04/03
12:12

Post Scriptum: Seu Sindulfo, o Lunga sergipano

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

A literatura de cordel atribui ao Seu Lunga o título de homem mais mal humorado e ranzinza do mundo. Inúmeras estórias sobre o seu comportamento estão contadas em livros, cordéis, teses de mestrado, artigos acadêmicos, matérias jornalísticas e até “O Fantástico”, da Rede Globo, dedicou um valioso tempo à sua história. Nascido em Caririaçu, Ceará, em 1927, morreu em 2014 na cidade de Barbalha, no mesmo Estado, mas viveu a maior parte do tempo em Juazeiro do Norte, onde possuía uma espécie de sucata, na qual vendia de tudo, desde aparelhos de televisão usados até frutas e legumes. Seu Lunga, certa vez, negou que os fatos narrados sobre o seu comportamento fossem verdadeiros e que eram invencionices criadas pelos autores de cordéis. Mas a verdade é que, mentira ou não, a sua fama de homem descortês e sem paciência para discutir o óbvio ultrapassou as fronteiras do Ceará. Aracaju também teve o Seu Lunga, o comerciante na área de ourivesaria, Sindulfo Barreto Fontes. A sua loja ficava na rua Laranjeiras, já chegando na Itabaianinha. Era um homem rude quando se colocava a sua honestidade em dúvida. Contam-se muitas estórias a seu respeito. Selecionei algumas delas para que a nova geração de sergipanos conheça as peripécias desse respeitável homem do comércio aracajuano. Certa vez, uma senhora da alta sociedade foi comprar uma pulseira e gostou de uma da loja do Seu Sindulfo. Disse para ele: - Seu Sindulfo, posso mostrar a pulseira pra Seu Vavá? (era dono de uma outra joalheria). – Pode sim. Mais tarde ela voltou e foi dizendo: - Seu Sindulfo, é ouro mesmo, quero comprar. Ele tomou a pulseira das mãos da Senhora e respondeu: - Oxente, é ouro mesmo? Se é ouro eu não vendo não! E guardou a mercadoria. Outra Senhora agradou-se de uma pulseira e antes de pagar o preço estabelecido, perguntou: - Seu Sindulfo, é ouro, né? Fica preta? – Fica sim, se a Senhora passar pixe nela!!!, ao tempo em que recolhia a joia das mãos da cliente. - Tá bom, vou buscar o dinheiro. Volto já! Horas depois, chegou a cliente: - Vim buscar a pulseira. Eis o dinheiro. E ele bem sério: - A joia não existe mais. Passei pixe nela, ficou preta, joguei fora! Em outra vez, um grande comerciante da cidade estava com problemas no seu cofre. Mandou vir um técnico de Salvador e não houve jeito de abrir. Já estava desesperado, pois grande parte do seu patrimônio encontrava-se no interior do cofre. Soube então que Seu Sindulfo era um experiente abridor de cofre. Acertado o preço, o Sr. Sindulfo em três minutos abriu o cofre. O comerciante, usurário, diante do pequeno tempo levado por Seu Sindulfo para abrir o equipamento, foi logo falando: - Ah, Seu Sindulfo, não vou pagar o acertado não. O Senhor não teve trabalho nenhum. Seu Sindulfo, então, fechou o cofre e disse: - Então não precisa pagar nada. Mande outro abrir. Essas e outras estórias estão na memória ainda de muitos sergipanos. Como seria bom se alguém as recolhesse e transformasse em livro.
 


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Eugênio Nascimento
04/03
12:07

A carne é fraca

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE
 
Pois é! Precisava de uma explicação lógica a justificativa que todos têm para os males praticados, principalmente no campo das anomalias sexuais, ou naquilo que se chama de sexo desregrado. Por exemplo, um ex-deputado estadual da Bahia, hoje na Câmara Federal, vem causando a maior polêmica. Tido como pastor, responsável pela “Fundação Doutor Jesus”, um centro de reabilitação de drogados, o parlamentar se diz ex-homossexual, ex-drogado e ex-bandido e que foi curado pela fé. Numa entrevista a uma emissora de tevê da Bahia, ele defendeu o seu colega também pastor, deputado federal Marco Feliciano, e ratificou a tese de que os “africanos são descendentes amaldiçoados de Noé”. E explicitou: “a viadagem da África, quando viu dois cabras bons, bonitos, musculosos, saiu atrás” (sic). Ao interpelar uma nota de repúdio contra ele do seu próprio partido, creditou a autoria “aos viados e viadas lá dentro” (sic). Diz também o deputado-pastor que não teme represálias do seu partido e explica: “Se essas desgraças (partidos) prestassem, eram inteiros”. Mas sobre o seu passado, principalmente o fato de ter sido homosexual, ele vacila e justifica: “O pastor é humano. Claro que eu tenho medo de recaída. Eu não posso ficar junto de um homem muito tempo porque a carne é fraca”. A carne é fraca? Vejamos outro exemplo: Um pároco da cidade de Niterói foi acusado de manter relações sexuais com uma coroinha desde os sete anos de idade, e também com uma sua irmã. O padre nega, entretanto reconhece que quando começou a fazer sexo com uma delas a mesma já tinha 18 anos de idade. Não interessa aqui se a acusação é verdadeira ou não, mas a justificativa do advogado do padre: “A carne é fraca. O padre também é um ser humano”. Conversa fiada! Desculpar-se de seus atos sobre a fraqueza da carne não deixa de ser uma fuga que tem como objetivo escapar da sua responsabilidade. Aliás, se “a carne é fraca” é porque o espírito é pobre.
 
Júlio Ribeiro faz parte da história da literatura brasileira. Da Escola Naturalista, a sua principal e polêmica obra foi “A Carne”, publicada em 1888, e que aborda temas diversos daqueles enfrentados pela literatura da época. Recebeu fortes críticas por explorar o amor livre e a figura da mulher libertária. Conta a história de Lenita, uma jovem que não buscava o fulgor do romantismo, mas a satisfação dos seus desejos sexuais. Ao ir residir numa fazenda de um Coronel, conhece o seu filho, divorciado, e com ele tem uma tórrida relação entremeada por sexo violento. Lenira sente prazer ao assistir um escravo ser açoitado e ter o seu corpo totalmente desfigurado com as feridas. Apesar de o livro terminar numa tragédia, a sua importância está justamente em enfrentar o tema da fraqueza da carne. Ribeiro consegue fazer com que ela triunfe sobre os desenganos da mente. O mais importante, ainda, é colocar a mulher num papel de vanguarda numa sociedade conservadora e preconceituosa. Se for verdade o que dizia o presidente dos EUA, Abraham Lincoln - que pessoas sem vícios não possuem virtudes - a trajetória de Lenita estaria então justificada? Outro caso impressionante foi o do terceiro presidente dos EUA, Thomas Jefferson, autor da Declaração da Independência americana. É dele a seguinte idéia: "A miscigenação de brancos com negros produz uma degradação com a qual nenhum amante de seu país, nenhum amante da excelência no caráter humano, pode inocentemente concordar". Pois não é que se descobriu que Jefferson tinha uma amante?! Justamente uma escrava, com quem teve vários filhos e viveu durante trinta e oito anos, quatro vezes mais do que com a sua legítima mulher. Afinal, a carne é fraca. Outro presidente dos EUA, Bill Clinton, também se deixou levar pela fraqueza carnal quando foi acusado de usar uma estagiária para a prática de sexo oral, em plena Casa Branca.
 
Diz uma música sertaneja que a carne é fraca e o coração é vagabundo. Adhemar de Barros foi um dos políticos mais influentes da política brasileira antes da ditadura militar. Governador de São Paulo por várias vezes, teve uma expressão cunhada que dizia bem do seu comportamento como governante: “O homem que rouba, mas faz”. Casado com Dona Leonor, teve uma amante por vinte anos que mandava e desmandava em seu governo e no seu patrimônio, Ana Gimol Benchimol Capriglione. Era conhecida como “Dr. Rui”. Depois da morte de Adhemar em 1969, Dr. Rui herdou os seus dólares que foram guardados num cofre de uma mansão em Santa Teresa, no Rio de Janeiro. O maior assalto da história da luta armada brasileira durante o período de chumbo foi, justamente, a ação que terminou com o roubo do cofre do Dr. Rui. Mas o importante aqui é mostrar que Adhemar também se quedou à fraqueza da carne. Nem sempre as amantes tiveram papel de destaque na vida política. É o caso de duas mulheres, uma no império romano, outra no século passado: Valéria Messalina e Elena Ceausescu. Messalina foi a terceira esposa de Tibério Cláudio César, ele com 50 anos, ela com 15. Apesar dessa diferença de idade, era uma mulher avarenta, devassa, cruel e assassina. A sua participação no governo era tão grande que o marido foi obrigado a ordenar sua execução aos 22 anos de idade. Ela está incluída entre as mulheres mais perversas da história. Já Elena Ceausescu viveu na Romênia e era casada com o ditador Nicolae Ceausescu. Era alcunhada de “Mãe da Pátria”. Ao lado do seu marido, dirigiu com mãos de ferro os destinos da Romênia durante vinte e quatro anos. Foram acusados de causar a morte de mais de 60 mil pessoas durante o seu reinado. Elena era uma mulher cruel, dominadora e tornou-se o braço direito do seu marido. Foi fuzilada juntamente com Nicolae no natal de 1989, encerrando naquele momento o orgulho, a arrogância e o poder.
 
