03/12
07:51

Déda – Cântico do Calvário

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

Hoje, 2 de dezembro de 2017. Quatro anos sem Marcelo Déda. Naquele dia do ano de 2013, a melancolia bateu forte no meu coração. Como uma faca, cuja lâmina afiada penetrava sem qualquer remorso no âmago da minha alma, quedei-me inerte no silêncio. Não desejava me despedir de Déda. Ficaria em casa naquela segunda-feira. O traslado do seu corpo já havia sido feito, e ele estava sendo homenageado pelo povo e autoridades, inclusive a presidente da república, no prédio que ele mandou restaurar, o Palácio Olímpio Campos. Um filme passou pela minha mente. As imagens surgiam como se estivéssemos voltando a trilhar os mesmos caminhos andados em 37 anos de amizade, forjada no amor e nas divergências. Muito carinho de um pelo outro, mas brigas também. Tudo começou no Colégio Atheneu, onde fui dar um curso de história do cinema ao lado de Nilo Jaguar, Djaldino Moreno, Alberto Carvalho e Antônio Jacintho Filho. Lá, quatro meninos mostraram interesse pelo curso: Déda, Oliveira Júnior, Aragão e Evandro Curvello, quarteto que só andava junto e partilhava dos mesmos interesses culturais. Depois, veio a política, no PT e nos movimentos sociais; a advocacia, no início de sua carreira; a noite, no Baixo Barão, Scooby-Doo, Bar do Vinícius, Gosto Gostoso e tantos outros. De 1990 a 1996, ficamos de mal, embora em 1994 ele recebesse o meu voto, da minha família e amigos na sua candidatura vitoriosa a Deputado Federal. Não nos falávamos. Mas eu sempre falava dele, e ele de mim para amigos comuns. 

A noite chegava e minha angústia aumentava cada vez mais. Não, eu tenho que ir ao Palácio Olímpio Campos. Eu tenho que vê-lo pela última vez para olhar seu rosto, dar-lhe um beijo e volto para casa. Uma multidão na praça. Consigo entrar pelos fundos e subo, cambaleante, a escadaria até a sala onde o seu corpo estava estendido. Ao vê-lo, a emoção tomou conta de mim. Choro bastante. Recomponho-me e passo a imaginar o cenário criado pelo poema de Walt Whitman, O Captain! My Captain. Subverto o texto e passo a me exprimir em voz baixa: - Sobre o deque meu capitão jaz, frio e morto tombado, enquanto lá fora as bandeiras do PT tremulam. Ergue-te, Ó capitão! Meu capitão! A nossa viagem ainda não está finda, Ó capitão! Meu capitão! Ergue-te e ouve os sinos! Ergue-te, o clarim garganteia, por ti buquês e grinaldas engalanadas, por ti eles chamam, a massa oscilante volta-lhe suas faces ansiosas; eis capitão! Querido amigo! Este braço sob sua cabeça colocado! - Meu capitão não responde, seus lábios estão pálidos e silentes. Meu querido amigo não sente meu braço, não tem pulso, a vontade ausente. Lembrei-me do seu aniversário de 50 anos. Fiz um artigo com o mesmo título do poema de Walt Whitman. Ali, eu perquiria que fatores identificariam os homens, a ponto de uni-los mediante laços de afeto? O que levaria alguém a não medir sacrifícios por um amigo e, até mesmo, a definir outrem como tal? 

Por que nós nos ajuntamos em bandos, grupos, partidos ou tribos, projetando marcas que nos distinguem de outros, em face dos quais não encontraríamos afinidade? Após filtrar, com rigor, ideias que deixei fluir com naturalidade, creio ter chegado a uma razoável conclusão. Segundo elas, três seriam os ingredientes que imantariam os indivíduos, irmanando-os e fazendo deles emergir uma mesma frequência, na forma de acordo com a qual captariam a sonoridade do mundo, ou no modo de enxergar as aflições que nosso coração faz ecoar pelas curvas da vida. Penso que etnia, idioma e similitude de propósitos são os pilares que nos põem no mesmo bloco. Por isso, emocionei-me com a homenagem que se prestava ao nosso Déda, que estava completando meio século naquele ano de 2010. Que beleza! Nessa fase da vida, o alemão Bach já havia formatado a Arte da fuga e escrito seus mais importantes trabalhos, a exemplo de O cravo bem temperado e da Paixão segundo São Mateus. Quando Bach tinha cinquenta anos, adveio-lhe o filho caçula, que acabou por seguir carreira idêntica à do pai. Naquele dia de festa, 11 de março, nasceu Astor Piazzolla, que, aos cinquenta anos, já produzira seus mais reluzentes tangos (as obras-primas Adiós Nonino e Libertango). Pois é, com apenas cinquenta anos, Déda, artífice da palavra, estilista no trato com a administração pública e regente singular do Estado, já tinha sido, na política, quase tudo que se poderia conseguir galgar.

No executivo, só não ocupou a presidência da república, mas foi prefeito da capital de seu Estado (Aracaju), por duas vezes (eleito pela primeira vez aos quarenta anos), e governador de Sergipe, também duas vezes (sempre vencendo no primeiro turno). Já no legislativo, apenas não ocupou uma cadeira de vereador e outra de senador. Mas foi, com menos de trinta anos (em 1986), o deputado estadual mais votado do pleito. Com menos de trinta e cinco anos (1994), elegeu-se deputado federal, com a maior votação do Estado, reelegendo-se em 1998. Para mim, todavia, dois anos, em especial, são marcantes: 1977 e 2000. Em 77, vi, pela primeira vez, o imberbe Déda num curso de cinema no Atheneu, como dito acima. Na época, eu era presidente do Clube de Cinema de Sergipe. Juntamente com barbudos e velhos comunistas, exibi, malgrado percalços e riscos, o “Encouraçado Potemkin”, de Serguey Eisenstein. Com efeito, os riscos advinham do fato de a obra de Eisenstein expor a ditadura do czar. E nós vivíamos uma ditadura. No ano anterior (1976), por exemplo, desencadeara-se a “Operação Cajueiro”, na qual ilustres sergipanos foram presos pelo regime de exceção. Mas o jovem e denodado Déda estava lá, como que, encouraçadamente, peitando a ditadura. Os anos se passaram. Cheguemos, então (e sem rodeios), a 2000. Estava eu (com um pouco mais de cinquenta anos), na sacada do meu escritório, na Rua Laranjeiras, edifício Aliança, nas adjacências da agência central da ECT, observando a passeata da virada de Déda. 

Era a eleição para a prefeitura de Aracaju. Ele começara atrás nas pesquisas, mas, crescendo a cada dia, tomou a dianteira e disparou (venceria com quase 53% dos votos válidos). De cima do trio-elétrico em que conclamava a multidão, Déda viu-me e, olhando-me nos olhos, gritou, para todos ouvirem: “Clóvis Barbosa, seu lugar é aqui. Do nosso lado. Saia daí. Eu conheço sua história”. Ri com o gesto, acenei e agradeci. Depois, entrei e chorei. Nada demais. Jesus também chorou. Dois ou três anos depois, lá estava eu, procurador-geral do prefeito Marcelo Déda, aquele mesmo menino de dezessete anos. Agora, timoneiro de um novo encouraçado. De lá para cá, sempre estivemos juntos. Sim, e o porquê dessa amizade? Respondo. Sou de Estância. Mas meu pai era de Simão Dias, terra de Déda. Além disso, por ter sido do partidão (PCB), do antigo MDB e do PT (nos primórdios), minha linguagem política, assim como a de Déda, está ligada ao trabalhismo (este é o idioma que falamos, o idioma dos trabalhadores, o idioma da esquerda, marcadamente da latino-americana). Nosso propósito ideológico, ademais, era o mesmo: construir uma sociedade mais justa, onde a força do trabalho superasse a exploração do sangue e do suor do operário. Vejam, pois, que eu e Déda compartilhávamos da etnia, do idioma e dos propósitos. Daí, meu orgulho por ter, de alguma forma, inspirado o jovem que se tornou meu ídolo. 

