06/12
12:15

Era da Cognição

Geraldo Duarte*
Advogado

A cada momento nos surpreende a evolução tecnológica. Não bastasse a infinita quantidade de informações do mundo atual, inacessível a quase 80% dos dados, estes se multiplicam progressivamente. Big data. Inteligência artificial.  Algoritmo. Pílula inteligente. E outras expressões atordoantes para o nosso cérebro leigo, ante a um universo subjetivo, porém de realidade objetiva da informática.

Faz-se impressionante como o cientista físico inglês Stephen Hawking e o visionário sul-africano Elon Reeve Musk defendem que as máquinas, utilizando a IA, terão o poder de dominação da humanidade.

Assim, formam-se defensores de suas teses em oposição ao avanço do progresso de uma “racionalidade mental robótica”.

Em contraste a tais princípios, insurge-se a especialista em Engenharia Elétrica e Ciência da Computação Virginia Marie "Ginni" Rometty, hoje consagrada autoridade internacional.
CEO da IBM e há trinta anos funcionária da empresa, justifica tecnicamente as pesquisas e as aplicações da inteligência artificial, inclusive, com a denominação de Era da Cognição.

“O termo ‘artificial’ gera temores infundados.” explicita e também afirma: “Temos um estudo que revelou que um terço das escolhas humanas é acertado, enquanto outro terço engloba as medianas, e o outro acaba em erros brutais.”.

Conta mais de vinte anos a IA, entretanto, preocupante torna-se presentemente, supondo as tomadas de decisões em várias situações reais. Aqui, dúvidas surgem inerentes ao uso da internet das coisas, a não consciência moral e ética de um computador e, até mesmo, o descontrole de superinteligências digitais.

*Administrador e dicionarista


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Por Kleber Santos
29/11
23:47

Chifrudo dobrado

Geraldo Duarte
Advogado

Conhecido bodegueiro da Avenida Carneiro Mendonça, bairro Demócrito Rocha, ganhou fama nos anos sessenta e setenta do século passado.

Não somente pelo sortimento de produtos, crescentes vendas, localização do ponto comercial e converseiro com os fregueses. Em particular, aqueles do grupo de cachaceiros que se postava, diariamente, no reservado especial para os papudinhos.

O merceeiro incumbia o despachar de gêneros alimentícios e de armarinho a um auxiliar e dedicava-se, quase exclusivamente, à mercancia de bebidas alcoólicas. Cerveja e cachaça as mais solicitadas. Ingeridas e complementadas por goles do santo, caretas e cusparadas tradicionais ao pé do balcão.

Assuntos destacados faziam-se os da vida alheia. Fofocas acerca de moradores. Mudanças madrugadoras de pessoal da caderneta do fiado. Entretanto, os campeões imbatíveis, mostravam-se os casos de cornos e cornagens.

Preferidos pelo mercante, habitual incentivador, comentando casos da área.

Os fregueses admiravam-se de sua desenvoltura na temática, pois o sabiam chifrudo. Desconheceria as peripécias da esposa? Houve quem dissesse até cego enxergar.
Sempre acontece “um belo dia” em histórias e, nesta, existiu. Um, do tipo “convencido”, soube ter o comerciante o citado como tal e foi tomar satisfações.
Deram-se acalorados insultos e ameaças mútuas de lavagem da honra com sangue. A turma do “deixa disso” interveio e acalmou os galhudos.

Parecia tudo sanado, quando o acusado gritou: “Posso ser corno, mas não sou corno dobrado!”.

Curiosice total. Corno dobrado? Explicação deu-se: o negociante era traído com homens e com mulheres...
 
*Administrador e dicionarista.    


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Por Kleber Santos
20/11
22:42

A Consciência Negra tem dia, história e luta: 20 de novembro

Cezar Britto 
Ex-presidente da OAB

A História tem revelado que a Lei Áurea, de 13 de maio de 1888, foi aprovada em razão da luta abolicionista e da vitoriosa e crescente “desobediência civil” praticada por escravos rebelados. Basta que se observe que, na época, apenas 5% dos descendentes de africanos eram fisicamente livres, embora, como agora, ainda aprisionados pelo preconceito racial e a desigualdade sócio-econômica. O “apenas” está escrito por força da gramática, pois basta um homem ser escravo para que permaneça o grave crime praticado contra a humanidade.