A literatura biográfica está cheia de exemplos que justificariam a fraqueza da carne. No mundo político, é comum o desempenho das amantes na vida do seu parceiro, participando ativamente da vida profissional do amado. O ditado que diz “por trás de todo grande homem há uma mulher ainda mais brilhante” pode ser verdadeiro, muitas vezes, por causa justamente da fraqueza da carne. Não é à toa que Cristo disse a Pedro “vigiai e orai, para não cairdes na tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mateus 26:41).


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
18/02
12:34

Em Busca do Ontem

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Ernest Hemingway estava internado num hospital em Rochester, Minnesota, em 15 de junho de 1961. Também no local estava um garoto de nove anos. Ao sentir o sofrimento da criança, resolve fazer uma carta para ela. Na missiva, diz sentir muito por encontrá-la naquele local e desejava-lhe o mais breve restabelecimento. Descreve um belo lugar, com peixes saltando dos rios e muitas flores. Dizia, no entanto, que o ambiente não era tão bonito quanto em sua Idaho. E arremata que em breve os dois, ele e o menino, estarão juntos em Idaho pescando, rindo e fazendo piadas sobre a experiência de ambos no hospital. Este foi o último trabalho do grande escritor americano, que passou toda a sua vida produzindo contos, crônicas, artigos, obras literárias, notícias jornalísticas, prefácios e apresentações de livros. Duas semanas depois, em 2 de julho de 1961, há cinquenta e oito anos, Hemingway se suicidou com um tiro de espingarda na boca. Encerravam-se ali sessenta e dois anos de uma vida intensa. Viveu cerca de 20 anos em Cuba, esteve nas duas grandes guerras e na Guerra Civil Espanhola. Assim como Neruda, ele também poderia dizer “confesso que vivi”.Josef Stalin, que governou a Rússia com mãos de ferro durante o período comunista, e Fidel Castro, o grande líder cubano, nutriam uma grande admiração pela obra desse escritor, considerado o mais talentoso da chamada “geração perdida”, que habitou Paris nos anos de 1920. Foi o autor, dentre outras publicações, de O Sol também se levanta, Adeus às armas, Por quem os sinos dobram, O velho e o mar, As neves do Kilimanjaro e Paris é uma festa. Quem foi este homem capaz de escrever obras que ainda hoje comovem a humanidade? Quem foi Ernest Hemingway, o grande ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1954?Interessa-me o período mais rico de sua vida: a década de 20 em que viveu em Paris, amais criativa de toda a sua existência.Chegou na capital francesa com sua primeira mulher, Hadley Richardson. 

Ela assim define a sua convivência naqueles anos: “Nada foi como aqueles anos em Paris, depois da guerra. A vida era dolorosamente pura, simples e boa, e eu acredito que Ernest era o melhor de si mesmo. Tive o melhor dele. Tivemos o melhor um do outro”. É a pura verdade. Os seus romances nasceram de pequenas crônicas vivenciadas na capital francesa.Antes de chegar a Paris, Hemingway, muito jovem, viveu uma aventura que marcaria física e psicologicamente a sua vida. Foi durante a Primeira Grande Guerra, onde ele trabalhou no serviço de ambulâncias no interior italiano. Ferido durante a ofensiva austríaca em Piave, 1918, foi encaminhado para o Ospedale Rossa, em Milão, onde conheceu e se apaixonou por Agnes Von Kurowski, uma enfermeira daquele hospital. O curioso é que a sua obra Adeus às armas trata desse período, só que na história contada a heroína morre de parto, quando, na verdade, o seu primeiro amor o dispensou para casar com um oficial italiano. Certa vez, já casado com Hadley, justificando as noites mal dormidas, confessou: “Tenho esses pesadelos e eles são tão reais. Ouço os tiros de morteiro, sinto o sangue em meus sapatos. Acordo encharcado. Tenho medo de dormir”. Apesar do trauma, Hemingway era um homem bastante afável, extrovertido e brincalhão, sempre encontrando um apelido certo para a pessoa certa. Era um piadista contumaz, bebia muitoecostumava dizer aos amigos que saíam na noite com ele e que não aguentavam beber: “Não andem comigo! Vocês não dão para andar com Ernest”. Em 2013, escrevi aqui no Jornal da Cidade uma crônica com o título Cartas do Caribe I – Um mojito com Hemingway, onde estabeleço um encontro ficcional com o escritor, com toques também de realidade e à luz do seu senso de humor. Dizia eu na oportunidade: “Isla San Cristóbal de la Habana. 2013. A cidade começa a escurecer. Saio do Iberostar, hotel localizado no Parque Central. Fico em dúvida. E agora? Onde eu marquei o encontro com Ernest Hemingway? 

No Floridita, ali no Obispo, esquina do Monteserrate ou na Bodeguita del Medio, no Empedrado? Bem, resolvi ir ao Floridita, que estava próximo. Fui logo assediado por supostos guias e por uma prostituta. Consegui me desvencilhar. Se Hemingway não estivesse lá deixaria recado e me dirigiria ao Bodeguita del Medio. Aquele encontro era importante para mim, pois tinha algumas dúvidas a respeito de fatos ocorridos na época da geração perdida que habitou os anos 20 do século passado em Paris. Ao chegar no Floridita ele não estava. Falei para um funcionário do restaurante que se ele chegasse aguardasse o advogado brasileiro com o qual ele marcara o encontro, pois eu iria ao Bodeguita del Medio. De logo, o barman perguntou-me se Hemingway tinha marcado tomar um daiquiri ou um mojito. Respondi-lhe automaticamente: - Um mojito. E ele me disse, se foi um mojito, então ele está na Bodeguita del Medio. Gracias, disse-lhe e tomei o rumo do Empedrado, uma rua estreita na Havana velha. O assédio foi duro por parte de guias e prostitutas, inclusive duas meninas de 13 ou 14 anos. Consegui chegar ao local. Ele estava no bar saboreando um mojito. Apresentei-me e ele me convidou para irmos ao interior do restaurante. Sentamos numa mesa. Ao lado, tinha uma mesa reservada para dois clientes famosos: o poeta cubano Nicolás Guillén (1902-1989) e o cantor americano Nat King Cole (1919-1965). O restaurante tem em suas paredes de três andares fotos de famosos, como uma do próprio Hemingway ao lado de Fidel. Até o nosso presidente Lula estava lá. Vários autógrafos nas paredes, desde o do Comandante Fidel, passando por Hemingway, Nicolás Guillén e Salvador Allende. Um grupo musical entra cantando ‘Hasta siempre comandante’, uma homenagem do compositor Carlos Puebla a Che Guevara.Atento, observo o autógrafo deixado por Salvador Allende, ex-presidente chileno: ‘Viva Cuba libre. Chile espera. 28 junio 1961’. Torno meus olhos para os olhos de Hemingway e pergunto-lhe sobre o mojito. 

