09/12
16:05

Mãe, no céu tem pão?

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

No dia 1º de fevereiro de 1993, na qualidade de presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Seção de Sergipe, proferi discurso na posse do desembargador Aloísio de Abreu Lima no cargo de presidente do Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe. Naquele dia, quando se cumpriam os rituais de transmissão dos cargos de direção da Casa – Presidente, Vice e Corregedor – estava ali não por um dever de mera cortesia, mas de ofício, visto ser o advogado, constitucionalmente, elemento indispensável à administração da Justiça. Por isso, a presença da Ordem dos Advogados do Brasil, naquele momento histórico, se constituía num fato marcante, onde as relações que devem ser mantidas entre a OAB e o Poder Judiciário sempre serão as melhores, desde que fundadas na verticalidade, na transparência dos gestos e na compreensão, oferecidas mutuamente. Dizia eu naquele momento que, tirante o aspecto solene de que se revestia aquele ato, o momento também era o da reflexão. Dizia André Gide que “todas as coisas já foram ditas; mas como ninguém escuta, força é recomeçar sempre”. E não poderia deixar de abordar um tema atual que envolve cada um de nós, individualmente e enquanto responsáveis pelos Poderes Constituídos, pela magistratura, pelo Ministério Público, pela advocacia, instrumentalizadores de uma sociedade que deve ter na ética e no bem comum os caminhos obrigatórios e permanentes. Se Maquiavel julgou necessário separar a política da ética é porque a proximidade de ambas é inevitável. Uma e outra atuam no mesmo território, o das ações humanas. E ambas têm o mesmo objetivo, o bem. O bem comum, no caso da política, e o bem em abstrato, no da ética. Mas há um momento em que elas claramente se distinguem, como ensina Norberto Bobbio – o critério segundo o qual se julga boa ou má uma ação é radicalmente diferente, segundo se esteja no campo da ética ou da política.

A ética julga uma ação de acordo com sua observância a um princípio. Já a política julga-a pelo resultado. Faça o que deve, aconteça o que acontecer, este é o imperativo da ética, segundo Bobbio. O da política é: Faça de acordo com o que você deseja que aconteça. O pensador italiano embasa seu raciocínio nas lições do mestre da ciência política, o alemão Max Weber, que distinguia entre ética da convicção e ética de resultados. Ética de convicção é ética propriamente dita, aquela que obedece a princípios. Não matarás é o princípio e ponto final. O homem ético não mata porque assim o princípio ordena. Já na ética de resultados, que é a da política, o princípio de não matar conhece uma importante exceção nos países que adotam a pena de morte. A questão aqui é o resultado. Mata-se com a convicção de que a pena de morte é intimidatória. Portanto, o resultado de sua aplicação pode ser bom para a coletividade. A ética que Maquiavel separou da política é a da convicção, para ficar na terminologia de Weber. É a ética dos princípios. O que Maquiavel tinha em vista era chamar a atenção para sua grande norma norteadora, a de que, em política, os fins justificam os meios. Os Estados podem fazer guerra, algo eticamente condenável, porque o que importa é o resultado. E o resultado é que o Estado, se estiver em boas condições de guerrear, ficará mais rico e poderoso, o que será bom para a coletividade que o habita. Maquiavel estava inventando a razão do Estado, algo que pode ser definido como a imoralidade sancionada em nome da política. Ou seja, do bem comum. Mas em nenhum momento estava dizendo que o governante poderia roubar. Em outras palavras, sua doutrina vale para os atos de governo dos dirigentes, aquelas ações que têm por objetivo o bem comum. Mas não é válida para sua conduta pessoal, aquela órbita privada e doméstica que, para qualquer outro cidadão, deve ser regida pela ética.

Este brilhante ensaio do jornalista Roberto Pompeu de Toledo, Revista Veja, edição 1256, a respeito da bandeira da moralidade que acabou derrubando o presidente Collor, reacendeu o antigo debate entre moral e política. Fora, entretanto, da discussão acadêmica - que deve ser perseguida - interessa, aqui, demonstrar as consequências drásticas para a sociedade brasileira da falta de cumprimento da ética das convicções de que nos fala Weber, institucionalizada no país nos últimos anos, quando a corrupção passou a ser a regra e a decência a exceção. A ética que predomina na nação nos últimos quinze anos é a do resultado pessoal - não abordada por nenhum cientista político - em detrimento do bem comum. Estamos num país em que um grande líder empresarial, da poderosa FIESP, confessa “que todos nós somos corruptos”, que um Senador da República afirma textualmente, perante as câmeras de televisão, em rede nacional, “que todos são sonegadores”. Estamos num país em que a Constituição de 1988 - mormente em relação aos princípios que regem a administração pública, como os da legalidade e da moralidade - é letra morta. Saímos de um processo elogiável quando, pela primeira vez na história, afastou-se um governante corrupto. Dias depois, a sociedade brasileira assistiu atônita as condições em que as prefeituras foram entregues aos novos executivos, totalmente dilapidadas. A “Belíndia” do período 1950 a 1980 tinha acabado. A constatação é do próprio autor da feliz expressão que sintetizava as desigualdades sociais do país, o economista Edmar Bacha. Se o Brasil já era o campeão mundial em concentração de renda, a situação ficou pior com a corrupção desenfreada, com a falta de investimentos estrangeiros e com a extinção da ética nas atividades produtivas, gerando a maior crise já vista na história do país.

O país entrou na década de 1990 com um terço da população - 45 milhões de pessoas ou 11 milhões de famílias - abaixo da linha de pobreza, o que significa uma renda mensal de até ¼ do salário mínimo. A miséria não era mais uma condição típica das áreas rurais. De cada dez brasileiros pobres, cinco moravam em cidades. Era nas aglomerações urbanas que, segundo Bacha, começaram a eclodir os sintomas de uma perigosa desintegração social. Os riscos eram potencializados por uma inflação de três dígitos. Só existiam no mundo dois países com um custo de vida tão alto: a Rússia e o Brasil. Tínhamos, naquela época, as previsões mais sombrias para o final do século. De norte a sul do país, as ruas eram tomadas pelos miseráveis: a recessão completava o quadro trágico delineado nos anos 80. A década perdida devastou o povo brasileiro e os anos 90 deixaram as portas abertas para a miséria. O aumento da concentração de renda nos anos 80 expunha suas consequências funestas nos quatro cantos do país. De norte a sul, não havia mais ilhas da fantasia imunes ao assustador crescimento das favelas ou, pior ainda, da população de rua. Na época, 1993, o Brasil tinha 33,5 milhões de pessoas classificadas como “indigentes” pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o IPEA. De acordo com o IBGE, 43,1% das crianças de até 5 anos viviam em estado de extrema pobreza, ou seja, conviviam com a mais escura fome. Fome, como a do menino Anselmo, de 4 anos, que em seu delírio, na noite antes de morrer, perguntou à mãe, Joana Matias, moradora da Favela do Pirambu, em Fortaleza: “Mãe, no céu tem pão?” Nem São Paulo, a mais rica cidade do país, escapou do empobrecimento. A Secretaria Municipal de Abastecimento distribuía, diariamente, 1,1 milhão de refeições, não só para os mendigos, mas para um grande número de trabalhadores desempregados.

A decadência paulistana havia dado passos largos no último semestre de 1992: 63% dos atendidos pela rede de solidariedade estavam morando nas ruas havia menos de seis meses, informava a Secretaria de Bem-Estar Social. A recessão pode explicar tudo: a taxa de desemprego na Grande São Paulo passou dos 9% em 1990 para 15% em 1992. A capital paulista tinha, então, 1,2 milhão de desempregados, de acordo com a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (SEADE). Em Fortaleza, a miséria aguda se tornou crônica. Pesquisa da Prefeitura mostrava que a maioria dos habitantes de cinco favelas da capital cearense era integrante da chamada “população-não economicamente-ativa”, a classificação dada pelos estatísticos às pessoas que não têm emprego e já desistiram de procurar. De acordo com a UNICEF, a faixa de pobreza na população infanto-juvenil do Ceará passou de 62,5% para 70,4% em 1989. Em Salvador, 60% de seus moradores viviam em estado de pobreza crítica, ou seja, 1,5 milhão dos cerca de 2,5 milhões de habitantes. Foi o que constatou pesquisa do professor Fernando Pedrão, da Universidade Federal da Bahia. A desnutrição atingia 54% das crianças de 0 a 7 anos da periferia da cidade e apenas 30% da população da capital baiana vivia em regiões servidas por esgotos sanitários. Maceió era a capital das doenças da fome: 26% das crianças que morriam antes de completar um ano de idade eram vítimas de diarreias, doenças infectocontagiosas e respiratórias. A cidade alagoana, assim como a capital de Pernambuco, não conseguiu sequer conter a cólera. Recife teve 7.900 casos de fevereiro a novembro de 1992. A falta de saneamento básico atingia 80% da população urbana e havia 600 mil famílias morando em favela. Aracaju não fugia à regra das demais capitais brasileiras, sendo os aumentos dos bolsões de miséria uma tônica, respaldada pela degradação escancarada nas cenas de miséria explícita pelas ruas de nossa capital.

