22/04
14:41

A recuperação econômica esfriou no 1º trimestre de 2018?

Ricardo Lacerda*
Professor da Universidade Federal de Sergipe

A publicação dos principais indicadores de evolução da atividade econômica trouxe preocupação sobre os riscos de que a retomada da economia brasileira tenha esfriado nesse início de 2018. Os desempenhos ruins de atividades setoriais nos dois primeiros meses do ano parecem mesmo sinalizar uma atenuação do crescimento que se apresentava com perspectivas mais robustas no segundo semestre de 2017. As consultorias especializadas se apressaram para rever para baixo as projeções para o crescimento do PIB de 2018, mas a mediana das estimativas permaneceu relativamente alta, de 2,76%, para 2018, mantendo-se a taxa de 3% para 2019. 

Os dados sobre a evolução do mercado de trabalho têm se apresentado relativamente piores do que os de volumes de atividade setoriais, com a continuidade da queda no contingente de pessoas ocupadas com vínculos formais (nos resultados da Pnad Contínua) e a desaceleração de certa intensidade na expansão dos vínculos informais.  

A retração do ritmo de crescimento do nível de atividade fez acender o sinal de alerta sobre a possibilidade, mesmo relativamente remota, de que a retomada da economia se revele muito mais frágil do que a prevista anteriormente. Ainda mais quando aumentaram a instabilidade e a imprevisibilidade do cenário político interno e, no cenário externo, apesar de o ritmo de crescimento econômico se manter robusto, o ambiente político apresentou forte deterioração e a espiral do protecionismo ensaia seus primeiros episódios. 

Voo de galinha
Para os analistas menos otimistas, parte expressiva do crescimento de 2017 foi causada por fatores não recorrentes, que não deverão se repetir em 2018 e anos seguintes, como a liberação de recursos do FGTS e os fortes incrementos da produção agrícola e das vendas externas. 

A continuidade do crescimento da economia brasileira em 2018 estaria basicamente assentada na expansão do consumo, mas a continuidade do incremento desse componente da demanda estaria sob risco.  Diante do súbito esfriamento do mercado de trabalho, a sustentação no ritmo de incremento do consumo, e assim, do conjunto da economia brasileira, estaria à mercê dos impactos da redução dos juros nominais, impulso quase solitário sobre o nível de atividade nesse momento. 

Moderação
A perspectiva mais pessimista sobre a evolução de nossa economia não é a dominante, pelo menos não é ainda. A avaliação mais aceita até o momento é de que a desaceleração na evolução dos indicadores nos meses de janeiro e fevereiro pode simplesmente refletir uma correção em relação aos resultados acima dos esperados no período imediatamente anterior e que o ritmo do crescimento tendencial nem é aquele mais elevado do final do ano passado, nem tampouco a quase estagnação desse início de 2018. Nessa perspectiva, deverá prevalecer um resultado intermediário. Somente os resultados setoriais dos próximos meses deverão esclarecer qual o cenário que deverá prevalecer. 

Indústria, serviços e varejo
No acumulado de janeiro e fevereiro, a produção física da indústria de transformação recuou 2,6%, em relação a dezembro de 2017, e as atividades de serviços recuaram 3,29%. Mesmo os índices de confiança setoriais sobre o futuro passaram a apresentar maiores oscilações. O volume de vendas no varejo, até o momento, manteve nesse início de ano a trajetória de crescimento. 

No acumulado de janeiro e fevereiro, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central do Banco Central (IBC-BR) recuou 0,56%, em relação dezembro de 2017. A linha continua dupla no Gráfico mostra a evolução do IBC-BR no acumulado de dois meses, na série livre de efeitos sazonais. Nessa série fica evidente a desaceleração do ritmo de crescimento em janeiro e fevereiro, depois da aceleração entre outubro e dezembro de 2017. A linha pontilhada mostra a comparação com os mesmo bimestres do ano anterior: depois de acelerar até outubro de 2017, o IBC-BR manteve até janeiro taxas de crescimento em patamar superior a 2%, e em fevereiro recuou para 1,8%. 

Finalmente a linha contínua simples apresenta uma perspectiva de prazo mais largo, com a taxa do crescimento acumulado em doze meses, em comparação aos dozes meses anteriores. Nessa série, há claros sinais de que o ritmo de aceleração de crescimento perdeu ímpeto nos últimos resultados, mas se mantém relativamente elevado. 

Em síntese, constatou-se um esfriamento do crescimento do nível de atividade econômica nesse início de 2018. Aparentemente, houve uma correção em relação ao crescimento mais robusto do último trimestre de 2017; mas pode não ter sido apenas isso. 