Ele chama o barman que diz sobre a sua receita: ‘Em um vaso de 8 onzas, ½ cucharadita de azúcar y ½ onza de jugo de limón. Añadir hojas de hierba buena y 3 onzas de agua gaseada. Macerar el tallo (sin danar las hojas). Añadir 2 o 3 cubitos de hielo y agregar 1 ½ onza de ron Havana Club 3 años. Revolver y ... listo para beber’. Peço um para mim. Solicito cambiar o açúcar por um edulcorante. O barman não deu a mínima e preparou o meu mojito com açúcar mesmo. Começamos a conversar sobre diversos personagens e modo de vida da época. Chegamos a Francis Scott Fitzgerald e sua vida conturbada com a mulher Zelda Sayre. Hemingway foi amigo do casal. Viveram nos anos 20 do século passado em Paris numa época em que Fitzgerald já era famoso. Já tinha lançado ‘Este lado do paraíso’, o seu primeiro romance, e ‘Os belos e malditos’. Estava para lançar aquela que seria uma de suas maiores obras: ‘O grande Gatsby’. Em duas horas e meia de conversa, falou-me dos defeitos e virtudes daquele que seria consagrado como um dos maiores escritores americanos do século XX. Ria ao me contar a viagem que fizera de carro com ele por toda a França e de um fato curioso. Na época, ele morava num sobrado de nº 29 da Rue des Saints-Pères, hoje funcionando a Brasserie L’Escorailles. Fitzgerald o procurou nesse endereço onde, à época, funcionava o bistrô Michaud’s. Estava muito nervoso. Ao sentar-se, Hemingway foi imediatamente inquirido: ‘Você acha que eu tenho um pau pequeno?’. Sobre o porquê da pergunta, Fitzgerald disse que tinha tido mais uma briga violenta com Zelda e ela lhe dissera que ele não prestava nem para fazer amor, dada a pequena dimensão do seu membro. Hemingway tentou acalmar Fitzgerald, com frases tipo ‘tamanho não é documento, o importante são as preliminares’, etc. Mas ele só se convenceu quando exibiu o seu pênis para o seu interlocutor e recebeu como resposta: ‘Olha, meu caro, fique sabendo que seu pau é do tamanho do seu talento literário’. Fitzgerald saiu saltitante”.

O que fez Hemingway e muitos outros artistas no início de carreira fixarem residência em Paris foram, justamente, as viagens de navio bastante baratas, a inexistência de qualquer lei seca e, principalmente, o câmbio vantajoso, onde um dólar equivalia a 55 francos. Nesse período, como relatado em Paris é uma festa, lançado após a sua morte, abandonou o jornalismo para viver quase na miséria com o intuito de concretizar o sonho de escrever um livro. Viveu em Paris com nomes conhecidos das artes, como Pablo Picasso, Miró, Gertrude Stein, Ezra Pound, John Dos Passos, James Joyce, Scott Fitzgerald, George Gershwin, Cole Porter, Sylvia Beach e tantos outros. A sua vida foi marcada pela pescaria, as caçadas, as guerras e o álcool. No tempo que viveu em Paris, apesar das farras diárias pelos bares e cafés de Montparnasse, era bastante disciplinado na leitura dos clássicos e no escrever. Tinha horários para tudo. Hemingway sempre tentou voltar a Piave, na Itália. Queria rever o local que marcou profundamente a sua vida. E foi, como escreveu depois: “Ir em busca de ontem é uma perda de tempo – se tiver de verificá-lo, volte para sua velha linha de frente”.


Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente, aos sábados.


Coluna Clóvis Barbosa
Com.: 0
Por Kleber Santos
03/02
12:04

Em Busca do Ontem

Clóvis Barbosa
Blogueiro e Conselheiro do TCE/SE

Ernest Hemingway estava internado num hospital em Rochester, Minnesota, em 15 de junho de 1961. Também no local estava um garoto de nove anos. Ao sentir o sofrimento da criança, resolve fazer uma carta para ela. Na missiva, diz sentir muito por encontrá-la naquele local e desejava-lhe o mais breve restabelecimento. Descreve um belo lugar, com peixes saltando dos rios e muitas flores. Dizia, no entanto, que o ambiente não era tão bonito quanto em sua Idaho. E arremata que em breve os dois, ele e o menino, estarão juntos em Idaho pescando, rindo e fazendo piadas sobre a experiência de ambos no hospital. Este foi o último trabalho do grande escritor americano, que passou toda a sua vida produzindo contos, crônicas, artigos, obras literárias, notícias jornalísticas, prefácios e apresentações de livros. Duas semanas depois, em 2 de julho de 1961, há cinquenta e oito anos, Hemingway se suicidou com um tiro de espingarda na boca. Encerravam-se ali sessenta e dois anos de uma vida intensa. Viveu cerca de 20 anos em Cuba, esteve nas duas grandes guerras e na Guerra Civil Espanhola. Assim como Neruda, ele também poderia dizer “confesso que vivi”. Josef Stalin, que governou a Rússia com mãos de ferro durante o período comunista, e Fidel Castro, o grande líder cubano, nutriam uma grande admiração pela obra desse escritor, considerado o mais talentoso da chamada “geração perdida”, que habitou Paris nos anos de 1920. Foi o autor, dentre outras publicações, de O Sol também se levanta, Adeus às armas, Por quem os sinos dobram, O velho e o mar, As neves do Kilimanjaro e Paris é uma festa. Quem foi este homem capaz de escrever obras que ainda hoje comovem a humanidade? Quem foi Ernest Hemingway, o grande ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1954? Interessa-me o período mais rico de sua vida: a década de 20 em que viveu em Paris, a mais criativa de toda a sua existência. Chegou na capital francesa com sua primeira mulher, Hadley Richardson. 

Ela assim define a sua convivência naqueles anos: “Nada foi como aqueles anos em Paris, depois da guerra. A vida era dolorosamente pura, simples e boa, e eu acredito que Ernest era o melhor de si mesmo. Tive o melhor dele. Tivemos o melhor um do outro”. É a pura verdade. Os seus romances nasceram de pequenas crônicas vivenciadas na capital francesa. Antes de chegar a Paris, Hemingway, muito jovem, viveu uma aventura que marcaria física e psicologicamente a sua vida. Foi durante a Primeira Grande Guerra, onde ele trabalhou no serviço de ambulâncias no interior italiano. Ferido durante a ofensiva austríaca em Piave, 1918, foi encaminhado para o Ospedale Rossa, em Milão, onde conheceu e se apaixonou por Agnes Von Kurowski, uma enfermeira daquele hospital. O curioso é que a sua obra Adeus às armas trata desse período, só que na história contada a heroína morre de parto, quando, na verdade, o seu primeiro amor o dispensou para casar com um oficial italiano. Certa vez, já casado com Hadley, justificando as noites mal dormidas, confessou: “Tenho esses pesadelos e eles são tão reais. Ouço os tiros de morteiro, sinto o sangue em meus sapatos. Acordo encharcado. Tenho medo de dormir”. Apesar do trauma, Hemingway era um homem bastante afável, extrovertido e brincalhão, sempre encontrando um apelido certo para a pessoa certa. Era um piadista contumaz, bebia muito e costumava dizer aos amigos que saíam na noite com ele e que não aguentavam beber: “Não andem comigo! Vocês não dão para andar com Ernest”. Em 2013, escrevi aqui no Jornal da Cidade uma crônica com o título Cartas do Caribe I – Um mojito com Hemingway, onde estabeleço um encontro ficcional com o escritor, com toques também de realidade e à luz do seu senso de humor. Dizia eu na oportunidade: “Isla San Cristóbal de la Habana. 2013. A cidade começa a escurecer. Saio do Iberostar, hotel localizado no Parque Central. Fico em dúvida. E agora? Onde eu marquei o encontro com Ernest Hemingway? 

No Floridita, ali no Obispo, esquina do Monteserrate ou na Bodeguita del Medio, no Empedrado? Bem, resolvi ir ao Floridita, que estava próximo. Fui logo assediado por supostos guias e por uma prostituta. Consegui me desvencilhar. Se Hemingway não estivesse lá deixaria recado e me dirigiria ao Bodeguita del Medio. Aquele encontro era importante para mim, pois tinha algumas dúvidas a respeito de fatos ocorridos na época da geração perdida que habitou os anos 20 do século passado em Paris. Ao chegar no Floridita ele não estava. Falei para um funcionário do restaurante que se ele chegasse aguardasse o advogado brasileiro com o qual ele marcara o encontro, pois eu iria ao Bodeguita del Medio. De logo, o barman perguntou-me se Hemingway tinha marcado tomar um daiquiri ou um mojito. Respondi-lhe automaticamente: - Um mojito. E ele me disse, se foi um mojito, então ele está na Bodeguita del Medio. Gracias, disse-lhe e tomei o rumo do Empedrado, uma rua estreita na Havana velha. O assédio foi duro por parte de guias e prostitutas, inclusive duas meninas de 13 ou 14 anos. Consegui chegar ao local. Ele estava no bar saboreando um mojito. Apresentei-me e ele me convidou para irmos ao interior do restaurante. Sentamos numa mesa. Ao lado, tinha uma mesa reservada para dois clientes famosos: o poeta cubano Nicolás Guillén (1902-1989) e o cantor americano Nat King Cole (1919-1965). O restaurante tem em suas paredes de três andares fotos de famosos, como uma do próprio Hemingway ao lado de Fidel. Até o nosso presidente Lula estava lá. Vários autógrafos nas paredes, desde o do Comandante Fidel, passando por Hemingway, Nicolás Guillén e Salvador Allende. Um grupo musical entra cantando ‘Hasta siempre comandante’, uma homenagem do compositor Carlos Puebla a Che Guevara. Atento, observo o autógrafo deixado por Salvador Allende, ex-presidente chileno: ‘Viva Cuba libre. Chile espera. 28 junio 1961’. Torno meus olhos para os olhos de Hemingway e pergunto-lhe sobre o mojito. 

