13/08
15:05

Midnight in Paris

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

Por volta do mês de julho de 2011, recebo um telefonema de um amigo, Luiz Eduardo Oliva, que se encontrava no aeroporto do Recife. Espantado, ele me inquiria sobre quem copiou quem, se eu a Woody Allen ou se este a mim. Eu disse: Calma, do que você está falando? Ele respondeu que no voo Belém – Recife, leu na revista Veja uma resenha sobre o novo filme de Allen, Meia-Noite em Paris, que tratava do mesmo tema que eu iria explorar no meu livro sobre a Paris da década de 1920. A única diferença, segundo Oliva, era a forma da passagem da década de 2000 para a de 1920. No filme, o personagem central, Gil, escritor e roteirista americano, viaja a Paris com a noiva e a família dela. Apaixonado pela cidade e pelos anos de 1920, num dos seus passeios solitários noturnos, à meia-noite, é convidado por um grupo de pessoas para uma festa. Ao chegar num bairro parisiense, Montparnasse, de forma surpreendente, ao adentrar no festejo, verifica que foi transportado justamente para a capital francesa de 1920. Já no meu livro, era transportado para o passado ao desembarcar numa estação ferroviária de Paris com um grupo de amigos de Sergipe. – É muita coincidência, dizia ele. Fiquei curioso e fui logo comprar a revista. Era verdade aquilo que foi passado para mim. Fiquei impressionado e muito orgulhoso. Afinal, um dos monstros sagrados da cinematografia mundial teria tido a mesma ideia que eu também tivera. Na verdade, Luiz Eduardo tinha lido um artigo de minha autoria publicado neste mesmo Jornal da Cidade, edição de 23 e 24 de janeiro de 2011, Caderno A-7, daí a sua estupefação. 

O filme foi rodado em 2010 e teve lançamento no Brasil em junho de 2011. Reproduzo, a seguir, o teor do meu artigo, ao qual dei o título de Banho de Civilização: “É comum ouvir das pessoas que viajam para a Europa que vão tomar um banho de civilização. Sempre achei a frase pernóstica ou até mesmo típica das pessoas colonizadas. Quem sabe, daquelas que gostam de menosprezar as nossas raízes, a nossa cultura, até as nossas heranças étnicas. Enaltecem, no entanto, tudo que existe fora do nosso País, desde a culinária, passando pela organização das cidades, até o compromisso com a sua história e suas origens. Lembro-me de um passado recente. Eu era presidente da OAB-SE quando anunciou-se a venda de um casarão localizado na Avenida Barão de Maruim, esquina com a rua Itabaiana. Estilo antigo, era um dos poucos imóveis que ostentava um passado que merecia ser preservado. Nele, residiu, quando vivo, o médico Augusto Leite, um dos mais respeitados cirurgiões de Sergipe. Apesar da oposição ferrenha das entidades representativas da sociedade civil, que fez inúmeros atos na porta da residência, tentando evitar a sua venda, a família do médico não se sensibilizou para o crime que se estava cometendo contra Aracaju. A Caixa Econômica Federal comprou o imóvel e ali construiu, em seu lugar, um autêntico monstrengo arquitetônico, onde hoje funciona uma de suas agências. Por isso, sempre olhei com menosprezo o teor dessa afirmação. Eles não fazem nada para preservar as nossas origens, a nossa cultura, a nossa cidadania, ao contrário, sempre agindo para inviabilizar as mudanças e os caminhos que levam à transformação. 

Não seria melhor que eles assimilassem o que tem de bom e melhor na Europa, nos Estados Unidos e no Canadá e lutassem para ser implantado em nosso país? Pois bem, vim tomar esse “banho de civilização” numa fase crítica da economia européia, onde na Espanha e Portugal os salários estão sendo reduzidos, na Inglaterra os servidores públicos demitidos e o desemprego atingindo índices preocupantes. Fui a Madrid, Paris, Barcelona e hoje estou em Lisboa testemunhando as eleições presidenciais. Em Paris, vi a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo, o antigo Hotel Ritz, a Champs-Elysées, o museu do Louvre, de Versalhes, a Igreja de Notre Dame e outros pontos turísticos da bela Paris e pronto. Não estava muito interessado. O meu tesão estava voltado para um local parisiense: Montparnasse. Neste local, a década de 1920 foi efervescente. Pelas suas ruas, residências, cafés, bares, restaurantes, desfilaram grandes pintores, escritores, revolucionários, escultores, poetas, enfim, artistas de vários matizes, vagabundos e a boemia parisiense. Queria sentir o cheiro de Kiki de Montparnasse, a grande musa, o odor alcoólico e o extraordinário humor de Ernest Hemingway (você não dá para andar com Ernest!), a dramaticidade de Cocteau, o existencialismo de Sartre e Simone de Beauvoir, os narizes empinados de Scott e Zelda Fitzgerald, o narcisismo de Ezra Pound, a pantera na coleira de outra pantera, Josephine Baker, com seus seios à mostra, o talento para ganhar dinheiro de Coco Chanel, a beleza de Jeanne Hébuterne, o último grande amor de Modigliani.

Queria ver as brincadeiras de Francis Picabia e Tristan Tzara, a cumplicidade entre Gertrude Stein e Alice Toklas, a paixão pelas “pequenas mulheres” francesas de E. E. Cummings e John dos Passos, a chatice de James Joyce e as taras de Salvador Dali e Pablo Picasso. Era a Paris dos anos doidos. Para começar, hospedei-me num hotel situado no bairro chamado Alésia, com estações do metrô próximas ao complexo Montparnasse, que envolvia os seguintes locais: Falguiére, Pasteur, St. Placide, Denfert Rochereau, St. Jacques, Mouton Duvernet, Raspail, Gaité, Edgar Quinet, Vivan e o St-Germain-Des-Prés. Deixei o metrô e fui caminhando, como diria Chico Buarque, pela Avenue Maine e cheguei em Gaité. Pronto, estava no complexo Montparnasse. Entrei no La Coupole. Claro, não perguntei mas deu vontade: quais eram as mesas que Jean Paul Sartre e Josephine Baker sentaram? Apesar de uma reforma ocorrida em 1980, os assentos de veludos da década de 20 permaneciam no local. Fui no La Closerie de Lilas. Lá foi onde Hemingway escreveu grande parte do livro “O Sol também se Levanta” e onde o livro autobiográfico de Kiki de Montparnasse, com o seu prefácio, foi lançado, onde a sua compra dava direito a receber um beijo da autora, o que transformou Montparnasse numa loucura, com gente por todos os lados. Lá também era freqüentado por Lenin, Trotski e Scott Fitzgerald. Segundo pude constatar, boa parte da decoração original encontra-se presente. 

Fui no St-Germain-Des-Prés e lá visitei três lugares: a escultura de Picasso homenageando o poeta Guillaume Apollinaire, perto do Café de Flore, local preferido de Sartre e Beauvoir; o Les Deux Magots, também freqüentado por artistas da época, onde tomei um cafezinho; e o Le Procope, um café, dizem, fundado em 1686 e onde o filósofo Voltaire tomava 40 xícaras de café com chocolate por dia. Nesses três cafés fiz questão de adentrar e sentir a sua energia que me levava ao período de 1920 a 1930. Pronto! Faz parte da minha razão de vida escrever um romance envolvendo ficção e realidade, escrevendo um livro sobre este período maluco da história parisiense. Vou à Paris de 1920. Vou mostrar a Hemingway que eu dou para andar com ele. Vou ter, evidentemente, que me conter no álcool. Bebo muito pouco. Uma garrafa de vinho, no máximo. Agora mesmo estou escrevendo no hall do hotel tomando um vina salceda, rioja crianza 2006, de 16 euros. Vou convidar par ir comigo Carlos Alberto Menezes, professor e criminalista, Zoroastro, o Zorô, jornalista, João Ubaldo Ribeiro, escritor, Ângêla e seu marido comandante da ex-Varig, o sobrinho da cantora Mayza Matarazzo, o escritor português Saramago (sim, eu sei que ele morreu em 2010), o herdeiro de vários imóveis do Rio de Janeiro, o poeta Araripe Coutinho, com a sua extraordinária língua plesa, Luiz Eduardo Oliva, da Segrase, e o professor Cabral do Departamento de Educação Física da UFS. Vamos sair do Rio de Janeiro de avião e vamos desembarcar na estação ferroviária de Lion (?). 

