2014, o futuro ministro Joaquim Levy implementou um programa de correção dos preços artificialmente contidos, promovendo um choque nos preços monitorados e intensa de desvalorização da moeda nacional. O impacto sobre os preços e sobre o poder de compra da população foi imediato e revelou-se muito maior do que o dimensionado pelo governo, jogando o país na recessão. Ao final de 2015, os preços monitorados que haviam aumentado 5,3% em 2014 se elevaram em 18,1% e os preços dos produtos comercializáveis saltaram de 6% para 8,3%.

Apesar da recessão já muito intensa em 2015, a elevação dos preços dos bens e serviços não comercializáveis manteve-se em aceleração, diante de um mercado de trabalho que até então resistia à retração da demanda, e atingiu 8,7% no ano (Gráfico 2). Com a correção dos preços reprimidos e a mudança do patamar do câmbio, o IPCA de 2015 subiu 10,7%, causando apreensão nos mercados. 

Desemprego e queda da inflação
Depois do choque intencional de preços, havia o risco dos mecanismos de propagação elevar o patamar do IPCA em relação ao padrão anterior, mas, mesmo na pior hipótese, o resultado de 2015 não seria repetido nos anos seguintes, posto que parte dos aumentos se dissiparia, não sendo incorporado pelos mecanismos de indexação, em um mercado fortemente recessivo e marcado pela contenção do poder de compra da população. 

Dissipados progressivamente os efeitos dos choques de preço e frente à intensa deterioração do mercado de trabalho, todos os grupos de preços passaram a apresentar desaceleração no segundo semestre de 2016. Ao final do ano, o incremento do IPCA caiu para 6,3 e chegamos em junho de 2017 com índice de doze meses em 3,0%.  A queda da inflação para o limite inferior da meta de inflação reflete a intensidade da recessão no mercado de trabalho. Não é um resultado a ser comemorado. Cabe agora correr contra o prejuízo.
  


*Assessor econômico do Governo do Estado de Sergipe


Coluna Ricardo Lacerda
Com.: 0
Por Kleber Santos
02/07
07:09

Volta a acelerar a queda da ocupação na construção civil

Ricardo Lacerda*
Professor da UFS

A crise tem sido muito dura no mercado de trabalho. Em dois anos e meio de recessão, cerca de dois milhões e meio de pessoas perderam ocupação no Brasil, sob qualquer tipo de vínculo ocupacional. As ocupações formais caíram em ritmo mais acentuado do que os vínculos informais. Os empregos com carteira assinada sofreram um grande revés, enquanto os empregos sem carteira de trabalho aumentaram, mas não em quantidade suficiente para ocupar aqueles que perderam o emprego com carteira assinada.
Nos primeiros estágios da crise, os trabalhadores recém desempregados correram para buscar a subsistência em ocupações por conta própria, mas a perseverança e intensidade da retração da demanda que acompanhou a redução do poder de compra da população mostrou que essa não seria uma alternativa viável e o número de ocupações por conta própria passou a despencar.

Construção Civil
Especialmente grave tem sido a evolução da ocupação nos diversos segmentos que compõem a construção civil.  A atividade da construção civil não dá sinais de estabilizar o nível de ocupação. Pelo contrário, a atividade vem acelerando a eliminação de postos de trabalho a partir de meados de 2016. 
 
O mais alarmante é que, desde o último trimestre do ano passado, a taxa de retração na ocupação na construção civil vem alcançando taxas especialmente elevadas, entre 9% e 10% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior.  No último resultado disponível, referente ao trimestre março-maio de 2017, a queda da ocupação na atividade voltou a acelerar, registrando queda de 10,2%, nesse tipo de comparação (ver Gráfico).  

Em uma atividade em que pouco mais de 1/3 dos trabalhadores conta com vínculo formal de trabalho, a queda na ocupação vem batendo com força, tanto nas atividades formais, vinculadas à construção residencial e a investimentos em infraestrutura produtiva e social, quanto na ocupação informal, em geral vinculada à edificação e reformas em residências. 

No trimestre março-maio de 2017, havia 6.674 mil trabalhadores ocupados nos diversos segmentos de atividade da construção civil. Três anos antes, no trimestre março-maio de 2014, o contingente de trabalhadores na atividade era de 7.939 mil pessoas. Nessa comparação, foram eliminados mais de um milhão de ocupações. E na comparação com março-maio de 2016, foram eliminadas 793 mil ocupações nos segmentos que compõem a atividade.
 
No setor formal, a ocupação no setor não dá sinais de ter encontrado o fundo do poço. Entre janeiro e maio de 2017 foram eliminados 25.060 postos de trabalho formais, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregado (CAGED). No mês de maio, a atividade apresentou um saldo negativos de 4.021 empregos com carteira de trabalho e nos últimos dozes meses foram menos 302.802 empregos formais. 

Perspectivas 
As perspectivas para a construção civil são muito adversas no curto e no médio prazos. Os investimentos públicos deverão permanecer rebaixados, tanto aqueles direcionados para a construção civil residencial quanto para as obras de infraestrutura. E os programas de concessão de infraestrutura para o setor privado, que já não vinham deslanchando, deverão ficar congelados diante da crise política em que o governo federal submergiu. O encolhimento da disponibilidade de recursos do FGTS e a retração do crédito somente agravam o cenário do setor.






*Assessor econômico do Governo do Estado de Sergipe


Coluna Ricardo Lacerda
Com.: 0
Por Kleber Santos
1 2 3 4 5 6 » Próxima » Última

Enquete


Categorias

Arquivos