Ele chama o barman que diz sobre a sua receita: ‘Em um vaso de 8 onzas, ½ cucharadita de azúcar y ½ onza de jugo de limón. Añadir hojas de hierba buena y 3 onzas de agua gaseada. Macerar el tallo (sin danar las hojas). Añadir 2 o 3 cubitos de hielo y agregar 1 ½ onza de ron Havana Club 3 años. Revolver y ... listo para beber’. Peço um para mim. Solicito cambiar o açúcar por um edulcorante. O barman não deu a mínima e preparou o meu mojito com açúcar mesmo. Começamos a conversar sobre diversos personagens e modo de vida da época. Chegamos a Francis Scott Fitzgerald e sua vida conturbada com a mulher Zelda Sayre. Hemingway foi amigo do casal. Viveram nos anos 20 do século passado em Paris numa época em que Fitzgerald já era famoso. Já tinha lançado ‘Este lado do paraíso’, o seu primeiro romance, e ‘Os belos e malditos’. Estava para lançar aquela que seria uma de suas maiores obras: ‘O grande Gatsby’. Em duas horas e meia de conversa, falou-me dos defeitos e virtudes daquele que seria consagrado como um dos maiores escritores americanos do século XX. Ria ao me contar a viagem que fizera de carro com ele por toda a França e de um fato curioso. Na época, ele morava num sobrado de nº 29 da Rue des Saints-Pères, hoje funcionando a Brasserie L’Escorailles. Fitzgerald o procurou nesse endereço onde, à época, funcionava o bistrô Michaud’s. Estava muito nervoso. Ao sentar-se, Hemingway foi imediatamente inquirido: ‘Você acha que eu tenho um pau pequeno?’. Sobre o porquê da pergunta, Fitzgerald disse que tinha tido mais uma briga violenta com Zelda e ela lhe dissera que ele não prestava nem para fazer amor, dada a pequena dimensão do seu membro. Hemingway tentou acalmar Fitzgerald, com frases tipo ‘tamanho não é documento, o importante são as preliminares’, etc. Mas ele só se convenceu quando exibiu o seu pênis para o seu interlocutor e recebeu como resposta: ‘Olha, meu caro, fique sabendo que seu pau é do tamanho do seu talento literário’. Fitzgerald saiu saltitante”.

O que fez Hemingway e muitos outros artistas no início de carreira fixarem residência em Paris foram, justamente, as viagens de navio bastante baratas, a inexistência de qualquer lei seca e, principalmente, o câmbio vantajoso, onde um dólar equivalia a 55 francos. Nesse período, como relatado em Paris é uma festa, lançado após a sua morte, abandonou o jornalismo para viver quase na miséria com o intuito de concretizar o sonho de escrever um livro. Viveu em Paris com nomes conhecidos das artes, como Pablo Picasso, Miró, Gertrude Stein, Ezra Pound, John Dos Passos, James Joyce, Scott Fitzgerald, George Gershwin, Cole Porter, Sylvia Beach e tantos outros. A sua vida foi marcada pela pescaria, as caçadas, as guerras e o álcool. No tempo que viveu em Paris, apesar das farras diárias pelos bares e cafés de Montparnasse, era bastante disciplinado na leitura dos clássicos e no escrever. Tinha horários para tudo. Hemingway sempre tentou voltar a Piave, na Itália. Queria rever o local que marcou profundamente a sua vida. E foi, como escreveu depois: “Ir em busca de ontem é uma perda de tempo – se tiver de verificá-lo, volte para sua velha linha de frente”.

Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente, aos sábados.


Coluna Clóvis Barbosa
Com.: 0
Por Kleber Santos
20/01
13:00

Muvuca no Ferryboat

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE

No dia 30 de dezembro de 2018, encontrava-me com minha esposa em Salvador. Tinha recebido um convite de um colega conselheirodo TCE/BA, Inaldo Paixão,para comer uma moqueca de pescada amarela em Caixa Prego, bem no fim da ilha de Itaparica, ou Vera Cruz (a ilhotahoje é formada pelos dois municípios). Inaldo é um dos homens do sistema Tribunal de Contas com quem mais me identifiquei e, se é verdade que etnia, idioma e similitude de propósitos são os três ingredientes que imantam as pessoas- irmanando-as e fazendo delas emergir uma mesma frequência que capta a sonoridade do mundo, ou o modo de enxergar as aflições que nosso coração faz ecoar pelas curvas da vida- então está explicada essa afinidade. Interessante é que a primeira vez que o vi foi em Buenos Aires. Estávamos, ambos, no mesmo propósito de representaro sistema de controle externo brasileiro num evento que tratava do assunto com colegas argentinos e espanhóis. Falamos o mesmo idioma, aquele que é expressadopelos excluídos dos bairros pobres da velha Salvador. E temos a mesma etnia, pois somos filhos da antiga Estrada das Boiadas que, com a Independência da Bahia, por ali passando o exército libertador, tornou-se Estrada da Liberdade ou Rua Lima e Silva, que se estende da Soledade até o Largo do Tanque. Esse itinerário é cortado por vários guetos, com suas diversas nações: Soledade, Lapinha, Sieiro, Cine Brasil, Ladeira do Inferno, Pero Vaz, Central, Queimadinho, Estica, Gengibirra, São Lourenço, Sete de Abril, Bairro Guarany, Rua São Cristóvão, San Martin, Alto do Peru, Alto do Pará, Japão, Curuzu, Ladeira de Pedra, Graciosa, Largo do Tanque e tantas outras. Inaldo é da nação do Corta Braço, hoje Pero Vaz e antiga roça de Chico Mãozinha, invadida na década de 1940.Eu sou da Liberdade, o bairro mais negro da Bahia, mas, segundo o IBGE, este título pertence hoje à Fazenda Coutos.Vivemos sob os batuques do Ilê Aiyê e do Muzenza, dois blocos afro que orgulham aquelas comunidades. A Liberdade e o Corta Braçoderama mim e a Inaldo a régua. O compasso fomos buscar nos caminhos da vida.

Nosso propósito ideológico, ademais, é o mesmo: construir uma sociedade mais justa, onde a força do trabalho supere a exploração do sangue e do suor do operário. Vejam, pois, que eu e Inaldo compartilhamos da etnia, do idioma e dos propósitos, daí o entrosamento existente. Resolvi, então, ir em direção a Caixa Prego. Deixei o meu veículo no hotel e fui para o ferry de Uber. Acertei com minha filha para nos pegar em Bom Despacho (ela estava veraneando em Aratuba, a quatro quilômetros de Caixa Prego), já que nós íamos como passageiros. A fila de veículos estava tranquila, contudo a dos passageiros estava enorme, saindo do ferry em direção à feira de Água de Meninos.Enfrentamos a fila para compra dos ingressos e até que não demorou muito. Entretanto, durante o trajeto para a bilheteria, vivenciei a amizade de algumas figuras interessantes e a alma do povo baiano, sempre bem-humorado apesar dos atropelos do dia-a-dia. Após essa primeira etapa, demos o segundo passo e entramos na antessala da sala de embarque, onde os passageiros esperavam a abertura do portão.  Pois bem.Fomos os últimos a adentrar no espaço, que já estava entupido de gente.Não dava para ninguém se mexer do lugar. Eram homens, mulheres, crianças, cachorros, gatos,e vários utensílios, como geladeira, ventiladores e caixões carregados com cerveja, muitos desses objetos meticulosamente encachados nas cabeças de algumas pessoas. Aliado a esse tumulto e desconforto, pasmem, o calor a cada minuto que se passava aumentava ainda mais. Minha mulher, por seu turno, começava a reclamar das pisadas, bafos, empurrões e se preocupava com o fato de tê-la colocado naquela situação. E repetia a toda hora a insensatez da direção do ferry em permitir aquilo; que pela demora achava difícil o embarque;que não sabia como o povo aguentava aquele sofrimento; que era um crime o que se fazia com as crianças naquele calor medonho.Ela estava com a matraca solta.