O relatório sobre a situação alimentar e nutricional do Brasil, organizado pela FAO-OMS e levado pelo governo à Primeira Conferência Internacional sobre Nutrição, realizada em dezembro de 1992 em Roma, é inequívoco: “As condições de vida de 67% dos brasileiros não atingem os níveis mínimos de consumo alimentar recomendados pela FAO-OMS, de 2.400 calorias-dia, provocando altos índices de desnutrição, nanismo e mortalidade infantil; O índice de mortalidade infantil, 64 óbitos por mil nascimentos, só é inferior na América Latina aos de Honduras e Bolívia; Dos 58,6 milhões de crianças e adolescentes (0 a 17 anos), que representam cerca de 41% da população, 30% vivem na pobreza absoluta; 75 milhões de pessoas (71% da população) vivem na zona urbana sem esgoto sanitário, 13 milhões não têm água potável, 34 milhões não têm coleta de lixo e, no meio rural, 17 milhões (44% da população rural) não tem água de boa qualidade”. Enquanto isso, uma minoria de brasileiros vivia igual ou superior à maioria dos ricos dos países adiantados e do primeiro mundo. Fingiam inexistir esse quadro de miséria, não sabendo que estávamos criando um país sem futuro. Era o Brasil que a gente vivia!

Pois é! Saímos dessa situação nos anos seguintes: nos governos FHC, Lula e nos primeiros anos do governo Dilma. Estamos retornando ao caos? Deus queira que não!

Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente, na edição de fim de semana.


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Por Kleber Santos
26/11
10:10

À queima roupa

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Em 2008, Antonio Marcos Pimenta Neves queria advogar. Mangação. Neves é aquele jornalista que, em 2000, matou a namorada por ciúmes. Sandra Gomide (a vítima), uma jovem com pouco mais de trinta anos, deu um fim no relacionamento que mantinha com o então sessentão porque se apaixonara pelo equatoriano Jaime Mantilla. Mas isso não vem ao caso. Relevante é a atração que o assassino começou a nutrir pela advocacia. Talvez porque também tencionasse matá-la. Com efeito, é o que iria suceder se a OAB-SP não desse um basta no surto do sociopata. Preconceito? Não. Admitir um homicida na OAB é o mesmo que aceitar um sádico tratando feridos de guerra ou um pedófilo como diretor de creches e orfanatos. A advocacia veio ao mundo com o propósito de defender a liberdade e a vida, coisas das quais Pimenta não entende patavina. A uma porque não deixou Gomide livre para escolher com quem viver. A duas porque nem a deixou viver.

Creio até que não era necessário recorrer à lei para brecar a sandice de Neves. Tudo bem que o Estatuto da Advocacia diga que uma das exigências para que o bacharel venha a ser advogado esteja ali onde ele apresente “idoneidade moral” (art. 8º, inciso VI, da Lei nº 8.906/1994). Tudo bem que o mesmo Estatuto prescreva que não é idôneo quem exibir uma condenação por crime infamante. Tudo bem que infamante seja aquele crime que atribui má-fama ao delinqüente (infamante ainda carrega essa acepção, a não ser que a reforma ortográfica também seja semântica). Tudo bem que Pimenta Neves não tenha lá uma das melhores famas (ele só matou a namorada com dois tiros, um dos quais na cabeça e à queima roupa – que bobagem). Tudo bem para tudo isso. Mas a lei era o que menos importava agora. O direito não se resolve na lei. O direito resolve-se a partir da lei. O direito, a rigor, resolve-se na ordem. Neves advogar é desordem.

Quando concebeu o “direito quântico” (na década de 1970), o professor Goffredo Telles Jr. sonhava com uma dimensão holística para a ciência. O vocábulo “holismo” foi usado pela primeira vez no final da década de 1920, por um sul-africano: Jan Christiaan Smuts. O holismo, em verdade, traduz uma filosofia segundo a qual a energia que regula todo o universo mantém-se harmônica em quaisquer das manifestações de existência. Seja na biologia, na física, na química, no direito etc. O que irá definir a ordem das coisas será aquilo que o filósofo bretão Pierre-Félix Guattari conceitua como “o domínio molecular do desejo, da inteligência, da sensibilidade”. Por exemplo, você já se perguntou por que o homicídio é repudiado em toda e qualquer civilização, por mais primitiva que ela possa transparecer aos olhos? Porque a “ordem” da vida, que a inteligência emana, está como que impregnando nossa alma genética.

O que for além da ordem será desordem. O ficar aquém da ordem também será desordem. Como cantou Gregório de Matos Guerra e feito em partes todo em toda parte, em qualquer parte sempre fica o todo. Veja que o “Boca do inferno”, já no século XVII, tinha a noção holística de acordo com a qual a parte, embora retirada do todo, não perde a impressão genética com que este a dotou. Bem assim o todo, que não deixa de sê-lo porque lhe suprimiram uma das partes. Daí dizer Gregório, no mesmo poema, que quando encontraram um braço do menino Jesus, não toparam apenas com o braço. Depararam-se com o menino Jesus em inteireza, porquanto o braço, que lhe acharam, sendo parte, nos disse as partes todas deste todo. Quem via o braço, via o Cristo. Bonito. Se Neves viesse a ser advogado, quem olhasse pela OAB veria uma alcateia. E quem olhasse para Neves, veria a OAB com a tez genética do crime.

A bíblia ensina que assim como algumas moscas mortas podem estragar um frasco inteiro de perfume, assim também uma pequena tolice pode fazer a sabedoria perder todo o valor (Ec 10,1). Caso Pimenta Neves passasse a ser parte da OAB, o aroma de liberdade que ela sempre exalou se dissiparia. Em seu lugar ficaria uma cor fétida de morte. Aliás, a mesma bíblia, no gênesis, narra a história de Agar, escrava de Abraão. Ali é dito que, como Sara, esposa do patriarca, era estéril, ela consentiu que Abraão deitasse com Agar e nela fizesse um filho. Nascida a criança (Ismael), Agar passou a humilhar Sara, solapando a alegria da família. Como punição, Agar foi abandonada no deserto de berseba. E Sara voltou a ter paz. Numa palavra, a quebra da harmonia não é holística. Rompe com o equilíbrio “genético”. Causa um câncer no convívio. O lugar de Pimenta Neves não era a casa da liberdade. É o deserto.


Post Scriptum

A joalheria 


Chiquito a vida inteira foi um homem pacato, sempre vivendo em função do seu trabalho - na compra e venda de produtos hortigranjeiros - e da sua família, representada pela mulher e três filhos. Mantinha uma rigorosa fidelidade à esposa e se gabava de nunca tê-la traído. Para se ter uma ideia, todos os dias levava para a mulher dois beijus molhados, sempre quentinhos, iguaria que comprava numa bodega a caminho de casa. Jamais sua conduta recebeu a mais tênue suspeita, aliás, a sua fama de fiel era contada em verso e prosa naquele grande município sergipano. As mulheres traídas, nas brigas com seus maridos, sempre citavam o exemplo de Chiquito como protótipo do verdadeiro homem. Até o pároco da cidade fazia questão de tecer as maiores loas ao seu comportamento nas homilias. Exagerado, certa vez ele falou: Fiel, perseverante e fecundo são as características do amor que Jesus tem pela Igreja, sua Esposa; são também, portanto, as características da união de Chiquito com a sua família. Dona Finha, sua mulher, fazia questão de elogiar a compostura do esposo nas reuniões com outras mulheres casadas. – Confio mais em Chiquito que em meus pais. Evidente que nessas amizades sempre tem uma mais ousada, desbocada, uma mal-amada, que adora melar a felicidade dos outros. - Ah! Minha filha, não acredito em homem fiel!!! Ele só o é até conhecer outra mulher. E quando conhece mais de uma, em duas não fica! Não acredito Finha, tenha santa paciência, não acredito!!! Finha retrucou: – Que horror! E entre os dentes: - Pura inveja! Mas o tempo passa e Chiquito, que sempre apoiou um grupo político da cidade, foi lançado candidato a vereador, tendo uma retumbante vitória, sendo o mais votado do município. O seu discurso era o mesmo: - Desafio que exista neste município um homem mais fiel do que eu. Fiel à esposa, à família, aos amigos, e agora aos meus eleitores. E sempre terminava com o bordão: - A fidelidade do amor. Sempre!!! Quatro anos mais tarde foi reeleito, tornando-se, novamente, o vereador mais votado. Isso o credenciou a assumir a Presidência da Câmara. Sua popularidade era crescente no município. Sempre esteve ao lado do seu grupo político original. Tinha uma fidelidade canina à líder do seu agrupamento, a deputada estadual Lucinha dos Guedes. Daí foi um pulo para Chiquito ser escolhido o candidato do grupo para disputar o executivo, quatro anos depois. Mais uma vez, ele deu um show e massacrou o candidato da oposição. Foi uma festa na cidade. Ele passou a ser assediado pelos caciques políticos do Estado, mas fazia questão de sempre discutir as questões com o seu grupo. Fez uma bela administração e revolucionou a cidade. O seu tino administrativo era admirado por todos e já se falava numa possível candidatura a Governador. Foi reeleito prefeito também com uma grande votação e era uma figura cada vez mais prestigiada. Bom, a partir daí as coisas começaram a mudar na vida pessoal e na gestão dos destinos da Prefeitura. Prá começo de história, anunciou que iria lançar o seu filho como candidato a deputado estadual. Isso fez com que rompesse com o seu aglomerado político, o que causou grande trauma em Lucinha dos Guedes. Passaram a ser inimigos e ele chamado de traidor. Sua administração, então, começou a ser radicalmente fiscalizada. A oposição não dava trégua e sua honestidade começou a ser colocada em dúvida. Mas, independentemente da guerra contra o administrador, era preciso investigar sua vida pessoal. Depois de muito trabalho, Mirinha de Adolfo, dona da principal joalheria da cidade, confessou à irmã, numa viagem a Miami-EUA, que Chiquito tinha três amantes: uma na cidade, outra na Capital e uma terceira numa cidade vizinha, todas clientes de sua loja. Como o prefeito tinha autorizado a colocar em sua conta qualquer compra feita por elas, Mirinha usava de astúcia para vender a sua mercadoria: - Quando uma comprava, eu ligava para a outra, avisando. ‘Fulana, ontem a sua rival da cidade vizinha esteve aqui e comprou um anel de 4 mil reais’. No dia seguinte a da capital corria e comprava uma joia de 6 mil. E assim tem sido feito. Estou tão feliz com as vendas, irmã! Pronto, a irmã de Mirinha contou para o marido, este para o irmão, o vizinho também ouviu e de repente estava na boca do povo e da oposição. Não precisa dizer mais nada. A fama da infidelidade de Chiquito atravessou os muros da cidade e se espalhou por todo o Estado. E ainda descobriram que ele não era o único das suas três amantes. Agora, além de sair da prefeitura, o pobre Chiquito perdeu a esposa, as amantes e a credibilidade. Pior ainda prá Mirinha de Adolfo, que amarga um prejuízo de mais de setenta mil reais das joias que não foram pagas.  