O que se afirma atualmente é que, ao contrário do chancelado em vários livros escolares, a redução ou a eliminação oficial da escravatura não se deu apenas em função do “humanismo comercial dos ingleses”, da piedade de algum senhorio ou mesmo da atuação caridosa do imperador Pedro II e sua filha Isabel. Ela se deu, sobretudo, em função de complexos fatos e atos diversos, isolados ou não. E não poderia ser diferente, pois a semente escravista estava enraizada na sociedade brasileira, especialmente nos resistentes e poderosos barões do café do Vale do Paraíba (São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais).

Mesmo antes da abolição oficial, outras medidas legais reduziram a presença de escravos, a exemplo da Lei Eusébio de Queiroz, que proibiu o tráfico de escravos, ainda que tenha ele permanecido ativo e oficiosamente por vários anos. A Lei do Ventre Livre, que determinou a liberdade para os nascidos a partir do dia 28 de setembro de 1871, também contribuiu para a redução do número de escravos, embora, na prática, a liberdade só ocorreria com os vinte e um anos de idade, pois o “nascido-livre” tinha que “indenizar” o senhorio pela liberdade e alimentação. Embora em menor proporção, a Lei Saraiva-Cotegipe ou dos Sexagenários de 1885 teve papel importante, vez que libertou os escravos com mais de 60 anos, ainda assim quando completasse mais cinco anos de “trabalho indenizatório”.

A resistência quilombola é um dos maiores exemplos de luta pela liberdade e redução do número de escravos, pois não podiam aceitar a insana lógica da escravidão, em que uns são melhores do que os outros em função da cor. Ganga Zumba, Zumbi, Diogo, Ramil, James, Cornélio e João Mulungu são alguns dos homens-livres que contribuíram para o estimulo à “desobediência civil” e o nascimento de cidades-livres como Palmares (Alagoas), Jabaquara (Santos) e Leblon (Rio de Janeiro). Revoltas e rebeliões, a exemplo da Revolta dos Malês, em 1835, na Bahia, foram decisivas nas lutas de libertação, além de servirem para alimentar a resistência dos que sonhavam com um Brasil igual.

A Guerra do Paraguai também foi responsável por grande número de libertos, pois seriam considerados livres todos aqueles que voluntariamente ingressassem no Exército Brasileiro, inclusive aqueles que foram compulsoriamente convocados em substituição ao proprietário branco. Eram tantos os negros e pardos “convocados” que os soldados brasileiros passaram a ser chamados de macaquitos pelos aliados argentinos e de los cambás (os negros, em guarani) pelos “inimigos” paraguaios. O próprio conde d’Eu, quando assumiu o Governo Provisório do ocupado Paraguai, reconhecendo o valor dos escravos para a vitória, determinou que seria “igualmente livre todo o indivíduo, qualquer que seja a sua condição anterior, pelo único fato de ter pisado o território paraguaio.”

O Brasil, em função da Guerra do Paraguai, se viu também obrigado a reconhecer que, no bom dizer do príncipe d. Obá II, seria “justo que a pátria escute a voz do defensor da pátria como soldado”, pois, concluía ele, “será que os negros e miscigenados, no Brasil, só servem para cornetas e soldados?” Aliás, d. Obá II é um personagem fantástico, fruto da própria Guerra, mesmo porque dela saiu como oficial honorário do Exército, por bravura. Seu título de nobreza advinha do fato de ser neto do rei africano Alafin Abiodun, unificador do império ioruba, nascido no Brasil em razão de seu pai ter sido vitima do tráfico.

