18/10
09:02

Cera, arte e fama

Geraldo Duarte*

O Museu de Cera de Madri completou 45 anos e vivifica personagens históricas em quase 450 artísticas esculturas.

Obras perfeitas. Detalhes minuciosos. Cabelos legítimos, tez da pele impressionante, contendo sinais e cicatrizes. Trajos pormenorizados de épocas. Várias replicadas nos locais de viver.

Das mais antigas é a imagem de Cristovão Colombo, na ocasião do retorno da primeira viagem à América, recebido pelos Reis Católicos. O casal, sentado nos tronos, junto a pessoas da corte, na solenidade representativa.

Colombo estudou na Universidade de Salamanca, nos idos de 1486, hóspede do convento dos Dominicanos. Recebeu o apoio do Frei Diego de Deza, confessor do Rei Fernando, deste tendo ajuda para a jornada ao Novo Mundo.

Também figuram Santa Teresa do Menino Jesus, mostrada na escrivaninha com objetos sacros e, Cortês, falando a Atahualpa, assistido por intérprete e acompanhado de soldados espanhóis.

Da atualidade, encontram-se Plácido Domingos, Mário Vargas Llosa, Santa Teresa de Calcutá, São João Paulo e o Papa Francisco. E, dentre políticos e desportistas, há as cópias do governante norte-americano Donald Trump e de sua esposa, Melania Trump, e do jogador português Cristiano Ronaldo.

Quando um presidente conclui o mandato, são conservados o busto, as mãos e a indumentária, exceção daqueles que se tornaram Doutor Honoris Causa pela Universidade de Salamanca, que permanecem inalterados.

Curiosice sobre a conservação das estátuas: a cera, sujeita à poluição, é restaurada, a maquiagem lavada com xampu seco e renovada, sendo a vestimenta levada à lavanderia.

Visita imperdível!

*Geraldo Duarte é advogado, administrador e dicionarista.


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Por Kleber Santos
15/10
18:21

A renda irlandesa, as rendeiras e o Papa

Beatriz Gois Dantas  - Antropóloga, profa. emérita da UFS, membro do IHGSE e da ALL.

 
A Igreja Católica, com sua perspectiva universalista, tem multiplicado santos e invocações à Virgem Maria. Assim, a Mãe de Jesus ganhou denominações diversas entre as quais a de Nossa Senhora Divina Pastora. A devoção surgida na Espanha, no início do século XVIII, ganhou adeptos também em Sergipe. Foi na zona da cana onde seu culto se tornou mais forte, como indica o grandioso e belíssimo templo erigido em honra da Virgem que é representada tendo ao seu lado o Menino Jesus cercado de carneiros, constituindo-se em cena bucólica de um lirismo campestre. Essa imagem orna o altar-mor da igreja matriz da cidade sergipana que também recebeu seu nome e se colocou sob sua proteção: Divina Pastora.

No mês de outubro, a cada ano, uma considerável massa de aproximadamente cem mil pessoas, formada por fiéis, romeiros, pagadores de promessas e turistas,  desloca-se em peregrinação à pequena cidade num magnífico espetáculo de religiosidade.  Esse grande evento, contrasta com a rotina da plácida urbe que, no seu dia a dia, abriga o trabalho silencioso de mais de uma centena de rendeiras a produzirem, artesanalmente, a renda irlandesa, um dos mais belos e sofisticados trabalhos feitos pelas mulheres sergipanas.

Resultante da transposição e adaptação de velhos saberes e trabalhos femininos trazidos da Europa, a renda chegou ao Brasil através de livros do século XIX, em versão francesa, ou diretamente através do trabalho de mulheres que aprenderam a arte por meio dos processos informais de observação e transmissão oral.  O fazer da renda foi aqui apropriado por freiras recolhidas em conventos, damas da sociedade e moças pobres que precisavam ganhar dinheiro. Em Divina Pastora, difundiu-se quando os engenhos de açúcar começaram a declinar, constituindo-se em opção de trabalho para as mulheres.

Tecida com agulha e linha que vai preenchendo, ponto por ponto, o desenho delineado pelo lacê (cordão achatado) costurado num papel grosso, o fazer da renda é atividade vagarosa, que exige conhecimento da técnica e dedicação da artesã na elaboração do belo trabalho.     

Em Divina Pastora, muitas rendeiras investiram os poucos ganhos com a renda irlandesa em educação, frequentando escolas e tornando-se professoras e rendeiras ao mesmo tempo. Apoiadas nas redes tradicionais de produção artesanal, nos programas de governo ou em agências particulares de promoção de artesanato, as rendeiras ganharam visibilidade. Organizadas em associações, enfrentaram melhor as dificuldades decorrentes da aquisição da matéria-prima – um óbice sempre presente –, passaram a frequentar feiras e a renda ganhou espaço e conquistou novos mercados.