Clóvis Barbosa escreve quinzenalmente, na edição de fim de semana


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Por Kleber Santos
14/10
15:06

Quo Vadis?

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Estou particularmente seduzido pelo insight do governo pluripartidário. A lição não é nova. Barack Obama, todavia, rejuvenesceu a ideia. Reconheçamos que a iniciativa não partiu dele, mas de Colin Powell, que identificou no democrata o perfil ideal para o futuro presidente ianque. Nada demais, não fosse o fato de Powell ter sua ideologia tracejada segundo o cânon do republicanismo. Isso sem mencionar que ele ocupou o destacado cargo de secretário de estado numa administração pré-cambriana como a de George Bush. Em resumo, Obama e Powell eram adversários. Depois, contudo, o presidenciável conseguiu contar com o general da reserva no seu governo. Mas por quê? Elementar. Porque, como ensinava o ex-presidente Abraham Lincoln, a melhor maneira de aniquilar um inimigo é transformá-lo num amigo. A história está repleta de lições nesse sentido.

22 de junho de 1941. Londres. Dia em que Churchill manifestou irrestrita solidariedade aos soviéticos, cujo país acabara de ser invadido por Hitler. John Colville, secretário do premiê, entretanto, assombrado com a teórica incoerência do chefe - consistente em aliar-se com os comunistas que, no passado, quis ver esganados - censurou Churchill antes de ele começar o pronunciamento pelo rádio. Diante disso, o experiente primeiro-ministro, na altura dos seus 66 anos, não poderia perder a oportunidade de dar uma lição no assessor. “Meu filho, se Hitler invadisse o inferno, eu, no mínimo, faria uma referência favorável ao diabo”. Qual a lógica de Churchill? Compor com um antigo inimigo (Stalin) para assegurar a governabilidade mundial. Ambos tinham encontrado um inimigo externo comum, que afetava interesses também comuns. Daí, a inevitabilidade da coalizão, até como garantia de manutenção da paz pós-guerra.

A chave do poder, em situações desse naipe, está consubstanciada na permanente vigília que o inimigo impõe. Mas não só. O matiz de governabilidade que busca formar um correligionário no inimigo também parte da premissa segundo a qual este apresentará mais produtividade do que aquela que seria contabilizada pelo amigo. Por quê? Porque o amigo supõe que a contrapartida que ele tem para oferecer ao governante estimado é, única e exclusivamente, a amizade. Acontece que, em política, as relações são de complexidade subliminar. Seu feixe enrijece-se na medida em que elas se aperfeiçoam, encontrando fundamento na capacidade e na competência. Malgrado a etnia os aproximasse, a aliança entre ingleses e americanos foi posterior àquela que se testemunhou entre ingleses e russos, inimigos de antanho. Naquele momento, era útil gerir a guerra com os soviéticos, que demonstrariam gratidão no futuro.

Eis a acepção da coisa. Um inimigo agraciado por sua capacidade de produzir e por sua competência em formular jamais quererá, sequer, passar a impressão de que perdeu tais atributos. O amigo, no entanto, que é beneficiado sem que algum critério técnico acompanhe a nomeação para um cargo qualquer, fatalmente se tornará um ingrato. Sua psique não enxerga a obrigação de provar constante fidelidade. Para ele, a fidelidade sempre esteve provada. Essa proposição, porém, não encontra respaldo antropológico. Fidelidade é algo que se prova dia a dia. Um inimigo congraçado por ser capaz e competente transpira serventia e indispensabilidade. Ele não jogará fora a oportunidade de manter estendido o rol de asseclas. Como preconizam Robert Greene e Joost Elffers, “guarde os amigos para a amizade, mas para o trabalho prefira os capazes e competentes”. No fundo, congraçar tão somente amigos é desgraçar-se.

Prêmio Nobel de literatura em 1905, o escritor polonês Henryk Sienkiewicz (autor do festejado romance Quo vadis?) atesta o quanto é temerário entregar postos de relevante vulto a amigos, simplesmente porque eles são amigos. Quer uma evidência de tal ponto de vista? Imagine o leitor que está na Roma governada por Nero. O único pilar vivo do cristianismo é Pedro, a quem Cristo chamou de pedra angular da sua igreja. A matança de cristãos no obelisco do circo de Nero leva o psicopata ao êxtase. Pedro, de personalidade sempre oscilante (já havia negado o mestre três vezes no passado), resolve fugir da cidade. Já na via appia, tem uma visão. Cristo, carregando sua cruz, caminha em direção a Roma. Assim, Pedro, aturdido, indaga o rabi: “Quo vadis, domine?” (Aonde vais, senhor?). Jesus, de acordo com sermão de Santo Ambrósio, responde: “Venio iterum crucifigi” (Venho ser novamente crucificado).

A rigor, Cristo quis dizer algo do tipo: “Já que não pude contar com o único amigo que tinha para apascentar meu rebanho, vim eu mesmo”. Envergonhado, Pedro voltou. Diz a patrística que foi crucificado de cabeça para baixo. Por outro lado, Paulo (talvez o maior inimigo que o cristianismo já teve) após converter-se nunca temeu a morte e jamais fugiu dela. Por isso, foi chamado apóstolo das nações, escolhido a dedo por Jesus para difundir seus ensinamentos. Um inimigo que se tornou o maior de todos os aliados, porquanto fosse capaz e competente. São Pedro que me perdoe, mas não abrirei mão da tese. Quando nos depararmos com um oponente talentoso, devemos perguntar-lhe:   “Quo vadis?” e trazê-lo para o nosso lado. Coligar-se com quem digladiávamos é usar o aço da espada na armadura. Por conseguinte, faço minhas as palavras de Voltaire: “Deus me proteja dos meus amigos. Dos inimigos, cuido eu”.


Post Scriptum
O cavalo que anda de moto

Toda vez que vou à República Dominicana, onde vive uma parte de mim, surpreendo-me com o modus vivendi do seu povo. Passei recentemente oito dias naquele país, viajando direto por algumas de suas paragens. Punta Cana, Bávaro, Macao, Higüey, Boca de Yuma, Bayahibe, Domínicus, La Romana, San Pedro de Macoris, Boca Chica e Santo Domingo foram locais visitados. Seja por uma “carretera” recém-inaugurada, que liga Santo Domingo a Punta Cana, ou passando por estradas estreitas e sem acostamento, vê-se de tudo, inclusive como o país vive um drama de falta de civilidade no seu trânsito. As motos andam com cinco e até seis pessoas, muitas delas crianças, e o capacete (eles chamam de “casco”) só é obrigatório para o condutor. Presto atenção a tudo. Às placas nas estradas: “No cierre el cruce”, “Motorista use siempre el casco”, “Estación de peaje”, “No olvide usar el cinturon de seguridad”, “Pare em rojo”, “Despacio”, “Redusca velocidad”, “Verifique los frenos”, “Rebase com seguridad”, “Respete las siñales de transito”. E a propaganda política?  “Robert de La Cruz – diputado – Por el desarollo de nuestra província”, “Hamlet Melo, diputado”, “Juan Julio, senador 2016”, “Cholitin, senador – Voi por ti...”, “Ramon Ramires Manolito, síndico”, “Josecito, senador”, “Socrates Dias, regidor”, “José Maria, senador – el senador que el pueblo quiere”, “Juancito, alcalde”, “Miguel, presidente”, “Juana Vicente, senadora – capaz e servidora”. As eleições seriam realizadas em 2016, contudo, a campanha política já estava nas ruas desde o início do ano. As motos tomam conta das pequenas localidades. Nos fins de semana, a população mais pobre dos trabalhadores se reúne numa espécie de bodega para tomar rum. Depois saem, muitas vezes bêbados, conduzindo as motocicletas com até cinco pessoas. Os acidentes batem recordes. Não é à toa que alguns políticos fazem da reivindicação de construção de hospitais traumatológicos a sua bandeira. A par disso tudo, enfrentei nesse período a possibilidade da passagem pela ilha de um furacão (eles chamam de huracan). Estava programado para o dia 25, justamente o dia do meu regresso, porém, aos poucos, “Danny”, seu cognome, foi se debilitando e se afastando em direção à Flórida, Estados Unidos. Segui viagem e, após um banho nas águas do Caribe, retornando ao hotel que estava hospedado, diviso na minha frente uma moto e, na sua garupa, um cavalo com as patas amarradas ao corpo do condutor. Não acreditei no que vi. Tinha que ter a certeza. Perguntei à minha mulher e ao meu filho se eles estavam vendo aquela cena surreal. O meu filho, que mora na República Dominicana, disse que aquilo era comum. Fiquei aturdido e, ao chegar ao hotel, fui pesquisar na internet. E o que eu encontro? Uma foto semelhante ao que testemunhei há alguns minutos. A fotografia, de autoria de Amit Dave/Reutes, mostra uma espécie de cabrito, flagrado na cidade indiana de Ahmedabad. Vivendo e me surpreendendo! 

*Clóvis Barbosa escreve aos sábados, quinzenalmente.