Não se pode esquecer, ainda, que contribuíram para a posterior abolição, dentre outras, as ideias liberais e republicanas que esquentavam o Império, a exemplo da correta bandeira de luta: “igualdade entre todas as cores”. Eram portadores destas idéias, por exemplo, a Sociedade Brasileira contra a Escravidão, a Confederação Abolicionista e Caixa Emancipaora Luiz Gama, além de humanistas como Joaquim Nabuco, Castro Alves, André Rebouças, José do Patrocínio, Luiz Gama e Francisco de Paula Brito, sendo os quatro últimos filhos de mulheres negras. Jornais como a Gazeta de Noticias, Gazeta da Tarde, O Cabrito, O mulato e O homem de cor foram igualmente importantes nas lutas de libertação.

Assim, embora admirável como documento e marco legal do princípio da igualdade racial no Brasil, não se pode afirmar que a abolição dos escravos foi um áureo presente imperial, como bem registrou a professora Hebe Maria Mattos (in Das cores do silêncio: significados da liberdade no Sudeste escravista). O Brasil-escravista oficialmente deixou de existir a partir de 13 de maio de 1888, mas não se pode, jamais, negar que a liberdade fora conquistada com luta, sangue, coragem e dor. O Brasil-desigual continua em pleno vigor com demonstrações de ódio e intolerância a navegar nas redes sociais. Este Brasil continua a esperar dos governantes brasileiros e de todos que aqui habitam, a contínua luta pela efetiva igualdade. E é assim que devemos entender este dia 20 de novembro, dedicado nacionalmente à Consciência Negra.


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Por Eugênio Nascimento
19/11
16:09

Avanços no Hospital Universitário

Angelo Roberto Antoniolli
Reitor da UFS

Na última quarta-feira, dia 15, o Hospital Universitário da nossa querida UFS avançou mais uma vez. Desta feita, foram inauguradas a Reforma e Conclusão do Prédio do Anexo Hospitalar, ao custo de R$ 8.311.903,76, e o Centro de Imagem, ao custo de R$ 3.187.733,18. No primeiro caso, a área construída é de 2.681,56 m², ao passo que no segundo caso a área construída é de 515,59 m². 

A Obra de Reforma e Conclusão do Prédio do Anexo Hospitalar compreende a conclusão da construção de três pavimentos, reforma/adaptação do pavimento térreo existente, construção de uma passarela ligando o referido Anexo ao Prédio Central do HU, bem como cobertura, marquise e reforma da rampa frontal ao Anexo, permitindo, assim, o acesso de ambulâncias a todos os demais ambientes. 

No caso do Anexo, no piso térreo foram reformadas as instalações existentes, a saber: sala de espera com balcão de atendimento; salas para realização de exames 
(ecocardiograma, tomografia, mamografia, raio X simples e raio X contrastado),  além de salas de coordenação médica, expedição de laudos, expurgo, banheiros, hall de elevadores e escadas etc.

No segundo pavimento foram construídas: área de circulação, sala de emergência, salas de aplicação de quimioterapia, postos de enfermagem, salas de diálise consultórios, salas de recuperação, sala de prescrição médica, sala de paramentação, sala de repouso, depósitos, além de banheiros, lavabos, hall de elevadores e escadas.

No terceiro pavimento foram construídas áreas de circulação, enfermarias para adultos e crianças, brinquedotecas, sala de transplante alogênico, salas de procedimentos, postos de enfermagem, expurgo e DML, bem como banheiros, sala de apoio, rouparia, copa hall de elevadores e escadas. 

Por fim, no quarto pavimento foram construídas áreas de circulação, duas salas de cirurgia de grande porte, preparadas para a realização de transplantes, duas salas de cirurgia de pequeno porte, corredor cirúrgico, sala de guarda e preparo pré-anestésico, sala de recuperação pós-anestésico, sala de indução anestésica, sala de equipamentos e arsenal, postos de enfermagem, sala de recepção/preparo/esterilização, sala de armazenagem e distribuição, expurgo e DML, além de banheiros, hall de elevadores, hall de estar e escadas. 