A aventura vai começar justamente nessa estação. Vamos de metrô para a Gare Montparnasse. Lá, as cortinas se abrirão e um novo cenário surgirá. A primeira guerra mundial (1914-1918) e a revolução bolchevista (1917), serão acontecimentos recentes. Vamos chegar exatamente no dia em que Kiki de Montparnasse estará lançando o seu livro autobiográfico com prefácio de Ernest Hemingway. A compra do livro faz com que o comprador receba um beijo de Kiki. O La Closerrie de Lilas está cheio de gente, todos querendo receber um beijo da musa de Salvador Dali, Modigliani e Picasso. Eu e meus amigos, estaremos recebendo um banho de cultura”. Claro que aqui ninguém plagiou ninguém. Ou melhor, qualquer semelhança entre os pontos abordados por mim e Woody Allen não passaram de mera coincidência. O importante é que nós tivemos a mesma paixão, a mesma idolatria e o mesmo fascínio pela geração perdida de Paris dos anos 1920.

Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente, aos domingos. 


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Por Kleber Santos
30/07
12:14

Post Scriptum: A Bodega de Gildete

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

Malhador é uma pequena cidade do interior sergipano, distante 49 quilômetros de Aracaju. Tem como base econômica a agricultura, com predomínio da plantação de inhame. Em qualquer feira do Estado, a pergunta de quem gosta desse tubérculo é a mesma: é de Malhador? É uma terra de gente trabalhadora, com vocação para o comércio. Dificilmente uma feira em Sergipe não tenha um feirante de naturalidade malhadorense. O seu lema combina perfeitamente com o seu ordeiro povo: Ridens vivere, sic ut (A sorrir, a viver, a dizer sim). Fui levado a Malhador pelo convite que me foi formulado por João da Diamante, proprietário de uma fazenda em Saco Torto, naquele município. Depois, conheci figuras que aprendi a admirar, tornando-me um assíduo visitante daquelas paragens. Gostava de almoçar na bodega de Gildete, um misto de bar e restaurante, chamado de Cristal. Era o point da cidade para aqueles que gostavam de uma boa comida, de uma galinha; uma carne frita, seja de boi, seja misturada com porco, fígado e rim; de um lombo feito na panela; de um bife suculento; de uma feijoada disputada no tapa pelos seus frequentadores; e tantas outras guloseimas. O acompanhamento era sempre saboroso: feijão, arroz, farinha, salada, macarrão e um molho de pimenta daquela “que matou o guarda”. Por lá, já desfilaram figuras importantes da política, habitantes do local e visitantes: Antônio Carlos Valadares, Valadares Filho, Venâncio Fonseca, Rogério Carvalho, Nilson Lima, Capitão Samuel, Luciano Bispo, Erotildes de Itabaiana, Fábio Henrique, Bosco Costa, Marcelo Déda, Jackson Barreto, Maria Mendonça, Eduardo Amorim, André Moura, radialista Marco Aurélio, Limão (sempre acompanhado dos seus filhos, os Limãozinhos), Leondes, Beto e Paulinho de Abelardo, Mala Véia, Zé da Piscina, Valter de Percílio, Wilson dos Reis, Dedé do Inhame, Tatagás,  Coronel Leão, Coronel Sávio, Vicente (o Índio), o saudoso João da Cocada, Elayne de Dedé, Jorge, motorista do Tribunal de Contas, Rosalvo Alexandre e tantos e tantos outros. João da Diamante se babava quando saboreava uma feijoada. Se Ernest Hemingway considerava Paris uma festa, a Bodega de Gildete era um canto sacrossanto da gastronomia de Malhador. Apesar de ser um bunker do grupo de pessoas vinculadas a Elayne de Dedé, o ambiente era bastante democrático, embora se radicalizasse em épocas de eleições. Mas, o que é bom um dia se acaba. Eleição de 2016. Disputantes da Prefeitura: Elayne de Dedé x Jadinho. Eleição dura, disputa de voto a voto. Resultado: Elayne 50,20%, Jadinho 49,80%. Na última passeata de Jadinho, uma eleitora de Elayne, Zefinha, dedurou Gildete. Ela estava toda fantasiada de laranja, as cores do partido de Jadinho, toda solta, dançando e pedindo voto para o seu candidato. Pronto! Esse foi o estopim para afastar todo o pessoal que trabalhou pela candidatura de Elayne da Bodega de Gildete. Hoje, os antigos frequentadores vivem da saudade da deliciosa comida da Gildete. Passam pela porta e sentem ainda o cheiro gostoso das iguarias, que o digam João da Diamante e Jorge, motorista do Tribunal de Contas. Quando querem comer alguma coisa, viajam para Moita Bonita, mas todos são unânimes em afirmar: não existe carne frita, nem feijoada, como a preparada por Gildete. Mas de lá, hoje, só o cheiro! 

Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente, aos domingos.


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
30/07
12:12

Operação Valquíria

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

Nunca jamais maquine contra o príncipe. A não ser que você tenha o aval de um deus. Entre os escandinavos, por exemplo, as valquírias (deusas-menores) desempenhavam a importante missão de estabelecer o destino dos príncipes humanos. Tal papel achava especial destaque durante as guerras. Nelas, as valquírias praticamente ditavam o desfecho. Interessante é que, pelos costumes nórdicos, príncipes deviam lutar e deuses podiam morrer. Fala-se que os deuses vikings tinham uma dieta composta de maçãs sagradas, porquanto precisassem viver até a batalha final, denominada Ragnarok. Daí, a exigência de permanente cautela, pois decidir errado seria um convite à morte. Por isso, as valquírias não agiam sem o consentimento de Odin, o deus-pai. Elas não apontavam a queda de um príncipe, salvo se isso fosse desejado pela divindade. Ainda assim, o espírito do nobre era guiado a um recinto celeste (Walhala).

Há um detalhe. Tão-somente os espíritos dos mais intimoratos guerreiros, mortos em batalha, tinham o direito de entrar no Walhala, a fim de serem recebidos pomposamente por Odin. Essa tradição de honrar os intrépidos, ainda que derrotados, foi bem assimilada pela cultura germânica. Parece, porém, que a veneração post mortem requisitava o endosso divino. Um exemplo histórico: o coronel alemão Claus Stauffenberg foi o mentor da “Operação Valquíria”, consistente num plano para matar Hitler. Para tanto, Stauffenberg contava com a anuência de Erwin Rommel, “a raposa do deserto”, um deus guerreiro entre os alemães. A eliminação do Führer estava agendada para 20 de julho de 1944. Tudo ocorreria numa convenção, a realizar-se na toca do lobo, um dos quartéis-generais do ditador. Stauffenberg, pessoalmente, foi à toca, onde, sub-repticiamente, deixou uma mala, dentro da qual havia explosivos.

Estaria selado o destino de Hitler. Metaforicamente, as valquírias o teriam marcado para morrer, consagrando o final da 2ª Guerra. Pois bem. Também metaforicamente restava saber se esse era o projeto de Odin. Não foi. A bomba que Stauffenberg quis deixar no colo de Hitler feriu gravemente cerca de dez pessoas e matou algo em torno de cinco. No Führer, todavia, ela apenas causou imperceptíveis escoriações. Identificados os autores do atentado, todos foram fuzilados, com exceção de Rommel (um deus, como dito acima), a quem foi outorgado o direito de praticar suicídio. Contudo, e malgrado a medonha conspiração, fez-se valer a práxis nórdica. Os cortejos fúnebres, tanto de Stauffenberg quanto de Rommel, ostentaram distinções que só são estendidas a chefes de estado. Embora facínora, Hitler, na linguagem maquiavélica, sabia proceder como um príncipe, possuindo os atributos de um: virtù e fortuna.

Virtù, em Maquiavel, não é bondade e justiça. Virtù é a aptidão para melhor visualizar o tabuleiro político, o que permite ao príncipe jogar energicamente para conseguir e sustentar o poder. Fortuna (ou acaso) traduz-se pela oportunidade de pôr em prática a virtù. No caso da “operação valquíria”, uma inegável conspiração contra o príncipe, Hitler pôde contar com a fortuna. E não deixou de aplicar a virtù. Com vigor, eliminou todos os que quiseram pôr uma bomba no seu colo. E não foi só nesse acontecimento que Hitler conseguiu sobreviver e agir como um príncipe, na exata conceituação maquiavélica. Em 1938, um jovem estudante de teologia, Maurice Bavaud, viajou da Suíça para a Alemanha com um plano para assassinar o ditador nazista. A intenção era atirar à queima-roupa no Führer durante as comemorações de aniversário da revolução, que se daria em Munique no mês de novembro daquele ano.