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
29/09
11:46

Wellington Mangueira: O bravo cavaleiro lendário

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Merece todos os encômios o fato de um jovem jornalista, Milton Alves Júnior, interessar-se em escrever sobre um personagem intrigante da vida sergipana, ainda vivo, Wellington Dantas Mangueira Marques. Esta sua obra “Wellington Mangueira – Um Comunista Continenciado” traça um vasto panorama da vida desse líder estudantil na juventude, militante histórico do Partido Comunista do Brasil, preso político e torturado nos porões da ditadura militar que assombrou o país de 1964 a 1985. As sequelas psicológicas e traumatizantes produzidas pela tortura sofrida em si e em sua mulher, Laurinha, não foram capazes de destruir as suas vidas, mas serviram de bálsamo para justificar a necessidade de resistir. Aos poucos, mesmo diante de uma sociedade amorfa, incapaz de entender a dor do torturado, soube compreender esse abismo e, para tanto, partiu para recompor a sua existência como professor, desportista, advogado e gestor público. A sua infância, a família, o amor de sua vida - companheira Laurinha - os estudos no velho Atheneu, os acontecimentos políticos que antecederam o golpe militar de 1964, a queda do governo Jango, as prisões e as torturas sofridas, o exílio na antiga União Soviética e no Chile, tudo isso é contado para nos revelar a figura de um homem fraterno, que sonhava com um mundo mais justo e igualitário.

Todos sabem que durante o período ditatorial as maiores atrocidades foram cometidas contra os que se opunham ao regime. Estudantes, intelectuais, políticos, sindicalistas, profissionais liberais engajados, eram perseguidos e tidos como comunistas e terroristas. Era preciso combatê-los. Muitos foram torturados, desaparecidos e mortos sem qualquer tipo de constrangimento dos donos do poder. Muitas famílias não tiveram sequer o direito de dar um enterro digno a seus parentes, uma vez que os corpos nunca foram achados. Inúmeros presos políticos não resistiram e acabaram mortos após sessões de tortura física ou psicológica, com utilização dos métodos mais diversos, dentre os quais se destacam o Pau de Arara, onde uma barra de ferro era atravessada entre os punhos amarrados e a dobra do joelho, ficando o corpo pendurado; o Choque Elétrico, no qual dois fios longos eram ligados nas partes sexuais, nos dentes, língua e ouvidos; o Afogamento, que consistia em mergulhar a cabeça do torturado num balde cheio de água ou de fezes, empurrando sua nuca até o limite do afogamento; a Cadeira do Dragão, parecida com a cadeira elétrica, mas revestida de zinco e ligada a fios elétricos que, quando ligados, transmitia choques por todo o corpo do acusado; a Palmatória, utilizada para agredir várias partes do corpo, inclusive nos órgãos genitais; e as Agressões Físicas, aplicadas no corpo do preso.

Mas Mangueira, apesar de todo sofrimento e humilhações, como ser transcendental, sabia que era preciso resistir e transformar-se. Era preciso reconstruir novos sentidos e horizontes para a continuidade da vida. O livro, então, passa a narrar a sua reintegração à vida aracajuana. Primeiro no Cotinguiba, um clube de futebol, onde ele passou a dar exemplo de administração. Em seguida, ocupando vários cargos públicos e privados como professor e advogado. Depois, passou a Secretário de Estado da Justiça, da Segurança Pública, da Cultura, Secretário Municipal da Educação em Nossa Senhora do Socorro, de Obras, Assuntos Jurídicos e Cultura e, finalmente, a Fundação Renascer, órgão que administra as unidades socioeducativas Centro de Atendimento ao Menor (CENAM), a de Internação Provisória (USIP), a Unidade Feminina (UNIFEM) e a Casa São Francisco de Assis (CASE/Semiliberdade). Em cada passagem por esses órgãos, Mangueira deixou registrada a sua atuação como gestor eficiente, denodado, ético e, sobretudo, revolucionário, procurando sempre transformar a realidade encontrada. Na Segurança Pública, aproximou a polícia da população através da criação da Polícia Comunitária e de uma delegacia destinada a grupos vulneráveis. O lado humanista sempre andou de mãos dadas com a sua prática no exercício dos cargos.

Enganaram-se, entretanto, aqueles que achavam que Mangueira havia perdido o elo com os seus ideais e com o sonho de um mundo melhor para todos. Mesmo ocupado com os vários afazeres profissionais, trabalhou no processo de legalização do Partido Comunista Brasileiro logo após a redemocratização do país, sempre participando da vida política sergipana. Foi um grande defensor dos direitos humanos e soube muito bem trilhar o caminho do reencontro com a vida. Apesar da perseguição nos albores da ditadura militar, não vendeu sua alma, não tergiversou nos seus princípios. Aliás, é um homem intransigente em relação aos seus ideais, esconde no peito uma mina riquíssima de compreensão humana. Mesmo com tudo o que aconteceu com ele e sua mulher, não deixou que o seu coração fosse povoado pelo ódio. Todos podemos olhar para ele com orgulho do seu passado de lutas em prol do social, como defensor inflexível da cidadania e das liberdades ameaçadas. De Wellington Mangueira pode-se dizer que combateu o bom combate, dando tudo de si por um humanismo de base democrática, que tem como norte uma sociedade livre, justa e solidária, lapidada pela consciência. Compreendeu cedo o seu papel de não conformista, de agente de transformação social dentro daquilo que o destino construiu para ele.

Alguns acontecimentos ligaram a minha vida à de Wellington: o primeiro quando fui convocado pelo Reitor da Universidade Federal de Sergipe e pelo Arcebispo Dom Luciano Duarte para um ato de “beija-mão” ao Presidente Garrastazu Médici, que visitava Sergipe. Essa história eu já contei em artigo publicado na revista CUMBUCA, décima edição. Faço um resumo: Diante da minha recusa em comparecer ao ato com o ditador, fui premido por argumentos que me deixaram entre a cruz e a espada. Ao tempo em que a minha ida ao encontro seria bastante desconfortável, já que combatia a ditadura, por outro lado não podia deixar de me solidarizar com a aflição do Reitor e do próprio Arcebispo. Pela parte do Reitor João Cardoso, em razão da série de pressões que ele sofreu e estava sofrendo para punir estudantes. Em relação a Dom Luciano, uma ponderação fulminante fez com que eu revisse a minha posição: Tá bom! Quando o Senhor precisou de mim para salvar o seu amiguinho Wellington Mangueira eu prestei. Agora o Senhor me dá as costas! Ele lembrava uma reunião que tivemos na Cúria Metropolitana no período que Mangueira estava preso. Temíamos pela vida dele e de sua mulher, Laurinha, por conta das notícias que recebíamos sobre as torturas que vinham sofrendo em um quartel do exército fora de Sergipe.

Lembro-me, também, quando fui indicado pelo Partidão para recolher junto a algumas pessoas ligadas à Universidade Federal de Sergipe - professores, alunos e servidores - determinadas quantias que seriam destinadas ao pagamento dos seus advogados. Na época, ele se encontrava preso com sua mulher. Outro fato significativo foi recente, ele como diretor da Fundação Renascer e eu como presidente do Tribunal de Contas. Diante da penúria das finanças do Estado, ele me fez uma série de solicitações de mobiliário, equipamentos de informática e materiais de construção usados, além de um scanner corporal que tinha como meta evitar o constrangimento das revistas íntimas aos visitantes dos menores infratores da unidade socioeducativa. Fizemos a doação de aproximadamente 460 itens, sendo 201 entre mesas e cadeiras, 142 equipamentos de informática e 112 de materiais de construção usados, desde divisórias a estrutura de banheiros. Ao receber o material ele me disse: Muitas mães ao visitarem seus filhos tinham que ficar de pé ou sentadas na quadra. Isto era constrangedor para mim e para todos que defendem os direitos humanos. Os recursos para aquisição do scanner foram deixados pela nossa administração no caixa do Estado. Mangueira é um homem que, como dito num provérbio chinês, não perdeu a candura de sua infância.

Mas o que mais me empolgava nele era a forma como discursava dialeticamente. Num debate com uma pessoa de diferente ponto de vista, não tentava vencer ou persuadir o seu opositor de forma impositiva ou deselegante. Ele fazia questão que não subsistisse qualquer dúvida a respeito dos seus argumentos. Aprendeu naturalmente com Sócrates, que encontrou na procura da verdade, através da razão e da lógica, o maior valor durante um processo de discussão, deixando de lado a retórica, porque nunca visou agradar o seu interlocutor, e a oratória, pois jamais pretendeu vencer uma conversa através da emoção. Como o Menestrel das Alagoas, imortalizado na música de Milton Nascimento e Fernando Brandt, era um saltimbanco falando em rebelião, como quem fala de amores para a moça do portão. Giovanni Pico Della Mirandola, na sua obra Discurso sobre a dignidade do homem, diz que o homem é colocado no centro do mundo para poder contemplar as mais diferentes angulaturas do próprio mundo, sendo capaz de realizar plenamente suas virtualidades. Este homem, no centro do mundo, é o homem digno, aquele que direciona sua curiosidade para escolhas humanistas. Num mundo de tanta desigualdade, de exploração do homem pelo homem, de falta de fraternidade, é virtuoso construir para si e para todos a dignidade.

Wellington Mangueira é este homem! Por ser solidário, o respeito pela dignidade humana criou raízes em sua alma. Viveu e vive como um cavaleiro templário, resgatando valores adormecidos pela sociedade para construção de um mundo livre, digno e justo.