Déda via o mundo pelos olhos do povo. Era um agente de transformação social. Ele tinha o arquétipo do político ideal: aquele que detém a magia de transformar derrotas em vitórias e vitórias em conquistas ainda mais memoráveis. Diferentemente do político estúpido, cuja débil ossatura só é capaz de projetar a engenharia do caos. Quando vencedor, transformava a vitória em derrota; quando derrotado, transformava a perda em sepultamento. O estúpido, na política, não morre inúmeras vezes. Morre apenas uma. A morte política, entretanto, depende mais da perspectiva do derrotado, do que do tratamento que lhe é conferido pelo vencedor. Daí, a necessidade de encarar cada batalha apenas como uma fase do longo processo que é a biografia política. Veja-se, por exemplo, a biografia política do jovem Marcelo Déda. Perdeu algumas batalhas? Sim. Mas por que transpira um ar como que de invencibilidade? Porque digeriu as derrotas, capitalizando-as, a fim de, mais tarde, lucrar com elas. Na verdade, de todos os atributos humanos, o talento certamente é o mais excêntrico. É que ele, ordinariamente, não se compatibiliza com outras qualidades. A título de exemplo, e lançando mão do próprio discurso popular, é lícito afirmar que os homens talentosos, no mais das vezes, não são humildes, mas vaidosos. Não são metódicos, mas intuitivos. Não são organizados, mas extremamente confusos em suas arrumações. Não são cautelosos, mas impacientemente agoniados. 

Vê-se, por conseguinte, que o talento acaba por espantar características igualmente desejáveis como modéstia, disciplina, esmero e paciência. De que forma, por exemplo, se poderia esquecer do talentoso pai da relatividade, ganhador do Nobel, que, aqui e ali, desafiava Deus, fazia cálculos no verso de envelopes usados, tirava fotos com os cabelos assanhados e mostrava a língua quando ia cumprimentar alguém? Numa palavra, o talento traduz uma bomba. Mas nem sempre. Às vezes, o talento propicia um saboroso e colorido espetáculo de pirotecnia. Especialmente quando o talentoso é, ao mesmo tempo, modesto, disciplinado, esmerado e, acima de tudo, paciente. Nesse ponto, é que vem a calhar a biografia do sergipano Marcelo Déda, que morreu num momento histórico da sua brilhante carreira política, onde passeava de asa-delta em céu de brigadeiro. Tudo indicava que a próxima tarefa que o destino iria lhe conduzir seria o Senado da República. Mas, quem não se lembra de Augusto Matraga, personagem de Guimarães Rosa? “Cada um tem sua hora e sua vez. A sua há de chegar”. Isso foi dito a Matraga, protagonista do conto, que integra o livro Sagarana. Digno de nota, no entanto, é que Guimarães fez questão de ressaltar que “Matraga não é Matraga. Matraga não é nada. Matraga é Esteves”. Ou seja, as pessoas não são o que os outros pensam acerca delas. As pessoas são o que efetivamente são. 

E a hora e a vez dos homens dependem não do que se pensa sobre eles, mas do que eles fizeram na prática para alcançar o êxito. Afinal de contas, “Matraga é Esteves”. E Déda é Sergipe. Foi aqui que ele nasceu. Foi aqui que ele se criou. Foi aqui que a política o viu amadurecer. No tempo dele, é claro. Mesmo porque “cada um tem sua hora e sua vez”. Mas, e o vazio que a ausência de Déda deixou em todos nós? Dizem que saudade é a sétima palavra de mais difícil tradução e, também, de difícil conceituação. O que é saudade? Neruda dizia que saudade é amar um passado que ainda não passou, é recusar um presente que nos machuca, é não ver o futuro que nos convida. O nosso menino Déda foi embora precocemente, sob os aplausos do povo e o adeus dos seus amigos e familiares. Mas tudo foi feito para ele voltar. Espera-se, ainda, que suas cinzas renasçam no Parque da Sementeira. Em forma de árvore, de um monumento, na alma de um quero-quero, de um pardal agoniado ou, quem sabe, de uma flor? Ainda não sei ao certo, mas o vejo em cada canto em que há colorido, no sorriso aberto de uma criança, no reflexo do olhar daqueles que miram o céu admirando as estrelas. Faço minhas as palavras do poeta Fagundes Varela, em Cânticos do Calvário, e as dedico à memória de Déda: Eras na vida a pomba predileta que sobre um mar de angústias conduzia o ramo da esperança. Eras a estrela que entre as névoas do inverno cintilava apontando o caminho ao pegureiro.  

Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente.
 


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
05/11
13:24

Sociedade de Sonhadores Fracassados

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

No início do poema Explico Algumas Coisas, provavelmente dedicado aos poetas Rafael Alberti, Federico Garcia Lorca e Raúl Silva Castro, Pablo Neruda faz três perquirições: - Onde estão os lírios? E a metafísica coberta de papoulas? E a chuva que muitas vezes golpeava suas palavras enchendo-as de frestas e pássaros? As perguntas – duras, é verdade – não ficam sem respostas a uma tensa realidade vivida na Espanha nos idos da ditadura de Franco. O país foi totalmente destroçado, estimando-se que mais de um milhão de pessoas tenha morrido durante o período compreendido entre a guerra civil espanhola, de 1936 a 1939, e a ditadura franquista, de 1939 a 1975. Mas Neruda, no final da poesia, faz uma última indagação: Por que os seus poemas não falam dos sonhos, das folhas e dos grandes vulcões de seu país natal? Ele responde, repetindo por três vezes: Venham ver o sangue pelas ruas! Os sonhos desse grande poeta chileno não foram perdidos, mas adiados. John Lennon foi fundador de um dos maiores fenômenos da história da música, The Beatles. Quando ele se desligou da banda, o primeiro ato foi devolver a sua medalha de Membro do Império Britânico à rainha da Inglaterra, como protesto pela atuação do Reino Unido no conflito de Biafra e o seu envolvimento no apoio à guerra do Vietnã. 

Uma de suas mais belas composições é Imagine, onde o sonho de um mundo melhor e mais irmanado é sublimado: Imagine não haver o paraíso, é fácil se você tentar. Nenhum inferno abaixo de nós. Acima de nós, só o céu. Imagine todas as pessoas vivendo o presente. Imagine que não há nenhum país. Não é difícil imaginar. Nenhum motivo para matar ou morrer e nem religião, também. Imagine todas as pessoas vivendo a vida em paz. Imagine que não existam posses e eu me pergunto se você pode viver sem a necessidade de ganância ou fome. Como uma irmandade dos homens. Imagine todas as pessoas partilhando todo o mundo. Você pode dizer que eu sou um sonhador, mas eu não sou o único. Espero que um dia você junte-se a nós e o mundo será como um só. O seu assassinato não matou os seus sonhos. Também os seus sonhos não foram perdidos, mas adiados. Clarice Lispector dizia que ainda bem que sempre existe outro dia. E outros sonhos. E outros risos. E outras pessoas. E outras coisas. A Bíblia diz que Deus, criador do Paraíso no jardim do Éden, prometeu fazer da terra um paraíso de novo. De que forma? O profeta Isaías descreve como vai ser a vida no paraíso: todas as coisas ruins que existem hoje vão deixar de existir. O próprio Alcorão prevê a existência desse paraíso: os justos entre os Meus servos vão herdar a terra.

Fernando Pessoa considerava a poetisa Florbela Espanca como uma “alma sonhadora Irmã gêmea da minha!” Essa belíssima mulher, precursora do movimento feminista em Portugal, multifacetava-se ora como a “endiabrada bela”, como a “Napoleão de saias”, a “princesinha” e ora como “trouxa de farrapos”, tudo isso personificado nos seus contos e poemas marcados por uma vida inquieta, tumultuada e, sobretudo, carregada de sofrimentos. Assim foi a curta vida de Florbela Espanca, encontrada morta no dia do seu aniversário, 8 de dezembro de 1930, aos trinta e seis anos. Um de seus grandes textos encontra-se na obra “Diário do último ano”, de 1981, com prefácio de Natália Correia, onde sua alma sonhadora se revela. Ela diz: Que me importa a estima dos outros se eu tenho a minha? Que me importa a mediocridade do mundo se Eu sou Eu? Que importa o desalento da vida se há a morte? Com tantas riquezas por que me sentir pobre? E os meus versos e a minha alma, e os meus sonhos, e os montes, e as rosas, e a canção dos sapos nas ervas úmidas, e a minha charneca alentejana, e os olivais vestidos de Gata Borralheira, e o assombro dos crepúsculos, e o murmúrio das noites... então isso não é nada? Napoleão de saias, que impérios desejas? Que mundos queres conquistar? Estás, decididamente, atacada de delírios de grandezas! 