Para mim, tudo era emoção e um filme passava pela minha cabeça. Imagens da minha infância, com meus pais e irmãos atravessando a Baía de Todos os Santos em direção a Itaparica,  desfilavam pela minha mente. Quase não ouvia a angústia da minha mulher. O suor corria pelas minhas pernas. Repentinamente, tudo mudou no ambiente e começaram as reclamações com a demora em encaminhar os passageiros para a sala de embarque: - Abra esta porta, filho da puta!gritou um passageiro aovisualizaruma espécie de segurança na parte de dentrodo Ferry. Como ele era careca, outro gritou: - Abra esse caralho, seu Cabeça de Pica, ninguém está aguentando o calor! Duas moças, que se encontravam no final da aglomeração, começaram a se aproximar da porta de embarque, falando que estavam se mijando. O público, percebendo a aflição das moças, abriram alas para que pudessem transitar. Ocorre que, já no portão de embarque, elas se acalmaram e não procuraram atender às suas necessidades fisiológicas, o que levou a multidão a se rebelar. Passou-se, então, a chamá-las de mijonas: - Ou mijonas, não vão mijar mais não? Um grito, que veio lá do fundo, berrava com eco: - Mijoooooonass!!! E o tempo passando! À proporção que funcionários do ferry surgiam na sala de embarque, gritos começaram a ecoar no recinto, saídos de todos os lados: - Xibungo, abra essa porta; - Cala a boca corno; - Abre a porta Mariquinhas; - Maria Bonita;- Sapatona; - Veada; - Tô me cagando, porra, abra essa porta!; - Filho de uma égua, tá um fedor de rabo que ninguém aguenta, etc. Nisso, abre-se uma sinfonia aterradora, com crianças chorando, cães latindo, gatos miando, e um sorveteiro gritando no seu ouvido: - É sorvete, sorvete, sorvete, coco, mangaba e cajá, um é três reais e dois são cinco. Tudo isso e toda essa algazarra ao mesmo tempo, o que levava a uma agonia geral. Sinceramente, eu vibrava com tudo aquilo. Há muito tempo não vivia aquela realidade. Minha mulher estava pasma com a minha reação.

E então a porta de embarque começa a abrir e uma confusão se forma com todos querendo adentrar ao mesmo tempo. Um jovem cotó, com apenas uma perna, começou a discutir com outros passageiros e foi empurrado abruptamente por um segurança contra o portão. Todos se revoltaram com o guarda, mas os ânimos foram acalmados. Com a situação regularizada, todos acomodados no catamarã, seguimos viagem pela Baía de Todos os Santos. Nisso, um casal gay começa a dançar ao som de músicas baianas. A coreografia encenada pelos dançarinos divertia os passageiros. Estava conversando com o jovem Cotó quando esse me disse: - Quer ver as bibas “endoidar”? Aproximou-se do som, conversou com o dono e entregou-lhe um pen drive. Começa a tocar I Will Survive, na voz de Glória Gaynor. O casal começa a dançar loucamente, agora ao lado da maioria dos passageiros, numa junção de movimento corporal e passos que invejaria as dançarinas do Faustão. Durante o trajeto, a música tocou umas 20 vezes. É umacanção muito bonita, com uma letra que fala de superação, de que é preciso ir para a frente, lutando para transformar o mundo num local único, homogêneo, leve, igual pelo respeito das diferenças. A verdade é que eu estava num bom lugar, ao lado de gente simples, alegre, com extraordinário senso de humor, humilde, esquecida pelas políticas públicas. Todo aquele sofrimento, com grande número de pessoas enjauladas, sem poder sair e nem entrar, é uma afronta à dignidade da pessoa humana. O ferry é uma concessão pública. É inadmissível que o Estado assista de camarote o péssimo serviço que é prestado pela empresa exploradora da concessão. Bom, finalmente cheguei em Caixa Prego. A me esperar, com um sorriso do tamanho de um caminhão, o meu amigo Inaldo, sua mulher e seus sogros. Esplêndida a moqueca de pescada amarela, o siri catado com feijão divinamente temperado, arroz branco e cerveja gelada. Mas fiquei retadocomigo. É que quis ser educado e não repeti o prato. 

Pois é, foi um dia de arromba! Confesso que é nas pequenas coisas que a gente descobre momentos de felicidade. Na volta, sem mais os problemas enfrentados, vim cantarolando um samba de terreiro, “nessa minha caminhada/ sou água de cachoeira/ Ninguém pode me amarrar/Piso firme na corrente/ Que caminha para o mar/Em água de se perder/ eu não me deixo levar”.


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
07/01
10:21

Por que mataram Carlos Firpo?

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Em junho de 1958 eu tinha exatamente dez anos. Pela primeira vez, após a minha saída da cidade de Estância há sete anos, eu voltava à terra em que nasci. Numa manhã chuvosa, na Estação da Calçada, em Salvador, capital baiana, embarcava com minha avó paterna, Júlia Modesto de Melo, em direção ao estado de Sergipe. Trinta e seis horas depois chegávamos à Estação Ferroviária da cidade de Salgado. Ali dormimos numa pensão e na madrugada do dia seguinte, de caminhão, seguimos para a cidade de Estância. Eram parcas as minhas lembranças sobre a terra que me viu nascer, mas, durante os trinta dias que ali fiquei, fiz algumas amizades e vivenciei um pouco dos costumes e dos acontecimentos da vida estanciana e sergipana. Era o mês de junho, período rico das festas de largo, que se concentravam sempre na praça Barão do Rio Branco. Dias antes, em Salvador, tinha lido no jornal A Tarde e ouvido nos noticiários da Rádio Sociedade da Bahia notícias sobre o assassinato do médico Carlos Firpo em Aracaju, cuja autoria, segundo a imprensa baiana, seria de sua mulher junto ao amante, um militar da Aeronáutica. Aquilo atiçou a minha curiosidade e, quando cheguei em Estância, procurei notícias sobre o infausto acontecimento. As crianças de minha idade não tinham qualquer ideia crítica sobre o evento, mas, as pessoas mais velhas criavam todo tipo de ilação sobre os motivos que levaram ao crime. No calor das discussões e das notícias que pululavam diariamente na imprensa sergipana, três versões, pelo menos naqueles dias, tentavam justificar o ilícito praticado contra um médico bastante respeitado pela sociedade: a do crime passional, cujos mandantes teriam sido a mulher do médico, Milena, e seu suposto amante Afonsinho, jovem Coronel da Força Aérea Brasileira; a do crime político, muito comum na época em Sergipe; e a do crime levado por questões familiares e ligados ao direito de herança. Voltei a Salvador, mas aquele crime marcou bastante a minha infância.

Quando retornei a Sergipe, na quase metade da década de 1960, procurei informações e comecei a ler tudo que se falava a respeito daquele crime, que teve repercussão nacional ante as circunstâncias e pessoas envolvidas. O jornal Última hora, do Rio de Janeiro, cobriu todo o desenrolar do processo, cuja nata da advocacia brasileira atuava na defesa e na acusação, esta como assistente do Ministério Público. Os historiadores sergipanos trataram muito pouco ou quase nada do tema, à exceção de uma obra, Sergipe por um óculo, de José Lopes Bragança, um militar do exército que serviu em Sergipe durante algum tempo e que estava presente por ocasião do crime de Carlos Firpo. O livro dedica sete páginas ao acontecimento, no que se constitui como o mais amplo trabalho escrito da época. Bragança diz, na conclusão do seu opúsculo, que tinha o objetivo de “contar aos brasileiros como se desenrola a vida em Sergipe”. E o faz, mostrando uma realidade dantesca do Estado naquela época, tanto no campo da economia como na política. Recolhi algum material e guardei. Mais tarde, nos anos de 1990, fiz amizade com o jurista Evandro Lins e Silva, que era meu colega Conselheiro Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, e que atuara na defesa de Milena e de seu pai Nicola Mandarino. Inquiri Evandro, durante vários anos, sobre o crime de Carlos Firpo e ele me falou dos bastidores do processo, da sua atuação, da briga com o seu colega e amigo Sobral Pinto, que atuou na acusação, da sua tese sobre o verdadeiro motivo do crime. Enfim, num encontro no Rio de Janeiro, por volta dos anos 2000/2001, onde ele tinha o seu escritório, voltamos a falar sobre o assunto. Falei-lhe da minha intenção de escrever um livro sobre o evento e ele me estimulou bastante, dizendo-me, inclusive, que eu iria fazer um resgate da verdadeira história e do sofrimento da família Mandarino. Depois de me entregar alguns recortes e dados do processo, Evandro aceitou meu convite para escrever o prefácio, mas morreu em 2002, não chegando a deixá-lo pronto.