*Clóvis Barbosa escreve aos sábados, edição de fim de semana, quinzenalmente


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
02/09
08:32

Minha Luta

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

Uma polêmica foi travada no Brasil, no fim de 2015, entre as livrarias. Tratava-se da venda ou não da publicação da obra de Adolf Hitler, Mein Kampf (Minha Luta), pela Geração Editorial. O jornal Folha de São Paulo de 4/12/2015, caderno Ilustrada, página C4, deu conhecimento aos seus leitores desse impasse através de matéria de uma página. O fundador da Editora, Luiz Fernando Emediato, justificou o seu lançamento pelo valor histórico do calhamaço que antecipa o período de terror do Terceiro Reich. A questão, porém, era a de quem exporia a chamada “Bíblia nazista” nas prateleiras? Pois bem. Na hora de expor publicamente seus pontos de vista sobre a circulação da obra, cada um dos livreiros saía pela tangente: a Livraria da Vila disse que venderia o livro quando estivesse disponível no mercado; a Saraiva avisou que não comentava estratégias comerciais, mas que pensa seu sortimento de produtos de modo a contemplar todos os gêneros e categorias; a Cultura afirmou que essa decisão comercial seria discutida oportunamente. Enfim, ninguém queria posicionar-se antecipadamente sem conhecer a opinião do concorrente. Fora do mundo empresarial, o debate comia solto entre os intelectuais. Maria Luiza Carneiro, professora de História da USP, autora de Holocausto, Crime contra a Humanidade, manifestou-se contrária à sua reedição sob a alegação de que a mesma poderia servir de munição para o antissemitismo contemporâneo. E salienta, ainda, que a venda em livrarias ajudaria a pôr nos holofotes o ideário nazista, inclusive sendo pirateada a torto e a direito na internet.

A polêmica, contudo, não passou dessa fase de anúncio da publicação. Lançada a obra, não houve maiores repercussões, prevalecendo o entendimento de Emediato, para quem é importante discutir a história, por mais feia que ela nos pareça, ou principalmente por isso. Ademais, Mein Kampf não deixa de ser um documento importante para o estudo da ascensão do nazismo e do que ele representou na Alemanha. Proibir a sua reedição seria não compreender ou não conhecer os horrores praticados durante a Segunda Guerra Mundial, que teve como saldo 50 milhões de mortos, 6 milhões deles no Holocausto. A obra é dividida em duas partes. Na primeira, Hitler narra a sua história; na segunda, expõe sua doutrina para a estruturação do Estado Nacional-Socialista. Para a historiadora e professora da Universidade Estadual de Londrina, Sylvia Lenz, nada justifica as ações violentas do nazismo. Mesmo assim, segundo ela, é necessário analisar o livro e a ascensão do nazismo sob o contexto da época. Durante as primeiras décadas do século passado, muitas nações europeias também defendiam políticas nacionalistas, imperialistas e expansionistas. “França e Inglaterra, por exemplo, tinham colônias em países africanos e asiáticos e iam para essas comunidades como se fossem superiores”, afirma. Além dessas nações, a Itália com Benito Mussolini, a Espanha com Francisco Franco e Portugal com António de Oliveira Salazar, eram outros países que focavam em políticas nacionalistas e práticas ditatoriais. “Era uma onda que tomava conta de toda a Europa”.

Ela acredita que o Mein Kampf ganhou tanta importância e polêmica pelo fato de a Alemanha ter sido derrotada na 2ª Guerra Mundial. “O fato de ter sido proibido por tanto tempo chama mais ainda a atenção”, completa. Sylvia relata ainda que o livro foi escrito pelo austríaco Hitler sem que ele tivesse noção de que se tornaria o III Reich alemão. “Ele era um pintor frustrado que não se conformava com as imposições dadas à Alemanha pelo Tratado de Versalhes. O bode expiatório que ele encontrou foram os judeus. Em toda história, há um bode expiatório”, ressalta. Além disso, segundo ela, a crise econômica de 1929, a chamada Grande Depressão Americana, que quebrou a Bolsa de Valores de Nova Iorque (à época os EUA era o principal investidor da economia alemã), foi preponderante para que as ideias nazistas ganhassem adeptos e Hitler tivesse o apoio da população. Enquanto ideologia institucionalizada, as principais características do nazismo nasceram de sua obra Mein Kampf, escrita durante o período em que esteve na prisão, fruto de um golpe frustrado articulado pelos nazistas na Baviera em 1923. A propaganda teve um papel fundamental na propagação das ideias contidas na obra, a começar pelo antissemitismo, o tresloucado ódios aos judeus, a quem era atribuída a culpa por todos os males que vivia a Alemanha. Além disso, tínhamos ainda a noção racista e eugenista da superioridade do homem branco alemão ou da raça ariana. Para tanto, era necessária a construção do chamado “espaço vital” para que esta raça superior ali se instalasse e se transformasse num império mundial.

Durante o governo nazista foi criado no programa eugenista a Ação T4, que previa o extermínio de deficientes incuráveis. Vejamos o texto: “O que corresponderia aos mais nobres sentidos é que nossas igrejas cristãs, em vez de irem incomodar os negros com suas missões, coisas que os infelizes não querem e nem entendem, viessem ensinar à nossa humanidade europeia (...) que a obra mais digna de Deus para casais saudáveis consiste em dar a pobres crianças órfãs, porém sadias, um lar generoso (...), em vez de permitir a progenitores doentes colocar no mundo crianças deficientes que só trarão a si mesmas e ao resto do mundo infelicidade”. O objetivo do nazismo, com a eugenia, era purificar a sociedade germânica dos seres indesejáveis. O historiador Philippe Burrin descreveu em seu livro Hitler e os Judeus: “(...) Solicitado por um casal que lhe pedia para autorizar a morte do filho incurável, Hitler respondeu favoravelmente. Decidiu então que o mesmo destino seria imposto sem apelação a todos os recém-nascidos portadores de deformações ou anormais. No dia 18 de agosto de 1939, uma circular do Ministério do Interior obrigava os médicos e parteiras do Reich a declarar as crianças que sofriam de uma deformidade. Reunidos em seções especiais, elas foram mortas pela injeção de drogas ou pela fome”. O método eugenista também foi aplicado aos doentes mentais, dentre estes pacientes esquizofrênicos, epilépticos, paralíticos e psicopatas, que eram transportados para os centros de eutanásia, todos mortos através de gás tóxico.

Volto a Burrin: “(...) depois de algumas experiências, foi estabelecido um procedimento uniforme, que consistia em mandar que as vítimas se despissem ou despi-las e levá-las numa sala com falsas duchas onde elas seriam asfixiadas por monóxido de carbono. Os cadáveres eram queimados num forno crematório, depois que lhes eram arrancados todos os dentes de ouro. Um atestado de óbito era enviado às famílias após um processo de complicada camuflagem, a fim de evitar o anúncio simultâneo de inúmeros decessos numa mesma localidade. Em pouco menos de dois anos, a empresa fez mais de 70 mil vítimas”. Enfim, uma pergunta que não pode deixar de ser feita: como foi possível um livro e seu conteúdo tornar Hitler uma figura tão atraente para milhões de pessoas?

 

 
Post Scriptum
Para onde vão os nossos sonhos

Recebi, no início do mês de agosto deste ano, um texto do escritor, fotógrafo e cineasta Carlos Modesto, um sergipano de Estância e radicado em Salvador, Bahia, desde os anos 50 do século passado, com o título “Para onde vão os nossos sonhos”. Além de vários filmes produzidos, dirigidos e fotografados, Modesto lançou recentemente o seu primeiro livro, “Contos da Escuridão”, ao qual estive presente. 15 dias antes, telefonou-me para dizer que havia descoberto uma raridade, uma série de obras de um sergipano, Manuelito Campos. Não se conteve e escreveu este texto de impressionante lirismo, que repasso para os amigos leitores sergipanos: “Passando por um dos trechos da Rua Ruy Barbosa onde possuo um escritório (ontem, primeiro de agosto), fui chamado por João Brandão, o proprietário de um dos sebos ali existentes, para mostrar-me um material recentemente adquirido de obras literárias de um sergipano. Como ele sabe que gosto muito de livros, e que o conjunto havia pertencido a um conterrâneo (pois sou estanciano de Sergipe), viu em mim uma possibilidade de vender alguma parte dos objetos. Ao examinar o produto, negligenciado no chão da livraria, fiquei logo surpreso pelo fato de as obras terem pertencido ao poeta sergipano Manuelito Campos. E logo senti aquela sensação de tristeza, em ver os sonhos de um homem jogados ao léu. Pensei naquele instante em mim, amante inveterado em livros cujos cuidados dos mesmos fazem parte da minha vida cotidiana. Toquei naquelas peças, algumas já corroídas pelas traças do tempo, outras ainda em bom estado de conservação. Naquele lote desprezado que um dia fez parte de uma alma poética, o tesouro da sua vida intelectual e emocional. Senti vibrações estranhas infiltrarem à minha alma. Vi cartas de amigos também irmanados nos mesmos sonhos, análise do livro de Alexis Carrel, alguns de seus cadernos escritos com sua própria caligrafia, de muitos dos seus poemas, tudo isso me entristeceu. Como sou bastante sentimental, algumas lágrimas umedeceram os meus olhos. Não conheci o poeta, mas senti a dor que sua alma sofria naquele instante através de mim, encerrada nas mansões da eternidade. Era uma parte da sua obra que ali jazia, uma mercadoria de valor, malbaratada sobre o chão frio de um estabelecimento cultural, mas comercial, sentindo uma esperança de que alguém a encontrasse e a valorizasse. Manuelito Campos foi um dos fundadores da Academia Sergipana de Letras, sociedade literária idealizada pelo poeta Antônio Garcia Rosa, criada em 17 de julho de 1927. Ela sucedeu à Hora Literária, instituição recreativa nascida em primeiro de abril de 1919. Assim, através de Manuelito Campos, vejo o final de muitas obras fantásticas, coleções maravilhosas, tão cuidadosamente amadas e valorizadas por seus possuidores em suas vidas terrenas, serem refugadas após suas transições, por familiares frios e sem interesses culturais, onde os sonhos cristalizados nas suas obras são desprezados ao lixo” (Salvador, Bahia, 02 de agosto de 2018)

Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
19/08
14:55

Darcy Ribeiro: O corsário do rei

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE
 
A primeira vez que vi Darcy Ribeiro foi numa palestra que ele veio fazer na Universidade Federal de Sergipe, onde eu exercia o cargo de Procurador Federal. Após o término de seu compromisso, ao lado de alguns professores e estudantes, fomos todos a um restaurante na praia de Atalaia. Passamos aproximadamente quatro horas juntos, tempo necessário para ele se apaixonar perdidamente por uma estudante que estava conosco e para o conhecermos como uma figura fascinante. A mim, impressionou seu talento, seu raciocínio rápido e a capacidade de discutir todo e qualquer assunto. Toquei num tema tabu dentro do meio acadêmico de então, que era o livro do filósofo José Arthur Gianotti, publicado alguns anos antes pela Editora Brasiliense, “A Universidade em ritmo de barbárie”. Este ensaio foi uma crítica feroz ao processo de degradação por que passava a universidade brasileira, chegando o autor a afirmar que um pacto da mediocridade havia sido firmado na comunidade de ensino superior, onde o professor fingia que ensinava, o aluno fingia que estudava e o servidor fingia que trabalhava. Gianotti dizia que "Se não se apostar no poder acadêmico, se não se lhe abrir um espaço próprio, a universidade será enervada por suas convulsões. E como o país não pode dispensar institutos de pesquisa que alimentem o desenvolvimento tecnológico, e escolas que formem suas elites, ela será marginalizada e posta em banho-maria, enquanto uma burocracia ilustrada, apoiada no estado, tratará de criar centros de excelência destinados a cumprir as tarefas que a universidade não soube desenvolver. Uma enorme rede de ensino universitário servirá para enganar a demanda das massas, enquanto o verdadeiro conhecimento tomará outros rumos”, profetizava.

Quem esperava que Darcy fosse de encontro às teses de Gianotti quebrou a cara, pois, além de ratificar, em parte, os argumentos, levantava outros, como o pagamento de salário igual aos professores independentemente de sua produtividade, a falta de extensão e pesquisa, o despreparo dos docentes, o péssimo percentual de doutores, etc. Darcy falava sem parar, ao tempo em que investia, com palavras dóceis e poéticas, na beleza juvenil que aflorava em uma das estudantes que nos acompanhava. Fui levá-lo ao hotel e no caminho ele enaltecia as maravilhas da encantadora jovem que acabara de conhecer. Falava da boca gulosa, dos olhos tristes, do sorriso e do seu charme. No dia seguinte, fui levá-lo ao aeroporto. Ele não se esquecera da estudante da noite anterior. Queria um telefone, um contato. Prometi que conversaria com ela, mas não falei. Ela namorava um colega estudante e ambos militavam num partido de esquerda. Depois, tive uns 3 ou 4 contatos pessoais com ele, em reuniões do PDT em Brasília e Rio de Janeiro. Sempre se lembrava de perguntar de sua musa “sergipense”. Era gostoso conversar com Darcy. Todas as vezes ele deixava uma dúvida, uma frase de efeito, uma tese que a gente carregava para reflexão. Era um homem tremendamente preocupado com o Brasil. Por que o Brasil ainda não deu certo? Era a pergunta que fazia ao chegar ao exílio, no Uruguai, em abril de 1964. Com essa ideia na cabeça, começou a pensar numa forma de responder à pergunta. Trinta anos depois produziu, talvez, a sua maior obra, com o título de “O povo brasileiro – a formação e o sentido do Brasil”, que, para ele, foi a melhor forma de influenciar as pessoas que aspiravam a ajudar o Brasil a se encontrar como nação. Mas, infelizmente até hoje, sua pergunta continua sem resposta.

Na manhã do dia 18 de fevereiro de 1997 soube de sua morte em Brasília. Imediatamente segui para o Rio de Janeiro, local do enterro, para lhe dar o meu último adeus. Na viagem – e antes de chegar à Academia Brasileira de Letras, no Castelo, onde seu corpo foi velado – um filme passou em minha mente e lembrava-me das nossas conversas durante os parcos momentos de convivência. Desde 1995 que ele enfrentava um câncer nos ossos. No nosso último encontro até falamos sobre o assunto e eu disse de alguns amigos que tive e também sofriam desse mal. Depois da doença, conheci um Darcy que tinha pressa em terminar alguns projetos, como a fundação que levaria o seu nome e que teria a sede na sua residência, em Copacabana. Lá estava eu, anonimamente, no Salão dos Poetas Românticos da ABL observando as pessoas e autoridades que tinham ido prestar a última homenagem. O escritor Dias Gomes foi quem melhor traçou o seu perfil: “O Darcy era um homem feito só de amor. Ele não tinha ódio no coração”. Enquanto o som de Bach contribuía para a nossa melancolia, chegava uma coroa de flores mandada por Fidel Castro com a frase “ao eterno amigo”. Era um cenário de tristeza, principalmente quando a presidente da ABL, escritora Nélida Piñon, fez o discurso de despedida. Na hora do enterro, ainda na sede da Academia, um quiproquó foi marcado pela falta do veículo que levaria o caixão. Foi o que bastou para ataques e xingamentos serem desferidos contra o então governador do Rio de Janeiro, Marcelo Alencar. Os ânimos foram acalmados e o enterro saiu da ABL até o Cemitério São João Batista, num trajeto de 7 km, onde no mausoléu dos acadêmicos, já à noite, Darcy foi enterrado.

Sim, mas o que tem a ver Darcy Ribeiro com a peça “O corsário do rei”, texto e direção do teatrólogo Augusto Boal? Em 1982, eleito vice-governador na chapa de Leonel Brizola no Rio de Janeiro, Darcy Ribeiro vivenciou em Paris a experiência do Centro de Teatro do Oprimido da capital francesa e convidou Boal, então exilado, para que aplicasse nas escolas públicas do Rio uma atividade similar, dentro daquela perspectiva revolucionária no âmbito da educação, tendo, inclusive, sugerido que o mesmo montasse um espetáculo na capital carioca. Depois de 14 anos no exílio, Boal montou a peça que tratava das aventuras do corsário francês, Duguay Trouin, que invadiu o Rio com o propósito de ocupá-lo e depois revendê-lo aos portugueses e brasileiros. Para ele, as meras operações de pirataria eram perda de tempo e dinheiro. O rei da França autorizou a empreitada. Daí por diante, muita sátira e denúncias de corrupção da administração e do clero, a exploração do capitalismo e todas as mazelas do Brasil de ontem e de hoje. A peça não foi bem recebida pela crítica. Armou-se um “bafafá" no cenário cultural brasileiro. De um lado, defensores do talento de Augusto Boal, de outro, um segmento atrasado e provinciano, cujo espírito estaria marcado pelo chamado “jequismo”. Na verdade, uma postura preconceituosa contra um brasileiro que viveu no exílio. O sarrafo sofrido por Boal respingou em Darcy e impossibilitou as crianças das escolas do Rio de viverem a experiência do teatro do oprimido, tão bem explorado na Europa e com efeitos positivos.

Na verdade, Darcy era paixão em tudo que fazia. Era inteiro em tudo em que se metia. E o que ele pensava era sempre para melhorar o mundo e para mudar o Brasil. Quem melhor definiu a sua trajetória de vida foi o escritor Antônio Cândido: “o que espantava nele em especial era a sua capacidade de viver muitas diferentes vidas ao mesmo tempo, enquanto a maioria dos mortais mal consegue dar conta de uma existência. Em tudo em que se aventurou, Darcy deixou algum vestígio da originalidade de suas ideias, de sua personalidade forte e determinada, destemida, desafiadora” (Jornal da ABI, dez 2012, por Gonçalo Júnior). Apesar da mediocridade que se instalou no Brasil – e que ainda hoje trata o indígena brasileiro como indolente, vadio, vagabundo – Darcy tinha o maior respeito por essa nação formadora da nossa cultura. Seu único ídolo era o Marechal Cândido Rondon, por quem se apaixonou pela obra desbravadora. Conseguiu trabalhar com o seu mentor e aprendeu muito sobre as ações práticas em relação aos índios e que teriam influenciado nos seus registros sobre a sua riqueza cultural, seus costumes, suas origens místicas, seus antepassados. Tinha uma grande preocupação com a destruição paulatina dessa civilização. O seu livro Confissões, lançado no ano de sua morte (1997), é uma obra imprescindível para quem quer conhecer a sua vida, suas ideias e seu poder transformador. Darcy militou na juventude no Partido Comunista, foi Ministro-Chefe da Casa Civil do Governo João Goulart e Senador pelo Estado do Rio de Janeiro.

Ele foi responsável, como vice-governador de Brizola, pela criação, planejamento e direção dos chamados Centros Integrados de Ensino Público-CIEPs, considerado um projeto revolucionário na educação, que se fundamentava na assistência em tempo integral às crianças, com atividades recreativas e culturais, além do ensino formal, tudo com base numa ideia do educador baiano Anísio Teixeira, de quem se tornou amigo por toda a vida. Darcy disse certa vez: “Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”. Perdeu, também, na ânsia de amar um amor juvenil “sergipense”, mas, neste caso, o fracasso não significa que ele fracassou; significa que não venceu. Ou, quem sabe, ela é quem perdeu por não ter vivenciado uma das figuras mais extraordinárias do Brasil do século XX

Clóvis Barbosa escreve aos sábados, quinzenalmente. 