*Assessor Econômico do Governo do Estado de Sergipe


Coluna Ricardo Lacerda
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Por Kleber Santos
15/04
16:56

Renda média caiu em 2017 e mais 1,5 milhão de pessoas ingressaram na situação de miséria

Ricardo Lacerda*
Professor da Universidade Federal de Sergipe

A continuidade do enfraquecimento do mercado de trabalho em 2017, com a queda do emprego formal e o incremento de vínculos precários, impactou os rendimentos da população; a renda média do brasileiro caiu e a miséria aumentou. 

O IBGE publicou na semana passada os resultados de 2017 da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílio Contínua- PNADC referentes aos rendimentos da população. A pesquisa mostrou, entre outras coisas, que a renda entre os mais pobres caiu bem mais do que entre as pessoas mais ricas. 

Em termos regionais, o Nordeste e o Sudeste foram as áreas mais atingidas pela crise no mercado de trabalho; a primeira região por ter sido a única em que o contingente de pessoas que obtinham rendimento com trabalho caiu na comparação com o ano anterior; a segunda pelos efeitos mais acentuados da precarização dos vínculos de trabalho, com a substituição do emprego formal por formas precárias de inserção no mercado de trabalho, que fizeram com que fosse a única região cujos rendimentos médios das pessoas que estavam ocupadas tivessem recuado. Nordeste e Sudeste também foram as regiões em que as quedas do rendimento do trabalho das pessoas de rendas mais baixas foram mais acentuadas do que a média do país. 

A queda de renda nos estratos de mais baixos rendimentos provocou uma nova leva de pessoas que ficaram abaixo da linha demarcatória de pobreza extrema. Segundo estimativa da empresa de consultoria LCA, mais 1,5 milhão de pessoas no Brasil engrossaram o contingente de pessoas em situação de pobreza extrema. 

Ocupação e rendimentos
Em 2017, trezentos e dez mil pessoas deixaram de ter rendimentos do trabalho no Brasil. O número de pessoas que obtiveram rendimento do trabalho registrou queda acentuada no Nordeste, incremento residual no Sudeste e Sul e aumentos um pouco mais expressivos no Centro-Oeste e Norte. Enquanto no Nordeste o contingente de pessoas com rendimento do trabalho se retraiu em 448 mil pessoas, a região Sudeste registrou aumento em 4 mil pessoas e a região Sul, em 8 mil pessoas; o Norte agregou mais 20 mil pessoas com rendimentos do trabalho e o Centro-Oeste, mais 107 mil pessoas.

O rendimento médio real mensal do trabalho no Brasil, em 2017, se retraiu 1,4%, passando de R$ 2.268,00, no ano anterior, para R$ 2.237,00 (Ver Gráfico 1).  A região Nordeste manteve-se como a de menor rendimento médio (70,2% da média nacional), enquanto a região Sul (114,7% da média nacional) substituiu a região Sudeste como a de rendimento de trabalho mais elevado.

Segunda a pesquisa, o Sudeste foi a única região que registrou queda do rendimento médio do trabalho e também da massa de rendimento. O Sudeste apresentou, em 2017, queda do rendimento mensal em todas as classes de percentual de rendimento, retrações que foram mais acentuadas nos estratos de renda extremos, os mais baixos e os mais altos, e menos acentuadas nos estratos intermediários. O comportamento dos rendimentos da região Sudeste divergiu de todas as demais regiões brasileiras, cujas quedas se concentraram nas classes de percentuais de renda mais baixos.




Pobreza extrema
A partir dos dados da PNADC, a consultoria LCA estimou que o número de brasileiros que se encontram abaixo da linha da pobreza extrema aumentou 11,2% em 2017, adotando-se a linha de corte do Banco Mundial para países de nível médio-alto desenvolvimento de US$ 1,90 de renda domiciliar per capita por dia, corrigida pela paridade de poder de compra. Mais um milhão, quatrocentos e noventa mil brasileiros passaram a ter rendimentos inferior a esse limite. Aumento tão expressivo do contingente de pessoas nessa situação, quando o rendimento médio real de todas as fontes declinou tão somente 0,6%, reflete principalmente a queda muito mais acentuada dos rendimentos das faixas mais pobres da população. 

Em termos regionais, os maiores contingentes de pessoas que ingressaram na pobreza extrema em 2017 residiam no Nordeste (mais 800 mil pessoas) e no Sudeste (mais 400 mil pessoas), mas em todas as regiões a pobreza extrema se expandiu (Ver Gráfico 2).