Toda vez que leio e procuro entender a alma de Florbela lembro-me de F. Scott Fitzgerald. A frase final da sua principal obra, O Grande Gatsby, diz mais ou menos o seguinte: remamos todos contra a corrente, em busca dos dias passados. Foi assim como viveu Florbela Espanca. O lamentável da sua vida foi a onda de acusações que ela sofreu da ditadura salazarista e da igreja católica e que possivelmente contribuiu para o seu suicídio. Não perdoavam o seu espírito libertário, que não se adequava aos padrões impostos. Mas, eles não entendiam de loucura, de poesia, de amor, de sonho e de fantasia. E, lembrando Shakespeare, “Enquanto houver um louco, um poeta e um amante haverá sonho, amor e fantasia. E enquanto houver sonho, amor e fantasia, haverá esperança”. Tabacaria é considerado um dos mais ricos poemas de Álvaro de Campos, um dos heterônimos do grande poeta lusitano Fernando Pessoa. O mundo do cotidiano com suas angústias disputa o espaço com os sonhos libertários: Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. Mas seus sonhos se desfazem diante de uma realidade dura, a estupidez humana: O mundo é para quem nasce para o conquistar e não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.

Uma experiência marcou bastante a minha vida: ter conhecido e convivido com Darcy Ribeiro. Ele tem tudo a ver com o tema aqui abordado. Era um verdadeiro cruzado na defesa dos seus sonhos, que se transformaram em luta até a sua morte. Como era gostoso conversar com ele. Sempre deixava uma dúvida, uma frase de efeito, uma tese que a gente carregava para reflexão. Era um homem tremendamente preocupado com o Brasil. Por que o Brasil ainda não deu certo? Era a pergunta que ele fazia sempre, desde a sua chegada ao exílio, no Uruguai, em abril de 1964. Com essa idéia na cabeça começou a pensar numa forma de responder à pergunta. Trinta anos depois produziu, talvez, a sua maior obra, com o título de “O povo brasileiro – a formação e o sentido do Brasil”, que, para ele, foi a melhor forma de influenciar as pessoas que aspiravam ajudar o Brasil a se encontrar como nação. Mas, infelizmente, até hoje sua pergunta continua sem resposta. O seu sonho de transformar o Brasil sempre encontrava barreiras na elite brasileira, considerada por ele uma das mais opulentas, antissociais e conservadoras do mundo: O Brasil, último país a acabar com a escravidão, tem uma perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade, de descaso. 

Na manhã do dia 18 de fevereiro de 1997 soube de sua morte em Brasília. Imediatamente segui para o Rio de Janeiro, local do enterro, para lhe dar o meu último adeus. Na viagem e antes de chegar à Academia Brasileira de Letras, no Castelo, onde seu corpo foi velado, um filme passou em minha mente e passei a me lembrar das nossas conversas durante os parcos momentos de convivência. Desde 1995 que ele enfrentava um câncer nos ossos. No nosso último encontro, até tratamos sobre o assunto e eu falei de alguns amigos que tive e que também sofriam desse mal. Depois da doença, conheci um Darcy que tinha pressa em terminar alguns projetos, como a fundação que levaria o seu nome e que teria a sede na sua residência, em Copacabana. Lá estava eu, anonimamente, no Salão dos Poetas Românticos da Academia Brasileira de Letras, observando as pessoas e autoridades que tinham ido prestar a última homenagem. O escritor Dias Gomes foi quem melhor traçou o seu perfil: “O Darcy era um homem feito só de amor. Ele não tinha ódio no coração”. Enquanto o som de Bach contribuía para a nossa melancolia, chegava uma coroa de flores mandada por Fidel Castro com a frase “ao eterno amigo”. Era um cenário de tristeza, principalmente quando a presidente da ABL, escritora Nélida Piñon, fez o discurso de despedida. 

Na hora do enterro, ainda na sede da Academia, um quiproquó foi gerado pela falta de um veículo que levaria o caixão. Foi o que bastou para ataques e xingamentos serem desferidos contra o então governador do Rio de Janeiro, Marcelo Alencar. Os ânimos foram acalmados e o enterro saiu da ABL até o Cemitério São João Batista, num trajeto de 7 km, onde no mausoléu dos acadêmicos, já à noite, Darcy foi enterrado. Darcy disse certa vez: “Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”. No Brasil do mensalão e da Lava Jato, as teses de Darcy se revestem de grande atualidade, onde as ideias dominantes continuam sendo produto das elites que “asfixiam as massas mantendo-as na escuridão da ignorância”, onde a classe política tornou-se aviãozinho de uma casta de empresários que se uniu para roubar descaradamente o país. Darcy esqueceu da sua própria tese sobre a crueldade da elite. Ele viveu e nós continuamos vivendo em tempos difíceis para os sonhadores. É... O Brasil não é um lugar aconchegante para aqueles que são acostumados a sonhar.    

Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente.


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
24/09
09:39

Ensaio sobre a Cegueira

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

Evidente que nossas vidas são carregadas de lições e experiências enfrentadas no passado. Os erros e acertos fazem parte e sempre estarão presentes no cotidiano de todos nós.  Somos hoje o reflexo de tudo que plantamos no decorrer da nossa existência. A vida é, foi e sempre será contraditória, apesar de sermos dotados da razão, que é base do conhecimento humano. Aliás, em The Enigma of Reason, livro dos cientistas cognitivos Hugo Mercier e Dan Sperber, tenta-se explicar o chamado viés de confirmação, ou seja, tendência que as pessoas têm de adotarem informações que confirmam suas crenças e outras que as contradizem. Ora, se somos privilegiados pela razão, não atribuída a nenhum outro animal, por que cometemos tantos erros? Segundo esses autores, a razão não existe para nos aproximar da verdade, mas para justificar as nossas ações e seduzir os outros através de uma estratégia de comunicação que os induzam a aceitar o nosso ponto de vista. A maior comprovação dessas revolucionárias teses sobre a mente está ocorrendo hoje no Brasil, ou melhor, desde as eleições de 2014, onde o país todo vive dominado por um grande experimento psicológico, no qual se queda pela ausência de um pensamento racional nas esferas de poder que possa levar o país a uma solução.

Saramago, o grande escritor lusitano, não poderia ter sido mais feliz na escolha da epígrafe de seu livro Ensaio sobre a Cegueira: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. O autor projeta o leitor para uma comunidade em que os habitantes vão, paulatinamente, perdendo a visão, daí decorrendo as suas reações aos problemas que passam a enfrentar. Para o crítico Arthur Nestrovski, o texto é uma viagem ao inferno. No inferno, todavia, as personagens descobrem-se. A propósito disso, dois pensamentos, esboçados por integrantes da história, devem receber especial realce. Em um deles, é ponderado: Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos. Outra personagem vem à tona com uma tirada platônica. Para ela, é necessário assumir a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam. Com efeito, a epígrafe do livro remonta à Alegoria da Caverna, pintada ali no Livro VII da República. Seu conteúdo é bastante fácil de captar. Platão expõe um diálogo consubstanciado na seguinte parábola: imagine-se um certo número de indivíduos, dentro de uma caverna escura, amarrados de tal forma que lhes é simplesmente impossível olhar para a entrada. Eles, imobilizados, conseguem tão-somente lançar os olhos para o fundo da caverna, em cuja porta foi erguido um muro. Atrás desse muro há uma tocha fumegante.

Quando os homens libertos passam pelas chamas, projetam, para o fundo da caverna, suas sombras. Consequentemente, os prisioneiros da escuridão crêem, efetivamente, que as sombras traduzem o mundo. Um deles, porém, mais questionador do que os seus pares, consegue, de uma forma ou de outra, romper os grilhões e sair da caverna, descobrindo a realidade. Numa palavra, seus olhos, no passado, experimentavam um universo virtual. Agora, não. Ele passa a ter pleno contato com a verdade. Nesse instante, surge a citada responsabilidade: ter olhos quando os outros os perderam. Em síntese, no momento em que aquele ex-prisioneiro deixou de ter apenas a capacidade de olhar, passando a poder ver, mister se faz, também, que ele “repare”, ou seja, observe, perscrute, questione. Percebe-se, pois, que reparar, isto é, observar, perscrutar ou questionar depende de um elemento imprescindível: saber qual é a verdade. Assim, quem imagina, presume ou pensa sem os componentes da verdade, pensa mal. Aliás, não pensa, imagina ou presume. Termina por produzir um falso julgamento, um julgamento que não mantém consonância com o universo compacto das idéias. Seria, em outras palavras, alguém que desejaria entender alguma coisa que nunca ousou conhecer.