Coluna Clóvis Barbosa
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Por Kleber Santos
05/08
15:22

A justiça de cada um

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE


Por dois anos consecutivos fui privilegiado pelo casal João Alves Filho e Maria do Carmo Alves com dois presentes extraordinários. Em 2013, o livro O Duelo Churchill x Hitler – 80 dias cruciais para a segunda Guerra Mundial, de John Lukacs, professor emérito de história do Chestnut Hill College, na Filadélfia; e em 2014 fui premiado com a obra Justiça – O que é fazer a coisa certa, do professor Michael J. Sandel, professor da Universidade de Harvard. A primeira obra me estimulou a ler outros títulos desse período triste da história mundial, como Churchill, visionário, estadista e historiador, de John Lukacs; Winston Churchill, 25 lições indispensáveis para líderes extraordinários, de Alan Axelrod; Winston Churchill, a sutileza bem-humorada, de Richard Langworth; O presente de Hitler, de Jean Medawar e David Pyke; A biblioteca esquecida de Hitler, de Timothy W. Ryback; A mulher do oficial nazista, de Edith Hahn Beer; Os meninos que enganavam os nazistas, de Joseph Joffo; O carisma de Adolf Hitler, de Laurence Rees; O diário de Anne Frank, edição definitiva organizada por Otto H. Frank e Mirjam Pressler; As relíquias sagradas de Hitler, de Sidney D. Kirkpatrick, além de outras obras e romances, como O tambor, de Günter Grass. 4 (quatro) anos depois de receber o presente, termino a leitura de Justiça, que veio acompanhado do seguinte bilhete: Formulamos ao prezado amigo e a todos seus familiares, votos de um 2014 pleno de saúde, paz, sucesso e as permanentes bênçãos de Deus. O apreço e a admiração de Maria do Carmo Alves e João Alves Filho. É dessa obra que vou falar hoje.

Justiça, o que é fazer a coisa certa, nasceu da exigência dos alunos para que o professor transformasse em livro as aulas que eram dadas no curso “Justice” da Universidade de Harvard, muito popular e bastante influente, onde quase mil pessoas se aglomeravam no anfiteatro do campus para ouvir Sandel debater sobre fatos corriqueiros e intrigantes à luz da filosofia. Algumas perguntas são colocadas para discussão: Quais são as nossas obrigações uns com os outros em uma sociedade democrática? O governo deveria taxar os ricos para ajudar os pobres? O mercado livre é justo? Às vezes é errado dizer a verdade? Matar é, em alguns casos, moralmente justificável? É possível ou desejável legislar sobre a moral? Os direitos individuais e o bem comum estão necessariamente em conflito? É justificável o emprego de tortura em alguns casos? Esses e tantos outros temas nos levam, aqui e ali, numa sociedade democrática, a divergências entre o que é certo ou errado, o que é justo ou injusto. Explica Sandel: Algumas pessoas defendem o direito ao aborto, outras o consideram um crime. Algumas acreditam que a justiça requer que o rico seja taxado para ajudar o pobre, enquanto outras acham que não é justo cobrar taxas sobre o dinheiro recebido por alguém como resultado do próprio esforço. Algumas defendem o sistema de cotas na admissão ao ensino superior como uma forma de remediar erros do passado, enquanto outras consideram esse sistema uma forma injusta de discriminação invertida contra as pessoas que merecem ser admitidas pelos próprios méritos.

Algumas pessoas rejeitam a tortura de suspeitos de terrorismo por a considerarem um ato moralmente abominável e indigno de uma sociedade livre, enquanto outros a defendem como um recurso extremo para evitar futuros ataques. Alguns exemplos são registrados para mostrar esse dilema moral que atinge uma sociedade livre: Em 2004, o furacão Charley atingiu o Golfo do México, indo da Flórida até o Oceano Atlântico. 22 (vinte e duas) pessoas morreram e o fenômeno causou prejuízos de 11 bilhões de dólares. Após a tempestade, uma discussão acirrada tomou conta da região sobre os preços extorsivos que passaram a ser cobrados dos serviços e mercadorias. Sem energia para os refrigeradores ou ar-condicionados, sacos de gelo de dois dólares passaram a ser vendidos por dez. Pequenos geradores domésticos, que antes custavam 250 dólares, agora valiam 2 mil. Uma noite num quarto de motel passou de 40 para 160 dólares. A partir daí começou a ser travada uma batalha de opiniões a respeito do tema. Para uns, era imoral que as pessoas “tentassem capitalizar à custa das dificuldades e da miséria da população”. Para outros, nas sociedades de mercado, os valores são fixados de acordo com a oferta e a procura, não passando de uma quimera a figura do “preço justo”. O abuso de preços provocado pelo furacão, para Sandel, levanta graves questões sobre moral e lei e coloca em campos antagônicos a virtude e a liberdade. Ou melhor, de um lado estaria a teoria de justiça antiga, vista por Aristóteles, como dar às pessoas o que elas merecem; e de outro a teoria de justiça moderna vista por filósofos como Kant, com base na liberdade.

Tanto Kant, no século XVIII, como John Rawls, no século XX, defendem que os princípios de justiça que definem nossos direitos não devem basear-se em nenhuma concepção particular da virtude ou da melhor forma de vida. Ao contrário, uma sociedade justa respeita a liberdade de cada indivíduo para escolher a própria concepção do que seja uma vida boa. E é aí que Sandel, após dissecar sobre os aspectos favoráveis e desfavoráveis a uma ou outra teoria – inclusive os argumentos que são utilizados para defendê-las – passa a explorar os seus pontos fortes e fracos. Para ele, apesar de sermos devotados à prosperidade e à liberdade, não podemos desconsiderar a natureza judiciosa da justiça. É profunda a convicção de que a justiça envolve virtude e escolha. E conclui que meditar sobre ela parece levar-nos inevitavelmente a meditar sobre a melhor maneira de viver. Outro exemplo: Desde 1932 que o Exército dos Estados Unidos outorga a medalha Coração Púrpura a soldados feridos ou mortos pelo inimigo durante um combate. Além da homenagem, a medalha permite privilégios especiais nos hospitais para veteranos. Acontece que, desde as guerras do Iraque e do Afeganistão, alguns soldados vêm sendo diagnosticados com estresse pós-traumático, cujos sintomas incluem pesadelos recorrentes, depressão profunda e suicídio. Pois bem. Os defensores desses veteranos - que não foram fisicamente feridos - propuseram que eles também recebessem o Coração Púrpura, mas o Pentágono recusou a concessão da medalha sob o argumento de que seu objetivo é o de homenagear o sacrifício e não a bravura.

A verdade é que, no decorrer da análise desse exemplo, está uma opinião oferecida por um capitão, fuzileiro reformado, que atribui a oposição mencionada a uma postura arraigada entre os militares, que veem o estresse pós-traumático como um tipo de fraqueza. Temos então duas posições: De um lado, os que insistem que somente aqueles que sofrem ferimentos com sangue devem ser levados em consideração para recebimento da medalha, e que o estresse pós-traumático reflete uma fraqueza de caráter que não é merecedora de honraria; e, de outro, os que acreditam que os veteranos que sofrem traumas duradouros e têm depressão profunda se sacrificaram tanto por seu país quanto os que perderam um membro em combate, e de maneira igualmente honrosa. Para Sandel, a polêmica sobre o Coração Púrpura ilustra a lógica moral da teoria de Aristóteles sobre justiça. Os demais exemplos hipotéticos constantes na obra enfrentam escolhas dramáticas que ocorrem no nosso dia a dia. O que procura enfatizar é que refletir sobre esses dilemas “nos permite ver de maneira mais clara como uma questão moral pode se apresentar em nossas vidas, como indivíduos e como membros de uma sociedade”. E ele perquire: Como, então, podemos raciocinar claramente no disputado terreno da justiça e da injustiça, da igualdade e da desigualdade, dos direitos individuais e do bem comum? Ele mesmo responde: Este livro tenta responder a essa pergunta. Sandel, na realidade, com suas aulas e esta obra, dá subsídios para que as pessoas reflitam sobre as suas escolhas.

Poderíamos aqui nos aprofundar nas ideias de justiça discutidas no livro: a que leva em consideração o bem-estar, dentro da perspectiva do chamado utilitarismo de Bentham (Jeremy Bentham, filósofo moral), que defende uma doutrina de felicidade das maiorias; a que aborda a questão sobre o prisma da liberdade e aquela que se funda no conceito de virtude. Mas, o que nos interessa, também, no tema sobre justiça, é a sua significação para este modelo político-econômico vivenciado pela sociedade brasileira. O que é uma sociedade justa? Para Sandel, saber se uma sociedade é justa é perguntar como ela distribui as coisas que ela valoriza – renda e riqueza, deveres e direitos, poderes e oportunidades, cargos e honrarias. Temos uma das elites mais predadoras do planeta. Aqui, quase 30% da renda do Brasil está nas mãos de apenas 1% dos habitantes do país, a maior concentração do tipo no mundo. É o que indica a Pesquisa Desigualdade Mundial 2018, coordenada, entre outros, pelo economista francês Thomas Piketty. O debate poderia ser incansável, mas o tipo de sociedade que gostaríamos de alcançar no Brasil está moldada naquilo que a Constituição coloca como objetivos fundamentais: construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; e promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. O grande desafio, ao ler Justiça, é saber se somos capazes de avaliar que tipo de sociedade queremos viver.

Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente.