*Assessor Econômico do Governo do Estado de Sergipe


Coluna Ricardo Lacerda
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Por Kleber Santos
08/04
14:47

Rio de Janeiro e vínculos precários retardam a recuperação do emprego formal no Sudeste

Ricardo Lacerda*
Professor da UFS

A região Sudeste, a mais industrializada do país, é também a que vem apresentando nos últimos doze meses a maior discrepância entre os comportamentos do emprego formal e do emprego informal. Na comparação entre os quatro trimestres de 2017 e os de 2016, a ocupação total naquela região apresentou incremento de 1%, enquanto o pessoal ocupado no setor privado com carteira de trabalho assinada recuou em 2,8%, portanto, 3,8 pontos percentuais de diferença entre as evoluções dos dois agregados.

Se a situação do mercado de trabalho no Nordeste foi a que mais se deteriorou no período, pois, além de apresentar a queda mais acentuada no emprego formal, foi a única região em que a ocupação total caiu nessa comparação, na região Sudeste as evoluções da ocupação formal e da informal registraram as divergências mais acentuadas.

Empregos celetistas
Para dados mais recentes é necessário recorrer ao Cadastro de Empregados e Desempregados (CAGED) do Ministério do Trabalho. Nos doze meses concluídos em fevereiro de 2018, vinte das vinte e sete unidades da federação registraram saldo positivo na geração de empregos regidos pela CLT. Entre as cinco regiões, apenas o Sudeste apresentou retração no estoque do emprego formal celetista.

Nessa série acumulada em doze meses, o emprego formal no conjunto do país somente passou a apresentar saldo positivo no último mês de janeiro, mas os resultados são muito diferentes entre as regiões. O Centro-Oeste vem apresentando incremento no estoque de emprego, na soma de doze meses, desde agosto de 2017; a região Sul, desde novembro; o Norte, desde dezembro; a região Nordeste, somente a partir de janeiro do corrente ano. No Sudeste, o acumulado até fevereiro ainda amargou a retração de 17.550 empregos formais.

Despenca o emprego formal no Rio de Janeiro
Os sete estados que apresentam saldo negativo na geração de emprego nos doze meses encerrados em fevereiro são Acre e Pará, na região Norte; Rio Grande do Norte, Paraíba e Alagoas, no Nordeste; Rio de Janeiro, no Sudeste; e Mato Grosso do Sul, no Centro-Oeste.

Em conjunto, tais estados perderam 88.829 empregos formais, dos quais 71.058 eram empregos da economia fluminense, ou seja, cerca de quatro em cada cinco empregos perdidos nos sete estados eram registrados no Rio de Janeiro e a taxa de queda do emprego formal nesse estado foi mais do que o dobro do que a do Pará, o estado de segundo pior desempenho.

Sudeste
O Quadro apresentado sumariza o comportamento do emprego formal celetista na região Sudeste nos doze meses concluídos em fevereiro de 2018. Nesse período, apenas as atividades de serviços, comércio e agropecuária apresentaram saldo positivo de geração de emprego na região, enquanto construção civil, indústria de transformação, os serviços industriais de utilidade pública e a atividade extrativa mineral registraram quedas no emprego formal. Dentre elas, a construção civil foi a que apresentou pior desempenho, com corte de 48, 8 mil empregos formais, equivalentes a 70,2% da soma de todos os setores deficitários (ver Quadro).

Enquanto o emprego formal recuou no Rio de Janeiro, os demais estados da região Sudeste apresentaram variações positivas, mais expressiva em termos proporcionais em Minas Gerais (0,73%), e menos acentuadas em São Paulo (0,19%) e no Espírito Santo (0,30%).

No caso do Rio de Janeiro, a retração do emprego formal foi generalizada em todos os setores de atividade. A única exceção foi o pequeno incremento do emprego formal celetista na administração pública (ver Quadro). Os setores que mais eliminaram postos de trabalho no Rio de Janeiro nos últimos doze meses foram, por ordem, os serviços, a construção civil e a indústria de transformação. Mesmo no comércio, que no conjunto do país apresentou crescimento bem superior à média dos setores, a economia fluminense não apresentou saldo positivo no período.

Na indústria de transformação, São Paulo e Rio de Janeiro continuaram acumulando resultados negativos em doze meses, enquanto em Minas Gerais e Espírito Santo os saldo de geração de emprego foram positivos. São Paulo e Rio de Janeiro também lideraram regionalmente a destruição do emprego na construção civil, segmento que respondeu por mais da metade do corte de postos de trabalho no período.

Em conjunto, o mercado de trabalho formal da região Sudeste sofre com a crise desagregadora no estado do Rio de Janeiro e com a situação ainda muito ruim do emprego formal da construção civil, na indústria de transformação e na indústria de extrativa mineral, que abrange, além da mineração, a exploração de petróleo e gás.