O plano do estudante não deu certo. A multidão que acompanhava Hitler formou uma verdadeira barreira humana, de tal sorte que impedia qualquer tipo de aproximação por quem quer que seja. O jovem Bavaud, ao ser preso por não portar documentos, teve a sua arma descoberta pela Gestapo. Após sofrer torturas de toda espécie, acabou confessando a sua ousadia. Foi condenado à morte e levado à guilhotina em 1941. O mundo está cheio de psicopatas que tentam por todos os meios assassinar pessoas que se tornam famosas ou influentes. É o desejo de entrar na história, nem que seja como um assassino de uma figura marcante. Em 1939, na Varsóvia, Franciszek Niepokólczycki, um major do exército polonês, urdiu um plano para assassinar Hitler durante sua estada na capital polonesa. Uma bomba foi colocada discretamente num local, mas o seu dispositivo não disparou. 

Embora o petardo tivesse sido encontrado, a polícia nazista não conseguiu desvendar a autoria da tentativa de morte. Um ano antes, em 1938, uma conspiração de militares, liderada pelo coronel Hans Oster, ligado à inteligência militar alemã, tentou prender, julgar e executar Hitler e a alta cúpula do partido nazista. A ação dependia do fracasso de Hitler numa ação militar a ser desencadeada na Tchecoslováquia. Só que a ação militar foi resolvida sem qualquer derramamento de sangue, o que frustrou os conspiradores, que passaram a se desentender, terminando em delações recíprocas. Oster terminou sendo enforcado pelos nazistas, sob a acusação de traição. O evento foi conhecido como a “Conspiração Oster”. Também em 1939, um carpinteiro comunista, Georg Elser, colocou uma bomba-relógio num bar que confinava com um anfiteatro onde Adolf Hitler iria se apresentar.

A sorte, mais uma vez, protegia o Führer. Treze minutos antes da explosão da bomba, ele já tinha se retirado do local, contudo, oito pessoas morreram e mais de sessenta ficaram feridas. Elser foi preso pela SS. Foi torturado e encaminhado ao campo de concentração de Dachau, onde foi fuzilado. No capítulo XV de “O Príncipe”, Maquiavel ensina que “para se manter príncipe é necessário aprender a ser mau, valendo-se disso quando necessário”. Isto não é uma defesa do nacional-socialismo. É uma defesa do príncipe. Churchill dizia que “quando se tem de matar um homem, não custa nada ser educado”. Não vejo educação alguma em planejar jogar uma bomba no colo do príncipe, até porque o colo do príncipe é um colo sacrossanto, como diria Maquiavel, naquela sua visão de realidade que rodeia a política ou a ação dos homens de estado.  

*Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente, aos domingos.


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
02/07
17:06

Por que o Brasil não dá certo?

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

O Brasil, segundo dados de 2015 do Fundo Monetário Internacional, é a nona maior economia do mundo. Pela ordem, os Estados Unidos seria a primeira com um PIB de 17,9 trilhões de dólares, seguidos por China (US$10,9 trilhões), Japão (US$4,1 trilhões), Alemanha (US$3,3 trilhões), Reino Unido (US$2,8 trilhões), França (US$2,4 trilhões), Índia (US$2,0 trilhões), Itália (US$1,8 trilhões) e Brasil (US$1,7 trilhões). No ranking mundial da corrupção, segundo a Transparência Internacional, o Brasil ocupava a septuagésima sexta colocação em 2015, ao lado de países como a Mongólia, Panamá, Trinidad e Tobago, Bosnia e Herzegovina, Burkina Faso, Índia, Tailândia, Tunísia, Zâmbia, China e Sri Lanka. Por outro lado, países como a Dinamarca, Finlândia, Suécia, Nova Zelândia, Holanda, Noruega, Suíça, Singapura, Canadá, Alemanha, Luxemburgo e Reino Unido, pela ordem, estão entre os menos corruptos do mundo. Em 2016, a situação do Brasil piorava, passando do 76º para o 79º lugar. A revista britânica The Economist, em edição de 2009, publicava em sua capa uma foto do Cristo Redentor decolando, com a chamada Brazil takes off (Brasil decola). Em 2013, a revista dedicou uma nova capa para o Brasil. Desta vez, o Cristo Redentor explodia no ar acompanhado da manchete, Has Brazil blown it? (O Brasil explodiu?) Finalmente, em 2016, uma nova capa era destinada ao nosso país. Agora, o Cristo, postado em seu local no Rio de Janeiro, segurava uma faixa com a sigla SOS e a seguinte manchete: The Betrayal of Brazil (A traição do Brasil). Em 18 de abril de 2017, o jornal espanhol El País, em editorial com o título “Uma elite amoral e mesquinha se revela nas delações da Odebrecht”, afirmava: “o que sobressai dos relatos dos delatores são empresários e políticos que enxergam o Brasil como uma Sociedade Anônima para seu usufruto, e não como uma sociedade que deveria ser”.

A verdade é que, de 2014 para os dias atuais, a crise do Brasil só piorou. Primeiro, inventaram uma crise política orientada por aqueles que perderam nas urnas; depois, a crise política criava como consequência uma crise econômica que, paulatinamente, agudizou a situação do país. Hoje vivemos uma das maiores crises econômicas, estando fora do mercado cerca de 14 milhões de trabalhadores. Mais uma vez, ficou claro que o Brasil não é dos brasileiros. Como já dito pelo professor de literatura da UERJ, João Cezar de Castro Rocha, ao comentar o livro Outras Visões do Rio de Janeiro Colonial, de Jean Marcel C. França: "O brasileiro é mais do que um desterrado em terra própria. Ao que parece, o Brasil é do pau-brasil e não dos brasileiros. O brasileiro é o estrangeiro do Brasil". A citação vem ratificar aquilo que Darcy Ribeiro explicita sobre a nossa classe dominante: Nós temos uma das elites mais opulentas, antissociais e conservadoras do mundo... Elas são cruéis, elas asfixiam as massas mantendo-as na escuridão da ignorância. As escolas não cumprem com o papel de educar e preparar os meninos do Brasil. Só vamos acabar com a violência quando resolvermos a questão da Educação. A ciência política, em vários tratados, tem explicado que a falta de manifestação da sociedade – a sua omissão em relação à gestão pública - tem proporcionado o surgimento dos governos cleptocratas, onde o estado de direito é substituído por uma casta de indivíduos que se apropria dos recursos públicos para o seu enriquecimento pessoal. O governo cleptocrata, ou o governo dos ladrões, serve-se de comparsas endinheirados, sempre dispostos a concentrarem o maior número de riqueza, levando o conjunto da sociedade de um país à miséria e à barbárie.

Em estudos de 2014, a ONG alemã Transparência Internacional revelou, ainda, uma lista dos 10 maiores líderes cleptocratas do mundo. Em dólar dos Estados Unidos, foram surrupiados: 35 bilhões pelo ex-presidente da Indonésia, Suharto, entre 1967 e 1998; 10 bilhões pelo ex-presidente das Filipinas, Ferdinand Marcos, entre 1972 e 1986; 5 bilhões pelo ex-presidente do Zaire, Mobutu Sese Seko, entre 1965 e 1997; 5 bilhões pelo ex-chefe de Estado da Nigéria, Sani Abacha, entre 1993 e 1998; 1 bilhão pelo ex-presidente da Iugoslávia e da Sérvia, Slobodan Milosevic, entre 1989 e 2000; 800 milhões pelo ex-presidente do Haiti, Jean-Claude Duvalier, entre 1971 e 1986; 600 milhões pelo ex-presidente do Peru, Alberto Fujimori, entre 1990 e 2000; 200 milhões pelo ex-primeiro-ministro da Ucrânia, Pavlo Lazarenko, entre 1996 e 1997; 100 milhões pelo ex-presidente da Nicarágua, Arnoldo Alemán, entre 1997 e 2002; e 80 milhões pelo ex-presidente das Filipinas, Joseph Estrada, entre 1998 e 2001. Outros grandes chefes de estado também são acusados da prática de desvio de dinheiro público em seus países. É o caso do ex-líder da OLP – Organização para Libertação da Palestina, Yasser Arafat, 1 a 10 bilhões; o presidente paquistanês Asif Ali Zardari, 2 bilhões; Augusto Pinochet, ditador chileno, 28 milhões; e até o ex-presidente egípcio Hosni Mubarak, 70 bilhões. A Transparência Internacional é uma organização não governamental, cujo objetivo é a luta contra a corrupção. Anualmente, são medidos os índices de percepção de corrupção dos países do mundo. Em 2016, elegeu a Operação Lava Jato como a maior iniciativa de combate à corrupção no mundo. Segundo pesquisa FIESP e revista Exame, estão surrupiando do erário no Brasil R$ 600 milhões por dia, R$ 18 bilhões por mês, R$ 216 bilhões por ano.