No Centro de Imagem foram construídas salas para a realização de exames (Imagenologia), tais como mamografia, teste ergométrico, ultrassom, eletroencefalograma, densitometria óssea, ressonância magnética, hemodinâmica, salas de indução e recuperação anestésica, salas de comando dos equipamentos, salas de espera, salas de laudos, sala administrativa, postos de enfermagem, banheiros, sala de expurgo, DML, troca de macas etc. 

É imperioso destacar os esforços das equipes de infraestrutura da UFS e do HU/EBSERH, bem assim o apoio inestimável do Ministério Público Federal e Estadual. Do mesmo modo, sem a dedicação do senador Eduardo Amorim e do deputado federal André Moura, que envidaram esforços junto ao Ministério do Planejamento e ao Ministério da Educação para a liberação de dotação orçamentária e de recursos financeiros, não teríamos, por certo, logrado êxito nesses empreendimentos. Vale destacar também a decisão firme do presidente da EBSERH, Kleber Morais, e do próprio ministro Mendonça Filho, da Educação. A todos eles, somos muito gratos. Aliás, Sergipe e os sergipanos muito lhes agradecem. 

Antes da reforma e construção dos prédios acima descritos, esteve prestes a ocorrer um fato de gravidade ímpar: os equipamentos que serão utilizados no tratamento do câncer e noutros tratamentos estavam encaixados e prontos para ser levados para outros estados, em face da falta de recursos para a realização das obras. O Ministério Público Federal e Estadual somaram-se à gestão da UFS/HU/EBSERH e fomos bater à porta dos parlamentares federais. Estes foram ao ministro da Educação. O quadro foi revertido. Os recursos foram assegurados. Projetos e licitações foram tocados com presteza. E aí estão os resultados. 

Os usuários do SUS receberão tratamento e cirurgias oncológicas, transplante de fígado, rim, córnea e vários serviços especializados. Do mesmo modo, muito haverão de ganhar os nossos professores e alunos com espaços adequados para exercer suas respectivas funções. 

Esperamos doravante, e, para tanto, confiamos nos esforços do presidente Kleber Morais da EBSERH e do ministro Mendonça Filho, da Educação, para que possamos ter no mais breve espaço de tempo possível a obtenção de verbas para a ampliação da Farmácia e do Refeitório do HU, ao custo de R$ 1.200.000,00, e para a conclusão das obras da Unidade Materno-infantil, que contará com 118 leitos (adultos e infantis), cinco salas de parto e seis salas cirúrgicas, ao custo de R$ 15.700.000,00. Tudo isso será para o bem dos sergipanos. 

A atual gestão da Universidade Federal de Sergipe mostra-se imensamente grata a tantos quantos dedicam momentos especiais de suas vidas profissionais para o engrandecimento da nossa Universidade e, em especial, do nosso Hospital Universitário: professores e técnico-administrativos da UFS, superintendente, diretores e servidores da EBSERH, além dos nossos alunos, que continuam acreditando que é sempre possível fazer mais e melhor. 

A Universidade Federal de Sergipe continuará avançando. E com ela, o nosso Hospital Universitário. 


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Por Kleber Santos
17/11
15:38

Bicho da Água Verde

Geraldo Duarte*
Advogado

Em 565, o monstro de Loch Ness, Escócia, conhecido por Nessie, teria sido visto pela primeira vez. A última, 2013.

O Ceará não aceitou menos. Um concorrente, em 1960, apareceu no açude Água Verde, em Pacoti. O monstrengo garantiam medir de 5 a 6 metros de comprimento e, quando na terra, firmava-se em duas patas e mantinha o corpo ereto. Nesta posição, aprisionava a vítima e, com ela, mergulhava nas profundezas do reservatório.

Jamais se deixou fotografar. Somente retrato falado, arte policial, dele se possuía. Mistério da criptozoologia, parecido, talvez, ao plesiossauro, afirmavam os técnicos.

O Dnocs fez-se possuidor da fera e convocou seu biologista Raimundo Adhemar Braga, exímio exterminador de piranhas, objetivando capturar o “perigoso e fantasmagórico animal”.