A discrepância na região Sudeste entre o resultado positivo na ocupação total e o saldo negativo do emprego formal celetista é explicada porque as atividades que mais tiveram incremento na ocupação foram aquelas informais dos segmentos de alimentação e alojamento, serviços profissionais e administrativos e serviços pessoais. No setor formal, o incremento alcançado nas atividades de comércio e serviços e na agropecuária ainda não foram suficientes para compensar as quedas que se mantiveram acentuadas nos últimos dozes meses na construção civil, na indústria de transformação e na indústria extrativa mineral.



*Assessor Econômico do Governo do Estado de Sergipe
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


Coluna Ricardo Lacerda
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Por Kleber Santos
25/03
13:11

Os mecanismos de auto reforço voltam a operar contra o Nordeste

Ricardo Lacerda* 
Professor da UFS

A crise tem sido extremamente penosa para a região Nordeste. O impacto mais forte da crise econômica sobre o mercado de trabalho da região desdobra-se em várias implicações sociais e econômicas; entre as últimas cabe destacar a reversão de ganhos de participação que a região acumulou no mercado de consumo nacional durante o ciclo de crescimento e de inclusão social, entre 2004 e 2014.   

Considerando-se apenas as rendas de trabalho, sem contabilizar, portanto, as rendas de importantes transferências como as previdenciárias e as de assistência social, o Nordeste respondeu por mais de 70% das perdas nacionais da massa de rendimentos entre 2015 e 2017. Mesmo quando nesse último ano a massa de rendimentos voltou a crescer no Brasil, o aumento na região Nordeste foi mais lento do que em todas as demais regiões. 

Nunca é demais lembrar que os mecanismos de auto reforço entre a variação na participação do tamanho de mercado e o ritmo comparativo de crescimento econômico das regiões operam nos dois sentidos, favorecendo a atração de investimentos para aquelas regiões em que o poder de compra cresce mais rápido, e com isso voltando a ampliar a participação no tamanho de mercado, e, inversamente, acentuando a retração absoluta ou relativa do tamanho de mercado naquelas regiões em que o poder de compra encolhe mais ou cresce mais lentamente; aparentemente, é isso que vem acontecendo nos últimos três anos nas regiões mais pobres do país.

A crise relativamente mais acentuada na construção civil regional, a paralisia dos investimentos em infraestrutura produtiva e social e os desinvestimentos das empresas estatais na região, a exemplo do que vem acontecendo no setor de petróleo e gás, leia-se Petrobras, são importantes fatores de declínio relativo e absoluto da região Nordeste nos últimos três anos.

Retardando a retomada
Em linhas gerais, em termos da evolução de massa de rendimentos do trabalho quatro as características distintivas da região Nordeste: Apresentou crescimento mais acelerado no período anterior à crise, pelo menos na média entre 2012 e 2014; demorou mais a inverter a trajetória de positiva para negativa do que a maioria das demais regiões; mas, quando a massa de rendimentos começou a cair a partir do final de 2015, o ritmo de queda foi muito mais acentuado no Nordeste do que em todas as demais regiões; e finalmente, o Nordeste foi uma das regiões em que mais retardou a retomada do incremento de renda e o fez em um ritmo inferior ao das demais regiões. O Gráfico 1, que apresenta o índice de evolução da massa de rendimento na média móvel de quatro trimestres, retrata essas características distintivas. 








Participações regionais

O Gráfico 2 apresenta as participações na massa de rendimentos do trabalho na média de quatro trimestres entre 2012 e 2017, com base nos dados da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar Contínua (PNADCT), do IBGE. Acompanhando a evolução relativa das ocupações nas regiões, a participação da massa de rendimento do Nordeste se ampliou entro 2012 e 2014, quando a economia, o emprego e os rendimentos cresciam no país. Na comparação entre as médias dos quatro trimestres, a participação da região Nordeste na massa de rendimento real de todos os trabalhos habitualmente recebidos aumentou de 16,1%, em 2012, para 16,5%, em 2014. Ainda que a variação de participação possa parecer ter sido limitada no período, cabe assinalar que a região absorveu 23,2% do incremento real da massa de rendimento, participação substancialmente superior ao peso da região nessa variável. 

Mais ampla, foi a perda de participação da região nos anos de 2015 e 2017, quando retroagiu até atingir os 15,8% de 2017. A penúltima coluna do Gráfico 2 mostra que 73,9% da perda de massa de rendimentos nesse período se concentrou no Nordeste, enquanto as regiões Sudeste e Sul não apresentaram redução de massa de rendimentos de trabalho no período, nessa série que compara a média de quatro trimestres. 

A última coluna mostra, por sua vez, que o incremento da massa de rendimentos do trabalho que se verificou em 2017 foi menos que proporcional na região Nordeste e na região Sudeste, e mais acentuada nas regiões Norte, Centro-Oeste e Sul.
Ainda que o período de recuperação seja muito curto para confirmar uma tendência, a evolução recente do mercado de trabalho, muito especificamente os dados de ocupação e de massa de rendimento, sinaliza perspectiva problemática do ponto de vista regional da retomada do crescimento no Brasil.