Em artigo na revista Isto É, fevereiro de 2017, Marco Antônio Villa aponta: A elite política, assim como a elite do mercado e das finanças que fazem negócios com o Estado, com raríssimas exceções, não tem caráter, não tem pudor, não tem princípios. Faz política como negócio e negócios com favorecimentos políticos. Eventualmente incorpora alguma demanda popular, mas sempre para tirar algum proveito. São farsantes convictos. Ficam incomodados quando vigiados. E quando são atingidos – sempre tímida – do Estado Democrático de Direito, reagem e buscam a proteção da estrutura político-jurídica que blinda a elite, criando inúmeros obstáculos para a aplicação da lei. Há um confronto entre a elite e a lei. Os poderosos divergem, atacam, criticam, mas todos fazem parte do mesmo clube. Para o jurista e professor Luiz Flávio Gomes existe hoje no Brasil quatro grandes grupos criminalmente organizados. O primeiro é de natureza privada - formado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), Comando Vermelho (CV), Família do Norte (FDN), etc. – e atua, fundamentalmente, na distribuição e venda de drogas. O segundo grupo é integrado por agentes da administração pública. Dentro do INSS, por exemplo, para recebimento fraudulento de pensões; dentro das polícias, quando alguns policiais assumem o papel de verdadeiros narcotraficantes e vendedores de armamentos; ou mesmo nas auditorias fiscais, com cargas liberadas após pagamento de propina. O terceiro grupo é o chamado crime organizado empresarial. A Operação Zelotes descobriu que empresas “compravam” decisões tributárias favoráveis no órgão recursal respectivo (CARF) para se livrarem do pagamento (total ou parcial) de milionárias autuações fiscais. Incontáveis e poderosas empresas foram citadas pelo jornal Estadão de 28/03/2015, que teriam gerado desfalque de mais de 19 bilhões de reais ao Fisco.

Finalmente, o quarto grupo do crime organizado é o político-partidário-empresarial, fruto do conluio da economia com a política. É composto, como tem revelado diariamente a Lava Jato, de políticos, deputados, senadores, governadores, presidentes, etc., de setores dos antigos partidos e empresários picaretas que integram a cleptocracia brasileira. Para Luiz Flávio Gomes, esses quatro grupos organizados estão roubando e matando os brasileiros e o país. Matam dentro e fora dos presídios. Alguns decepam as cabeças inimigas nas celas, outros roubam o dinheiro público e matam gente invisível na fila do INSS, dentro dos hospitais ou nas periferias do arcaico Brasil. É preciso entender que há um desencanto acentuado com os resultados apresentados pela representação política. A democracia representativa está em crise. O grave nisso tudo é o fato de aqueles que deveriam estar protegendo o erário, paradoxalmente, participarem e permitirem a captura do Estado pelos interesses privados. Até quando esses interesses ilícitos abusarão da paciência do conjunto da sociedade brasileira? É esse tipo de comportamento, onde a corrupção passou a ser regra e a decência a exceção, que queremos legar para os nossos filhos e netos? A história está aí para nos ensinar. Esse mesmo cenário foi vivenciado por um pequeno país nórdico insular europeu, banhado pelo oceano Atlântico Norte, a Islândia. O povo, através de gigantescos protestos, não deu trégua ao Parlamento e ao Governo. O governante foi obrigado a renunciar. Uma nova constituição foi aprovada por mil e duzentos eleitores escolhidos por sorteio e outras trezentas pessoas foram chamadas para representar os trabalhadores, empresários, ONGs, etc.

No dia em que entendermos que civilização é um método de viver, uma atitude de respeito igual por todos os homens, estaremos construindo um novo mundo, aquele em que o meu direito termina quando começa o do outro. Poderemos mudar para valer a cara desse país de forma civilizada, dialogicamente, sem maiores traumas, fundamentado e apoiado num sistema fincado em três pilares: a transparência, a educação e a igualdade. Se um país como a Suécia - habitado no passado por um bando de selvagens louros, vestidos de peles e chifres na cabeça - conseguiu chegar ao pico dos países mais civilizados do mundo; se a Islândia, num pequeno lapso de tempo e com uma situação muito parecida com a nossa, pôde atingir uma situação invejável no cenário mundial; por que não podemos? Depende de cada um de nós. Afinal, a decência é que tem que ser a regra comportamental. A corrupção, a exceção. Portanto, precisamos urgentemente reconstruir o Brasil. Precisamos fazer a nossa revolução, antes que os espoliados e vítimas desse sistema o façam, decepando as nossas cabeças.
Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
11/06
20:58

O Tempo da Imaginação

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE
 
Carlos Heitor Cony é escritor e cronista da Folha de São Paulo. Em 9 de abril deste ano, publicou um artigo, O grande deserto, onde inicia com uma frase cunhada por Oswaldo Aranha nos anos de 1930: O Brasil é um deserto de homens e ideias. Cony referia-se à atualidade da frase ao momento de crise política e econômica que vive a nação brasileira, onde a corrupção passou a ser uma regra de comportamento, principalmente na classe política. Para ele, inexistia qualquer liderança capaz de resolver a embrulhada que nós nos metemos. Ao contrário desse barco sem rumo que tomou conta da gestão pública nacional, Cony parte para uma explicação histórica, mais precisamente o período mais rico da cultura da humanidade, o Renascimento. Diz ele que o papa Júlio II contratou Michelangelo para pintar a Capela Sistina. O papa, entretanto, ao divisar uma stanze vazia e abandonada no palácio apostólico, pediu a Michelangelo que ocupasse a área com uma grande pintura. Exausto com o trabalho e com a falta de cumprimento do acerto firmado em relação ao seu pagamento, ele apontou para baixo onde se encontravam os seus auxiliares e disse ao sumo pontífice que escolhesse um deles para pintar a sala. O papa obedeceu e questionou àqueles homens quem toparia pintar a área. Um jovem se apresentou, declarando que podia fazer o trabalho. Findada a tarefa, o papa se impressionou com o que viu. Perguntou-lhe o nome, no que o jovem pintor respondeu: Raffaello Sanzio. Hoje, quem visita a Capela Sistina, dificilmente deixa de visitar aquele espaço, conhecido como Stanze de Raffaello. Mas, o que Cony quis dizer com isso? É que a existência de gênios era imensa naquela época e que, infelizmente, não temos no Brasil nenhum Raffaello dando sopa por aí.

Na verdade, Rafael Sanzio, ou Raffaello, nascido em 1483 e falecido em 1520, protagonizou uma das mais significativas passagens da história do Renascimento, contribuindo com o seu talento para que se firmasse naquele período uma arte expressivamente filosófica. Ao tratar a sua arte como instrumento da ironia, do humor e da crítica à burguesia e à Igreja, Rafael inovou na criatividade. Em um de seus afrescos famosos, A Escola de Atenas, ele coloca no centro do quadro as figuras de Platão e Aristóteles, o primeiro apontando para cima e o segundo para baixo, como a interpretar o debate que se travava na filosofia medieval sobre a questão dos universais. Ainda hoje, os estudiosos da arte se esforçam em definir cada um dos personagens encontrados no quadro. Dentre as diversas suposições, a mais forte é a de que as cabeças foram substituídas ou adicionadas a corpos diferentes. Para estes, na obra, Platão é mostrado com a cabeça de Leonardo da Vinci. O próprio Rafael é exposto no quadro no lugar ocupado pelo pintor Apelles, que viveu no tempo de Alexandre, o Grande. Outra figura polêmica encontrada na obra é a de Hipátia, matemática e filósofa, que viveu entre os anos 350 e 415. Ela foi assassinada barbaramente por fanáticos cristãos e a sua presença ali, no Vaticano, seria uma afronta à Igreja, como se quisesse homenagear uma herege. Rafael usou de habilidade. O rosto de Hipátia foi substituído ou assemelhado ao de um sobrinho do próprio papa Júlio II, o jovem Giuliano della Rovere. A arte de Rafael, toda ela, tem uma intenção: a de subverter a arte. Os olhares fixos contidos nos personagens, mirando a tudo e a todos em qualquer local ou lado de quem observa o quadro, era uma técnica muito comum na época, como se vê em Mona Lisa, de Da Vinci.