Criada a “força expedicionária do DNOCS”. Equipada de “material bélico solicitado ao Exército, como fuzis, barracas, lança-chamas, granadas e holofotes”, segundo o livro Histórias do DNOCS, de Jarbas Gurgel, o Dr. Adhemar rumou para o lugar das aparições liderando dez homens.

Do alto de uma árvore, próxima ao acampamento, controlou as ações munido de binóculo.

Noite enluarada. Vegetação aquática perto da margem da represa agitou-se fortemente. Dada a ordem, mais de vinte tiros disparados. Depois, silêncio. Rumaram todos ao alvo. Lá estava à fera. Jazia abatida por vários projéteis.
 
A mídia local e nacional, durante semanas publicara conjecturas e, ali, deu-se o clímax. Morto um simples jacaretinga ou Caiman crocodilus de 1 metro de extensão.

De lembrança, fabricante de cachaça lançou a Aguardente Bicho da Água Verde.
 
*Administrador e dicionarista.


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Por Kleber Santos
13/11
16:47

O Regime de Pinochet e a Tragédia Chilena

Afonso Nascimento
Professor de Direito da UFS

Faz pouco tempo que tivemos a oportunidade de conhecer o Chile, pequeno país do cone sul da América espremido entre a Cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico. Entre as atrações turísticas ofertadas aos visitantes está o Museu da Memória e dos Direitos Humanos situado em Santiago, a capital desse país andino. Ele é um muitos lugares de memórias da ditadura militar chilena ocorrida entre 1973 e1990.

Ficamos muito mais impressionado com esse museudo que com o Arquivo do Terror, em Assunção, que registra as atrocidades da ditadura do general Stroesner no Paraguai - um regime autoritário que, diga-se de passagem, nada teve a ver com a safra de ditaduras de países como Brasil, Argentina, Uruguai ou Chile, chamadas de burocráticas-autoritárias porque as Forças Armadas chamaram para si o comando do Estado. O impacto dessa visita ao museu não se deveu ao fato de ser um prédio autônomo com murais, documentários, arquivos para pesquisadorese muito mais, à diferença do Arquivo do Terror que fica dentro de um tribunal de justiça paraguaio. O choque veio com as associações e comparações que pudemos fazer entre os regimes militares brasileiro e chileno. Sem a pretensão de sermos exaustivos, eis aqui algumas dessas coisas comuns e suas diferenças.

O golpe militar brasileiro de 1964 inaugurou a série de ditaduras militares que se espalharam pela América Latina depois da Revolução Cubana, enquanto aquele do Chile ocorreu quando o Brasil vivia o período denominado de distensão do general Ernesto Geisel. Por causa disso, o regime brasileiro pôde exportar know-how e recursos de vários tipos para o golpe chileno e até mesmo estabelecer parceria (colaboração da embaixada brasileira, Operação Condor) como os militares chilenos, ambos sob a tutela da “grande nação do norte” da América.

Outro dado importante é que, de acordo com Anthony Pereira, o golpe militar brasileiro foi preventivo, antes de reformas estruturais que supostamente levariam a uma Cuba continental na América do Sul e que seriam promovidas pelo presidente João Goulart. No caso do Chile, o golpe foi ofensivo, no sentido de que já estava em marcha um processo de transformações implementadas pelo governo constitucional de Salvador Allende. A coisa já tinha ido longe demais, na visão dos golpistas militares e civis chilenos.  Como diria um golpista brasileiro em 2016, era “preciso estancar a sangria”. O Congresso chileno foi fechado e a Justiça colaborou escancaradamente. Além do mais, diferentemente do Brasil, sendo o Chile um pequeno país com uma economia muito dependente de minérios (sobretudo do cobre), a sua classe trabalhadora estava realmente engajada no processo de transformação social pela via democrática, algo que muito pouco aconteceu no Brasil.