*Assessor Econômico do Governo do Estado de Sergipe


Coluna Ricardo Lacerda
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Por Kleber Santos
18/03
16:10

Ascensão e queda do Nordeste

Ricardo Lacerda*
Professor da UFS

As regiões mais pobres do país, Nordeste e Norte, foram relativamente favorecidas no ciclo de crescimento e de inclusão social do período 2004-2014. Ainda que essas regiões tenham permanecido com os piores indicadores em praticamente todas as dimensões do desenvolvimento econômico e social, elas avançaram mais rapidamente do que as regiões mais ricas, Sudeste e Sul, estreitando mesmo que não muito o fosso entre elas. A isso a literatura do desenvolvimento chama de processo de convergência. 

As principais forças motrizes das regiões mais pobres no período de crescimento estiveram associadas a ganhos de renda e, portanto, de poder de compra, que geraram efeitos cumulativos na medida em que atraíram investimentos de empresas de outras regiões para participar nos mercados que se expandiam mais rapidamente, no bojo daquilo que ficou conhecido como a ascensão da Classe C. O aumento real do salário mínimo no período potencializou os efeitos do incremento do emprego sobre a expansão do mercado regional. As políticas de transferências de renda foram um capítulo adicional, mais importantes para a inclusão social do que propriamente para a expansão da massa de rendimentos.  

Se o incremento das rendas das famílias foi o principal impulso do crescimento nas regiões mais pobres, não estiveram ausentes investimentos em infraestrutura produtiva, urbana e social, como os investimentos em complexos portuários, em recursos hídricos, nas redes federais de escolas técnicas, entre outros. 

Como se sabe, o ciclo de crescimento econômico se exauriu em 2014, após a reversão do cenário internacional. A aterrisagem brasileira na recessão mundial, como se sabe, foi uma das mais devastadoras do mundo, em meio a um turbilhão político do qual ainda não conseguimos emergir. 

Depois do crescimento pífio de 0,5%, em 2014, a economia brasileira amargou uma das piores recessões de sua história, com o PIB recuando 3,5% em 2015 e 2016, e apresentou um muito modesto crescimento em 2017, de 1%. A dinâmica do emprego seguiu a evolução do nível de atividade, mas com uma estendida defasagem temporal, registrando-se geração de emprego formal no setor privado de mais de um milhão de pessoas (na média de quatro trimestres), em 2014, quando a economia começava a submergir, e redução de 950 mil empregos formais no setor privado na comparação nos 4 trimestres de 2017 em relação a 2016. 

Impactos regionais da crise
Não há ainda avaliações conclusivas sobre os impactos regionais da crise econômica que se seguiu o ciclo expansivo, mas, sobretudo, os indicadores de ocupação, emprego e renda sinalizam que as regiões mais pobres foram afetadas mais do que proporcionalmente. 

Desempenhos setoriais têm importante poder explicativo, com setores como agricultura (pela estiagem e pela crise do setor sucroalcooleiro) e construção civil, principalmente, apresentando comportamentos bastante distintos conforme as regiões, mas parece haver um padrão regional comum aos vários setores, tema ao qual voltaremos a tratar em artigo subsequente. Apenas para ilustrar, o emprego formal no comércio e no segmento de outros serviços apresentou retrações de maior intensidade no Nordeste do que na média do país e da maioria das regiões. 

Emprego no setor privado
O gráfico a seguir mostra as participações das regiões no total de pessoal ocupado com carteira de trabalho no setor privado na média de quatro trimestres, com base nos dados da Pesquisa Anual de Amostra Domiciliar Contínua (PNADC), entre 2012 e 2017.  Até 2015, na média dos quatro trimestres, a região Nordeste aumentou ano a ano sua participação, passando de  16,1%, em 2012, para 17%, em 2015. A região ganhou peso no total nacional tanto nos anos em que o emprego no setor privado cresceu, até 2014, como em 2015, por conta de a retração do emprego regional ter sido inferior à média nacional.  Os desempenhos do Nordeste em 2016 e 2017, todavia, foram piores do que a média nacional, fazendo com que a participação no emprego formal no setor privado retornasse à porcentagem de 2012, ou seja, de 16,1%. 

Ainda que as variações de participação do Nordeste no emprego formal privado não pareçam tão expressivas ao primeiro olhar, elas caracterizam sim um desempenho muito superior do emprego regional no 1º período e muito inferior, no segundo período, como veremos a seguir. 