Após a sua morte, adiei um pouco o meu projeto, até porque tinha algumas dúvidas sobre uns acontecimentos e precisava dirimi-las. Desde 1970 venho conversando e gravando depoimentos com muitos sergipanos e testemunhas oculares de alguns fatos ocorridos ao redor do crime. Dentre tantos, destaco o advogado Achiles Lima, que atuou na acusação ao lado de Sobral Pinto; Humberto Mandarino; Evandro Lins e Silva; Milena Mandarino; Seixas Dória; Desembargador Antônio Machado, Secretário de Segurança Pública à época do crime; Lauro Porto, parente da família Mandarino; médico Antônio Garcia, autor da letra da música Injustiçada, gravada por Alcides Gerardi, onde defende a honra de Milena Mandarino; policial José Rozendo Santos; e Luiz Eduardo Costa. Tive acesso a gravações dos programas dos radialistas Silva Lima e Santos Mendonça, ambos de grande audiência em todo Estado; jornais da época; petições dos advogados de defesa Evandro Lins e Silva, José Laurindo Cerqueira e José Mesquita Santos; cópia do inquérito e do processo judicial com os seus recursos e decisões. Em 2008, cinquenta anos depois do crime, uma bomba estourava na imprensa sergipana. O jornalista Luiz Eduardo Costa começaria a escrever, no Jornal do Dia de Aracaju, uma série de artigos sobre o malfadado evento da rua de Campos. E traz uma novidade que resgata toda uma estória criada durante o inquérito policial dirigido pelo Secretário de Justiça da época, Heribaldo Vieira: a questão da confissão de Milena Mandarino Firpo. Apesar de estar acompanhado por José Machado de Souza, vice-governador do Estado, Lauro Porto, Seixas Dória - então deputado federal - e de Humberto Mandarino, irmão da viúva, Heribaldo Vieira foi ouvi-la em sua residência, contudo, não deixou os seus acompanhantes adentrarem ao quarto para assistirem ao depoimento. No dia seguinte, Heribaldo anunciava na imprensa a confissão de Milena, que ao lado do seu amante, Coronel Afonsinho, seriam os mandantes da morte do marido.

A verdade é que Milena repeliu todas as acusações e perguntas impertinentes de Heribaldo, o que a levou, a certa altura do depoimento, ao desmaio. Na manhã seguinte, com as emissoras de rádio falando sobre a confissão, Milena negou o seu conteúdo. A esta altura, justiça e opinião pública estavam com a cabeça feita e imediatamente a prisão de Milena foi decretada, sendo recolhida ao reformatório penal do Bairro América. Mas qual a novidade trazida pelo jornalista Luiz Eduardo Costa, cinquenta anos depois? De posse de sete assinaturas de Milena Mandarino Firpo, “feitas ao longo do inquérito policial e do processo, em diferentes datas e em diversos documentos”, Luiz Eduardo procurou o advogado e funcionário aposentado do Banco do Brasil, Antonio Newton de Oliveira Porto, perito grafotécnico, notório conhecedor da matéria e com vasta experiência na área. Dentre as sete assinaturas, estava aquela que ratificava a confissão. Após alguns dias, o perito Porto elaborava o seu laudo e afirmava textualmente que assinatura de número sete (justamente aquela do depoimento prestado por Milena a Heribaldo em sua casa) era falsa e não fora do punho da subfirmada. Como é do conhecimento de todos, na confissão alguém reconhece como verdadeira a existência de um fato que lhe é desfavorável, ou seja, uma declaração voluntária de ciência de um fato. Sendo irrevogável, a confissão só poderá ser anulada quando emanada de erro de fato, falsidade ou se feita sob coação. Quem mandou matar Carlos Firpo? O que estava por trás do assassinato? Por que toda uma trama foi urdida para desmoralizar uma mulher e sua família? Por que a polícia e a justiça, apesar do depoimento da viúva de que não assinara o depoimento prestado na polícia, não determinaram na época o exame grafotécnico da assinatura? Quem foram os verdadeiros mandantes do crime? Quais os motivos? Por que mataram Carlos Firpo? São perguntas que, em breve, poderão ser respondidas por duas obras a serem lançadas neste ano. 

Clóvis Barbosa escreve aos sábados, quinzenalmente


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
24/12
15:34

Carta aos Desinteressados

No artigo da quinzena passada, repassei para os leitores o teor de um discurso que proferi na posse do desembargador Aloísio de Abreu Lima no cargo de presidente do Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe. À época, estava pela segunda vez dirigindo os destinos da OAB-SE. A minha intenção foi mostrar o estado de decomposição social que o Brasil vivia naqueles tempos. Hoje, trato de um novo discurso que proferi durante o ato de posse e transmissão da presidência da entidade para o advogado Jorge Aurélio, solenidade ocorrida em 1º de fevereiro de 1991, dois anos antes, portanto, do evento objeto do artigo anterior. Dizia eu, então, que muito me honrava presidir aquela sessão, na qual transmitia as insígnias e o bastão de comando da nossa corporação para o novo presidente. Não penso que, no momento em que encerro dois anos extremamente felizes e que pareceram côncavos - porquanto cheios de acontecimentos, cheios de articulação com a realidade e com a cidadania - eu deva fazer um discurso formal. Será uma mera prestação de contas feita por um advogado humilde, que teve a honra e a responsabilidade de um dia assumir a presidência da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção de Sergipe, cujo bastão de comando, há dois anos, recebi das mãos fortes e honradas do professor José Silvério Leite Fontes. Termino o mandato de presidente da OAB-SE mais consciente da função que devem desempenhar as instituições civis não partidárias na sociedade brasileira, especialmente a Ordem dos Advogados, sem prejuízo da seleção, disciplina e defesa dos profissionais da advocacia. 

Esta consciência afigurou-se mais ainda durante a nossa gestão. Embora a nível nacional tivéssemos um Conselho Federal comprometido com o Estatuto na parte das questões institucionais, assistíamos a inércia, a omissão dos conselhos seccionais nesses problemas, dando prioridade a um discurso corporativista de que a OAB deve conduzir a sua curiosidade, só e somente, para as questiúnculas da classe. Em todas as conferências de advogados brasileiros, promovidas bianualmente pelo Conselho Federal, este discurso corporativista era execrado pela imensa categoria, como bem disse Fabio Konder Comparato, durante a Conferência de Florianópolis: “Enquanto o corporativismo, o clientelismo e o cartorialismo existirem, jamais construiremos um país decente”. Não foi defendendo os privilégios da profissão de advogado que a OAB conquistou a credibilidade da sociedade civil brasileira. Não foi agalopado em discurso corporativista que a OAB se constituiu numa entidade respeitada no Brasil e no mundo. Foi com luta, muita luta. Luta contra a ditadura militar, que oprimiu a nação e se baqueou inerte ante a altivez e perseverança de uma entidade que orgulha o povo brasileiro. E foi diante dessa tenacidade que muitos advogados foram perseguidos, assassinados e o próprio Conselho Federal teve uma sua funcionária, Dona Lida Monteiro da Silva, ceifada por uma carta-bomba. E por que a OAB privilegiou a luta institucional em detrimento do corporativismo? 

Porque raciocinou que não adiantaria fechar-se em si mesma, deixando de lado o aprofundamento de uma crise que cada vez mais se espelhava no horizonte deste país. Era preciso questionar e fazer a reflexão de um mundo injusto que estávamos criando, muitas vezes até inconscientemente. Era necessário mudar o modelo social que se erguia, pois não adiantava que a situação do advogado estivesse boa e a da maioria da população estivesse ruim. Veio a redemocratização do país, criamos uma nova constituição, fizemos eleições diretas para presidente, e o que se assiste: a violação cotidiana do texto constitucional; o desrespeito ao dinheiro público; a corrupção institucionalizada; o entreguismo do patrimônio público aos amigos e apaniguados do poder político; a distribuição de cargos para pessoas despreparadas e incompetentes, para atender escusos interesses e conchavos políticos; um poder legislativo que perde cotidianamente a sua capacidade de deliberar, deixando de ser  um poder autônomo, independente, para ser um mero cartório de registro da vontade do executivo. Aí está o exemplo da indignidade desse Poder que não tem vontade própria, dependendo hoje da indicação do governador para eleger o seu presidente. E os partidos políticos cada vez mais atrasados? A ambiguidade, a vacilação, a falta de relação entre a palavra e a prática são incompatíveis num partido político moderno.