Nessa esteira, a recente discussão da famigerada Lei que unificou os fundos previdenciários em Sergipe não poderia deixar de conceber tal apanhado filosófico. No último dia 1º deste mês de setembro, foi publicada no Diário Oficial do Estado a Lei Complementar nº 292/2017, que promoveu a extinção do Fundo Previdenciário do Estado de Sergipe – FUNPREV (integrado pelos servidores filiados a partir de 01 de janeiro de 2008) e incorporou suas receitas ao Fundo Financeiro de Previdência do Estado de Sergipe – FINANPREV. Nesta mesma data, o Ministério Público Especial de Contas, protocolou representação no Tribunal de Contas de Sergipe questionando a legalidade, constitucionalidade, viabilidade financeira e atuarial desse novo modelo adotado pelo Estado de Sergipe. Após realizar um breve histórico da situação previdenciária antes da aprovação da mencionada fusão, relatou que o aporte do Tesouro Estadual ao FINANPREV, equivalente ao déficit financeiro daquele fundo, atinge o patamar, em 2017, de cerca de R$ 1 bilhão anuais, sendo que, consoante a LDO 2017, Lei 8139/2016, tal déficit crescerá vegetativamente ainda pelos próximos 20 anos, chegando ao patamar de R$ 1,6 bilhão anuais; quando começa a decair, porém, permanecendo acima de R$ 1 bilhão pelos próximos 37 anos.

Diante desse quadro, asseverou que o déficit previdenciário atual tem sufocado a capacidade de investimentos do Estado, como ainda a própria margem de gastos com pessoal, de sorte que a situação tende a piorar nos próximos 20 anos, somente sendo alcançada uma situação de déficit melhor do que a atual, daqui a 37 anos. Mais à frente, evoluiu para a análise das perplexidades advindas de tal fusão, defendendo que, a partir da Emenda Constitucional nº 20/1998, os Regimes Previdenciários dos Servidores Públicos, os Regimes Próprios de Previdência - RPPS, passaram obrigatoriamente a ter que observar o equilíbrio financeiro e atuarial. Ou seja, têm que demonstrar na prática um duplo equilíbrio: a manutenção da capacidade presente de pagamento das obrigações (equilíbrio financeiro) e a continuidade desta capacidade no futuro (equilíbrio atuarial). Segundo o membro Ministerial, no caso de Sergipe e de muitos outros Regimes Próprios de Previdência, como o equilíbrio atuarial seria impossível de ser alcançado no curto prazo, decidiu-se pela utilização de um regime misto: um regime de capitalização para os novos servidores, originando o FUNPREV; e um regime de repartição para os servidores que já estavam inseridos no sistema à época, o FINANPREV.

Com esta dinâmica, resolver-se-ia o problema previdenciário quanto aos novos servidores, que teriam os valores de contribuição capitalizados, sendo capazes de adimplir suas próprias obrigações previdenciárias; e, quanto aos antigos servidores, o Estado temporariamente bancaria este déficit estrutural decorrente do não pagamento/cobrança das contribuições destes mesmos servidores no período anterior a 1998, até o momento em que pudessem ser absorvidos pelo FUNPREV, fato que ocorreria quando este (o FUNPREV) tivesse um superávit atuarial apto para tanto. Ou seja, a segregação dos fundos ocorreu por uma necessidade atuarial, para que, no futuro, o Regime Próprio de Previdência do Estado de Sergipe possa ser auto-sustentável, de modo que as contribuições oriundas do próprio sistema, quando capitalizadas, sejam suficientes a cumprir as obrigações previdenciárias do regime, sem necessidade de qualquer aporte de recursos do Tesouro Estadual. Esse o motivo, segundo o Procurador-Geral, de o Ministério da Previdência Social ter regulado de forma estrita a revisão ou extinção das segregações de massa por meio da Portaria do Ministério da Previdência e Assistência Social (MPAS) nº 403/2008. 

Ao analisar as alegações apresentadas pelo Parquet, na condição de presidente do TCE-SE, considerando a extrema urgência da matéria e a real possibilidade de danos ao patrimônio de todos os segurados do FUNPREV, fiz uso de permissivo legal interno, que assegura à Presidência a competência para, em casos excepcionais, como o narrado, adotar monocraticamente as medidas cautelares necessárias, com posterior submissão da matéria à deliberação do Pleno na primeira sessão subsequente. Assim, decidi monocraticamente no sentido de determinar ao órgão previdenciário do Estado que os recursos vinculados ao FUNPREV (oriundos de contribuições ou de valores já capitalizados) fossem utilizados estritamente para que se colocasse em dia os pagamentos vencidos dos aposentados vinculados ao SERGIPREVIDÊNCIA, ficando vedada, outrossim, a utilização dos recursos do FUNPREV atualmente constantes de aplicações financeiras com vencimento diferido para os próximos exercícios. Submetida essa decisão monocrática ao Tribunal Pleno, resolveu a Casa anular a medida cautelar, já que não haveria situação de extrema urgência que justificasse a competência da Presidência da Corte para sua prolação e que não haveria intenção de saques dos recursos capitalizados no longo prazo.

Independente da medida soberana da maioria do Tribunal, patente ficou a afronta da lei complementar vergastada às normas do direito, como portaria do MPS e a Constituição Federal em seu art. 201, que assevera que “A previdência social será organizada sob a forma de regime geral, de caráter contributivo e de filiação obrigatória, observados critérios que preservem o equilíbrio financeiro e atuarial”. Ora, se as receitas dadas em garantia não são suficientes para o equilíbrio atuarial do fundo, a fusão, a uma primeira vista, possibilitaria o adimplemento de beneficiários por aproximadamente 01 ano. Mas, e após esse ano? O que vai acontecer depois de os recursos do FUNPREV serem esgotados? De onde será retirado o dinheiro – já escasso – para pagar tanto os beneficiários do, agora extinto, FUNPREV quanto do FINANPREV? De que vale solucionar temporariamente a situação e, mais à frente, todos os servidores estaduais não terem uma previdência com a qual contar? A digressão, no entanto, não é pessoal. Nada contra a decisão vencedora, tampouco àqueles que idealizaram e aprovaram a lei estadual. Aliás, nunca fui contra a fusão, mas a forma como foi realizada. A questão é jurídica. O entendimento da Corte me pareceu um dramático ensaio sobre a cegueira. Viu, mas não reparou. Olhou, mas não viu.

Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente.


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
10/09
16:31

O Cadáver adiado

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

Billy Blanco morreu no dia 8 de julho de 2011. Uma de suas músicas, feita em parceria com Tom Jobim, e que ainda hoje é sucesso, foi “Tereza da praia”, que se notabilizou nas vozes de Dick Farney e Lúcio Alves, que simulavam uma disputa pela mesma mulher. Trata-se de uma encantadora conversa musical entre Dick e Lúcio: “Lúcio, arranjei novo amor no Leblon. Que corpo bonito, que pele morena, que amor de pequena, amar é tão bom... Ô Dick, ela tem um nariz levantado? Os olhos verdinhos, bastante puxados? Cabelo castanho e uma pinta do lado? Ora, é a minha Tereza da praia! Se ela é tua, é minha também! O verão passou todo comigo, o inverno pergunta com quem. Então vamos a Tereza da praia deixar, aos beijos do sol e abraços do mar. Tereza é da praia, não é de ninguém, não pode ser tua nem minha também. Tereza é da praia”. Esse disco foi gravado em 1954 e coincidentemente a mulher de Tom Jobim chamava-se Tereza, o que deu panos pra mangas aos fofoqueiros de plantão. Mas Billy Blanco esclareceu em seu livro Tirando de Letra, afirmando que “Lamento desapontar críticos, jornalistas e boateiros: Tereza da praia é figura absolutamente fictícia”.

Para quem não conhece Billy Blanco, o seu nome completo era William Blanco de Abrunhosa Trindade, nascido no Belém do Pará em 8/5/1924 e falecido no Rio de Janeiro em 8/7/2011. Foi um dos compositores mais destacados da música popular brasileira, tendo composições interpretadas por nomes consagrados, como Elis Regina, João Gilberto, Dolores Duran, Jorge Goulart, Nora Ney, Sílvio Caldas, Pery Ribeiro, Miltinho, Doris Monteiro e tantos outros. Mas Billy também era uma figura bem humorada. Conta Ruy Castro, articulista da Folha de São Paulo, que muito depois da morte de Tom Jobim, Billy fez uma paródia com “Tereza da Praia”, ao constatar que ela havia mudado: “Ela usa o nariz só de um lado / Tem o olho vermelho / Bastante injetado / Cabelo na venta / E sapato 40 / Essa é tua Tereza da Praia / No Leblon, não engana ninguém / O meu caso é um rabo de saia / Vai com calma, que é o dela também”. Enquanto uns vivem e se imortalizam na criatividade, como é o caso de Blanco, outros passam pela vida vegetando, como um cadáver adiado. Fazem da hipocrisia a razão do seu viver, sempre fingindo ter crenças, virtudes e sentimentos que na verdade não possuem.