Os ganhos não foram apenas econômicos, mas também simbólicos. A renda irlandesa de Divina Pastora ganhou a mídia, os museus e o reconhecimento oficial com o título de Patrimônio Cultural do Brasil. Alegraram-se as rendeiras vendo sua renda ocupando espaços nos palácios, sendo mostrada nas redes de televisão, em desfiles de moda e largamente consumida sob a forma de peças diversas que foram criando ao longo do tempo.

Quando a atriz Global Regina Duarte, adquiriu ao vivo uma toalha de renda irlandesa num programa da TV Cultura anos atrás, foi uma consagração para as rendeiras. Maior que esta, porém, foi o orgulho com que produziram uma estola, parte da indumentária ritual dos sacerdotes, destinada ao Papa Francisco. Peças sacras como estolas, toalhas para altares e panos de sacrário integram, desde muito, o rol dos objetos por elas produzidos para adornar igrejas e mimosear padres. Todavia, ver sua renda chegar ao Sumo Pontífice, o chefe maior da Igreja Católica, foi experiência única para essas mulheres, devotas da Divina Pastora.

 A façanha envolveu tramas diversas e fios puxados pelo presidente da Federação Brasileira de Academias de Medicina, o médico José Hamilton Maciel da Silva, um alagoano radicado em Sergipe desde os anos setenta. Empenhado em ampliar o intercâmbio internacional da entidade que dirige, planejou viagem realizada por mais de trinta companheiros e visitou entidades médicas na França, na Suécia e na Itália. Foi recebido pelo Papa e entregou-lhe a estola feita pelas mulheres rendeiras de Sergipe.

 Na história das rendeiras de Divina Pastora, este é um fato que será relatado e realçado ao lado de muitos outros, que constituem a longa saga dessas mulheres, mestras e guardiãs de um saber, em cujas tramas se cruzam tradições europeias retrabalhadas na contemporaneidade. Vida longa e sucesso às rendeiras de Divina Pastora e ao Papa Francisco. 


Aracaju 15 de out de 2017



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Por Eugênio Nascimento
15/10
14:20

Um ano sem o talento criativo e instigador de Antonio Carlos Viana

Luiz Eduardo Oliva (**)

Em versos por demais conhecidos que até já viraram uma espécie de lugar comum, o poeta lusitano Fernando Pessoa infere o ofício da poética com tamanha força que chega a dizer que “o poeta é um fingidor” e com uma convicção tão imensa da condição de fingidor que é o ficcionista arremata: “finge tão completamente/ que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente”.  Uma máxima também lugar comum é que “a vida imita a arte” para justamente acentuar a ironia da vida de tão absurda que pode parecer ser uma imitação daquilo que os ficcionistas escrevem e não o seu contrário. Seria, de fato, a vida uma ficção ou a realidade é uma confusão permanente? O que de fato é o existir?

Digo isso para me referir a um dos maiores ficcionistas sergipanos, e dos maiores do Brasil contemporâneo. E digo sem medo de ser superlativo se me refiro ao, talvez  - e o “talvez” aqui é para fugir das verdades absolutas - melhor ficcionista do gênero literário “conto” dentre tantos ficcionistas brasileiros que atravessaram o ultimo quartel do século passado até essas duas primeiras décadas do século vigente. Falo de Antônio Carlos Viana o extraordinário contista sergipano que faleceu justamente há um ano deste 14 de outubro (14/10/2016) que era respeitado e festejado em todo o país, mesmo tendo um espirito aparentemente recluso, introspectivo e tímido. 

Já se disse que a melhor forma de homenagear um morto é recordá-lo. Sergipe, porque há um diminuto contingente de cultores da literatura ou porque não tem uma tradição de elevar seus grandes nomes, despreza seus grandes talentos. Viana é uma espécie de oásis num mundo fadado ao deserto de inteligência, a um saber da superfície, fugaz, momentâneo, sobretudo nos dias da rapidez e das coisas efêmeras do mundo virtual. 

Só para ilustrar o desavisado leitor - sem com isso desmerecê-lo, muito pelo contrário -  Antônio Carlos Viana foi um contista nascido em Aracaju (1944) que um dia largou a vida de professor e foi vender cachorro quente na porta do SUS  para depois se consagrar como escritor, mestre em teoria literária e doutor em literatura comparada pela Universidade de Nice na França. Talvez ali buscou muitas inspirações para suas histórias. Foi professor da Universidade Federal de Sergipe, publicou livros didáticos (“Roteiro de Redação: Lendo e Argumentando”, por exemplo) foi tradutor profícuo (“Os conquistadores de Júlio Verne”, outro exemplo) e, sobretudo escreveu seis livros de contos que o consagrou como o mais importante cronista brasileiro do seu tempo.