Dizendo de outra forma,  fato é que, quando ocorreu o golpe militar chileno, os militares alcançaram não apenas as lideranças das esquerdas da Unidade Popular, mas também centenas de trabalhadores por todo o Chile. Isso ficou claro para nós outros quando, na visita ao museu mencionado, observamos que o mapa da nação andina estava praticamente todo pontilhado de lugares de repressão e de memória. Afirmando isso, não estamos nos referindo apenas às principais cidades (Santiago, Punta Arenas, Puerto Montt, Valparaíso, Viña del Mar, etc.), mas a muitos outros aglomerados urbanos e rurais do país. Como se sabe, no momento do golpe militar brasileiro não havia nem longe a mesma organização e mobilização dos trabalhadores brasileiros em comparação com o caso chileno.

Talvez por isso mesmo, o regime militar chileno matou muito mais chilenos do que a ditadura militar matou brasileiros. E também prendeu e torturou mais pessoas, fez desaparecer muito mais gente, provocou o exílio de muito mais indivíduos, enfim, tudo muito mais. Quando falamos acima em matar, queremos dizer fuzilamentos em massa em muitos lugares do Chile. O Estádio Nacional, o campo de futebol em que o Brasil conquistou a Copa do Mundo de 1962, foi um desses espaços. Ao invés de torcedores nas arquibancadas e jogadores no gramado, lá estavam presos políticos que eram eliminadossumariamente por militares, em diversas ocasiões. Nessa arena de futebol, existe um pequeno museu que dá uma ideia precisa da matança também ocorrida nesse espaço.

Em Santiago tem um rio chamado Mapuche que nasce do degelo da neve da Cordilheira dos Andes, que desce e que atravessa toda a cidade que está localizada num vale, como todo o Chile, aliás. Segundo chilenos com quem conversamos, durante os primeiros tempos do golpe, corpos de comunistas, socialistas, simpatizantes e outrosboiavam nesse rio que se tornou, por isso mesmo, local de coleta de mortos por familiares e por outras pessoas. Não sabemos o que há de verdade nesses relatos, mas ainda contaram quecorpos de chilenos podiam ser encontrados no Pacífico, onde o rio deságua, e mesmo em um campo de concentração de presos políticos numa ilha. O bombardeio e a destruição do Palácio de la Moneda,onde se encontrava o presidente Salvador Allende, pelos aviões do general e ditador Augusto Pinochet, são algumas das muitas cenas fortes exibidas em documentário do museu.

Descrevendo esses fatos, alguém pode dizer que fazemos o regime militar aparecer bem na fita. Não temos nada a ver com o debate sobre a “ditadura” e a “ditabranda” alimentado pela Folha de São Paulo tempos atrás. Os regimes autoritários nunca aparecem bem em nenhuma fita, pouco importando os números de suas atrocidades. Acrescentamos: mesmo aqueles que não prendem, não torturam e não matam como nos tempos atuais. Todos devem rechaçados. Um último comentário, sí se puede. No Brasil, o nome do grupo de trabalho criado para inventariar e relatar a agressão aos direitos humanos de pessoas pelo regime militar foi chamado “Comissão Nacional da Verdade”, ao passo que no Chile grupo equivalente recebeu nome diferente, ou seja, “Comissão da Verdade e da Reconciliação”. Pode ser que a palavra “reconciliação” nada tenha a ver com a nossa reflexão, mas ela dá uma ideia de uma tragédia social que, em termos quantitativos, não aconteceu no Brasil. Aqui não foi, portanto, necessária uma reconciliação nacional.

PS: Refletindo sobre a experiência chilena, nos demos conta como é incrivelmente fácil construir espaços de memória e memoriais. Pode ser um muro com nomes etc., pode ser um prédio especialmente destinado a esse fim, pode ser dentro de tribunal de justiça e de assembleia legislativa, pode ser um monumento, etc.


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Por Kleber Santos
05/11
13:18

Eficiência Energética na UFS

Angelo Roberto Antoniolli
Reitor da Universidade Federal de Sergipe

Nos últimos anos, a Universidade Federal de Sergipe enveredou pelo caminho do crescimento com sustentabilidade. Foi uma decisão devidamente planejada desde que assumimos a reitoria. Externamente, intensificou as relações interinstitucionais, possibilitando maior ingresso de recursos e maior divulgação de suas potencialidades. Em alguns aspectos, a UFS parecia encolhida, embora tivesse tanto o que mostrar fora de seus muros. Melhorias nas estruturas físicas foram ou estão sendo realizadas nas suas treze unidades graças, sobretudo, à captação de recursos para o processo de expansão e melhoramento.