O mais completo dos evangelhos é o de Mateus. Ele nos fala do povo que limpava o exterior da taça, mas deixava o interior sujo: Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Limpais o copo e o prato por fora, mas por dentro estais cheio de roubo e cobiça. Fariseu cego! Limpa primeiro o copo por dentro, que também por fora ficará limpo. Eles são os sepulcros caiados, que por fora parecem belos e adornados, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e imundície. Ainda em Mateus, Jesus disse: Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas, por dentro, estais cheios de hipocrisia e iniquidade (23:28). Agora, por exemplo, a sociedade brasileira assiste diariamente a uma onda denuncista jamais vista na história do país. É denúncia para todos os gostos. Enquanto isso, currículos e conceitos são estraçalhados, patrimônios indisponibilizados e famílias destruídas. O pior de tudo é que a esmagadora maioria dos denunciantes não olha para o próprio rabo, sendo eles responsáveis por práticas éticas piores do que aquelas que estão sendo elencadas contra alguém ou instituição. Ora, ora senhores... ética cobra quem tem ética, já dizia Kant.

Certa vez, há muitos anos atrás, preguei uma peça num amigo intelectual, tido e havido como crítico de toda e qualquer atividade artística. Tivera antes uma discussão com ele a respeito de quem seria o maior poeta da língua portuguesa. Sempre defendi o nome de Fernando Pessoa, ao que ele afirmava que eu nada entendia de poesia. Para ele, Camões era imbatível e Pessoa estava muito abaixo de ser considerado um poeta da estatura do grande autor de Os Lusíadas. Disse-lhe que Camões não escrevia para o povo, mas para um seleto grupo de intelectuais, ao contrário de Pessoa, cuja poesia penetrava na alma e sempre nos deixava um ensinamento. Pois bem. Certo dia, cheguei em sua casa com um poema que gostaria que ele fizesse uma crítica, já que tinha vergonha de mostrar aos meus colegas. Ele leu por umas três vezes, me devolveu com a seguinte decisão: - Desista de poesia, está uma bosta! Imediatamente, retirei do bolso um pequeno livro de Fernando Pessoa, abri em determinada página e mostrei-lhe aquele poema, cujo nome era Poema em linha reta. Ele ficou ruborizado. Eu saí de sua casa num misto de alegria e frenesi. Tinha vingado o meu poeta. Independente desse fato fomos amigos até o dia de sua morte.

Na verdade, Poema em linha reta foi escrito por seu heterônimo Álvaro de Campos, tido por ele como “o mais histericamente histérico de mim”. O poema é um libelo contra a insensatez, a ausência de autocrítica, da falta de vergonha, do egocentrismo, tão em voga nos dias atuais: Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. (...) Toda gente que eu conheço e que fala comigo nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu um enxovalho, nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida... Quem me dera ouvir de alguém a voz humana que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; que contasse, não uma violência, mas uma covardia! Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam. Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? (...) Poderão as mulheres não os terem amado, podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!  Powell e Presburger fizeram um filme em 1948 sob o título “Os sapatinhos vermelhos”. Nele, é dito ao personagem russo Boris Lermontov: - Você não pode mudar a natureza humana. Ele responde: - É verdade, mas posso fazer algo melhor: ignorá-la. Pois bem. A verdade é que, apesar do grande avanço da tecnologia, o homem pouco evoluiu.

Nunca se viu tanta autodestruição. É o caso dos políticos que desacreditam a política, por exemplo. Qualquer indício de irregularidade, sem qualquer análise mais profunda, é tida e havida como corrupção, improbidade, ladroagem. Ninguém se espanta mais quando se fala que determinado político é ladrão. A crítica, a denúncia, vem do povo? Não! Vem da própria classe política. O comportamento ético de alguns é de arrepiar. Recentemente, um político que foi eleito por uma coligação, repentinamente, descobre que os partidos da coligação que o elegeu são formados por corruptos e, por isso, retira-se da sigla da qual fora eleito e ingressa numa outra, tida como opositora. E tudo fica por isso mesmo. Ele não perde o mandato. Ora, é sabido que, no sistema do voto proporcional, o político é eleito pela soma dos votos de todos os outros candidatos do partido ou da coligação. São raros os casos daqueles que se elegem com votos superiores àqueles fixados para o quociente eleitoral. Se esse político, pós eleição, descobre que os seus ex-aliados são corruptos, o ético era ele renunciar, já que foi eleito sob o manto da desonestidade. Outros, sentem-se realizados ao desqualificar os atos, por mais honestos que sejam, de seus adversários.     
 
O pior de tudo é quando o denunciante é flagrado nas suas pilantragens, oportunidade em que, usando de leviandade, as explicações paleolíticas são dadas pela ausência completa de pudor. Pois bem. Essa alcateia de bárbaros que vive zunindo em todo campo social, com ênfase nos segmentos econômicos e políticos, em momento algum tem qualquer compromisso com a sociedade, a qual, muitas vezes, é quem paga o seu salário. Nesse mundo, a hipocrisia impera triunfante, já se disse isso, levando fama de bons aos falsos moralistas, e vitimando com difamações e inveja as pessoas que possuem virtudes verdadeiras. Há sempre uma esperança de enquadrar os selvagens num processo civilizatório. Poderia começar ouvindo as músicas de Billy Blanco. Sugiro Tereza da praia, Pistom de Gafieira, Estatuto da Gafieira, Mocinho bonito e Sinfonia do Rio, esta última título de uma suíte composta de dez sambas, feita com Tom Jobim, sendo considerada um hino à Cidade Maravilhosa. Enfim, mentecaptos, não sejam “um pobre farsante que a sorte esqueceu, contando vantagem”. Se não puder eleger o amor como seu porto, faça como Billy que, com simplicidade de espírito, se expressou: “mesmo que seja pra viver cheio da grana, quero ser pobre em Copacabana”. Não seja um cadáver adiado.

Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente na edição de fim de semana    
 


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
27/08
17:08

Meu nome é ninguém

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

Uma música, um filme. A música, um samba-canção, mais para o bolerão. O filme, um bangue-bangue, numa mistura de spaghetti italiano e comédia. A música é brasileira, o filme é francês, italiano e alemão. A música é de Haroldo Barbosa e Luiz Reis, o filme de Sérgio Leone e Tonino Valerii. Miltinho e Altemar Dutra foram os grandes intérpretes da música. Henry Fonda e Terence Hill os foram no filme. A música dura 3 a 4 minutos e é de 1962, o filme, 111 minutos e é de 1973. A música trata do encontro entre dois amantes, considerados “ninguém”, que se transformam em “alguém” e, depois do desencontro, voltam a se sentir como “ninguém”, pelo menos um deles. O filme, fala de um jovem pistoleiro de nome “Ninguém”, que é fã de um velho bandido conhecido como o Rei do Gatilho, cujo nome é Jack Beauregard e está se aposentando. Desapontado com a atitude do seu ídolo, “Ninguém” resolve preparar uma cilada com os piores bandoleiros do Oeste. Ele quer ver, pela última vez, antes do descanso, a atuação do seu ícone. A música: “Foi assim / A lâmpada apagou / A vista escureceu / Um beijo então se deu / E veio a ânsia louca / Incontida do amor / E depois / Daquele beijo então / Foi tanto querer bem / Alguém dizendo a alguém / Meu bem, só meu bem, meu bem / Nosso céu onde estrelas cantavam / De repente ficou mudo / Foi-se o encanto de tudo / Quem sou eu, quem é você / Foi assim / E só Deus sabe quem / Deixou de querer bem / Não somos mais alguém / O meu nome é ninguém / E o teu nome também, ninguém”. É claro que, em tese, tanto o conteúdo da música quanto do filme é tido como mera ficção. Ou não. Em um ou outro está comprovado que os traços humanos são imutáveis. Maquiavel, por exemplo, em “O Príncipe”, no cap. XVII, diz que os homens são geralmente ingratos, volúveis, simuladores, covardes e ávidos de lucro e, enquanto lhes fizeres bem, todos estão contigo, oferecem-te sangue, bens, vida, filhos, desde que a necessidade esteja longe dele. Mas, quando ela se avizinha, voltam-se para outra parte e passam a cuspir no prato que sempre lhe encheu a barriga.