As duas colunas mais à direita no gráfico mostram o peso das regiões na variação do emprego formal privado entre 2012 e 2015 e entre esse último ano e 2017, com a observação que no primeiro período o pessoal ocupado com carteira de trabalho no  privado no Brasil aumentou em 1,4 milhão, e no segundo período verificou-se uma retração de 2,4 milhões, sempre na média de quatro trimestres. Pois bem, entre 2012 e 2015, a região Nordeste, que apresentava pouco mais de 16% do emprego formal privado, participou  com mais do que o dobro dos novos empregos, 37,1%, a maior participação entre todas as regiões brasileiras. 

Inversamente, entre 2015 e 2017, a região Nordeste participou com 29,2% dos empregos formais privados que foram eliminados, muito mais do que o peso da região nesse tipo de ocupação. Note-se que apenas as regiões Nordeste e Norte apresentaram perdas de emprego formal privado superiores aos seus pesos nesse tipo de ocupação. Caso se considere que a comparação mais pertinente seria entre as médias de 2017 e 2014, por serem anos de retração, as conclusões não seria diferentes, mesmo considerando que nesse caso as desvantagens do Nordeste seriam um pouco menos pronunciadas. Há também sinais de que a economia do Nordeste (e do Sudeste também) está demorando mais a se recuperar do que a média nacional, enquanto as regiões Centro-Oeste e Sul apresentam desempenhos relativamente mais robustos. 

 
Fonte: IBGE. PNADCT

*Assessor Econômico do Governo do Estado de Sergipe


Coluna Ricardo Lacerda
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Por Kleber Santos
11/03
19:09

O emprego está demorando muito a retornar

Ricardo Lacerda*
Professor da UFS

A retomada da economia brasileira tem sido lenta e atribulada. Além da instabilidade política interna, inclusive com impactos persistentes de setores atingidos pela operação Lava Jato, algumas turbulências no cenário internacional se apresentam como ameaças a um crescimento conturbado que, apesar de mostrar sinais de que está começando a engrenar, demora a atingir velocidade de cruzeiro. 

Mais angustiante é que, mesmo com a economia em aceleração nos últimos meses, o emprego formal demora a retomar.

Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Empregados (CAGED), do Ministério do Trabalho, informaram a geração de 77.822 empregos celetistas em janeiro de 2018. O último saldo positivo de criação de emprego em janeiro havia sido em 2014. Se o resultado não chega a ser espetacular é um bom número para o mês. A marcha recente de geração de emprego tem sido lenta, insuficiente mesmo para absorver os jovens que ingressam no mercado de trabalho, sem considerar o amplo estoque de empregos perdidos nos três últimos anos.

Nos últimos doze meses foram acrescentados apenas 83.539 novos empregos formais, um incremento modesto para um país que perdeu 2,8 milhões de vínculos com carteira de trabalho desde janeiro de 2015. Na média dos setores, o estoque de empregados com vínculos celetistas registrou nos últimos doze meses o modesto incremento de 0,22%, frente a incremento do PIB de cerca de 1%. A demora do mercado de trabalho retomar o crescimento restringe a recuperação da economia brasileira.  

Em doze meses, as atividades de serviço e comércio geraram os maiores contingentes de novos empregos, seguidas pelo setor agropecuário e pela indústria de transformação. Mas a atividade da construção continuou desempregando (foram menos 90,6 mil empregos), ainda que o saldo da contratação de janeiro tenha sido positivo em cerca de 15 mil empregos. 

Perdas acumuladas
O Gráfico a seguir mostra, segundo setor de atividade, o quanto ainda teremos o que caminhar para recuperar os empregos perdidos nos últimos três anos. Na comparação com janeiro de 2015, o estoque de emprego formal em janeiro de 2018 se situava 6,8% abaixo. Se as maiores retrações se verificavam nos 24 meses entre janeiro de 2015 e janeiro de 2017, quando o estoque de emprego recuou 7 pontos percentuais, a reposição de emprego nos últimos doze meses se limitou a 0,2%.

Coincidência ou não, a retrações mais abruptas no estoque de emprego formal se verificaram nos setores mais diretamente atingidos pela ação da operação Lava Jato, o setor extrativo mineral (que inclui a exploração de petróleo e gás) e o segmento da construção civil, esse último atropelado também pelos impactos do estouro da bolha imobiliária e pela crise fiscal que fez paralisar as obras públicas.

O estoque de emprego com carteira assinada na construção civil em janeiro de 2018 se situou 29,9% abaixo do existente em janeiro de 2015. O emprego na atividade extrativa mineral também sofreu forte retração e continua em forte retração nos últimos doze meses. No setor secundário, apenas o emprego na indústria de transformação parou de cair e sinaliza recuperação nos últimos meses.