A deterioração das nossas instituições está levando o país ao caos. São milhões de famintos, são milhões de menores carentes e abandonados, é o sucateamento das empresas estatais construídas com o suor do povo, é o descompromisso com a educação, a saúde pública, com a habitação e, sobretudo, com o homem. Lamentavelmente, estamos construindo um país sem futuro. Por isso, não é nenhuma novidade encontrar-se a OAB à frente de uma transformação da sociedade brasileira, no seu papel de denunciar, processar, bradar contra a injustiça social que assola no país. A OAB foi, a nível nacional, quem mais contribuiu com emendas à Constituição, cumprindo assim o seu Estatuto que a obriga a colaborar para o aperfeiçoamento das instituições. Foi dentro dessa postura que assumi a presidência da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção de Sergipe. Cumpri o Estatuto que jurei defender quando da minha posse. Ademais, havia uma cumplicidade entre as teses da OAB e o homem político Clóvis Barbosa. Considero-me não uma testemunha, mas um partícipe desse drama humano pela sobrevivência que dilacera a alma brasileira. Não poderia trair o meu passado de homem pobre, filho de pais humildes com prole numerosa, que aos nove anos de idade foi obrigado a enfrentar o mundo para comer e contribuir para a sobrevivência dos seus irmãos menores. Não li nos livros! Experimentei, convivi com as humilhações, desventuras e as angústias do homem oprimido, que constrói a riqueza dessa nação e não se lhe permite a participação nos seus frutos. 

Foram essas experiências cruéis vividas neste mundo de miséria, dominação do homem pelo homem, de injustiças, que fizeram com que minha alma fosse incrustada de um sentimento contestador. Não de revolta, mas de que era necessário dar a minha contribuição ao processo de transformação social dessa realidade. Agora, pergunto, perquirindo: qual a novidade dessa atuação da OAB, quando seu Estatuto a tudo isso obriga? Não temos que defender a Constituição? Não temos que defender os direitos humanos? Não temos que contribuir com o aperfeiçoamento das instituições? Então, cumprir o Estatuto da OAB é ser arrivista? É gostar de aparecer? É utilizar a Ordem como trampolim político? É ser irresponsável pelo simples fato de ter questionado, aí sim, a irresponsabilidade de um representante da classe empresarial que num jornal da cidade disse que não iria ficar de braços cruzados diante dos arrombamentos que menores infratores vinham fazendo em lojas do comércio da cidade? Quero dizer aos meus colegas advogados que nada do que fiz como presidente esteve fora da Lei nº 4.215, de 1963 (Estatuto da OAB, à época). Daí o desespero de uma minoria da nossa corporação, engatada na classe dominante, que atua sorrateiramente contra os interesses da sociedade e da própria corporação, que fazem do puxa-saquismo, do engodo, da peta, do logro, instrumentos de manutenção dos seus privilégios em detrimento da triste realidade social em que vivemos.

No campo político-institucional, portanto, estou convencido que agi com acerto e de acordo com as decisões expressas pelo nosso Conselho Pleno e com as teses dos advogados brasileiros, radiografadas nos anais de suas Conferências Nacionais. Não existe trabalho mais difícil do que o de lutar pela transformação social, de forma pacífica e sem poder econômico. Se a luta pela democracia e contra o autoritarismo para nós, simples advogados, é, por um lado, um dever, é, por outro, encargo pesado que não dispensa a coragem, a audácia e o desprendimento. Quando refletimos sobre a nossa história e consultamos a historiografia nacional, ainda mais nos persuadimos de que o trabalho político-institucional haverá de percorrer um longo caminho, enfrentando resistências e superando contradições. Penso que os colonizadores portugueses transmitiram práticas políticas que, ajustadas a cada ciclo histórico, têm contribuído para obstaculizar ou retardar o avanço social. O historiador José Honório Rodrigues observa que “as lideranças sucessivas, ajudadas pelas elites, foram sempre muito conservadoras. O conservadorismo é anticonspiratório e anti-histórico, por essência, nem confia na intervenção, nem se considera aliado da história. Não crê no futuro, mas somente no instante presente, participa do dia-a-dia rotineiro e com a fome que traz se farta em comer e devorar os pequenos”. Deixo, destarte, para o novo presidente, uma entidade que se transformou nesses dois anos no repositório, na depositária das angústias do homem humilde, do oprimido, daqueles que são destinatários esmagados na ordem jurídica posta. Não feche a porta da OAB àqueles que têm sede de justiça. 

Enfim, deixo a maior das heranças: o respeito e a credibilidade do povo sergipano a esta entidade que hoje não pertence somente aos advogados, mas é um patrimônio do povo de nossa terra. Agradeço a todos que me aconselharam e ajudaram nessa tarefa difícil. Aos pares da minha diretoria, aos conselheiros, aos servidores e à brava classe da qual orgulhosamente pertenço. Ao deputado Marcelo Déda, que viabilizou as propostas da OAB durante o processo de elaboração da Constituição Estadual nas partes dos Direitos e Garantias Fundamentais, Segurança Pública e Defesa dos Cidadãos, e na criação do Conselho Estadual de Justiça, lamentavelmente obstaculizada por uma liminar do Supremo Tribunal Federal por requerimento da Associação dos Magistrados do Estado de Sergipe. Agradeço,  também, ao povo sergipano, aos Delegados Regionais do Trabalho, neste Estado, Lealdo Feitosa e Nivaldo Elias, aos sindicatos, aos partidos políticos, às entidades civis ligadas ao meio ambiente, aos engenheiros, aos médicos, assistentes sociais, servidores públicos e, por fim, à brava imprensa sergipana, cúmplice das ações da OAB na defesa dos direitos humanos e da cidadania. Registro que nunca imaginei exercer tão importante mandato, que me obrigou a superar a mim mesmo. E, seja a que título for, afirmo que não exercerei nenhum que a ele se equipare; pelo conceito que dele tenho e pelo fascínio que me envolveu. Retorno à simplicidade e ao cotidiano da advocacia mais maduro, convencido de que, além da importância técnico-jurídica do exercício profissional, não podemos nos furtar da dimensão política inerente à responsabilidade de cada um de nós enquanto cidadãos brasileiros. 

Este discurso também era um desabafo, diante das críticas que recebia dos advogados que pensavam a entidade como uma casa de discussão de assuntos corporativos. Faltou, no entanto, dizer, como na música Carta aos Desinteressados, Quem vocês pensam que sou? Quem vocês acham que são? Ninguém vai me segurar quando eu cair no chão...

Autor: Clóvis Barbosa
 


Coluna Clóvis Barbosa
Com.: 0
Por Redação
09/12
16:05

Mãe, no céu tem pão?

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

No dia 1º de fevereiro de 1993, na qualidade de presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção de Sergipe, proferi discurso na posse do desembargador Aloísio de Abreu Lima no cargo de presidente do Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe. Naquele dia, quando se cumpriam os rituais de transmissão dos cargos de direção da Casa – Presidente, Vice e Corregedor – estava ali não por um dever de mera cortesia, mas de ofício, visto ser o advogado, constitucionalmente, elemento indispensável à administração da Justiça. Por isso, a presença da Ordem dos Advogados do Brasil, naquele momento histórico, se constituía num fato marcante, onde as relações que devem ser mantidas entre a OAB e o Poder Judiciário sempre serão as melhores, desde que fundadas na verticalidade, na transparência dos gestos e na compreensão, oferecidas mutuamente. Dizia eu naquele momento que, tirante o aspecto solene de que se revestia aquele ato, o momento também era o da reflexão. Dizia André Gide que “todas as coisas já foram ditas; mas como ninguém escuta, força é recomeçar sempre”. E não poderia deixar de abordar um tema atual que envolve cada um de nós, individualmente e enquanto responsáveis pelos Poderes Constituídos, pela magistratura, pelo Ministério Público, pela advocacia, instrumentalizadores de uma sociedade que deve ter na ética e no bem comum os caminhos obrigatórios e permanentes. Se Maquiavel julgou necessário separar a política da ética é porque a proximidade de ambas é inevitável. Uma e outra atuam no mesmo território, o das ações humanas. E ambas têm o mesmo objetivo, o bem. O bem comum, no caso da política, e o bem em abstrato, no da ética. Mas há um momento em que elas claramente se distinguem, como ensina Norberto Bobbio – o critério segundo o qual se julga boa ou má uma ação é radicalmente diferente, segundo se esteja no campo da ética ou da política.