Em política, por exemplo, é onde a perversidade das paixões humanas mais se manifesta, até porque a história possui um ciclo repetitivo de ordem para desordem e depois ordem, e assim sucessivamente. Não está entendendo patavina de nada? Lembre-se que estou falando de “ninguém”, um pronome indefinido e invariável, que significa nada e em outros momentos todos. Como? Nada, quando você fala, por exemplo, em “terra de ninguém”, que é aquele espaço existente entre as trincheiras de duas forças beligerantes, ou seja, um lugar neutro. Na Primeira Guerra Mundial, de 1914 a 1918, o termo foi muito usado, assim como durante a Guerra Fria, mais precisamente na área próxima à Cortina de Ferro, cuja zona, apesar de pertencer ao bloco do leste europeu, aliado da União Soviética, era uma área inabitada, sem qualquer atenção dos países ali situados. E quando “Ninguém” é tudo e todos? Quando você diz que “ninguém quer colaborar com você”, “que ninguém é feliz”, “que ninguém viajou”, “ninguém sabe o duro que dei” e assim por diante. Veja o exemplo dos criminosos, não os impetuosos, ocasionais, habituais e fronteiriços, mas os loucos, como o esquizofrênico Won, chinês, natural de Hong Kong, cujo crime, ocorrido numa casa do Bairro Itaim Bibi, abalou à época a capital paulista. Won era um jovem de 23 anos quando matou o próprio pai, a quem chamava de “ninguém”. No dia 9 de fevereiro de 1978, após enfiar um fio no olho do pai, o espancou e decepou-lhe a cabeça. Inquirido sobre o bárbaro crime cometido, relatou: “Certa vez assisti um filme, que me deixou muito impressionado. Não sei bem, mas parece que era uma organização que pegava os inteligentes e fortes e matava. Matava enfiando dois ferros nos lados da cabeça. Aí comecei a pensar que meu pai era personagem do filme. A televisão faz a gente desconfiar muito, pelo pensamento, e então fiquei muito desconfiado. Eu pensei que o meu pai ia me matar e aí eu matei ele. Pensei que ele era outra pessoa e matei do jeito que vi na televisão”. 

Ao ser indagado para falar sobre os detalhes do crime, disse: “Não gosto de falar sobre isso, acho que esqueci. Meu pai estava me perseguindo há muito tempo, me assustava, e era bravo comigo. Mas tudo isso não tem importância. Agora não tem mais ‘ninguém’ que me persegue”. O interessante é que em dado momento do seu depoimento, ele afirmou: “Não consegui gostar de ‘ninguém’, e nunca tive relação com mulheres. Tenho medo de doenças, que as pessoas falam. Acho que só depois dos 25 anos”. Won, segundo consta do exame psíquico, sofria da chamada esquizofrenia paranóide, que é caracterizada pelas alucinações auditivas e delírios. A mania de perseguição impulsiona esses indivíduos a cometer os mais bárbaros crimes. Vejamos outro caso ligado a “ninguém”, ocorrido recentemente no pequeno município de Quarai, Rio Grande do Sul. A 7ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça daquele Estado confirmou a sentença de absolvição decretada em favor de um homem acusado de manter relações sexuais com uma menor de 12 anos de idade. Na sua decisão, a desembargadora Naele Ochoa Piazzeta, embora considerasse a conduta do réu típica na forma da Lei que criou a figura do “estupro de vulnerável”, ou seja, quando a relação sexual é mantida com menor de 14 anos, afirmou que o conceito de vulnerabilidade não pode ser entendido de forma absoluta, simplesmente levando-se em conta o critério etário, o que configuraria hipótese de responsabilidade objetiva. Este deve ser mensurado em cada situação trazida à apreciação do Poder Judiciário, considerando as particularidades do caso concreto. A prova, segundo a magistrada, demonstrou que as relações sexuais aconteceram de forma voluntária, consentida e fruto de aliança afetiva; que a menor não era mais virgem e já contava com certa experiência sexual; que em nenhum momento houve violência ou grave ameaça à vítima; e, por fim, que as condutas sexuais do réu não se amoldavam a nenhuma previsão típica e, por isso, deveria ser absolvido. 

O curioso, nesse caso, é que num depoimento da Conselheira tutelar que atendeu o caso, ela confirmou que a menina se encontrava de espontânea vontade com o rapaz, que era rebelde e que se envolvia com meninos desde os 11 anos de idade. Em síntese, era uma menina ‘‘largada’’, uma “ninguém”, que fugia da residência da mãe para se refugiar em outras casas. Mais duas notícias que envolvem o Brasil e que “ninguém” deu importância: a primeira é de que os brasileiros invadiram Miami e estão comprando de tudo, principalmente imóveis cujos preços são bem inferiores aos praticados no Brasil e com muito mais qualidade. Não, não, a notícia não foi dada por algum portal esquerdista, mas pelo New York Times que, aliás, também disse que o Canadá é o país que manda mais gente para a Flórida, mas gasta muito menos em relação aos brasileiros. De mim, Miami pode ficar tranquila que ali não vou nunca. Primeiro porque não tenho tanto dinheiro para gastar e comprar bens; segundo porque, por uma questão de princípios, enquanto existir a exigência humilhante do visto para ali entrar, ali não vou. Outra notícia alvissareira é o Brasil figurar como a sexta economia do mundo, superior à Grã-Bretanha. Também não, a notícia não foi veiculada pela esquerda capa preta, mas por uma instituição séria, o Center for Economic and Business Resesearch, organização londrina que fornece previsões econômicas independentes e análise a empresas privadas, organizações do setor público e terceiros. “Ninguém”, na película, embora jovem, era um tremendo cara de pau. Basta ver o filme para verificar o que ele fez para concretizar o duelo final, onde o seu ídolo da infância teria o seu último e definitivo ato no mundo da pistolagem antes de se aposentar. Pois é, só Deus sabe quem deixou de querer bem. Quem? Claro que não foi ninguém, pois ele voltou a ser o que era. Lembram-se do que eu disse no início: a ordem sucede a desordem e esta se transforma numa nova ordem. Enfim, cada um é único, ninguém é de ninguém. E ninguém é perfeito.

(Este artigo foi escrito em 2012).
Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente aos domingos 


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
13/08
15:05

Midnight in Paris

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

Por volta do mês de julho de 2011, recebo um telefonema de um amigo, Luiz Eduardo Oliva, que se encontrava no aeroporto do Recife. Espantado, ele me inquiria sobre quem copiou quem, se eu a Woody Allen ou se este a mim. Eu disse: Calma, do que você está falando? Ele respondeu que no voo Belém – Recife, leu na revista Veja uma resenha sobre o novo filme de Allen, Meia-Noite em Paris, que tratava do mesmo tema que eu iria explorar no meu livro sobre a Paris da década de 1920. A única diferença, segundo Oliva, era a forma da passagem da década de 2000 para a de 1920. No filme, o personagem central, Gil, escritor e roteirista americano, viaja a Paris com a noiva e a família dela. Apaixonado pela cidade e pelos anos de 1920, num dos seus passeios solitários noturnos, à meia-noite, é convidado por um grupo de pessoas para uma festa. Ao chegar num bairro parisiense, Montparnasse, de forma surpreendente, ao adentrar no festejo, verifica que foi transportado justamente para a capital francesa de 1920. Já no meu livro, era transportado para o passado ao desembarcar numa estação ferroviária de Paris com um grupo de amigos de Sergipe. – É muita coincidência, dizia ele. Fiquei curioso e fui logo comprar a revista. Era verdade aquilo que foi passado para mim. Fiquei impressionado e muito orgulhoso. Afinal, um dos monstros sagrados da cinematografia mundial teria tido a mesma ideia que eu também tivera. Na verdade, Luiz Eduardo tinha lido um artigo de minha autoria publicado neste mesmo Jornal da Cidade, edição de 23 e 24 de janeiro de 2011, Caderno A-7, daí a sua estupefação. 

O filme foi rodado em 2010 e teve lançamento no Brasil em junho de 2011. Reproduzo, a seguir, o teor do meu artigo, ao qual dei o título de Banho de Civilização: “É comum ouvir das pessoas que viajam para a Europa que vão tomar um banho de civilização. Sempre achei a frase pernóstica ou até mesmo típica das pessoas colonizadas. Quem sabe, daquelas que gostam de menosprezar as nossas raízes, a nossa cultura, até as nossas heranças étnicas. Enaltecem, no entanto, tudo que existe fora do nosso País, desde a culinária, passando pela organização das cidades, até o compromisso com a sua história e suas origens. Lembro-me de um passado recente. Eu era presidente da OAB-SE quando anunciou-se a venda de um casarão localizado na Avenida Barão de Maruim, esquina com a rua Itabaiana. Estilo antigo, era um dos poucos imóveis que ostentava um passado que merecia ser preservado. Nele, residiu, quando vivo, o médico Augusto Leite, um dos mais respeitados cirurgiões de Sergipe. Apesar da oposição ferrenha das entidades representativas da sociedade civil, que fez inúmeros atos na porta da residência, tentando evitar a sua venda, a família do médico não se sensibilizou para o crime que se estava cometendo contra Aracaju. A Caixa Econômica Federal comprou o imóvel e ali construiu, em seu lugar, um autêntico monstrengo arquitetônico, onde hoje funciona uma de suas agências. Por isso, sempre olhei com menosprezo o teor dessa afirmação. Eles não fazem nada para preservar as nossas origens, a nossa cultura, a nossa cidadania, ao contrário, sempre agindo para inviabilizar as mudanças e os caminhos que levam à transformação. 