Coluna Clóvis Barbosa
Com.: 0
Por Kleber Santos
22/07
12:39

Crueldade Bestial: Crimes que abalaram Sergipe

Clóvis Barbosa
Blogueiro e conselheiro do TCE/SE

O cometimento de atos infames e horrendos é, de forma geral, da essência da natureza humana. O mundo está moldado, portanto, à imagem e semelhança dos sete pecados capitais que, para o bem e para o mal, estão tatuadosno mais profundo das nossas mentes. Ira, cobiça, preguiça, luxúria, gula, vaidade e inveja são ingredientes que sempre estão de alguma forma por trás de um crime. Existindo desde os primórdios, o crime faz parte da história de todos os povos. Em Sergipe também houve delitosque abalaram a sociedade e que são lembrados pelos mais velhos ou recontados daquilo que souberam dos antepassados. Na primeira metade do século XIX, anos após a emancipação política do nosso Estado,em 1841,ficou célebre o crime do Padre Manoel da Silva Porto, juiz de Neópolis, que mandou matar o juiz de paz de Capela, José Álvares Pereira, que teve o coração arrancado. A justificativa para tal bestialidadefoiprovar que a vítima não era cabra-macho, pois, se o fosse, o seu coração seria cabeludo. A motivação para o crime teria sido de natureza política, uma vez quepretendia o padre Porto candidatar-se a deputado e a vítima estaria obstaculizando a sua pretensão. Registre-se que o Padre Porto era um homem culto, formado em Direito e em Cânones pela Universidade de Coimbra e foi professor catedrático da Faculdade de Direito de Olinda.

Poucos anos antes,em 1837, um crime bárbaro já havia enchidode horror e espanto o nosso Estado. Vivíamos a primeira metade do século XIX, onde a lei do mais forte predominava. Um pacato cidadão, José Francisco da Silva, residente no sítio Capunga, em Itabaiana, ainda se restabelecendo de um tiro dado pelo seu irmão, teve a sua casa invadida porseu cunhado e pelo pistoleiro Antônio José Dias, conhecido por Mata Escura, que lhe desferiu dois tiros de espingarda. Não satisfeito, com uma espécie de sabre, o bandoleiro desferiucontra a vítima agonizante mais de vinte pontadas no seu corpo. Também, com a mesma arma, trespassou o corpo da mulher do sacrificadopor mais de seis vezes, tombando-a sobre o corpo do marido. Depois de algum tempo, pelo cometimento de outros crimes, Mata Escura foi preso e levado a júri em Itabaiana. Condenado à morte na forca em praça pública na Vila de Itabaiana, antes da execução da pena, passou a confessar outros crimes praticados, como o do filho de Tobias do Socorro, proprietário de Salinas, o de Estácio Furtado, senhor de engenho de Capela, o de Manuel Florêncio, feitor do sítio Bonfim, em Divina Pastora, e tantos outros. Finalmente, antes de cair sem vida no patíbulo, disse: “Meus irmãos, vejam a minha desgraça. Os ricos foram a causa do meu fim”. Um pesado silêncio envolveu a multidão.

Outro crime de grande repercussão foi o assassinato do deputado Fausto Cardoso, em 1906. Historiador, jornalista, tribuno que empolgava, poeta e revolucionário, Fausto foi um dos talentos mais importantes da história de Sergipe. A sua morte ocorreu nas dependências do Palácio de Governo, hoje Museu-Palácio, tendo uma bala desferida por soldados chefiados pelo general Firmino Lopes Rego acertado mortalmente o seu peito. Neste mesmo ano, no mês de novembro, um novo delitoviria aabalar Sergipe. Olímpio Campos, então senador, ao deixar o Senado Federal no Rio de Janeiro, foi alvejado e morto pelos filhos e sobrinho de Fausto Cardoso.Já em 1961, um ex-Cabo do Corpo de Bombeiros e sapateiro, Antônio F. Macedo, conhecido por La Conga, com a ajuda da sua companheira Edite M. de Jesus, matou o menor Carlos Werneck, enterrando o seu corpo num areal das proximidades do hoje Instituto Rui Barbosa, no Bairro Siqueira Campos. O crime chocou toda a população aracajuana, principalmente pela forma brutal como aconteceu. A criança foi atraída para a residência dos criminosos onde, após receber uma cacetada, foi estrangulada e escondido o corpo num armário. À noite, enrolado numa esteira, a inditosa vítima foi enterrada no areal. La Conga foi condenado a 30 anos de prisão e morreu de um ataque cardíaco em 1976.

No ano de 1988,um crime e um atentado marcaram a memóriada elite sergipana. O primeiro foi o assassinato do empresário e usineiro Fernando Luiz de Melo Barreto, ocorrido na porta do escritório da Usina Santa Clara, na Rua de Siriri. Foi uma comoção geral em Aracaju, pois se tratava de uma pessoa que fazia parte da fina flor da sociedade sergipana. A motivação, segundo as especulações da época, teria sido uma briga de parentes pelo controle do patrimôniofamiliar. O acusado do crime de mando, sobrinho da vítima, Carlos Augusto, chegou a ter a sua prisão preventiva decretada, contudo, fugiu para o sul do país. Dois anos mais tarde, após um habeas corpusconcedido peloSuperior Tribunal de Justiça, Carlos Augusto retornou a Sergipe. Logo depois, ao sair do bar e restaurante Cacique Chá, no centro de Aracaju, e entrar no seu carro, que se encontrava estacionado na porta da hoje Procuradoria Geral do Estado, um tiro de escopeta foi disparado contra o mesmo. Se o crime perpetrado contra Fernando causou grande comoção, este atentado muito mais. Socorrido no momento por frequentadores do Cacique, foi levado para um hospital onde se submeteu a uma série de cirurgias. Carlos Augusto conseguiu sobreviver, tendo mais tarde se mudado para São Paulo, onde faleceu anos mais tarde.  

Em 1938, na Fazenda Angicos, em Poço Redondo, o famoso bandoleiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e parte do seu bando, incluindo sua companheira, Maria Bonita, foram assassinados pela volante do Tenente Bezerra. Todos tiveram as cabeças decapitadas e colocadas em latas de querosene. Neste mesmo ano, o cangaceiro Juriti, que não se encontrava presente na Fazenda Angicos, foi preso e, em seguida, na cidade de Canindé de São Francisco, lançado numa fogueira e queimado vivo.Na esfera política, além de Fausto Cardoso, mais quatro deputados foram assassinados na vigência dos seus mandatos: Euclides Paes Mendonça e seu filho, o também deputado Antônio Paes Mendonça, em 1963; Antônio Torres, em 1967; e Joaldo Barbosa, o Nego da Farmácia, em 2003. Outro crime de bastante repercussão, inclusive nacional, foi o do médico Carlos Firpo, em 1958.Viviam-se momentos difíceis na vida sergipana, onde a disputa política entre os partidos PSD e UDN era acirrada e o crime praticado pela elite campeava abertamente. Tentaram de todos os modos acusar como mandantes a mulher da vítima, Milena, e o Tenente-Coronel aviador Afonso Ferreira Lima, amigo da família Firpo. Teve de tudo no processo de apuração desse crime, desde confissões forjadas a torturas no intuito de esconder da sociedade os verdadeiros motivos e autores do assassinato.

Fyodor Dostoievsky, o grande escritor russo, autor do clássico Crime e castigo, era um homem descrente com a humanidade. Para ele,de fato, às vezes se fala da crueldade “bestial” do homem, mas isso é terrivelmente injusto e ofensivo para com os animais: a fera nunca pode ser tão cruel como o homem, tão artisticamente, tão esteticamente cruel. 



Post Scriptum - Paulo de Carvalho Neto: Vida & Obra

O soteropolitano-sergipano Gilfrancisco está de volta e dá um valioso presente à cultura sergipana: a trilogia denominada “Vida e Obra”, onde disseca sobre três nomes importantes da nossa cultura, Ranulfo Prata, volume I, Paulo de Carvalho Neto, volume II e Bernardino José de Souza, volume III. Bisbilhoteiro contumaz e amante da pesquisa, após o primeiro volume, já no prelo, “Paulo de Carvalho Neto – Vida & Obra”, edição comemorativa pela passagem dos 15 anos de sua morte (2003-2018) e 95 anos de nascimento (1923-2018), presta homenagem a um dos mais importantes intelectuais sergipanos. Possuidor de um currículo invejável, Paulo de Carvalho Neto, apesar de pouco conhecido em Sergipe, era filho de um dos mais talentosos juristas brasileiros, Antônio Manoel de Carvalho Neto. Mudou-se na adolescência para Salvador e posteriormente para o Rio de Janeiro, onde construiu uma das mais sólidas carreiras na diplomacia brasileira. Viveu fora do país por muito tempo, tendo se destacado no campo literário, na antropologia e no folclore, com obras publicadas na América Latina e na Europa.Neste trabalho, Gilfrancisco reúne uma série de textos, publicados na imprensa,que mostram a repercussão de sua morte em 2003. São notas, homenagens e vários artigos, inclusive abordando sua relação com os intelectuais de Sergipe, com os quais se inteirou na juventude. E tem mais: entrevistas, análises críticas sobre a sua obra – com destaque para aquelas que tecem encômios aos seus romances Vila do Príncipe, de 1950, Meu Tio Atahualpa, de 1972 e Soumi, de 1986 –, contos, ensaios sobre o folclore de Sergipe, do Brasil e do Equador. É possível, também, imergir em seus estudos antropológicos no folclore e na cultura afro, o que demonstra se tratar de uma inteligência plurifacetada. A vida e obra desse grande sergipano é um convite oportuno para conhecermos o talento da nossa gente, tudo isso graças a este trabalho de pesquisa de Gilfrancisco. Aliás, há uma frase do político e intelectual Marcelo Dédaque poderia ser apropriada por Paulo de Carvalho Neto: Não me esqueço de onde venho porque eu sei quem eu sou. Quem sabe de onde vem e cultua as suas raízes não corre o risco de se perder quando quer chegar ao objetivo das suas conquistas.

Clóvis Barbosa escreve aos domingos, quinzenalmente.


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