Evidente que a presença de Hipátia naquele lugar sagrado era um tapa na cara da igreja. Mulher de fibra que se destacou no cenário cultural de sua época, nasceu na cidade de Alexandria, o atual Egito. Era filha do famoso filósofo, astrônomo e matemático Theon. Neoplatônica, firmou-se nos campos da matemática, filosofia, física, astronomia, poesia, retórica e pesquisa. Essa trajetória brilhante foi interrompida com a ascensão do patriarca Cirilo ao poder. Cristão radical, não admitia qualquer tipo de crítica à igreja, sendo um adversário fanático daqueles que não rezavam pela cartilha dos padres. Movido pelo ódio, era incapaz de estabelecer relacionamentos humanos normais. A condição de intelectual e pensadora fazia de Hipátia um alvo fácil para a estupidez de Cirilo. Uma falsa acusação fez com que o povo de Alexandria acreditasse que ela estava por trás de uma atividade de traição ao donatário do poder. Em razão disso, foi levada por um grupo de cristãos fanáticos para o interior de uma Igreja e lá extraíram sua pele com conchas, cortaram-na em pedaços, arrastaram os restos mortais pela cidade e os queimaram. A importância dela ser imortalizada no interior do Vaticano, centro nevrálgico da Igreja Católica, é simbólica. Rafael, sarcasticamente, usando da inteligência, mais uma vez se vingava da própria igreja, cujo responsável pela morte da sua homenageada, Cirilo, foi elevado à condição de “doutor da Igreja”, pelos “relevantes serviços prestados à causa cristã”. Obras desse grande pintor do Renascimento estão espalhadas pelas principais igrejas italianas e na decoração das galerias do Vaticano, muitas delas contrabalançando com a grandeza da Capela Sistina, pintada por Michelangelo. Morreu aos 37 anos quando se encontrava no auge da criação.

Esse episódio ocorrido na Renascença me faz lembrar de um fato ocorrido na minha pré-adolescência, em Salvador. Estávamos na década de 1960 e a cultura fervilhava nos vários campos da arte. O Instituto Cultural Brasil-Alemanha, no corredor da Vitória, próximo ao Campo Grande, e o Teatro Vila Velha que reabria as suas portas eram os locais de aglomeração dos artistas baianos. A música, o cinema, as artes plásticas, o teatro, a literatura, passavam por um processo de criatividade e produção. Redenção, o primeiro longa-metragem do cinema baiano, de Roberto Pires, foi objeto de uma avant-première no cinema Guarany no ano de 1959. Tinha início, com este filme, o chamado Ciclo do Cinema Baiano. Neste período, um jovem, que até bem pouco tempo pensava tratar-se de Trigueirinho Neto, era convidado pela Arquidiocese de Salvador para realizar um filme sobre o Maciel, área hoje conhecida como Pelourinho. Pretendia a Igreja Baiana explorar, neste filme, a exuberância do conjunto arquitetônico barroco-português existente nos prédios localizados entre o local do Terreiro de Jesus e a Igreja dos Passos. Por volta de 1950, o local sofreu forte processo de degradação, trazendo para a região a prostituição e a marginalidade. Nos anos de 1960, ficou conhecido por o “Mangue do Maciel”. Como os principais prédios eram de propriedade da igreja, o diretor do filme uniu o profano ao sagrado, trazendo para a tela aquela situação contraditória, pois, além de explorar o acervo histórico das construções, atacava a exploração indireta da prostituição pela cúpula da Arquidiocese. O filme transformou-se num dos maiores escândalos da época. Não se tem notícia do que foi feito com a película e com o seu autor, que praticamente desapareceu de Salvador.

O filme sobre o Pelourinho não teve a mesma sorte de “A Escola de Atenas”, de Rafael, admirada por todos os que visitam a Capela Sistina. Se a arte é o espelho e a crônica da sua época, como dizia Shakespeare, a destruição dos negativos do filme impediu que as gerações futuras conhecessem a história de um mundo predominado pela hipocrisia... ao menos até agora.  

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Coluna Clóvis Barbosa
Com.: 0
Por Kleber Santos
28/05
13:47

A vergonha de ser Honesto

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

Dia 1° de fevereiro de 1992. Naquela data, estava assumindo pela segunda vez o cargo de presidente da OAB-SE. No auditório do Centro de Interesse Comunitário, proferi um discurso que, pela sua atualidade, permito-me transcrevê-lo em parte. Após mostrar o aprofundamento da crise social que arrasava o país, com milhões de menores abandonados, com a violência urbana aterrorizante, com o sucateamento da educação pública, da saúde e dos bolsões de miséria que cada vez mais aumentavam, disse: Tem que ser um compromisso de cada um de nós reverter esse quadro assustador que assola o país. O nosso comportamento, portanto, passa pela cobrança às autoridades constituídas de que somente podemos admitir, na gestão da coisa pública, o respeito aos princípios constitucionais da legalidade, moralidade, publicidade e da impessoalidade, e que o Estado esteja voltado para a consecução do seu objetivo maior, o bem de todos, indiscriminadamente, através da construção de uma sociedade livre, justa e solidária, da garantia do desenvolvimento nacional, da erradicação da pobreza e da marginalização e redução das desigualdades sociais e regionais. A corrupção não pode continuar sendo a regra e a decência a exceção, quadro que contribui com a desigualdade social e envereda para o caminho da violência urbana, onde cada um de nós pode ser a próxima vítima. A decência, portanto, é que deve ser a regra e a corrupção a exceção. Há 25 anos, como se observa, o quadro era parecido com os dias atuais. Lamentavelmente, a corrupção continuou, no Brasil, como regra. A decência, por sua vez, continuou sendo a exceção. A cada dia que passa, descobrem-se novos escândalos que sempre têm como vítima o erário ou o povo, este o principal responsável pela manutenção do sistema através dos seus impostos. E o interessante é que a própria sociedade também dá a sua contribuição ao processo corruptivo quando busca privilégios à custa do dinheiro público.

Há um pacto de mediocridade firmado entre os diversos atores sociais, sejam de origem pública ou privada. Agentes públicos servem de despachantes para os interesses privados que, por seu turno, engordam as contas particulares daqueles servidores em ilhas fiscais espalhadas pelo mundo. Com a Operação Lava Jato, um segmento empresarial que sempre desfilou à margem dos grandes escândalos começa a ser desmascarado: as empreiteiras. A sua participação na corrupção não é coisa nova em nosso país. O jornalista Samuel Wainer, na sua obra autobiográfica Minha Razão de Viver - Memórias de um Repórter, já alertava a sociedade brasileira sobre a promiscuidade existente entre as construtoras e o poder público: Nos anos 50, os barões do café foram substituídos pelos grandes empreiteiros. (...) Com a cumplicidade da imprensa, seria sempre mais fácil, também, receber do governo – um mau pagador crônico – o dinheiro a que tinham direito pelas obras executadas. Feitas tais constatações, logo se forjaram sociedades semiclandestinas bastante rentáveis. (...) O esquema era simples. Quando se anunciava alguma obra pública, o que valia não era a concorrência. Todas as concorrências vinham com cartas marcadas, funcionavam como mera fachada. Valiam, isto sim, entendimentos prévios entre o governo e os empreiteiros, dos quais saía o nome da empresa que deveria ser contemplada na concorrência. Feito o acerto, os próprios empreiteiros forjavam a proposta que deveria ser apresentada pelo escolhido. Era sempre uma boa proposta. Os demais apresentavam propostas cujas cifras estavam muito acima do desejável, e tudo chegava a bom termo. Naturalmente, as empresas beneficiadas retribuíam a boa vontade do governo com generosas doações, sempre clandestinas. Apesar de ainda engatinhar no processo de criação de mecanismos que tenham como objetivo frear a corrupção dessas atividades empresariais, o Brasil, através das suas instituições de controle, tem buscado mudar esse quadro.