Não seria melhor que eles assimilassem o que tem de bom e melhor na Europa, nos Estados Unidos e no Canadá e lutassem para ser implantado em nosso país? Pois bem, vim tomar esse “banho de civilização” numa fase crítica da economia européia, onde na Espanha e Portugal os salários estão sendo reduzidos, na Inglaterra os servidores públicos demitidos e o desemprego atingindo índices preocupantes. Fui a Madrid, Paris, Barcelona e hoje estou em Lisboa testemunhando as eleições presidenciais. Em Paris, vi a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo, o antigo Hotel Ritz, a Champs-Elysées, o museu do Louvre, de Versalhes, a Igreja de Notre Dame e outros pontos turísticos da bela Paris e pronto. Não estava muito interessado. O meu tesão estava voltado para um local parisiense: Montparnasse. Neste local, a década de 1920 foi efervescente. Pelas suas ruas, residências, cafés, bares, restaurantes, desfilaram grandes pintores, escritores, revolucionários, escultores, poetas, enfim, artistas de vários matizes, vagabundos e a boemia parisiense. Queria sentir o cheiro de Kiki de Montparnasse, a grande musa, o odor alcoólico e o extraordinário humor de Ernest Hemingway (você não dá para andar com Ernest!), a dramaticidade de Cocteau, o existencialismo de Sartre e Simone de Beauvoir, os narizes empinados de Scott e Zelda Fitzgerald, o narcisismo de Ezra Pound, a pantera na coleira de outra pantera, Josephine Baker, com seus seios à mostra, o talento para ganhar dinheiro de Coco Chanel, a beleza de Jeanne Hébuterne, o último grande amor de Modigliani.

Queria ver as brincadeiras de Francis Picabia e Tristan Tzara, a cumplicidade entre Gertrude Stein e Alice Toklas, a paixão pelas “pequenas mulheres” francesas de E. E. Cummings e John dos Passos, a chatice de James Joyce e as taras de Salvador Dali e Pablo Picasso. Era a Paris dos anos doidos. Para começar, hospedei-me num hotel situado no bairro chamado Alésia, com estações do metrô próximas ao complexo Montparnasse, que envolvia os seguintes locais: Falguiére, Pasteur, St. Placide, Denfert Rochereau, St. Jacques, Mouton Duvernet, Raspail, Gaité, Edgar Quinet, Vivan e o St-Germain-Des-Prés. Deixei o metrô e fui caminhando, como diria Chico Buarque, pela Avenue Maine e cheguei em Gaité. Pronto, estava no complexo Montparnasse. Entrei no La Coupole. Claro, não perguntei mas deu vontade: quais eram as mesas que Jean Paul Sartre e Josephine Baker sentaram? Apesar de uma reforma ocorrida em 1980, os assentos de veludos da década de 20 permaneciam no local. Fui no La Closerie de Lilas. Lá foi onde Hemingway escreveu grande parte do livro “O Sol também se Levanta” e onde o livro autobiográfico de Kiki de Montparnasse, com o seu prefácio, foi lançado, onde a sua compra dava direito a receber um beijo da autora, o que transformou Montparnasse numa loucura, com gente por todos os lados. Lá também era freqüentado por Lenin, Trotski e Scott Fitzgerald. Segundo pude constatar, boa parte da decoração original encontra-se presente. 

Fui no St-Germain-Des-Prés e lá visitei três lugares: a escultura de Picasso homenageando o poeta Guillaume Apollinaire, perto do Café de Flore, local preferido de Sartre e Beauvoir; o Les Deux Magots, também freqüentado por artistas da época, onde tomei um cafezinho; e o Le Procope, um café, dizem, fundado em 1686 e onde o filósofo Voltaire tomava 40 xícaras de café com chocolate por dia. Nesses três cafés fiz questão de adentrar e sentir a sua energia que me levava ao período de 1920 a 1930. Pronto! Faz parte da minha razão de vida escrever um romance envolvendo ficção e realidade, escrevendo um livro sobre este período maluco da história parisiense. Vou à Paris de 1920. Vou mostrar a Hemingway que eu dou para andar com ele. Vou ter, evidentemente, que me conter no álcool. Bebo muito pouco. Uma garrafa de vinho, no máximo. Agora mesmo estou escrevendo no hall do hotel tomando um vina salceda, rioja crianza 2006, de 16 euros. Vou convidar par ir comigo Carlos Alberto Menezes, professor e criminalista, Zoroastro, o Zorô, jornalista, João Ubaldo Ribeiro, escritor, Ângêla e seu marido comandante da ex-Varig, o sobrinho da cantora Mayza Matarazzo, o escritor português Saramago (sim, eu sei que ele morreu em 2010), o herdeiro de vários imóveis do Rio de Janeiro, o poeta Araripe Coutinho, com a sua extraordinária língua plesa, Luiz Eduardo Oliva, da Segrase, e o professor Cabral do Departamento de Educação Física da UFS. Vamos sair do Rio de Janeiro de avião e vamos desembarcar na estação ferroviária de Lion (?). 

A aventura vai começar justamente nessa estação. Vamos de metrô para a Gare Montparnasse. Lá, as cortinas se abrirão e um novo cenário surgirá. A primeira guerra mundial (1914-1918) e a revolução bolchevista (1917), serão acontecimentos recentes. Vamos chegar exatamente no dia em que Kiki de Montparnasse estará lançando o seu livro autobiográfico com prefácio de Ernest Hemingway. A compra do livro faz com que o comprador receba um beijo de Kiki. O La Closerrie de Lilas está cheio de gente, todos querendo receber um beijo da musa de Salvador Dali, Modigliani e Picasso. Eu e meus amigos, estaremos recebendo um banho de cultura”. Claro que aqui ninguém plagiou ninguém. Ou melhor, qualquer semelhança entre os pontos abordados por mim e Woody Allen não passaram de mera coincidência. O importante é que nós tivemos a mesma paixão, a mesma idolatria e o mesmo fascínio pela geração perdida de Paris dos anos 1920.

Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente, aos domingos. 


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Por Kleber Santos
30/07
12:14