Não é demais recordar esses seis livros que são todos clássicos da literatura brasileira contemporânea como são musicas de Chico Buarque, de Gilberto Gil, Caetano Veloso: “Brincar de manja” (1974), “Em pleno castigo” (1981), “O meio do mundo e outros contos” (1993), “Aberto está o inferno” (2004), Cine privê (2009), “Jeito de matar lagartas” (2015). Só para ter uma ideia da dimensão desse escritor sergipano, os dois últimos livros foram vencedores do festejado Prêmio da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes) um dos mais importantes da literatura brasileira.

Viana viveu até os 72 anos. Era um pessimista, seus contos aparentemente traziam o amargor da vida, mas era, sobretudo um cronista de um mundo que na maioria das vezes está invisível aos privilegiados da vida. 

Numa de suas últimas entrevistas Antônio Carlos acentuou esse seu lado pessimista mas, por contraditório que pudesse parecer, diante da iminência da morte mostrou sua fé na vida. Disse ele: "Não posso deixar de concordar com quem diz que sou um pessimista. Meu olhar começou a mudar há pouco tempo por causa de uma doença grave, que, a esta altura, é do conhecimento de todo mundo: mieloma. Uma doença assim nos faz dar uma guinada na forma de ver o mundo (...) A miséria humana me interessa em todas as suas manifestações, ela é muito rica para ser explorada pelas artes, que hoje parece não lhe dar muita atenção”.

Foi exatamente procurando entender e traduzir em seus contos a miséria humana que fez de Viana o extraordinário contista (e aqui me refiro à miséria da pobreza que, lamentavelmente pela insensibilidade e egoísmo exclui a maioria das pessoas apesar de toda a tecnologia, riqueza e avanço).  Seus personagens e situações foram colhidos certamente de um Sergipe ainda pobre e miserável, quase esquecido mas real. Talvez ele mesmo, vivenciando os dramas de seus personagens, fingisse completamente como no poema de Pessoa, fingindo que era dor a dor que deveras sentia nos personagens que criava ou meramente fazia vivos e alertava na sua exuberante ficção. E talvez por isso, pela dor da angustia dos seus personagens, tivesse afetado sua própria saúde, fazendo nos deixar em plena efervescência de sua produção de escritor.

A vida é absurda, dizia Albert Camus. E esse absurdo da vida, Viana contou como poucos. Legou a Sergipe, ao Brasil e ao mundo (Tolstói dizia, “canta sua aldeia e serás imortal”.) uma literatura impar, própria, original, elegante,  precisa pela concisão e realismo de vidas que de fato existem,  ainda que fossem retratadas em ficção. Lembrar Antônio Carlos Viana exato um ano depois de sua morte é reverenciar um mestre. É prestar homenagem a um dos mais notáveis sergipanos de todos os tempos.  

(**) Luiz Eduardo Oliva, advogado, poeta e professor. Ex-secretário de Estado dos Direitos Humanos e da Cidadania.


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Por Kleber Santos
12/10
10:03

Os nordestinos e o preconceito nosso de cada dia

Cezar Britto é sergipano, advogado e escritor, autor de livros jurídicos, romances e crônicas. Foi presidente da Ordem dos Advogados do Brasil e da União dos Advogados da Língua Portuguesa. É membro vitalício do Conselho Federal da OAB e da Academia Sergipana de Letras Jurídicas

 

“Não nasci nordestino por obra do acaso. Escolheram-me porque saberiam previamente do gosto do meu gostar. E acertaram em cheio!”


Certa vez, ao terminar uma palestra na XVIII Conferência Nacional da Advocacia, na baiana Salvador, fui procurado por um entusiasmado advogado catarinense. Queria me cumprimentar pelo conteúdo e pela forma com que eu expusera sobre o delicado tema das opções econômicas ou sociais na efetivação da Constituição. Olhando-me com a admiração refletida no forte aperto de mão, soltou sua elogiosa pérola:


– Parabéns, Britto, o senhor mudou a minha opinião sobre os nordestinos. É que eu não sabia que havia pessoas inteligentes no Nordeste. Vou contar ao pessoal sobre o senhor e eles também irão mudar de opinião.