Nesse sentido, além de ações em outras áreas que nos levam à sustentabilidade, diversas ações dentro do Programa de Eficiência Energética da UFS já foram implementadas e outras importantes propostas para o crescimento e desenvolvimento estão sendo discutidas e aplicadas, como é o caso do projeto de construção da subestação elétrica SE UFS 69kV e da implementação dos sistemas fotovoltaicos do Departamento de Engenharia Elétrica – DEL, da Biblioteca Central – BICEN e do prédio da Didática V no Campus São Cristóvão. É apenas o início de uma etapa.

O maior dispêndio da Universidade Federal de Sergipe com a aquisição de serviços é o de fornecimento de energia elétrica. No ano de 2016 foram gastos cerca de R$ 9,75 milhões com esse insumo (considerando os impostos federais, responsáveis por R$ 517 mil). Isto representou uma elevação de 29% em relação a 2014, quando a UFS gastou aproximadamente R$ 7 milhões em energia elétrica.

Para diminuir esse impacto, a UFS está executando projetos estruturantes de grande envergadura, como a construção da subestação de alta tensão 69kV, acima citada, a um custo de R$ 5.318.736,91, e os projetos de geração elétrica limpa de origem fotovoltaica instalados nos prédios do DEL, BICEN e DIDATICA V a um custo aproximado de R$170.000,00 cada. Todos esses projetos permitirão reduzir em aproximadamente 35% os custos atuais com energia elétrica do campus de São Cristóvão. E não haveremos de parar por aí. 

A UFS atualmente também está desenvolvendo projetos importantes que serão implementados em 2018-2019 como a Usina Térmica a Gás Natural em parceria com a SERGÁS e o Parque Fotovoltaico de 1MW que será instalado no Campus do Sertão.

Com a evolução da sociedade e o avanço das tecnologias, a demanda mundial por energia cresce de maneira exponencial, formando um grande descompasso entre a geração e o consumo. Com a proximidade da diminuição e possível esgotamento da fonte hidráulica, o encarecimento das fontes fósseis e o risco da utilização de fontes nucleares, defendidas por alguns e contestadas por outros, as energias renováveis sem queima estão se tornando cada vez mais competitivas tanto em custo quanto em ganho de escala por não gerarem resíduos, não dependerem de combustíveis produzidos pelo homem e não afetarem de forma dramática a atmosfera terrestre. Em suma, é a busca pela sobrevivência humana e do próprio planeta Terra. Uma Universidade que se preza deve estar atenta a tudo isso. 

Das energias renováveis, a que melhor se adapta para aplicação em meios urbanos é a solar fotovoltaica por não requerer manutenção constante, não afetar a vida cotidiana das pessoas e ainda, não necessitar de um local específico para sua instalação, podendo ser inserida em coberturas de edificações, sobre telhados de estacionamentos, áreas não produtivas próximas ao local de consumo etc.

O Sistema Fotovoltaico Conectado à Rede (SFCR) instalado no prédio de Engenharia Elétrica – DEL da UFS tem uma potência nominal de 42,24kWp e usa uma estrutura sub-base com suportes fixos metálicos de alumínio galvanizados inox. O sistema esta constituído de 128 placas fotovoltaicas de 330Wp cada e 2 inversores de 27kW. Esse sistema haverá de gerar uma energia mensal aproximada de 5.700 kWh/mês suficiente para fornecer energia elétrica a 30 residências familiares, como afirma o professor Milthon Serna Silva, que está à frente de uma equipe trabalhando nessa área. 