Nos EUA, desde 1977, há uma legislação dura, o chamado FCPA – Foreign Corrupt Practices Act, onde se tenta moralizar as práticas comerciais das empresas norte-americanas. A grande constatação foi a de que a debilidade das fiscalizações por parte das instituições de controle era a grande responsável pelo aumento das práticas de atos ilícitos. O FCPA começou a atuar e grandes empresas americanas e multinacionais foram punidas severamente pela prática de corrupção desenfreada dentro dos EUA e em outros países. Alguns casos são emblemáticos. Foi descoberto, por exemplo, que a poderosa Siemens mantinha uma “contabilidade paralela”, com a qual se pagava, em vários países, subornos de bilhões de dólares para obtenção de benefícios para a empresa. A partir do momento em que a Siemens passou a ter ações na Bolsa de Nova York, automaticamente ficou subordinada à legislação americana. Daí veio o processo e a decisão, onde a empresa alemã teve que pagar uma multa de 395 milhões de euros ao Ministério Público de Munique, uma multa de 450 milhões de dólares ao Departamento de Justiça (DOJ) e um confisco de 350 milhões de dólares dos seus lucros à SEC – Securities and Exchange Comission, ambos dos EUA. Uma curiosidade é que o direito federal norte-americano prevê, nas chamadas Sentencing Guidelines, duas atenuantes para a criminalidade corporativa: uma, é o “confessar” e “cooperar” com as investigações levadas a efeito pelas autoridades; outra, é a de ter programa de compliance no momento em que foram praticados os fatos delituosos, ou seja, um conjunto de regras estabelecidas no âmbito interno das empresas para prevenir o cometimento de ilícitos ligados à corrupção. A Johnnie Walker, assim como outras empresas, foi incursa no FCPA pelo pagamento de altas propinas a funcionários dos governos da Índia, Tailândia e Coréia do Sul, através das suas subsidiárias, para obter vantagens lucrativas. O resultado é que teve de pagar mais de 16 milhões de dólares em multas. 

No Brasil, a legislação anticorrupção vem cada vez mais se aprimorando, combinada com a vontade de uma militância briosa e combatente de jovens juízes, promotores de Justiça, Delegados das Polícias Federal e Estaduais e procuradores da República. No direito brasileiro, as estratégias de prevenção e repressão da criminalidade empresarial têm sido incrementadas a partir do avanço das legislações sobre a matéria, algumas permitindo atenuações de penas e até mesmo extinção da punibilidade ou perdão judicial, quando ocorrer colaboração premiada. Se a corrupção utiliza-se de elementos cada vez mais sofisticados na consecução dos seus fins ilícitos, é natural que a sociedade procure também utilizar-se de mecanismos modernos e cada vez mais ágeis em defesa do erário. No caso da Operação Lava Jato, a sua atuação tem contribuído para a descoberta de um dos maiores escândalos de corrupção da história do país, envolvendo empreiteiras, servidores de alto escalão da Petrobrás e políticos. E o grande mérito desse momento histórico que vive o país é, justamente, o fato de a justiça criminal brasileira, como bem diz o professor Luiz Flávio Gomes, sair do modelo conflitivo para entrar no modelo consensual. E o uso da Teoria dos Jogos é o instrumento capaz de incentivar a delação, pois quem assim o faz tem muito a ganhar. E ganha também a sociedade e o erário com a possibilidade de punições e de ressarcimento das quantias desviadas. Os instrumentos que estão revolucionando a justiça criminal brasileira estão principalmente em duas legislações: a Lei n° 12.850, de 2013, que define organização criminosa e dispõe sobre a investigação criminal, os meios de obtenção da prova, infrações penais correlatas e o procedimento criminal; e a Lei n° 9.807, de 1999, que estabelece normas para a organização e a manutenção de programas especiais de proteção a vítimas, a testemunhas ameaçadas, e a acusados ou condenados que tenham voluntariamente prestado efetiva colaboração. 

Abro um parêntese: Há 128 anos, em 1889, com a implantação da República, Dom Pedro II era obrigado a deixar o Brasil. Ele imperou de 1841 a 1889, exatos 48 anos. Nesse período, jamais permitiu que aumentassem o seu salário. Era com este dinheiro que sustentava a si próprio e à sua família e dava-se ao luxo de pagar os estudos de brasileiros no exterior, como o músico Carlos Gomes e o pintor Pedro Américo. Com recursos próprios financiou as suas viagens oficiais aos EUA, Europa e Oriente Médio, com comitivas de apenas quatro ou cinco pessoas. Numa nova viagem a esses países, teve que tomar dinheiro emprestado. Era um gestor austero. Em vez de criar impostos, cortava despesas. Seu palácio imperial, em São Cristóvão, era tido como o mais desmobiliado do planeta. Seus trajes oficiais eram puídos de fazer dó. Ao ser deposto pelos militares e ter de ir embora em 24 horas, Dom Pedro II recusou o dinheiro que o governo da República lhe ofereceu para seu exílio em Paris. E ainda passou uma descompostura nos militares por estarem dispondo de recursos que não lhes pertenciam, mas ao povo brasileiro. Poucos dos sucessores republicanos de Dom Pedro II seguiram o seu exemplo de austeridade. Prevaleceu na República a ideia de que a coisa pública, por ser de todos, não é de ninguém. Oxalá que esse momento histórico sirva para reverter o quadro de indecência que vive o país. E que os componentes da honestidade, como conceituado por Cícero, se insiram em todos os brasileiros, mormente os administradores públicos, eleitos ou concursados: sabedoria, magnanimidade, justiça e decoro. Rui, em discurso no Senado Federal, disse que De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto. Esse é o nosso grande desafio, fazer da decência a regra. (Republicado, a pedido).

Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
30/04
15:28

O Segredo de Brokeback Mountain

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

Hasan é iraquiano. Está com 30 anos. É gay assumido e vive em Bagdá. Mora isolado em sua casa com medo de ser mais uma vítima do insano e criminoso comportamento das autoridades daquele país. Vários de seus amigos, inclusive aqueles ligados à cultura “emo”, cuja maior representação é a música americana “emotional hardcore” (onde os seus adeptos usam quase sempre cabelos compridos e calças jeans justas com as cuecas à mostra), têm sido perseguidos e assassinados pela polícia e grupos paramilitares. O terrorismo contra os homossexuais iraquianos chegou ao ponto de um pai, ao descobrir a relação do seu filho com outro homem, matá-lo com um tiro na cabeça. E tudo isso se deve à insensatez do governo iraquiano que, ao invés de combater o massacre dessas minorias, incita a violência. O Ministério do Interior do Iraque chegou ao cúmulo de veicular um comunicado, anos atrás, afirmando que os “emos” são “adoradores do demônio”, estimulando, desse modo, a polícia a “eliminar” esses jovens. O anúncio foi retirado do ar, no entanto o texto influenciou o aparecimento de vários corpos pelas cidades. 

O ódio homofóbico não é um sentimento somente do Iraque, mas do mundo inteiro. No ano de 2011, um relatório divulgado pelo Grupo Gay da Bahia revelava que 140 gays, 110 travestis e 10 lésbicas foram assassinadas no Brasil no ano de 2010. Por faixa etária, 46% das vítimas tinha menos de 30 anos. A mais jovem tinha tão somente 14 anos; era um travesti, morto com 14 tiros em Maceió. A mais velha tinha 78 anos; era um aposentado, que foi morto com golpes de facão na cidade de União dos Palmares, Alagoas. Desses homossexuais, 43% foram assassinados a tiros; 27% morreram com golpes de faca; 18% foram apedrejados ou espancados e 12% sufocados ou enforcados. Ainda no ano de 2011, a polícia civil do Estado de São Paulo identificou 200 integrantes de grupos extremistas, conhecidos como “skinheads”, entre 16 e 28 anos, que foram investigados por “crimes de ódio”, praticados contra gays e negros. Esses jovens estão sempre usando coturnos com biqueiras de aço ou tênis de cano alto, jeans e camisetas coladas ao peito. Cultuam o líder nazista austríaco Adolf Hitler e se cumprimentam com o grito “Heil Hitler”.

Consoante dados da ONU, em mais de 70 países leis criminalizam o homossexualismo, expondo milhões ao risco de detenção, prisão e, em alguns casos, execução. É lamentável! Essas normas anormais, a rigor, violam um dos princípios fundamentais que regem a nossa crença na dignidade e no valor de cada pessoa, sem distinções com base em raça, cor, sexo, idioma, religião, propriedade, nascimento ou outras quaisquer. Havendo o consentimento, toda forma de amor é válida. A história está cheia de exemplos de relacionamentos homoafetivos, como a de Gertrude Stein e Alice B. Toklas. Stein era formada em psicologia pela Radcliffe College. Viveu em Paris, onde chegou no início do século XX, e se tornou uma espécie de abelha rainha naquela época efervescente da capital francesa. Uma leva de artistas, ainda no início de carreira, fez da cidade o seu lar. Foi ela quem rotulou todos eles como a “geração perdida”. A sua obra mais importante é “A autobiografia de Alice B. Toklas”, sua amante, lançada em Paris em 1933, livro que a celebrizou na literatura norte-americana nos primeiros cinquenta anos do século XX.   