Ele externava, com sinceridade ímpar, o preconceito que guardava tão oculto em seu coração que sequer era percebido por ele mesmo. Diferentemente do que ocorrera em outro episódio catarinense, agora na bela cidade de Balneário Camboriú. Naquela época eu acabara de ser eleito presidente nacional da OAB e estava iniciando o meu périplo pelo Brasil, conclamando a advocacia a combater o resistente Estado Policial. O evento da OAB em que falaria iria acontecer no próprio hotel em que me hospedara. Consciente do meu dever de anfitrião, desci para o auditório 20 minutos antes da abertura. Sempre aproveitei este tempo para conhecer, aprender e interagir com outras vozes. Neste dia, entretanto, o seguinte fato me servira como grande lição:


– Pegue água para mim! –era a ríspida voz de uma senhora advogada, elegante e ricamente trajada, confundindo-me com o garçom.

– Pois não, minha senhora! –respondi, gentilmente, dirigindo-me à copa do hotel em busca do objeto de desejo daquela desavisada pessoa.

– Fique aqui! –disse-me ela, sem qualquer gesto de agradecimento ao receber o seu copo d’água, para depois continuar. –Não saia daqui, pois acho que tudo vai demorar para começar. É sempre assim com esses nordestinos preguiçosos, acho que esse tal presidente sergipano deve ainda estar dormindo no quarto.

Pegue água para mim! –era a ríspida voz de uma senhora advogada, elegante e ricamente trajada, confundindo-me com o garçom

– Pois não, minha senhora! Estou aqui exatamente para servir a senhora e a todos vocês –continuei, calmamente, ao seu lado. E assim permaneci todo tempo, sendo vigiado pelo seu agressivo olhar, até que me convidaram para compor a mesa na qualidade de presidente nacional da OAB.


Não sei se meu gesto de assumida simplicidade serviu de lição àquela advogada que, simultaneamente, destilava preconceito de classe e aos nordestinos. Até porque ela saiu em transloucada disparada, não escutando meu improvisado discurso sobre o dever de servir ao outro como condição essencial ao exercício da advocacia. Eu tinha a esperança de que minha ação pacífica, mas não passiva, a fizesse entender que nossa profissão exige que sejamos o outro na busca por Justiça, e que não se luta eficazmente na defesa do outro sem senti-lo como nós. Ou, como ensinou o advogado Mahatma Gandhi: “O melhor modo de encontrar-se a si mesmo é se perder servindo aos outros”.


Nunca saberei, até porque não mais a encontrei. Eu sei apenas que outras de reação reflexiva também são válidas, a exemplo daquela vivenciada por Gerciane Silva, que trabalha comigo há mais de oito anos. Contou-me ela que estava na sala de aula, ainda no início do curso universitário de administração, na “cosmopolita” Brasília, quando o professor passou a explicar a razão principal que entendia ser determinante na vitória da presidenta Dilma Rousseff no segundo turno. Em tom sério e eivado de “verdade”, afirmara que Aécio Neves perdera em decorrência dos analfabetos nordestinos, abduzidos pelos programas assistencialistas dos governos petistas. Ao término da sua prolação, tão comum naquela época, Gerciane pediu a palavra e, para alegre espanto dos colegas, disse:

– Professor, eu queria dizer ao senhor que sou nordestina, empregada doméstica e estou aqui na universidade em razão dos programas que o senhor está condenando. Também queria dizer que se a minha presença incomoda o senhor é problema do senhor, pois não vou sair daqui.


O Brasil tem uma das mais eficientes legislações de combate ao crime de racismo, ao preconceito e à violência contra a mulher. Mas os que têm a raça, a cor, o gênero ou o local de nascimento do preconceito sabem que o Brasil não é o paraíso da igualdade que costuma declamar em versos e prosas. Os símbolos nazistas que voltam às ruas, a apologia ao estupro que recebe milhares de apoio, os nordestinos que são atacados e responsabilizados pelos resultados negativos do país, a homofobia assassina que estampa as manchetes policiais, o feminicídio que segue desenfeitando as estatísticas oficiais e os negros que permanecem tratados como desiguais desmontam qualquer mito ufanista do Brasil justo. O enfrentamento da questão, portanto, não está restrito ao campo da lei, até porque, como nos adverte a história, é mais fácil mudar uma lei do que a cabeça do homem.


Os que têm a raça, a cor, o gênero ou o local de nascimento do
preconceito sabem que o Brasil não é o paraíso da igualdade que costuma

declamar em versos e prosas
 

Daí porque os episódios aqui narrados têm em comum o preconceito extralegal que teima em permanecer ativo no coração brasileiro, ainda quando disfarçado em involuntário elogio. Preconceitos que, repetidamente, são ensinados em chavões nada inocentes, como: “negro de alma branca”, “negro de primeira estirpe”, “futuro ou passado negros”, “ela é inteligente, apesar de mulher”, “ela não merece ser estuprada”, “só podia ser essa gorda e feia”, “o seu sotaque é engraçadinho”, “os nordestinos entendem mesmo é de festa”, “apesar de pobre é limpinho”, “até que ele não é um índio preguiçoso”, “eu até tenho um amigo gay”, “pobre é tudo igual”, dentre outras. Preconceito expostos como vísceras depois que tantos resolveram se esconder atrás dos toques digitais das redes sociais. Preconceito que toma conta, sem disfarce, daqueles que praticam a idolatria a um pré-candidato à presidência do Brasil que destila seu ódio sem qualquer cerimônia. É o que bem observou, assertivamente, o advogado Nelson Mandela: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou por sua religião. Para odiar as pessoas precisam aprender”.