A ética julga uma ação de acordo com sua observância a um princípio. Já a política julga-a pelo resultado. Faça o que deve, aconteça o que acontecer, este é o imperativo da ética, segundo Bobbio. O da política é: Faça de acordo com o que você deseja que aconteça. O pensador italiano embasa seu raciocínio nas lições do mestre da ciência política, o alemão Max Weber, que distinguia entre ética da convicção e ética de resultados. Ética de convicção é ética propriamente dita, aquela que obedece a princípios. Não matarás é o princípio e ponto final. O homem ético não mata porque assim o princípio ordena. Já na ética de resultados, que é a da política, o princípio de não matar conhece uma importante exceção nos países que adotam a pena de morte. A questão aqui é o resultado. Mata-se com a convicção de que a pena de morte é intimidatória. Portanto, o resultado de sua aplicação pode ser bom para a coletividade. A ética que Maquiavel separou da política é a da convicção, para ficar na terminologia de Weber. É a ética dos princípios. O que Maquiavel tinha em vista era chamar a atenção para sua grande norma norteadora, a de que, em política, os fins justificam os meios. Os Estados podem fazer guerra, algo eticamente condenável, porque o que importa é o resultado. E o resultado é que o Estado, se estiver em boas condições de guerrear, ficará mais rico e poderoso, o que será bom para a coletividade que o habita. Maquiavel estava inventando a razão do Estado, algo que pode ser definido como a imoralidade sancionada em nome da política. Ou seja, do bem comum. Mas em nenhum momento estava dizendo que o governante poderia roubar. Em outras palavras, sua doutrina vale para os atos de governo dos dirigentes, aquelas ações que têm por objetivo o bem comum. Mas não é válida para sua conduta pessoal, aquela órbita privada e doméstica que, para qualquer outro cidadão, deve ser regida pela ética.

Este brilhante ensaio do jornalista Roberto Pompeu de Toledo, Revista Veja, edição 1256, a respeito da bandeira da moralidade que acabou derrubando o presidente Collor, reacendeu o antigo debate entre moral e política. Fora, entretanto, da discussão acadêmica - que deve ser perseguida - interessa, aqui, demonstrar as consequências drásticas para a sociedade brasileira da falta de cumprimento da ética das convicções de que nos fala Weber, institucionalizada no país nos últimos anos, quando a corrupção passou a ser a regra e a decência a exceção. A ética que predomina na nação nos últimos quinze anos é a do resultado pessoal - não abordada por nenhum cientista político - em detrimento do bem comum. Estamos num país em que um grande líder empresarial, da poderosa FIESP, confessa “que todos nós somos corruptos”, que um Senador da República afirma textualmente, perante as câmeras de televisão, em rede nacional, “que todos são sonegadores”. Estamos num país em que a Constituição de 1988 - mormente em relação aos princípios que regem a administração pública, como os da legalidade e da moralidade - é letra morta. Saímos de um processo elogiável quando, pela primeira vez na história, afastou-se um governante corrupto. Dias depois, a sociedade brasileira assistiu atônita as condições em que as prefeituras foram entregues aos novos executivos, totalmente dilapidadas. A “Belíndia” do período 1950 a 1980 tinha acabado. A constatação é do próprio autor da feliz expressão que sintetizava as desigualdades sociais do país, o economista Edmar Bacha. Se o Brasil já era o campeão mundial em concentração de renda, a situação ficou pior com a corrupção desenfreada, com a falta de investimentos estrangeiros e com a extinção da ética nas atividades produtivas, gerando a maior crise já vista na história do país.

O país entrou na década de 1990 com um terço da população - 45 milhões de pessoas ou 11 milhões de famílias - abaixo da linha de pobreza, o que significa uma renda mensal de até ¼ do salário mínimo. A miséria não era mais uma condição típica das áreas rurais. De cada dez brasileiros pobres, cinco moravam em cidades. Era nas aglomerações urbanas que, segundo Bacha, começaram a eclodir os sintomas de uma perigosa desintegração social. Os riscos eram potencializados por uma inflação de três dígitos. Só existiam no mundo dois países com um custo de vida tão alto: a Rússia e o Brasil. Tínhamos, naquela época, as previsões mais sombrias para o final do século. De norte a sul do país, as ruas eram tomadas pelos miseráveis: a recessão completava o quadro trágico delineado nos anos 80. A década perdida devastou o povo brasileiro e os anos 90 deixaram as portas abertas para a miséria. O aumento da concentração de renda nos anos 80 expunha suas consequências funestas nos quatro cantos do país. De norte a sul, não havia mais ilhas da fantasia imunes ao assustador crescimento das favelas ou, pior ainda, da população de rua. Na época, 1993, o Brasil tinha 33,5 milhões de pessoas classificadas como “indigentes” pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o IPEA. De acordo com o IBGE, 43,1% das crianças de até 5 anos viviam em estado de extrema pobreza, ou seja, conviviam com a mais escura fome. Fome, como a do menino Anselmo, de 4 anos, que em seu delírio, na noite antes de morrer, perguntou à mãe, Joana Matias, moradora da Favela do Pirambu, em Fortaleza: “Mãe, no céu tem pão?” Nem São Paulo, a mais rica cidade do país, escapou do empobrecimento. A Secretaria Municipal de Abastecimento distribuía, diariamente, 1,1 milhão de refeições, não só para os mendigos, mas para um grande número de trabalhadores desempregados.

A decadência paulistana havia dado passos largos no último semestre de 1992: 63% dos atendidos pela rede de solidariedade estavam morando nas ruas havia menos de seis meses, informava a Secretaria de Bem-Estar Social. A recessão pode explicar tudo: a taxa de desemprego na Grande São Paulo passou dos 9% em 1990 para 15% em 1992. A capital paulista tinha, então, 1,2 milhão de desempregados, de acordo com a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (SEADE). Em Fortaleza, a miséria aguda se tornou crônica. Pesquisa da Prefeitura mostrava que a maioria dos habitantes de cinco favelas da capital cearense era integrante da chamada “população-não economicamente-ativa”, a classificação dada pelos estatísticos às pessoas que não têm emprego e já desistiram de procurar. De acordo com a UNICEF, a faixa de pobreza na população infanto-juvenil do Ceará passou de 62,5% para 70,4% em 1989. Em Salvador, 60% de seus moradores viviam em estado de pobreza crítica, ou seja, 1,5 milhão dos cerca de 2,5 milhões de habitantes. Foi o que constatou pesquisa do professor Fernando Pedrão, da Universidade Federal da Bahia. A desnutrição atingia 54% das crianças de 0 a 7 anos da periferia da cidade e apenas 30% da população da capital baiana vivia em regiões servidas por esgotos sanitários. Maceió era a capital das doenças da fome: 26% das crianças que morriam antes de completar um ano de idade eram vítimas de diarreias, doenças infectocontagiosas e respiratórias. A cidade alagoana, assim como a capital de Pernambuco, não conseguiu sequer conter a cólera. Recife teve 7.900 casos de fevereiro a novembro de 1992. A falta de saneamento básico atingia 80% da população urbana e havia 600 mil famílias morando em favela. Aracaju não fugia à regra das demais capitais brasileiras, sendo os aumentos dos bolsões de miséria uma tônica, respaldada pela degradação escancarada nas cenas de miséria explícita pelas ruas de nossa capital.

O relatório sobre a situação alimentar e nutricional do Brasil, organizado pela FAO-OMS e levado pelo governo à Primeira Conferência Internacional sobre Nutrição, realizada em dezembro de 1992 em Roma, é inequívoco: “As condições de vida de 67% dos brasileiros não atingem os níveis mínimos de consumo alimentar recomendados pela FAO-OMS, de 2.400 calorias-dia, provocando altos índices de desnutrição, nanismo e mortalidade infantil; O índice de mortalidade infantil, 64 óbitos por mil nascimentos, só é inferior na América Latina aos de Honduras e Bolívia; Dos 58,6 milhões de crianças e adolescentes (0 a 17 anos), que representam cerca de 41% da população, 30% vivem na pobreza absoluta; 75 milhões de pessoas (71% da população) vivem na zona urbana sem esgoto sanitário, 13 milhões não têm água potável, 34 milhões não têm coleta de lixo e, no meio rural, 17 milhões (44% da população rural) não tem água de boa qualidade”. Enquanto isso, uma minoria de brasileiros vivia igual ou superior à maioria dos ricos dos países adiantados e do primeiro mundo. Fingiam inexistir esse quadro de miséria, não sabendo que estávamos criando um país sem futuro. Era o Brasil que a gente vivia!

Pois é! Saímos dessa situação nos anos seguintes: nos governos FHC, Lula e nos primeiros anos do governo Dilma. Estamos retornando ao caos? Deus queira que não!

Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente, na edição de fim de semana.


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
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