A geração de emprego formal no setor terciário apresentou comportamento um pouco mais favorável, particularmente nas atividades de comércio e em alguns segmentos de serviços, especificamente nos subsetores de serviços técnicos e administrativos e no de saúde, mas o único setor de atividade em que o emprego formal em janeiro de 2018 era superior ao do mesmo mês de 2018 era a agropecuária.

Especialistas têm se mostrado relativamente positivos em relação à geração de empregos formais ao longo de 2018, com as projeções variando entre 700 mil e um milhão de novas vagas, Já seria um bom começo, mas há ainda uma longa estrada para compensar as perdas acumuladas. 




Coluna Ricardo Lacerda
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Por Kleber Santos
04/03
19:01

Consumo e investimentos crescem e gastos do governo recuam

Ricardo Lacerda*
Professor da UFS

A saída da economia brasileira do fundo do poço ao longo de 2017, depois de dois anos de retração no nível de atividade, tem sido arrastada e desbalanceada setorialmente. Do ponto de vista setorial, a supersafra agrícola resultou em incremento de 13% na produção do setor, recuperando com folga as perdas de 4,3% do ano anterior, causadas pelos efeitos da estiagem. 

O setor industrial apresentou o mesmo volume de produto do ano anterior, ou seja, crescimento zero, resultante do saldo do incremento da indústria de transformação, da extrativa mineral e dos serviços industriais de utilidade pública e da queda acentuada da construção civil (5%). O setor de serviços apresentou crescimento residual, de 0,3%. O PIB fechou o ano de 2017 com expansão de 1%. 

O incremento do PIB do 4º trimestre, na comparação com o 3º trimestre, ficou aquém do esperado, mas, quando são observadas em conjunto as evoluções dos componentes das despesas e dos produtos setoriais, há sinais robustos de que a economia deverá apresentar taxa de crescimento moderadamente elevada em 2018. Angustiante é a demora na recuperação do mercado de trabalho e o fato de que a retomada da construção civil ainda não surgiu no horizonte. 

O Gráfico 1 mostra as taxas de crescimento do PIB trimestral dos setores e subsetores econômicos em relação aos mesmos trimestres do ano anterior, em que fica explícita a aceleração do crescimento na ampla maioria das atividades econômicas. 

Com a exceção do setor agrícola, que teve um desempenho excepcional concentrado no 1º trimestre, os setores e subsetores de atividade econômica encerraram o 4º trimestre do ano com as taxas de crescimento em aceleração ou atenuando o ritmo de queda, como é o caso da atividade da construção civil. 




Dispêndio
Do ponto de vista do dispêndio, ainda que as exportações tenham sido importantes no crescimento econômico, a demanda doméstica apresentou maior relevância, particularmente os gastos das famílias com consumo. 

Como apresentado no Gráfico 2, a taxa de crescimento do consumo das famílias, na série que compara com os mesmos trimestres do ano anterior, manteve-se em aceleração ao longo do ano, ainda que os ganhos de aceleração tenham se atenuado na passagem do 3º para o 4º trimestre.  Ao finalizar 2017, o consumo trimestral das famílias estava rodando em um patamar 2,6% superior ao mesmo período do ano anterior. 

Ainda que bem menos importante no resultado do PIB do que o incremento do consumo, o desempenho dos investimentos foi mais impressivo. Depois de apresentar catorze taxas negativas na comparação com os mesmos trimestre do ano anterior, a Formação Bruta de capital Fixo (FBCF) voltou a apresentar incremento no 4º trimestre de 2017, nessa série que compara com o mesmo trimestre do ano anterior. 

Mesmo com a FBCF se situando em patamar extremamente baixo e ainda registrando queda no resultado anual, há sinais de que os investimentos na aquisição de máquinas, equipamentos e veículos estão sendo retomados a fim de atender necessidades setoriais, como respostas ao incremento do consumo.  Com isso, a Formação Bruta de Capital Fixo deverá apresentar crescimento em 2018, depois de quatro anos de retração. A outra perna da FBCF, os investimentos imobiliários e em obras públicas permaneceram em retração em 2017. 

Finalmente, cabe examinar o comportamento do consumo do governo. Como mostrado no Gráfico 2, esse componente manteve-se deprimido ao longo de todo o ano. Diante das regras estabelecidas pela Lei do Teto de Gastos, os dispêndios do governo central deverão ficar congelados por um longo período, o que significa que esse componente do dispêndio deverá continuar puxando para baixo a taxa de crescimento do PIB.

Do ponto de vista dos componentes da demanda agregada, a retomada FBCF é fundamental para acelerar crescimento do PIB em 2018, somando-se ao componente de consumo das famílias, dado que o saldo das vendas de bens e serviços com o exterior e os gastos do governo não deverão apresentar contribuição positiva no período.  