Post Scriptum: A Bodega de Gildete

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

Malhador é uma pequena cidade do interior sergipano, distante 49 quilômetros de Aracaju. Tem como base econômica a agricultura, com predomínio da plantação de inhame. Em qualquer feira do Estado, a pergunta de quem gosta desse tubérculo é a mesma: é de Malhador? É uma terra de gente trabalhadora, com vocação para o comércio. Dificilmente uma feira em Sergipe não tenha um feirante de naturalidade malhadorense. O seu lema combina perfeitamente com o seu ordeiro povo: Ridens vivere, sic ut (A sorrir, a viver, a dizer sim). Fui levado a Malhador pelo convite que me foi formulado por João da Diamante, proprietário de uma fazenda em Saco Torto, naquele município. Depois, conheci figuras que aprendi a admirar, tornando-me um assíduo visitante daquelas paragens. Gostava de almoçar na bodega de Gildete, um misto de bar e restaurante, chamado de Cristal. Era o point da cidade para aqueles que gostavam de uma boa comida, de uma galinha; uma carne frita, seja de boi, seja misturada com porco, fígado e rim; de um lombo feito na panela; de um bife suculento; de uma feijoada disputada no tapa pelos seus frequentadores; e tantas outras guloseimas. O acompanhamento era sempre saboroso: feijão, arroz, farinha, salada, macarrão e um molho de pimenta daquela “que matou o guarda”. Por lá, já desfilaram figuras importantes da política, habitantes do local e visitantes: Antônio Carlos Valadares, Valadares Filho, Venâncio Fonseca, Rogério Carvalho, Nilson Lima, Capitão Samuel, Luciano Bispo, Erotildes de Itabaiana, Fábio Henrique, Bosco Costa, Marcelo Déda, Jackson Barreto, Maria Mendonça, Eduardo Amorim, André Moura, radialista Marco Aurélio, Limão (sempre acompanhado dos seus filhos, os Limãozinhos), Leondes, Beto e Paulinho de Abelardo, Mala Véia, Zé da Piscina, Valter de Percílio, Wilson dos Reis, Dedé do Inhame, Tatagás,  Coronel Leão, Coronel Sávio, Vicente (o Índio), o saudoso João da Cocada, Elayne de Dedé, Jorge, motorista do Tribunal de Contas, Rosalvo Alexandre e tantos e tantos outros. João da Diamante se babava quando saboreava uma feijoada. Se Ernest Hemingway considerava Paris uma festa, a Bodega de Gildete era um canto sacrossanto da gastronomia de Malhador. Apesar de ser um bunker do grupo de pessoas vinculadas a Elayne de Dedé, o ambiente era bastante democrático, embora se radicalizasse em épocas de eleições. Mas, o que é bom um dia se acaba. Eleição de 2016. Disputantes da Prefeitura: Elayne de Dedé x Jadinho. Eleição dura, disputa de voto a voto. Resultado: Elayne 50,20%, Jadinho 49,80%. Na última passeata de Jadinho, uma eleitora de Elayne, Zefinha, dedurou Gildete. Ela estava toda fantasiada de laranja, as cores do partido de Jadinho, toda solta, dançando e pedindo voto para o seu candidato. Pronto! Esse foi o estopim para afastar todo o pessoal que trabalhou pela candidatura de Elayne da Bodega de Gildete. Hoje, os antigos frequentadores vivem da saudade da deliciosa comida da Gildete. Passam pela porta e sentem ainda o cheiro gostoso das iguarias, que o digam João da Diamante e Jorge, motorista do Tribunal de Contas. Quando querem comer alguma coisa, viajam para Moita Bonita, mas todos são unânimes em afirmar: não existe carne frita, nem feijoada, como a preparada por Gildete. Mas de lá, hoje, só o cheiro! 

Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente, aos domingos.


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
30/07
12:12

Operação Valquíria

Clóvis Barbosa
Blogueiro e presidente do TCE/SE

Nunca jamais maquine contra o príncipe. A não ser que você tenha o aval de um deus. Entre os escandinavos, por exemplo, as valquírias (deusas-menores) desempenhavam a importante missão de estabelecer o destino dos príncipes humanos. Tal papel achava especial destaque durante as guerras. Nelas, as valquírias praticamente ditavam o desfecho. Interessante é que, pelos costumes nórdicos, príncipes deviam lutar e deuses podiam morrer. Fala-se que os deuses vikings tinham uma dieta composta de maçãs sagradas, porquanto precisassem viver até a batalha final, denominada Ragnarok. Daí, a exigência de permanente cautela, pois decidir errado seria um convite à morte. Por isso, as valquírias não agiam sem o consentimento de Odin, o deus-pai. Elas não apontavam a queda de um príncipe, salvo se isso fosse desejado pela divindade. Ainda assim, o espírito do nobre era guiado a um recinto celeste (Walhala).

Há um detalhe. Tão-somente os espíritos dos mais intimoratos guerreiros, mortos em batalha, tinham o direito de entrar no Walhala, a fim de serem recebidos pomposamente por Odin. Essa tradição de honrar os intrépidos, ainda que derrotados, foi bem assimilada pela cultura germânica. Parece, porém, que a veneração post mortem requisitava o endosso divino. Um exemplo histórico: o coronel alemão Claus Stauffenberg foi o mentor da “Operação Valquíria”, consistente num plano para matar Hitler. Para tanto, Stauffenberg contava com a anuência de Erwin Rommel, “a raposa do deserto”, um deus guerreiro entre os alemães. A eliminação do Führer estava agendada para 20 de julho de 1944. Tudo ocorreria numa convenção, a realizar-se na toca do lobo, um dos quartéis-generais do ditador. Stauffenberg, pessoalmente, foi à toca, onde, sub-repticiamente, deixou uma mala, dentro da qual havia explosivos.

Estaria selado o destino de Hitler. Metaforicamente, as valquírias o teriam marcado para morrer, consagrando o final da 2ª Guerra. Pois bem. Também metaforicamente restava saber se esse era o projeto de Odin. Não foi. A bomba que Stauffenberg quis deixar no colo de Hitler feriu gravemente cerca de dez pessoas e matou algo em torno de cinco. No Führer, todavia, ela apenas causou imperceptíveis escoriações. Identificados os autores do atentado, todos foram fuzilados, com exceção de Rommel (um deus, como dito acima), a quem foi outorgado o direito de praticar suicídio. Contudo, e malgrado a medonha conspiração, fez-se valer a práxis nórdica. Os cortejos fúnebres, tanto de Stauffenberg quanto de Rommel, ostentaram distinções que só são estendidas a chefes de estado. Embora facínora, Hitler, na linguagem maquiavélica, sabia proceder como um príncipe, possuindo os atributos de um: virtù e fortuna.

Virtù, em Maquiavel, não é bondade e justiça. Virtù é a aptidão para melhor visualizar o tabuleiro político, o que permite ao príncipe jogar energicamente para conseguir e sustentar o poder. Fortuna (ou acaso) traduz-se pela oportunidade de pôr em prática a virtù. No caso da “operação valquíria”, uma inegável conspiração contra o príncipe, Hitler pôde contar com a fortuna. E não deixou de aplicar a virtù. Com vigor, eliminou todos os que quiseram pôr uma bomba no seu colo. E não foi só nesse acontecimento que Hitler conseguiu sobreviver e agir como um príncipe, na exata conceituação maquiavélica. Em 1938, um jovem estudante de teologia, Maurice Bavaud, viajou da Suíça para a Alemanha com um plano para assassinar o ditador nazista. A intenção era atirar à queima-roupa no Führer durante as comemorações de aniversário da revolução, que se daria em Munique no mês de novembro daquele ano.

O plano do estudante não deu certo. A multidão que acompanhava Hitler formou uma verdadeira barreira humana, de tal sorte que impedia qualquer tipo de aproximação por quem quer que seja. O jovem Bavaud, ao ser preso por não portar documentos, teve a sua arma descoberta pela Gestapo. Após sofrer torturas de toda espécie, acabou confessando a sua ousadia. Foi condenado à morte e levado à guilhotina em 1941. O mundo está cheio de psicopatas que tentam por todos os meios assassinar pessoas que se tornam famosas ou influentes. É o desejo de entrar na história, nem que seja como um assassino de uma figura marcante. Em 1939, na Varsóvia, Franciszek Niepokólczycki, um major do exército polonês, urdiu um plano para assassinar Hitler durante sua estada na capital polonesa. Uma bomba foi colocada discretamente num local, mas o seu dispositivo não disparou. 

Embora o petardo tivesse sido encontrado, a polícia nazista não conseguiu desvendar a autoria da tentativa de morte. Um ano antes, em 1938, uma conspiração de militares, liderada pelo coronel Hans Oster, ligado à inteligência militar alemã, tentou prender, julgar e executar Hitler e a alta cúpula do partido nazista. A ação dependia do fracasso de Hitler numa ação militar a ser desencadeada na Tchecoslováquia. Só que a ação militar foi resolvida sem qualquer derramamento de sangue, o que frustrou os conspiradores, que passaram a se desentender, terminando em delações recíprocas. Oster terminou sendo enforcado pelos nazistas, sob a acusação de traição. O evento foi conhecido como a “Conspiração Oster”. Também em 1939, um carpinteiro comunista, Georg Elser, colocou uma bomba-relógio num bar que confinava com um anfiteatro onde Adolf Hitler iria se apresentar.

A sorte, mais uma vez, protegia o Führer. Treze minutos antes da explosão da bomba, ele já tinha se retirado do local, contudo, oito pessoas morreram e mais de sessenta ficaram feridas. Elser foi preso pela SS. Foi torturado e encaminhado ao campo de concentração de Dachau, onde foi fuzilado. No capítulo XV de “O Príncipe”, Maquiavel ensina que “para se manter príncipe é necessário aprender a ser mau, valendo-se disso quando necessário”. Isto não é uma defesa do nacional-socialismo. É uma defesa do príncipe. Churchill dizia que “quando se tem de matar um homem, não custa nada ser educado”. Não vejo educação alguma em planejar jogar uma bomba no colo do príncipe, até porque o colo do príncipe é um colo sacrossanto, como diria Maquiavel, naquela sua visão de realidade que rodeia a política ou a ação dos homens de estado.  

*Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente, aos domingos.


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
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