Não que as leis sejam desnecessárias para se combater o preconceito. Elas são fortes aliadas. A guerra ao preconceito se torna complexa por ele se entrincheirar em nossa mente, como se fosse um vírus oculto, insensível à vacina da consciência. Mesmo quando os gestos e as palavras revelam os sinais da grave doença, seu portador não se percebe doente. Ao não perceber a doença que contamina até sua alma, ele a repassa para as outras pessoas, tranquilamente, sem qualquer remorso pela sensação de cometimento de um crime. E assim espalhamos o nosso preconceito, dia a dia, fazendo valer a máxima de Bob Marley:

“Que país é esse onde o preconceito está guardado em cada peito? Que país é esse onde as pessoas não podem ser iguais, devido a suas classes sociais?”

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Por Eugênio Nascimento
11/10
11:54

Viagens de Patroni

Geraldo Duarte*

1821 a 1830. Pitorescas viagens de Filipe Alberto Patroni Martins Maciel Parente. Paraense, radicado no Rio de Janeiro, preso em 1821 por ofensas a ministros lusitanos e levado a Lisboa para responder processo.

Inocentado, bacharelou-se em Direito na Universidade de Coimbra, retornou ao País, advogou até 1828, quando nomeado juiz de fora da Praia Grande e Maricá.

Voltou a Belém, onde desde 1822, havia ajustado casamento com Maria Ana de Sousa e Azevedo, a quem, carinhosamente, tratava por Mariquinha.

Logo casados, em 19/01/1829, embarcaram na escuna Amizade com direção a sua comarca. Mas, o birrento destino, quis mudado.

Nauseado a mais não poder, desembarcou com a mulher e treze escravos-serviçais em nossa Capital.

Aqui, enquanto restabelecia a saúde, visitou Jacarecanga e Mucuripe. Conheceu a vila Arroches (Parangaba), o sítio Alagadiço Novo, em Messejana, e seu proprietário Martiniano D’Alencar, além de outras paragens e pessoas.

Decidiu por encetar a jornada em lombos de animálias para o Rio de Janeiro, evitando os males do enjôo. 

Fez-se uma excursão joco-séria. Documentada minuciosamente pelo empreendedor, descritos todos os lugarejos, paisagens, experiências deveras inusitadas, personagens, modos e costumes curiosos, afora momentos de impensadas aventuras.

Passagens e estadas por 153 localidades, 551 léguas percorridas, no período compreendido entre 19/01/1829 a 12/06/1830.

“A Viagem de Patroni Pelas Províncias Brasileiras”, de Filipe Alberto Patroni, 146 páginas, Edições do Senado Federal, 2015. E-book grátis no site www.senado.gov.br/publicacoes. Obra com relatos atrativos.
 
*Geraldo Duarte é advogado, administrador e dicionarista.


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Por Kleber Santos
08/10
07:44

O fim da democracia pela ditadura com a “Solução Mourão”

Cezar Britto  -  Advogado e ex-presidente do Conselho Federal da OAB

Tenho recebido vários textos, e-mails e zaps debatendo sobre a existência ou não de corrupção durante o obscuro período em que ao Brasil fora imposta uma longa ditadura civil-militar inaugurada pelos tanques do general Olímpio Mourão Filho. Este vigoroso furor opinativo teve grande impulso após a palestra do também general Antonio Hamilton Martins Mourão, secretário de economia e finanças do Exército, em evento promovido pela comunidade maçônica em Brasília.

Dizia o saudosista palestrante que seria possível uma nova intervenção militar no Brasil, caso “os poderes não encontrem uma solução para os problemas políticos”, especialmente a questão da corrupção. Embora o Mourão de 2017 não tenha mencionado a sua “solução final”, o Brasil já conheceu a fórmula executada pelo Mourão de 1964.