*Assessor Econômico do Governo do Estado de Sergipe


Coluna Ricardo Lacerda
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Por Kleber Santos
25/02
15:53

O crescimento finalmente engrenou: indústria, varejo e serviços em 2017

Ricardo Lacerda*
Professor da UFS

Os resultados de dezembro dos indicadores de nível de atividade foram, em geral, favoráveis. As atividades de serviço e a indústria geral surpreenderam positivamente.  Com a publicação dos indicadores setoriais pelo IBGE, o Banco Central do Brasil apresentou sua estimativa de crescimento da atividade econômica em 2017. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-BR), uma aproximação do PIB, registrou crescimento de 1,04%, frente a recuos de 4,17%, em 2015, e de 4,05%, em 2016 (ver Figura A). 

O mais significativo é que a economia brasileira finalizou o ano de 2017 com o crescimento em aceleração, tanto quando se considera o IBC-BR do último trimestre em relação ao mesmo período de 2016 (linha contínua dupla), quanto na comparação em relação ao 3º trimestre de 2017 (linha pontilhada). A aceleração da velocidade de recuperação é captada também pela inclinação da curva que representa a série acumulada em doze meses, em relação a doze meses anteriores (linha contínua simples).
Salvo reviravolta inesperada, vai se consolidando a perspectiva de crescimento moderado para alto em 2018, alguma taxa entre 2,5% e 3%. Parece valer enfim o dito popular de que não há mal que nunca se acabe. 

Na estimativa do Banco Central, a economia brasileira fechou o último trimestre do ano rodando a uma velocidade de 2,56% em relação ao mesmo trimestre de 2016. É verdade que é um crescimento puxado pelo consumo das famílias, utilizando-se parcela da ampla capacidade produtiva tornada ociosa por uma recessão que fez o produto interno se retrair em 7,8% no acumulado de longos oito trimestres, referentes a 2015 e 2016. 

Para que o ritmo de crescimento corrente seja sustentável em um prazo mais largo de tempo é necessário que o investimento seja destravado, o que ainda não está devidamente assegurado. Do ponto de vista social, uma melhoria mais significativa somente será percebida quando a contratação de emprego formal começar a apresentar resultados mais robustos. 

Indústria e comércio
Do ponto de vista setorial, agricultura, indústria e comércio varejista apresentaram crescimentos acentuados em 2017, enquanto o volume de vendas do setor de serviços registrou retração de 2,84%, na comparação com 2016. Alguns indicadores sinalizam em um segundo momento uma possível reação da construção civil, mas não há ainda segurança de que a atividade vá apresentar crescimento em 2018, mesmo que as vendas do setor imobiliário venham a apresentar incremento significativo em relação ao ano anterior, porquanto os investimentos em infraestrutura estão deslanchando e os estoques de imóveis ainda se mantêm em patamar elevado.

A produção física da indústria geral, que agrega as atividades de transformação industrial e a extração mineral, cresceu 2,47% em 2017 e no último trimestre do ano registrou incremento de 4,9% em relação ao mesmo trimestre de 2016.

 A expansão da indústria geral vem abrangendo quase todos os subsetores de atividade. Como mostra a Figura B, a produção industrial apresentou uma trajetória de aceleração nas três séries consideradas, quais sejam, no acumulado de doze meses, na comparação com os mesmos trimestres do ano anterior, e o crescimento na margem, em relação ao trimestre imediatamente anterior, apesar de, nesse caso, ter registrado certa oscilação ao longo do ano.

O volume de vendas no comércio varejista encerrou 2017 com incremento de 2,02% (ver Figura 3). Impulsionado pela redução dos juros nominais e pelo aumento da ocupação, mesmo com vínculos informais, a expansão do ritmo de vendas no varejo foi bastante intensa e o volume de vendas do setor fechou o último trimestre do ano com incremento de 3,89% em relação ao mesmo período de 2016.

Serviços
Finalmente as atividades de serviços estão demorando mais a reagir. O volume de serviços recuou não apenas na comparação entre os anos fechados, como ainda registrava queda na comparação entre o último trimestre de 2017 e o mesmo período de 2016. A trajetória da curva dessa série, que compara com igual trimestre do ano anterior, indica que a atividade deverá começar a apresentar resultados positivos em 2018, à medida que o mercado de trabalho comece a mostrar resultados mais robustos.

O cenário favorável da economia mundial jogou papel decisivo no impulso que a economia brasileira no final d ano passado. Sim, o crescimento econômico parece ter começado a engrenar, ainda que ele venha se mostrando desequilibrado em termos setoriais e na sua distribuição regional, como também não há ainda segurança sobre o seu fôlego.




Coluna Ricardo Lacerda
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Por Kleber Santos
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