A responsabilidade que nos pesa, a todos nós que temos uma parcela por mínima que seja da gestão universitária, é muito grande. E dela não abriremos mão. É nosso dever, em conjunto, lutar cada vez mais pelo crescimento com sustentabilidade. Na UFS encontra-se um quadro de professores/pesquisadores da melhor qualidade. Mestrandos e doutorandos com os seus respectivos orientadores devem estar imbuídos de oferecer à sociedade sergipana produtos eficazes e eficientes advindos de seus projetos de pesquisa, inclusive em diversas áreas que nos levem ao crescimento com sustentabilidade. 

As Instituições de Ensino Superior não devem se furtar a servir de modo o mais consentâneo possível à comunidade acadêmica e à sociedade em geral. Do contrário, estarão fadadas a se tornar Instituições do tipo caramujo, que se fecham em torno de si mesmas. Não é isso o que queremos para a UFS. Queremos estar na dianteira, abrindo portas e iluminando caminhos.


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Por Kleber Santos
04/11
22:15

Da autonomia à resistência democrática

José Vieira da Cruz -  Doutor em História Social, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e Vice-reitor da UFAL


O Brasil tem vivenciado tempos difíceis e de grandes incertezas. Nestes momentos, discutir como a sociedade, as universidades e o País superaram alguns de seus desafios pode ajudar a pensar outros horizontes e expectativas.

Imerso em torno deste propósito, o livro de nossa autoria, ?Da autonomia à resistência democrática: movimento estudantil, ensino superior e a sociedade em Sergipe, 19501985?, publicado pela Editora da Universidade Federal de Alagoas (Edufal), discute, a partir da atuação do movimento estudantil universitário, o esforço da sociedade para criar a Universidade Federal de Sergipe (UFS). Este esforço teve e tem como propósito pensar o desenvolvimento científico, humano, social e sustentável da economia  local inserida no contexto nacional e global.

Resultado de  um longo percurso de pesquisas, iniciadas ainda na graduação, em 1996, e concluídas em 2012, com a defesa de minha tese de doutorado na Universidade Federal da Bahia (UFBA), agora convertida em livro, é agora apresentada aos leitores. O presente estudo, debruça-se sobre mais de uma dezena de entrevistas e na consulta de mais de 4 mil páginas de documentos, além da consulta a vasta bibliografia relacionada e a pesquisa de 35 anos junto aos jornais.

A análise dessas fontes e leituras revelaram dois importantes momentos da sociedade brasileira, vistos a partir de Sergipe. O primeiro, de 1950 a 1964, marcado pela guerra fria e pelo debate nacional e desenvolvimentista, descortina o aprendizado da sociedade, recém-egressa da ditadura do Estado Novo, 1937-1945, no tocante a participar das tomadas de decisão  política do País.  O segundo, de 1964 a 1985, contexto marcado por mais um golpe de estado e uma longa ditadura civil-militar, revela como a sociedade manteve-se na luta pela criação  da UFS, sofreu com a censura e a repressão política e como, mesmo diante desse duro aprendizado, retomou a partir da resistência democrática a reorganização das entidades estudantis, a luta por eleições diretas para o diretório dos estudantes, da reitoria da universidade e da presidência da República.

Ao longo, portanto, das mais de 620 páginas que formam esse livro, procuramos de modo objetivo proporcionar uma leitora harmoniosa entre os capítulos, que podem ser lidos de forma separada e independente, e o conjunto do texto. A obra, em seu conjunto, apresenta um estudo de média duração e revela, a partir do fio condutor escolhido, diferentes experiências e mediações relativas a formação estudantil e a Universidade. Experiências formativas decisivas na e para renovação/estruturação de lideranças políticas, profissionais e artísticas do Estado e do País.

Essas e outras conclusões podem ser abstraídas deste livro. Aqui fica o convite para o seu lançamento, dia 14/11/2017, terça-feira, das 17 h às  20 h, no Museu da Gente Sergipana, na Avenida Ivo do Prado, 398. Espero que essa leitura possa, lançando luzes sobre o passado próximo, a partir de um olhar que inter-relaciona estudos desenvolvidos fora e dentro dos grandes centros de pesquisa nacional, descortine, a partir experiências do passado narradas, analisadas e discutidas, outros horizontes e expectativas de nosso presente.



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Por Eugênio Nascimento
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