E a Solução Mourão de 1964 foi rigorosamente aplicada, dentre outros, com o seguinte receituário:

a) imposição de uma Constituição Federal, sem consulta popular ou preocupação democrática;

b) edição de atos institucionais e decreto-lei, desprezando-se o Poder Legislativo;

c) fechamento do Congresso Nacional, cercado pelos tanques e pelo medo;

d) intervenção no Poder Judiciário, aumentando os membros do STF e cassando ministros e juízes que julgavam contrário aos interesses dos governantes;

e) supressão do direito da cidadania e, por consequência, do cidadão eleger plenamente os seus representantes, cassando-se os mandatos daqueles que discordavam do sistema, impondo-se, ainda, senadores, governadores e prefeitos biônicos;

f) supressão das liberdades de imprensa e de expressão, estabelecendo-se a censura prévia e censores nos meios de comunicação;

g) fechamento de teatros, proibições de novelas e vedações de músicas e shows;

h) fechamentos de sindicatos e centro acadêmicos estudantis, impondo-se interventores sindicais e expulsões de estudantes;

i) supressão do habeas corpus e do livre direito de ir e vir;

j) exonerações coletivas de professores, militares e servidores públicos “suspeitos” de defenderem a volta da democracia;

k) prisões ilegais, torturas oficializadas, exílio compulsório, assassinatos e “desparecimentos forçados”.

Este artigo, entretanto, não tem a pretensão de narrar a face cruel, clandestina, censora, torturadora e “mal-humorada” da ditadura civil-militar. O que se pretende é, na verdade, refletir sobre a endêmica corrupção brasileira, apontada como “motivação” para uma nova intervenção militar e replicada nas chamadas redes sociais. E começo relembrando os programas de humor que, driblando a rígida censura, conseguiam trazer reflexões sérias sobre a corrupção que galopava escondida nos porões daquele obscuro período da História.

Destaco o vanguardista Planeta dos Homens, mais precisamente um dos vários personagens interpretados pelo humorista Jô Soares. O personagem da vez atendia pelo nome Porta-voz, uma explícita imitação do ministro Carlos Átila, porta-voz mais conhecido do ex-ditador e último presidente do regime militar, João Batista Figueiredo.

Pois bem, a cena do Porta-voz de Jô, aqui recontada como eu me lembro, acontecera durante uma entrevista coletiva de imprensa, convocada para que explicassem os últimos casos de corrupção no governo interventor. Nela, o Porta-voz, esclarecia que governo iria abrir um rigoroso inquérito para apurar um grande escândalo de corrupção que envolvia altas autoridades brasileiras. Provavelmente uma referência indireta aos desvios financeiros da Coroa-Brastel, Capemi, Brasilvest, Grupo-Delfin, Paulipetro, Lutfala ou as comissões da General Eletric, se não me falha a memória.

Perguntado pelos jornalistas-atores se os corruptos seriam presos e confiscados os seus bens, assim respondeu, calmante, o Porta-voz governamental: “Não basta um rigoroso inquérito? Mesmo com um rigoroso inquérito vocês ainda querem prisões e confiscos?

Incontáveis “rigorosos inquéritos” foram sendo arquivados nos porões da impunidade e apagados da memória censurada da cidadania brasileira, a exemplo destes posteriormente revelados em livros do jornalista Elio Gaspari: a)  presença da Construtora Camargo Corrêa nas construções das hidroelétricas de Água Vermelha e Tucuruí; b) o assassinato do jornalista Alexandre Von Baumgarten, que, em dossiê, ameaçava apontar agentes do SNI envolvidos em corrupção; c) os  contrabandos de uísques, perfumes e roupas praticados pelo capitão do Exército Ailton Guimarães Jorge, patrono da Vila Isabel, comandante do jogo do bicho e portador da Medalha do Pacificador; d) as extorsões praticadas pelo então governador do Paraná, Haroldo Leon Peres, bem assim aquelas praticadas pelo delegado Sérgio Fleury, também portador da Medalha do Pacificador e um dos líderes do Esquadrão da Morte; e) o contrabando de joias preciosas para os EUA.

Recentemente a revista Super Interessante, da editora Abril, edição 365-A, setembro/2016, p. 40, investigando sobre o mito da inexistência de corrupção durante a ditadura da militar, publicou o seguinte texto: “Até a década de 1960, as obras da Odebrecht mal ultrapassavam os limites da Bahia. Com o protecionismo de Costa e Silva, começou a dar saltos. Primeiro, construiu o prédio-sede da Petrobras no Rio. Os contratos governamentais na estatal abriram portas para novos projetos, como o aeroporto do Galeão e a usina nuclear de Angra. Assim, de 19ª empreiteira de maior faturamento, em 1971, pulou para a 3ª em 1973, e nunca mais deixou o top 10″. Outra beneficiada foi a Andrade Gutierrez. O “amor” da Odebrecht pelo patrimônio brasileiro e o seu “relacionamento fraterno” com a Petrobras, como concluiu a revista, foram sólidos e cimentados com chumbo. E não só a Odebrecht participando deste “seleto” e “apaixonado” grupo.