Ali, ela penetra nos ambientes parisienses na fase anterior à segunda Guerra Mundial, “onde reinavam a flexibilização dos costumes e a radicalização das ideias”. Influenciou toda essa geração de intelectuais, que passou por Paris a partir de 1903. Outra grande pioneira nessa época foi a poetisa e dramaturga Natalie Clifford Barney, uma ricaça de Ohio que foi a Paris para estudar. Depois de Eugene Stein, tornou-se a segunda mulher mais badalada daquele mundo cultural, recebendo em sua casa intelectuais da envergadura de Marcel Proust, Apollinaire, André Gide, James Joyce, Sherwood Anderson e T. S. Eliot. Suas orgias com mulheres foram cantadas e decantadas tal qual um mantra da época. Federico Garcia Lorca é um dos maiores poetas de língua espanhola. Na madrugada de 18 ou 19 de agosto de 1936, aos 38 anos, foi fuzilado a mando da ditadura franquista em plena guerra civil espanhola. Lorca era então odiado pelo seu entusiasmo na luta pela República. A sua condição de homossexual foi explorada pela direita espanhola como responsável pela sua morte, versão repelida pela história.

Como homem das letras, travou relações com as mais importantes figuras vanguardistas do seu tempo, como o pintor Salvador Dali, com quem mantivera um romance sempre negado por este, que chegou a afirmar que Lorca era pederasta, como se sabe, y estaba locamente enamorado de mi. Trató dos veces de ... lo que me perturbó muchisimo, porque yo no era pederasta y no estaba dispuesto a ceder. O sea que no passo nada. Todos os biógrafos de Lorca e do próprio Dali, contudo, colocam em dúvida a veracidade dessas afirmativas. Há uma extensa correspondência entre ambos, onde se verificam vários trechos insinuantes, os quais demonstrariam o amor existente entre eles. Há, a propósito, um poema esparso de Lorca, que é dedicado a Salvador Dali, com o título “Ode a Salvador Dali”. Ainda no mundo cultural, um grande romance, embora conturbado, foi vivido pelos poetas franceses Arthur Rimbaud e Paul Verlaine. Os defensores do primeiro alegam que ele nunca fora homossexual; o segundo, sim! A realidade é que essa relação chegou ao ponto de, após uma briga que tiveram em Londres, Verlaine ir embora para Bruxelas. 

Quatro dias depois, Rimbaud chegou a Bruxelas e, após nova briga, Verlaine deu um tiro no seu amante, que foi hospitalizado para extração do projétil. No julgamento de Verlaine, sob juramento, ambos negaram qualquer ligação homossexual, o que, segundo Verlaine, seria uma invenção de sua mulher para lhe prejudicar. Logo após a morte de Rimbaud, aos 45 anos de idade, em 1895, Paul Verlaine escreveu um texto, que denominou “Novas notas sobre Arthur Rimbaud”, onde elogiou o seu talento e festejou a amizade vivenciada entre ambos. Culminou com um poema, dedicado ao seu amante: A Arthur Rimbaud -  Mortal, anjo e demônio, ou melhor, Rimbaud, teu lugar no meu livro é o primeiro, como um prêmio; tu, que um bobo escritor um dia esculhambou, te achando um debochado imberbe, um verme, boêmio. As espirais de incenso e os acordes do alaúde saúdam tua chegada ao templo da memória, onde teu nome esplêndido soará em glória, pois me amava, se preciso, até a plenitude. Serás para as mulheres, sempre, belo e forte, de uma beleza assim, agreste e sedutora, tão cobiçada quanto desvanecedora. 

Concluindo, Verlaine arrematou: E a história te erguerá triunfante da morte, para que, apesar de toda a lama, o mundo veja teus pés intactos sobre a cabeça da inveja. É... Furtando as palavras de Verlaine, o problema está aí, na lama que jogam no amor homossexual para torná-lo sujo quando, com efeito, todo amor se faz limpo, exatamente porque é amor. Essa lama tem matado no Iraque. Tem matado no Brasil. Tem tornado limpos skinheads, manchados com o sangue de quem apenas queria amar. Penso, por conseguinte, que, se a sociedade respeitasse a diversidade do amor, vendo nele uma forma de contemplação sublime, superaríamos o vilipêndio dos assassinatos covardes e construiríamos um mundo único, homogêneo, leve e igual, pelo respeito divino às diferenças.


Post Scriptum
Madonna
A rainha das ruas de Ará

Ele perambulava pelas ruas de Aracaju, vivendo de pequenos biscates e da boa vontade das pessoas. Homossexual assumido, defendia, com unhas e dentes, a sua opção sexual. Bom de briga e no uso da faca, esteve várias vezes preso pela prática do crime de lesão corporal, pois não admitia atos homofóbicos contra ele. Por duas vezes o tirei da prisão. Ninguém o conhecia pelo seu nome de batismo, Amós Lima Chagas, mas pelo seu apelido: Madonna, um dos tipos mais populares e conhecidos de Aracaju. Era uma pessoa prestativa e muito solidária com quem ela gostava. Eu, particularmente, adorava o seu senso de humor. Lembro-me que certa vez estava conversando com um amigo comerciante da Rua 24 horas, num estacionamento da Rua Laranjeiras, esquina da Rua Capela. Repentinamente chega Madonna e fala para este meu amigo: - Gordinho gostoso! Vim buscar a minha mesada! Irritado com a petulância, ele retrucou: - Não tem mesada porra nenhuma, me respeite viado safado! Madonna botou as mãos nos quartos e foi logo replicando: - Ah, é?!  Agora sou viado safado?! Quando você me comia eu não era! Pois vou espalhar na Rua 24 horas que você me botava pra lhe chupar dentro da loja! Foi um Deus nos acuda para o meu amigo, que espavorido disse: - Não! Não! Por favor, tome aqui 20 reais. Mas houve um momento histórico na vida de Madonna. O casal Marivaldo e Jandira, proprietários de uma gráfica no centro da cidade, gostava muito dele e resolveu mudar a sua vida. Depois de muitos conselhos e ponderações, conseguiu persuadi-lo a dar uma reviravolta no seu dia-a-dia. Aquilo, para o casal, não era vida de gente. E não é que o quadro mudou completamente para Madonna? Com carteira assinada, calça comprida e camisa social, todos os dias ele chegava e saía religiosamente no horário comercial da gráfica. Ajudava na oficina, limpava as máquinas, fazia pagamentos bancários. Era um autêntico “faz-tudo” no seu emprego. Abandonou os trejeitos femininos, deixou a droga e até estava mais tolerante com os moleques que mexiam com ele, engolindo vários tipos de sapos. Estavam todos admirados. Seus vizinhos do Bairro Industrial estavam atônitos com a mudança radical operada em sua vida. Estava até almoçando em restaurantes. O Bar da Finha, na Rua Laranjeiras, era o preferido nas sextas-feiras por causa da feijoada. Mas três meses depois, talvez pelos maus tratos e preconceitos dos transeuntes, Madonna causou o maior furor na Rua Laranjeiras. Tirou a gravata, rasgou a camisa, despiu-se da calça, meia e sapato e saiu de cuecas aos gritos lancinantes: - Chega! Não quero mais ser homem! Nasci para ser mulher! E correu em direção ao calçadão da Rua João Pessoa. Bem disse Araripe Coutinho numa crônica para Madonna: Não mais corre atrás de ninguém, não mais grita, não mais rouba, nem se arruma de salto alto, nem pede roupa velha aos travestis, nem mais dorme sobre o colchão de pregos, nem mais ilumina o bairro Industrial, nem mais chora, nem mais eu, nem mais nada. Na madrugada de uma sexta-feira, ano de 2012, ele foi encontrado totalmente ensanguentado atingido por golpes de paralelepípedos no centro de Aracaju. Quatro dias depois morreria de traumatismo craniano.

Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente.
 


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
16/04
11:09

Ao Vencedor, as Batatas

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

A guerra, que coisa intrigante! Uns morrem nela, outros vivem dela! O escandaloso, contudo, é que, no fim, tudo acaba em paz. Se por rendição ou eliminação de quem perde, não importa. Relevante é que a guerra não dura para sempre, pelo menos quando é travada literalmente no campo de batalha. Ali onde ela se concebe enquanto embate político, porém, pode até perpetuar-se. Nesse ponto, deve-se concordar com Churchill. “Política e guerra são igualmente excitantes e perigosas. Acontece que, na guerra, morremos uma única vez, enquanto que, na política, morremos inúmeras”, ensinava o estadista. Com efeito, esse é o inevitável problema da batalha política: saber morrer. Churchill soube, ainda quando foi vítima de uma medonha injustiça. Isso, a rigor, é o que notavelmente distingue os fracos dos fortes. Estes aceitam a derrota, mesmo que injusta; aqueles não a querem, mesmo quando a merecem. Não fosse Churchill, ao invés de o estandarte de uma democracia, a suástica teria sido fincada na lua em 1969. Ou antes. Ou nunca. Mas a terra certamente vestiria uma suástica. Todavia, Churchill venceu a guerra. Pegou o bonde andando em 1940, quando sucedeu Chamberlain, em cujas mãos a Grã-Bretanha e o mundo corriam o risco de soçobrar. Após iniciais baixas, a Inglaterra, pela habilidosa batuta de Churchill, trouxe os EUA para o front. Pois bem. Com a derrota da Alemanha em 1945, o planeta retomou seu curso normal e Churchill, vitorioso, candidatou-se à recondução como premiê, na certeza de que o parlamento inglês reconheceria sua grandeza e o elegeria novamente. Coisa nenhuma. Sobreviveu à grande guerra, mas morreu (temporariamente) na política, perdendo o pleito para o trabalhista Clemente Attlee. O que fez Churchill? Xingou Attlee? Fez oposição radical? Não! Digeriu a derrota e recolheu-se.
 
Resultado? Churchill concentrou-se na conclusão de sua monumental obra (Memórias da 2ª Guerra Mundial), que lhe renderia o Nobel de literatura em 1953. Em suma, como soube perder, Churchill também saiu vencedor. Tanto que, em 1951, já com 76 anos, Churchill retomou o cargo de primeiro-ministro. É assim que as coisas funcionam na política. Morrem-se inúmeras vezes, mas também se ressuscita diversas outras, salvo quando a estupidez não autoriza. Estúpidos não sabem sequer administrar vitórias. Se, ao invés de ter sido o maior guerreiro de todos os tempos, Alexandre, o Grande, fosse um estúpido, a batalha de Issus poderia ter tomado itinerário diverso. Após derrotar Dario III, em 333 a.C., Alexandre, cujo exército capturara entes queridos do derrotado, deu-lhes tratamento não de reféns, mas de hóspedes. Ele não tinha em Dario um inimigo, mas um adversário. Saiu duplamente fortalecido. 

Eis o arquétipo do político ideal: aquele que detém a magia de transformar derrotas em vitórias e vitórias em conquistas ainda mais memoráveis. Eis o arquétipo do político estúpido: aquele cuja débil ossatura só é capaz de projetar a engenharia do caos. Quando vencedor, transforma a vitória em derrota; quando derrotado, transforma a perda em sepultamento. O estúpido, na política, não morre inúmeras vezes. Morre apenas uma. A morte política, entretanto, depende mais da perspectiva do derrotado, do que do tratamento que lhe é conferido pelo vencedor. Daí, a necessidade de encarar cada batalha apenas como uma fase do longo processo que é a biografia política. Veja-se, por exemplo, a biografia política do jovem Marcelo Déda, falecido em 2013. Perdeu algumas batalhas? Sim. Mas por que transpirava um como que de invencibilidade? Porque digeriu as derrotas, capitalizando-as, a fim de, mais tarde, lucrar com elas. 

Aqui, vem a calhar uma breve referência a um dos mais imponentes romances de Machado de Assis: Quincas Borba. Nessa obra, Machado introduz uma filosofia de cunho escatológico, à qual dá o nome de humanitismo. No humanitismo de Quincas Borba, há situações em que a própria vida lança seus alicerces à morte de outrem. Esse ponto-de-vista é ilustrado com a seguinte estória: imaginem-se duas tribos rivais famintas diante das quais há uma plantação de batatas. As batatas mostram-se suficientes para alimentar só uma das tribos. Se elas fizerem a paz, no sentido de comerem juntas as batatas, todos morrerão de inanição. Solução? A guerra. A morte de uma tribo viabilizará a vida da outra. Morte, nesse caso, é vida. Ao derrotado, o extermínio; ao vencedor, as batatas. O emprego irônico das batatas para recompensar o êxito demonstra o menoscabo de Machado por quem despreza a vida e a dignidade alheias. 

Em suma, quem vê no extermínio do adversário a única saída para a sua vitória, merece como prêmio um punhado de batatas. Quando perdia, Déda atribuía a si próprio a razão da perda. Quando vencedor, Déda atribuía ao povo a razão das vitórias. E, mais importante, não humilhava o derrotado. Por isso, não lucrava tão-somente batatas nas vitórias que galgava. Comemorava e vibrava com elas. Estupidamente, um dos seus derrotados, num dos pleitos em que ele venceu, garantiu que Déda comemorou em demasia a vitória, arrotando que ele só fez isso porque bebeu uma cervejinha além da conta. Interessante, Alexandre comemorava suas vitórias com vinho. Churchill, com whisky. Obviamente, uma cervejinha acompanhou a vitória esmagadora de Déda. Uma coisa é certa. Embora Quincas Borba assegure que batatas ficam para o vencedor, aqui o troféu foi outro. Ao vencedor, a cerveja; ao perdedor, as batatas. 

POST-SCRIPTUM
O Plano de Saúde

O sonho de Leonor, uma octagenária do bairro Santo Antônio, era ter um plano de saúde. Vivia de uma parca aposentadoria do governo do Estado de Sergipe. Para complicar, criava uma neta de treze anos. As despesas eram incompatíveis com os seus proventos, o que a levava a ter uma vida muito difícil. Ficava com uma inveja danada de Gertrudes, uma senhora vizinha, que falava da limpeza do apartamento, sempre com lençóis limpos e cheirosos, da atenção dos médicos e das enfermeiras, da alimentação e da lhaneza de como era atendida quando se internava nos hospitais São Lucas e Primavera. – Dá vontade de não sair mais do hospital, Leonor. É igual a um hotel 5 estrelas. Gertrude se orgulhava do seu plano de saúde, pago por uma filha funcionária da Petrobrás. Fazia questão de mostrar o cartão: - Basta mostrar o cartão que não pago nada. É tudo de graça!, dizia ela com ares de soberba. Interiormente, Leonor sofria bastante com o desgosto provocado pela felicidade ou prosperidade de sua vizinha, mas procurava controlar esse seu sentimento com um provérbio que aprendeu na Bíblia, sempre precedido por três tapinhas que batia levemente na boca: - O coração tranquilo é a vida da carne; a inveja, porém, é a podridão dos ossos. Leonor tinha problemas de hipertensão arterial. A sua pressão era sempre superior a 15 por 10, o que aumentava o risco de doenças graves, como infarto, derrame ou implicação renal. Além disso, era dependente da insulina injetável que deveria ser aplicada diariamente. A sua diabetes era a do tipo 1. O tratamento vez por outra era suspenso pelo fato de o posto de saúde do bairro nem sempre ter no seu estoque a insulina. Isto fazia com que se internasse sempre em hospitais públicos. Nos últimos dois anos, a ambulância do SAMU esteve em sua casa para transportá-la para o hospital umas 15 vezes, ora por problema da diabetes, ora pela pressão alta. Já não aguentava mais ficar nos nosocômios de Aracaju. Além de sofrer com a sua doença, tinha que suportar a dor e o enchimento de saco dos outros pacientes. – É um verdadeiro circo de horror!, dizia para si mesma. Eis que, de repente, a sua filha que morava ilegalmente em Miami, EUA, mãe da sua neta, começou a mandar para ela, mensalmente, mil dólares, o correspondente a R$ 3.300,00 (três mil e trezentos reais), aproximadamente. Adivinhe qual a primeira coisa que Leonor fez? Exatamente! Procurou Gertrudes e fez um plano de saúde igual ao dela num estabelecimento bancário de credibilidade. Ao receber o cartão, ficou feliz. Agora, era esperar a doença para se internar num hospital particular. A mala sempre estava arrumada. Meses e meses se passaram e nada de doença, até porque atualizou o uso da insulina e do remédio de pressão. Qualquer dorzinha que sentia, seja na cabeça ou no dedo mindinho, corria para o médico e implorava uma internação hospitalar. Mas nunca os profissionais atenderam sua súplica. Nos últimos meses de vida a amargura tomou conta de Leonor. Reclamava de tudo e com todos, afastou-se da vizinhança e ensimesmou-se em sua casa. Passados três anos sem nunca conseguir se internar no hospital, numa manhã de domingo de céu cinzento, Leonor viria a falecer após sofrer um infarto fulminante. Os médicos disseram que foi por conta da hipertensão, mas na desconfiança geral da família o motivo foi outro. Ela não conseguiu realizar o seu sonho: internar-se num hospital particular!
 
 Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente.  


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
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