Como se vê, a “Solução Mourão 2017″ não passa de uma propaganda enganosa, pois não combate a corrupção e, gravemente, traz como eleito colateral o fim do Estado Democrático de Direito. Ela é beneficiária da amnésia imposta à cidadania brasileira, gerando, infelizmente, adeptos entre os jovens que não viveram a tragédia autoritária e os adultos que não souberam ou não quiseram saber o que se passou.

Salvo para os arrogantes saudosistas que sonham com a volta do arbítrio, a melhor forma de combater a corrupção é respeitar a Constituição, compreender a importância da pessoa humana, fortalecer o controle social sobre as políticas públicas, garantir a liberdade de organização e, sobretudo, manter instituições fortes, livres e independentes. É o que bem advertiu Ulysses Guimarães, quando do seu histórico discurso em 05 de outubro de 1998, falando do tempo que se pretendia rompido pela Constituição Cidadã: “A corrupção é o cupim da República. República suja pela corrupção impune tomba nas mãos de demagogos, que, a pretexto de salvá-la, a tiranizam.”

 



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Por Eugênio Nascimento
06/10
07:56

Guerra de Canudos e Sergipe: indícios de uma relação

Amâncio Cardoso - Professor e pesquisador


Aos Guias de Turismo.


Há 120 anos, no dia 05 de outubro, teve fim uma das mais trágicas guerras civis da história nacional: a Guerra de Canudos. O confronto durou quase um ano e sergipanos participaram tanto do lado dos vencedores - polícia e exército - quanto dos vencidos - seguidores de Antônio Conselheiro ou Antônio Vicente Mendes Maciel (1830-1897), cearense que fundou no sertão da Bahia, em 1893, um arraial na antiga fazenda Canudos, ou Belo Monte, como ele a denominou.

Conselheiro peregrinou pelos sertões do Nordeste durante 25 anos, arrebanhando adeptos para viverem em seu povoado, sob a orientação de um catolicismo peculiar. O tema, Guerra de Canudos, ainda promove muitas leituras e pesquisas acadêmicas.

Vejamos então algumas marcas da relação de Sergipe com a Guerra de Canudos, materializadas em lugares, monumentos, biografias e instituições cujas informações os guias podem apresentar a visitantes ou turistas.

Comecemos pela praça Siqueira de Menezes. Ela se localiza no bairro Santo Antônio, no alto da Colina, onde geralmente se iniciam passeios turísticos por Aracaju. No centro da praça, há um pedestal com busto do general José Siqueira de Menezes (1852-1931). Nascido em São Cristóvão/SE, ele participou do conflito como engenheiro e então tenente-coronel do Exército. Além disso, Siqueira de Menezes escreveu várias cartas sobre o andamento da guerra para o jornal carioca “O País”, publicadas entre 08 e 26 de setembro de 1897, sob o pseudônimo de “Hoche”.2  A participação do militar sergipano foi imortalizada no “Os Sertões” (1902), de Euclides da Cunha (1866-1909), a mais famosa obra sobre o confronto.

 

 
 

Outro espaço que tem direta relação com a grande guerra dos sertões é o rio Vaza-Barris. Esse curso d’água banhava o antigo arraial de Canudos. Em seu leito, corpos mal enterrados, “durante a guerra, desceram até o litoral, na primeira grande enchente, após outubro de 1897”.3

A foz do Vaza-Barris se localiza ao sul de Aracaju, atravessada pela ponte jornalista Joel Silveira, próxima à Orla do Por do Sol, no povoado Mosqueiro, um dos mais aprazíveis atrativos turísticos do estado, a 25 Km do centro da capital.

O terceiro lugar que relaciona Sergipe à Guerra de Canudos é a rua Capitão Salomão, na cidade de Estância, litoral sul do Estado, a 70 Km de Aracaju. Ela é uma das principais vias públicas do município. Nela, encontramos antigos sobrados tombados pelo governo estadual como patrimônios culturais arquitetônicos.

O patrono da rua, o estanciano José Salomão Agostinho da Rocha (1855-1897), liderava a bateria do 2º Regimento de Artilharia, do 7º Batalhão de Infantaria. Numa batalha, em março de 1897, capitão Salomão morreu a golpes de foice desferidos pelos canudenses. Esse episódio foi imortalizado numa página de “Os Sertões”: “O capitão Salomão tinha apenas em torno meia dúzia de combatentes leais. Convergiram-lhe em cima os golpes; e ele tombou, retalhado a foiçadas, junto dos canhões que não abandonara”.4

Além dos lugares acima, uma instituição em Aracaju também mantém forte ligação com a Guerra de Canudos: o Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE). “A Casa de Sergipe”, como é conhecida, foi criada em 1912 com objetivo de zelar pela memória do Estado, coletando documentos, discutindo assuntos culturais e produzindo saber através de sua Revista. Esse periódico contém dois textos que fazem referência a Canudos, escritos pelo professor aracajuano José Calasans Brandão da Silva (1915-2001), o mais importante pesquisador sobre tema Canudos.5  Professor Calasans presidiu o IHGSE entre 1945 e 1947. A partir de 1951 até seu falecimento, dedicou-se ao estudo e revisão da guerra fratricida, como professor e pesquisador da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Por último, vejamos as igrejas e cemitérios cujas construções, ou reformas, foram atribuídas a Antônio Conselheiro quando peregrinou por Sergipe, em 1874. Essas informações foram levantadas pelo professor José Calasans: Cemitério de Cristinápolis; Igreja de Nossa Senhora Imperatriz dos Campos, em Tobias Barreto; Igreja e Cemitério do povoado Bonfim (antigo Samba), em Riachão do Dantas, zona onde Conselheiro fez seguidores.6   Essas construções teriam sido obras pias dirigidas pelo Beato de Belo Monte. 

Como vimos, em Sergipe existem vários lugares que nos remetem ao episódio da Guerra de Canudos. Os profissionais que guiam turistas e visitantes, por exemplo, podem estabelecer essa relação inequívoca entre nosso Estado e um dos temas que mais marcaram a Memória e a História do Brasil.

 

1Professor dos cursos de Turismo do IFS-Campus Aracaju e sócio do IHGSE.

2GALVÃO, Walnice Nogueira. No calor da hora: a Guerra de Canudos nos jornais, 4ª expedição. São Paulo: Ática, 1974. p. 457-475.

3Informação do pesquisador José Paulino da Silva cedida a FONTES, Oleone Coelho. Sergipe na Guerra de Canudos. Salvador: Ponto & Vírgula, p. 231.

4CUNHA, Euclides da. Salomão da Rocha. In: Os Sertões. 20ª ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1998. p. 302.  

5Os textos publicados pelo profº José Calasans na Revista do IHGSE são: “Fávila Nunes: repórter em Canudos. Revista do IHGSE, Aracaju, n. 31, p. 103-112, 1992; e “Canudos: origem e desenvolvimento de um arraial messiânico”. Revista do IHGSE. Aracaju, n. 32, p. 97-112, 1999.

6FONTES, Oleone Coelho. Sergipe na Guerra de Canudos. Salvador: Ponto & Vírcula, p. 194.

 

 

 



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Por Eugênio Nascimento
05/10
13:22

Damas de alto valor

Geraldo Duarte*


Rio de Janeiro. Largo da Carioca. Década de cinquenta do século passado. Igual ao hoje, objetos apreendidos pela aduana eram leiloados.

Um pertinaz contrabandista, matreiramente, facilitou que carga de sua propriedade fosse apreendida pela Alfândega. Não pagou os impostos, nem tampouco reclamou a devolução.

Tratava-se de um lote especial, contendo dez mil baralhos luxuosos, de fabricação inglesa.

A mercadoria foi a leilão e conhecida firma da época arrematou-a, a um preço baixíssimo, em relação ao praticado na praça. Irrisórios 10 cruzeiros, moeda vigente naquele tempo, por unidade.

Passados alguns dias, o muambeiro procurou o adquirente e, depois de longas conversas sobre assuntos mercantis outros, passou a comentar acerca do produto adquirido em hasta pública.

Manifestou grande desejo pela compra da totalidade dos jogos de cartas, com pagamento no ato e retirada imediata, desde que a uma quantia justa.

O lojista contente, acreditando conseguir bom lucro, fácil e rápido, de pronto interessou-se e apresentou a oferta de 20 cruzeiros cada.

O ardiloso e fingido comprador meneou a cabeça. Consultou as horas no relógio de algibeira e fez uma contraproposta deveras absurda. “Ofereço a importância de 5 cruzeiros por artigo!”.

Veio o retrucar de forma quase grosseira. “O senhor é louco? Como posso aceitar o seu oferecimento se terei um prejuízo de 50.000 cruzeiros?”.

O espertalhão pediu calma e disse ter nova e, talvez, melhor propositura para o comerciante. “Vendo-lhe 10.000 damas de ouros, ao custo unitário de 10 cruzeiros. Assim, o senhor completa seus baralhos!”.

Damas de alto valor...
 
*Geraldo Duarte é advogado, administrador e dicionarista.


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Por Kleber Santos
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